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quarta-feira, 11 de junho de 2008

Festa de Santa Leocádia

Há anos que tem lugar esta festa, organizada pela Junta de Freguesia de Torre de Moncorvo, em redor da capela de Santa Leocádia, um dos mais belos miradouros do Roboredo, sobre a vila de Torre de Moncorvo. Contudo, este ano, a referida Junta, presidida por Milú Pontes, resolveu caprichar, estendendo a festa por quatro dias, aproveitando o prolongamento propiciado pelo feriado do 10 de Junho.
Vista geral de Torre de Moncorvo, a partir do miradouro de Stª Leocádia ou S. Bento
Em rigor, devemos dizer que a capela de Santa Leocádia (propriedade da Junta de Freguesia), era outrora conhecida por S. Bento, pois aí está também a imagem deste Santo, que até é de tamanho maior, pelo que este era, originalmente, o patrono da capela. Assim aparece nomeado este local em documentos antigos e ainda nas cartas militares de Portugal (à escala 1:25.000, dos anos 40 do século XX). Dada a antiguidade da imagem de Santa Leocádia (muito rústica, diga-se de passagem) pensamos que ela já lá deve estar também há uns séculos.
Outra vista de Moncorvo, emoldurada por zimbros e pinheiros.

A nosso ver, a predominância da devoção popular a Santa Leocádia em detrimento de S. Bento deve ter ocorrido já no séc. XX, sobretudo no período da guerra do Ultramar, ou seja, durante os anos 60. Julgamos que tivesse sido assim porque aí se encontram várias fotografias de militares fardados, colocadas seguramente pelas suas mães, esposas, ou outros familiares. Se estamos enganados, pedimos o favor que nos corrijam.
Aspecto geral do arraial, na tarde de 10 de Junho de 2008

Sobre a origem da capela julgamos que se possa situar no século XVII (por exemplo, o célebre santuário de S. Bento de Porta Aberta, no Gerês, remonta a 1614), ou seja num período em que a chamada Contra-Reforma, ou Reforma Católica, procurava exaltar a religiosidade popular e introduzia a espiritualidade do Barroco. A localização de capelas nos pontos altos, buscando essa proximidade com o Altíssimo e, ao mesmo tempo, impondo a sua omnipresença/visibilidade ao mundo terreno, parece ser uma constante desse período. Para esta construção, assim como para a capela de S. Lourenço, ou mesmo de Santa Teresa (na Quinta das Aveleiras) devem ter contribuído também os frades do convento de S. Francisco de Torre de Moncorvo (que ficava no local onde está o Asilo Francisco Meireles). Partindo do convento, é bem possível que os frades percorressem os caminhos da Serra, fazendo os seus retiros espirituais e de oração a estas capelinhas alinhadas sobre o dorso da montanha. Sabemos que todas elas, no século XVIII, tinham eremitões (guardiães das capelas), vivendo seguramente de esmolas.

Momento da actuação da tuna dos Amigos da Lousa-Horta da Vilariça-Vilarinho da Castanheira

Na referida capela existem as seguintes imagens: S. Bento, com um livro na mão e um báculo de Abade e um corvo aos pés, Stª Escolástica (irmã de S. Bento) e Santa Leocádia, estas duas de dimensão mais pequena e de talhe mais rústico, talvez obra de um artista local, eventualmente algum frade do referido convento franciscano. Podem ser obras do século XVII, e foram objecto de um inventário recentemente elaborado pelo Dr. Luís Lopes, ao serviço da Junta de Freguesia de Torre de Moncorvo, que culminou na Exposição de Arte Sacra "Memórias de Fé", inaugurada em Março do corrente ano, no Centro de Memória de Torre de Moncorvo.

Capela de S. Bento/Stª. Leocádia (exterior e interior)

Refira-se que Santa Leocádia foi uma virgem e mártir, que viveu entre o século III e IV (morreu em 9 de Dezembro de 303 ou 304) em Toledo, na Hispânia romana. Como era uma jovem de origem nobre, as autoridades romanas quiseram dar-lhe oportunidade de abjurar o Cristianismo (durante as perseguições de Diocleciano), mas, perante a sua persistência na Fé cristã, foi encerrada numa masmorra, parece que no local do célebre alcácer de Toledo, onde viria a morrer. Após a invasão árabe, iniciada no ano de 711, as suas relíquias foram levadas para Oviedo, onde permaneceram até ao final do séc. XI, quando Afonso VI terá permitido que um conde do Hainaut, peregrino de Santiago e participante na Reconquista cristã da Península, as levasse para uma abadia na Bélgica. No reinado de Filipe II este conseguiu que as ditas relíquias voltassem a Espanha, sendo devolvidas à Catedral de Toledo no meio de grandes festividades, em 1587. Assim, é possível que o culto de Santa Leocádia tivesse recrudescido neste período (finais do séc. XVI-inícios de XVII).

Santa Leocádia é a Padroeira da cidade de Toledo, encontrando-se o seu culto difundido no Norte de Portugal (zona de Chaves, Baião, Lamego), onde existem várias freguesias que têm Santa Leocádia como orago, ou até assim chamadas.

S. Bento e Santa Leocádia

Quanto a S. Bento, nasceu em Nursia (Itália), por volta do ano 480 e morreu em 21 de Março de 547, no mosteiro de Montecassino. Foi o fundador da Ordem de S. Bento (Beneditinos) e são-lhe atribuídos vários milagres. De uma das vezes, um padre, cheio de inveja pelo sucesso de S. Bento junto dos fiéis da sua paróquia, resolveu mandar-lhe um pão envenenado. S. Bento, adivinhando o intento, ordenou a um corvo que levasse o pão para um local onde ninguém o encontrasse, ao que a ave prontamente obedeceu, tendo voltado para junto dele. Esta é a explicação para a presença do corvo aos pés do Santo (ver a fotografia). Não deixa de ser curiosa a coincidência (ou não!) desta ave com a lenda dos corvos que está na origem de Torre de Moncorvo, sendo este um dos elementos da heráldica municipal desta vila e concelho.

Vale a pena subir à Santa Leocádia para se ter esta vista aérea sobre o burgo moncorvense...

N.Campos (PARM)

3 comentários:

Xo_oX disse...

Gostei de ver as fotografias que ilustram a não menos interessante história(s). Quando se conhece o passado das coisas, elas ganham mais significado no presente e mais importância no futuro. Por isso vale muito a pena partir À Descoberta.

vasdoal disse...

Excelente trabalho, Nelson. Pode ser que assim, a divulgar a nossa cultura, já haja Santo que nos valha!!!

N. disse...

Olá Amigos Anibal e João! Obrigado pela apreciação, mas quanto às fotos ainda me falta muito para chegar à qualidade das vossas. E o mesmo a dizer quanto aos vossos textos. Apenas deixei aqui umas conjecturas e um registo "para memória futura" como soe dizer-se, e que, no fundo, é o que estamos a fazer neste blog.
Abraço p/ vocês,
Nelsn

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