torredemoncorvoinblog@gmail.com

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Portfólio?

Temo fazer de cardeal diabo, mesmo no tempo em que o Papa não é propriamente um santo e é muito dado ao fashion italiano, no vestir e no calçar.
À Descoberta de Moncorvo começa a ter mais paisagens, árvores, arbustos, pássaros e outras circunstâncias do que homens ou histórias de homens. Um centro de memória, como me parece este blogue, na categoria de embrião, deveria recolher experiências e relatos de uma humanidade e mesmo algum surrealismo em que Moncorvo foi sempre fértil.
Há personagens que melhor farão compreender a evolução de Moncorvo e as suas idiossincrasias. A título de exemplo, o Emídio Carteiro já falecido que contava, com colorido, vocabular e gestual, a investida da Legião Portuguesa, comandada pelo dr. Amável, contra o baile dos Bombeiros que estava a arredar clientela ao baile pequeno burguês, hig-life de um jet- subset da sociedade moncorvense. Lembrar, com um grande texto, o papel do eng.Monteiro de Barros de quem tive o privilégio de ser amigo, homem que já lia o Herberto Hélder (ofereceu-me uma primeira edição), enquanto os seus comparsas não passavam do Guerra Junqueiro; que já assinava, desde o primeiro número, o Paris Macth e o Canard Enchainé; o homem que tinha ar condicionado na sua casa, apenas na garrafeira; o homem que deixou uma belíssima mensagem, qual Petrónio, na hora da sua morte, do seu suicídio à patrício romano. A carta existe.
Uma homenagem é precisa ao Arnaldo que, durante décadas, alimentou o humor de uma sociedade fechada como a de Moncorvo. Está hoje praticamente em estado vegetal. Mas as grandes histórias, algumas das quais eu gravei (material que tenho que procurar na desordem dos meus materiais), foram elaboradas como autênticos guiões pelo Arnaldo. Além disso, o Arnaldo foi das personalidades de Moncorvo aquela que mais terá seduzido e mesmo ajudado gerações de jovens da terra.
Sinto-me comovido ao ver fotografias de algumas flores e arbustos da minha infância. A visão leva-me ao universo recuperado de aromas antigos. Suportem pois, este meu papel, esta minha vontade de ver escritas mais histórias, do Rambóia de Açoreira, o imbatível na desgarrada, do Manquinho de Açoreira que, com a sua rabeca, animava bailes de aldeia em aldeia. Acabava sempre bêbedo, mas era enquanto bêbedo que a rabeca melodiava mais sentimento. O Leva-Leva de Vilarinho da Castanheira e a sua resposta sábia ao cónego Almeida. O Horácio Espalha que durante anos e anos foi o reviralhista encartado, "mentor" de algumas gerações que ainda cultivavam a utopia. E mais personagens há que ilustram o universo de Moncorvo, ricas no contraste e na especificidade.
Como acho que os blogues devem ser curtos, redimo-me do pecado inicial e fico-me por aqui. Procurem histórias. Cruzadas uma com as outras, encontra-se uma unidade na diversidade. E compreende-se melhor o Moncorvo de hoje.
Não só a arqueologia das pedras, mas também a dos homens, nos faz compreender melhor o presente.

2 comentários:

angel disse...

Que sea todo por animar.Francisco Botelho de Moraes, natural de Torre de Moncorvo,que pasó algunas épocas en mi ciudad alla por 1734 y escribió en un momento de especial alucinación,un libro titulado LAS CUEVAS DE SALAMANCA.
Otro abrazo a todos.Angel

Nelson disse...

Caro Rogério, tem toda a razão, só que a galeria de personagens que propõe, exigiria alguma investigação (o que não é fácil dada a falta de disponibilidade de tempo dos colaboradores do blog - por mim falo e com os restantes penso que se passa o mesmo), já que muitas das pessoas que mencionou, embora as possamos ainda ter conhecido já são fugidias nas nossas memórias. Por outro lado, tudo o que mexe com pessoas, sobretudo as falecidas em tempos mais recentes, pode ferir susceptibilidades, pois nem sempre as famílias aceitam que se lhes mexa no seu património memorialístico. É claro que há situações menos problemáticas e bem merecidas, como é o caso do nosso amigo Engº Monteiro de Barros que mencionou e que aqui já foi lembrado através de três fotografias de sua autoria, que já "postámos". Podemos, de facto, tentar fazer um apontamento sobre ele, até pelo seu papel na fundação do Museu do Ferro da Ferrominas, e porque foi sócio honorário do PARM. Mas, seguramente, o Rogério terá mais conhecimentos para falar quer sobre o Engº Monteiro de Barros, quer sobre algumas das pessoas que mencionou, tendo até já escrito sobre alguns deles (p. exemplo, o Manquinho da Açoreira).
Sobre a proposta do Angel, tem também toda a razão. O ilustre Francisco Botelho de Moraes e Vasconcelos, nasceu em Torre de Moncorvo em 1670 e faleceu em Salamanca em 1747. Tendo-se formado em Salamanca, suponho que em Leis (Direito), frequentou a corte de Madrid, e, em certo momento regressou a Moncorvo, onde juntamente com seu irmão, pelos idos de 1730, fundou uma Academia literária, a Academia dos Unidos. Foi escritor e diplomata, e escreveu deixou alguns livros em língua castelhana, sendo o mais conhecido um poema épico intitulado El Alfonso. O livro de que fala o Angel, Las Cuevas de Salamanca, encontrei-o, num feliz acaso, numa feira de alfarrabistas em Salamanca, onde o meu amigo Angel me levou. Mais tarde comunicou-me que afinal até havia uma rua lá uma rua com o nome do nosso conterrâneo. Curiosamente, temos um moncorvense com o seu nome numa rua salmantina, quando aqui ninguém o conhece... Merece, de facto, que aqui o dêmos a conhecer, numa secção de "Galeria" dedicada aos moncorvenses de excepção, naturais ou adoptivos. Repto aceite, mãos à obra!

eXTReMe Tracker