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domingo, 11 de janeiro de 2009

O Tempo, essa noção...

Os comentários têm sido fecundos em relação ao passado e à importância do passado nas nossas vidas, individuais e colectivas. O tempo, em suma. Muitos post e outros tantos comentários, mais do que passado, estão a desenhar uma identidade de Moncorvo. Numa busca desordenada de papéis velhos vou encontrando, tempos próprios, porventura datados: uma carta de Monteiro de Barros de 1976, descrevendo a situação política da época em Moncorvo; uma carta do Horácio Espalha já quase de despedida e influenciado pelo voluntarismo (mais do que utopia) do MRPP; o primeiro livro de Pires Cabral, com 25 exemplares, feito a stencil na Escola Secundária de Moncorvo, em Junho de 1974, com capa de Horácio Simões(dr.), um velho com chapéu de aba larga e barba de oito dias. É a primeira obra editada por Pires Cabral, hoje um dos grandes poetas portugueses. E depois leio a Primeira Comunhão da Júlia Guarda Ribeiro, um testemunho precioso, ainda que em linguagem grácil mas de conteúdo sofrido, que revela, embora com a tolerância que lhe é peculiar, os preconceitos de uma vila, a moralidade de sacristia, preconceitos e moralidade que ainda não foram de todo afastados. E todas estas leituras me obrigaram a uma reflexão sobre o Tempo. Espero a vossa benevolência a par das críticas. Falar do Tempo é falar de uma abstracção que só existe enquanto nós existimos. Ou se existe é apenas no nosso pensamento. Com a nossa morte, para quem não acredita na eternidade, o tempo deixa de existir. De qualquer modo, para quem acredita na eternidade, não tem sentido a existência do tempo, pois a eternidade pressupõe o infinito. Mas vamos às origens mitológicas do Tempo antes que a inquietação me perturbe o raciocínio. Chronos, com h, para distinguir do outro Cronos, o que engoliu os filhos ao nascerem, com o medo de ser destronado por um deles, Chronos, com h, repito, é entre os gregos e os romanos, nestes sob o nome de Saturno,a personificação do Tempo, criado por si mesmo. Era um ser incorpóreo e serpentino, com três cabeças, de homem, touro e leão. Permaneceu deus do tempo remoto e sem corpo. A minha reflexão dificilmente aceita a linearidade, porque o tempo não é linear, embora seja contínuo na nossa descontinuidade, no depois de nós outros vêm.
Há vários tempos: o mítico, o histórico, o simbólico. entre outros. O tempo simbólico só é possível num espaço simbólico, como no ritual da Igreja e na Bíblia, sobretudo no Pentateuco (os cinco livros da Tora judaica) em que os predestinados, como Matusalém, por exemplo, chegam a ter a provecta idade de 600 anos. Na rua, em relação à missa na igreja de Moncorvo, por exemplo, o espaço é outro e outro é o tempo. Em Kant o tempo é sempre espacializado. É o tempo simbólico subjectivo? É. Todo o tempo pessoal e o tempo na relação com o Outro são subjectivos. A definição mais comum do tempo e a que menos inquietação provoca: período que vai de um acontecimento anterior a um posterior. Ou seja, uma espécie de ponte invisível entre o passado e o futuro (este blogue é paradigma disso).
É minha profunda convicção de que não há tempo absoluto, porque o Homem e a Humanidade só sobrevivem nos seus limites. (Lembra-me uma Ode de Píndaro, que serviu de epígrafe ao Mito de Sisifo de Albert Camuns: "Ó minha alma, não aspires à vida imortal/ Mas esgota o campo do possível")
É impossível instituir uma medida única do Tempo. A simultaneidade de acontecimentos distantes no espaço não tem senão um sentido relativo. Para uns os acontecimentos não são o que são para os outros. Cada sistema de referências tem o seu tempo próprio.
O tempo histórico, também chamado " a ciência dos homens no tempo", podemos dividi-lo em três subsistemas: o tempo curto, de acontecimento circunstancial; os ciclos económicos, por exemplo, como um tempo conjuntural; e o tempo de longa duração, este estrutural.
O tempo mítico refere-se a um tempo primordial que tem muito pouco a ver com a história real. É o tempo, entre outras idades, da Idade do Ouro, tão bem poetizada nas Metamorfoses de Ovídio ou no milenarismo do Apocalipse e do calendário Maia (no primeiro, o Mundo acabava aos mil anos para surgir o Mundo melhor, guiado por Messis; no segundo, termina em 2012, em 21 de Dezembro, com a última passagem do planeta Vénus, no século XXI, também para vir um mundo melhor).
Entremos agora no campo das interrogações, das dúvidas e da perplexidade do ser.
Através da distância do tempo, que não é mensurável, o definitivo não é o definitivo; o ser, embora sendo, não o é ainda. A estrutura da temporalidade em que se produz o ser está ligada a um gesto elementar do ser que rejeita a totalização. O ser não consegue ultrapassar os limites do possível.
Trazemos connosco um armazém da memória e o aceno das recordações. Na memória, não seleccionamos o passado pela importância real dos factos. É possível lembrarmo-nos da primeira vez que nos fomos banhar ao Rio Sabor e esquecermos o dia do nosso casamento. Não fomos nós que seleccionámos. Não houve repressão consciente. A memória não é repressiva. Ou é? Quanto às recordações, são sempre como um lenco frágil à procura do tempo perdido, que nos proporcionam sonhos, mas não nos devolvem as ocasiões perdidas. Mas a recordação surgida a cada novo instante não nos dará já ao passado um sentido novo? (Estou-me a lembrar de algumas fotografias editadas no nosso blogue).
Na paternidade em que o Eu através do definitivo de uma morte inevitável (uma certeza que nós todos comungamos) se prolonga no Outro, o tempo triunfa, pela sua descontinuidade, da velhice e do destino.
A paternidade, no meu sentir, é a maneira de ser Outro continuando a ser o próprio.
Regressemos ao instante, à recordação que, de tão intensa, pode ser tão duradoura como o nosso derradeiro limite. É a própria obra do tempo.
Em contrapartida, o esquecimento anula as relações com o passado. E aqui entramos no capítulo da culpa e do perdão. Citando uma expressão comum: perdoo tudo, mas não esqueço nada. O perdão conserva o passado. Mas aqui levanta-se o problema da culpa e do sofrimento. Até que ponto podemos perdoar, quando pelo sofrimento (também outra noção do tempo) nos quiseram e por vezes conseguiram reificar? Estou-me a lembrar de Auschwitz e de todos os Goulags de todo o Mundo, estou-me a lembrar da banalização do mal (vidè Hanna Arendt), estou-me a lembrar da vulgarização da violência, do conformismo face à corrupção, da falta de indignação face ao indigno. Esquecer, como já disse, é anular todas as relações com o passado; mas perdoar é assumir, já no presente, o sofrimento futuro.
Por fim, para os que crêem na eternidade (ausência de tempo e ausência de espaço), lembro a descida aos Infernos de Dante e a subida ao Paraíso. E interrogo-me sobre o sentido da culpa e o sentido da recompensa. Tanto o céu como o inferno não dão oportunidades de redenção ou pecado: o que está no céu não pode pecar; o que está no inferno, não pode fazer o bem. Neste maniqueísmo, não há lugar para segundas oportunidades.
Ou seja, transmutados para uma abstracção sem tempo, não têm a possibilidade de se redimir da culpa, nem, em sentido contrário, de cometer algum acto que provoque o sentido da culpa. A eternidade não é só a negação do tempo. É também a negação da liberdade.
Ponto final: os homens já roubaram todo o fogo aos deuses; eu contento-me com menos: roubo-vos um pouco do vosso tempo.

4 comentários:

vasdoal disse...

Caro Rogério,
Não foi tempo roubado, não senhor! Foi um prazer ler este texto e nem me apercebi do passar do tempo.

Anónimo disse...

Caro Rogério Rodrigues
Parabéns pelo seu magnífico texto que considero referencial e por muito tempo perdurará como objecto de reflexão. Magnífico e denso, deixa também em aberto algumas questões inquietantes que, certamente fruto da sua formação intelectual não quis deixar de colocar e que têm a ver com o próprio objectivo da vida e a finitude do tempo. Nos meus tempos de juventude ( com epicentro num Maio de 68 aqui entre nós muito marcado pelas greves académicas sobre a autonomia universitária, a guerra colonial e a repressão censória de um regime já moribundo ) bebi algumas ideias em Hegel, Heidegger e também Camus e Sartre que de algum modo modelaram o meu pensamento , a minha prática e um pouco também o meu cepticismo, para além de muita rebeldia e inconformismo quanto à asfixia cultural em que todos estávamos mergulhados. No seu texto encontro , entre outros , alguns ecos do pensamento desses filósofos . Muitos foram os companheiros que se cruzaram comigo então e desde então e desses desafios e convívio mantive porém( ainda hoje, espero bem ) uma abertura optimista que, sem ser permissiva, é pelo menos humanizada e crítica.
Não posso pois deixar de apreciar o seu texto ( tanto mais que , supreendentemente ou talvez não ) aparece neste espaço que agora compartilhamos. Mas a vida e certamente o meu trabalho , que me põe diariamente em contacto com o viver e o morrer, a dor e a angústia ( sou cirurgião e trabalho num hospital oncológico) modelaram a minha vivência e a minha leitura da realidade. Hoje acredito que para além do bem essencial que é a vida há seguramente valores perenes como a solidariedade , a verdade e a liberdade, valores que certamente compartilha.
Não estou certo se algum dos muitos doentes que vi morrer se interrogava sobre a eternidade. A morte é um transe suficientemente pessoal para que possamos algum dia sabê-lo.
Daniel de Sousa

Anónimo disse...

Como bem disseram os comentadores precedentes, um grande texto, sim senhor... - Não em extensão, porque o que o Rogério escreveu é uma súmula de um verdadeiro Tratado sobre a Existência, percorrendo e suscitando uma série de questões encadeadas, à maneira da Enciclopédia Einaudi: Tempo-Memória-Ser-Consciência-Existência-Eu-Outro-Duração-Eternidade e, no final, no limite, a problemática do Bem/Mal, culpa/perdão, fechando com a questão inicial, como no Ouroborus alquímico, da Eternidade. A glosa daria pano para muita manga, não só para uma tertúlia, mas um ciclo de tertúlias, porquanto são questões que vêm sendo suscitadas desde os velhos filósofos gregos. Correspondendo ao desafio de alguém, R.R. transformou por momentos o Blog no jardim da Adademia platónica (ou antes, dada a sua visão mais aristotélica, no Lyceu de Atenas).
Sabemos que da sua visão do Tempo enquanto conceito imanente ao Homem, o que resulta de uma concepção cartesiana do tipo "penso, logo existo". Ou seja, para si, O Tempo e, por consequência tudo quanto existe, só existe enquanto existe um ser cognitivo e cognoscente capaz de processar o "real". Ora eu penso que as coisas existem, independentemente do Homem: por exemplo, o tempo geológico decorreu, os continentes moldaram-se, os dinossaúrios apareceram e desapareceram, independentemente de haver quem os pensasse. Pensemos que extraterrestres inteligentes aqui pousassem num cenário sem Homem/Mulher (pensantes), dariam conta desse Devir. O Tempo e o Espaço, como bem descortinou Einstein, são a marca do Universo, para quem o problema da Eternidade era a sua questão última. A ideia de Eternidade/Infinito não é exclusivamente religiosa - é tb científica. E tudo leva mesmo a crer que tudo será finito, com alguma coisa entretanto pelo meio que se chama Vida/Existência: "Há Trevas entre o antes e o depois do pouco que duramos" (cito de memória mas acho q foi mais ou menos isto que escreveu o Dr. Ricardo Reis, mas o seu colega Dr. Daniel fará o favor de me corrigir, eheeh). Uma sucessão de eternos recomeços... Alfa e Ómega, diria o Outro.
Por isso não resisto a transcrever este naco de prosa de uma grande senhora - Marguerite Yourcenar:

"Acordo. Que disseram os outros? Aurora que, cada manhã, recontróis o mundo; integral nos braços nus que conténs o universo; juventude, aurora do homem. Que me importa o que outros disseram, o que outros pensaram, o que acreditaram. sou Febo del Poggio, um bobo. Os que falam de mim dizem que sou pobre de espírito; talvez nem tenha espírito (...) Acordo. Tenho diante, atrás de mim, a noite eterna. Eu dormi milhões de idades; milhões de idades eu vou dormir... só tenho uma hora. Havia de estragá-la com explicações e com máximas? Estendo-me ao sol, sobre o travesseiro do prazer, numa manhã que não voltará mais".
M. YOURCENAR, in: "O Tempo, esse grande Escultor" (ed. franc. Gallimard, 1983; trad. port. de Helena Vaz da Silva, Difel, 4ª ed., s/d - 1994?, p. 23.
Dormimos, e está tudo resolvido!
Grande abraço,
N.

Júlia Ribeiro disse...

Excelente tema, Rogério. E excelente texto! Perante ele, como vou alinhavar um simples comentário? É que o assunto, aparentemente tão fácil, não o é, realmente. Já Sto. Agostinho ( 400 a.D.) falava da dificuldade de definir por palavras o tempo. Medi-lo é fácil: 1 segundo são 30 Km. do movimento de rotação da Terra. E cá temos nós o Espaço a ligar-se ao Tempo. Serão, de facto, duas estruturas preexistentes em nossas mentes, como afirma Kant? Ou invenção nossa, como canta o poeta :
O tempo não sabe nada
o tempo não tem razão,
o tempo nunca existiu
é da nossa invenção .....
Jorge Palma

Na verdade, só sei que os meus dias
de criança eram longos, demoravam a passar. Hoje, os meus dias não correm: voam. E o fugaz momento presente, que já é passado, torna cada vez mais distante a minha meninice. Talvez, por isso, eu tenha necessidade de revisitar velhos lugares, relembrar acontecimentos passados. Mesmo registá-los em papel. Relê-los.
A propósito, aqui vai mais um (sou incorrigível): a primeira noção da diferença entre tempo e eternidade surgiu-me na catequese - teria eu entre 6 e 8 anos - quando a catequista falou dos pecados mortais e do fogo do inferno para sempre. Perguntei "E nunca se sai de lá? " "Nunca". Durante dias e dias na minha cabeça repeti a palavra " nunca , nunca, nunca..." e achei que Deus era muito cruel para decretar tamanha injustiça que não consegui compreender. Mas ter-me-ei aproximado da noção de "eternidade". Daí que, para mim, desde muito cedo, o conceito de "eternidade" ande ligado a deuses , céus e infernos. E o conceito de "tempo" esteja ligado à nossa vida terrena, aquela que vivemos dia a dia, instante a instante.
Estou a roubar-vos tempo. Mas vou já terminar com Virgílio (há mais de 2000 anos ):
"Foge o irrecuperável tempo"
"Geórgicas"

Um abraço,
Júlia Ribeiro

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