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sábado, 9 de janeiro de 2010

Quem foi Violante Gomes, a Pelicana? - I

Durante anos e anos ouvimos a tradição segundo a qual uma moncorvense de rara beleza, de seu nome Violante Gomes, de alcunha "A Pelicana", chamara a atenção do infante D. Luís, que por ela se perdera de amores, mal a vira, ao passar pela nossa vila, num belo dia de feira, das famosas e grandiosas feiras que então se faziam em Torre de Moncorvo, pelos idos do séc. XVI. O príncipe levou-a para a corte, para ser aia de sua mãe, a rainha, e, desses amores nasceu um filho, que viria a ser D. António, Prior do Crato, candidato a rei na conjuntura que sucedeu à morte (ou desaparecimento) de D. Sebastião, defrontando o todo-poderoso Filipe II de Espanha. O povo até indica a casa onde nasceu e viveu a dita Pelicana (talvez filha de cristãos-novos). E, por esse facto, um dia, a Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, já no séc. XX, resolveu renomear a antiga Rua de Trás, designando-a por Rua de D. António Prior do Crato, que assim se mantém, tal como a dita casa (apesar de já rebocada com cimento, desde há muitos anos), onde se impunha uma placa evocativa. - O que há de verdade nesta tradição? Era mesmo daqui a dita Violante Gomes? Terá Moncorvo a glória de ser o berço da mãe de um rei (já que D. António chegou a ser aclamado como tal, em Santarém, e até cunhou moeda, tendo resistido nos Açores, depois de perder a batalha de Alcântara)? Para nos responder a estas questões, aqui damos início a um conjunto de "post's", de autoria da Drª. Júlia de Barros Guarda Ribeiro, ilustre colaboradora deste Blogue, revelando o que até agora conseguiu apurar sobre esta matéria:
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Comecei a pensar em escrever sobre Violante Gomes, a Pelicana, há certamente mais de 10 anos, em resposta ao desafio do Sr. Engenheiro Aires Ferreira, Presidente da Camara Municipal de Moncorvo, pois reza a tradição que ela terá nascido nesta vila transmontana. Para além da tradição, há ainda alguns indícios que tendem a apontar no sentido de algo mais do que a simples tradição.

Pinho Leal (mais tarde citado pelo Abade de Baçal) escreve na sua obra “Portugal Antigo e Moderno” – “Moncorvo ou Torre de Moncorvo- Vol. V, p388, 1875, o seguinte:
“Consta que era natural de Moncorvo, a célebre Violante Gomes (a Pelicana) amante (alguns dizem mulher) do Infante D. Luis, filho do rei D. Manuel, e mãe do infeliz e mal aconselhado D. António I, o prior do Crato”.
E em “GENEALL-Famílias e Costados”, Violante Gomes é dada como natural de Moncorvo:

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Violante Gomes, a "Pelicana"

* Torre de Moncorvo, Torre de Moncorvo c. 1510 + Almoster 16.07.1568

Pais

Pai: Pedro Gomes
Mãe:
N

Casamentos

Évora?
D. Luis, infante de Portugal, 5º duque de Beja * 03.03.1506

Filhos

D. António, prior do Crato * 1531

Notas Biográficas

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Seria interessante para Moncorvo conseguir provar-se que a bela Pelicana aqui nasceu e, mais interessante ainda, conseguir desenrolar-se o fio de tão enredada meada e ir puxando uma ponta até termos na mão, se não todos, pelo menos, alguns dos factos que marcaram a sua vida e que pudessem levar-nos à sua biografia.

Porém, a expressão de Pinho Leal: “consta que”, não é prova válida e quanto à “Nota Biográfica” in “GENEALL.pt” impõe-se uma pesquisa muito aturada.

Entretanto, venho lendo estudos, capítulos e páginas de historiadores, investigadores e estudiosos e descubro que, nas suas obras e escritos vários, apresentam apenas uma ou duas linhas sobre Violante Gomes e ainda o fazem sempre indirectamente, uma vez que a figura estudada é seu filho, D. António, Prior do Crato e, menos frequentemente, o Infante D. Luis, pai do mesmo D. António. O denominador comum entre todos esses historiadores e estudiosos é o complexo processo da legitimidade ou ilegitimidade do Prior do Crato. Daí dependeria a razão de ser da sua candidatura ao trono de Portugal, deixado vago após Alcácer-Quibir e, pouco depois, a morte do Cardeal D. Henrique. Só a este propósito se lêem algumas palavras, às vezes, uma breve anotação sobre a bela Pelicana.

Ora, a curiosidade aguça-se justamente porque Violante Gomes é por uns ignorada, por outros apelidada de judia, cristã-nova, cristã-velha, por aqueloutros de mulher de vida incerta, plebeia, concubina, e até prostituta. (Deparei com este insulto em alemão, escrito por um soldado mercenário bávaro, Franz Hunnerisch, que lutava com as tropas do rei Filipe, contra D. António: “Don Athoni.../Kham von khoniglichen stamen her/ Von einer Judiam in uneher/ Aus hurnerey kham er auff (…)“. Em português : “D. António/ vem de tronco real/ de uma judia amancebada/de prostituição ele vem (...)”. - “Über die Eroberung Portugals durch Philipp II, im Jahre 1580” [“Acerca da conquista de Portugal por Filipe II no ano de 1580”], in Revista da Universidade de Coimbra, vol. XII, p. 927. Se os soldados de Filipe II até cantavam esta toada, é porque o insulto corria livremente).

Outros lhe chamaram dama da pequena nobreza, cristã, esposa, Pelicana, Pandeireta...

Perante este cenário, decidi escrever um pequeno artigo para a revista do nosso velhinho Colégio, focando o olhar não nos escassíssimos e contraditórios dados históricos sobre a “fermosa Pelicana”, mas sim no que sobre ela pudesse encontrar na Literatura.

Para além do facto de, na História de Portugal, Violante Gomes não passar da obscuridade nas margens dessa mesma História, há outra razão pela qual dei outro enfoque a esse escrito. Razão simples mas muito forte: não tendo eu formação específica em História, em vez de meter a foice em seara alheia, voltei-me para uma seara que me é mais familiar: a Literatura.

Porém, após leitura e/ou releitura das obras que, em seguida, vou registar, observei que também no campo literário, Violante Gomes surge figura nebulosa e, em muitos aspectos, contraditória. Há obras em que nem como figurante ela nos aparece. Sobre seu filho D. António há volumes e volumes em português, francês, italiano, espanhol. Sobre a Pelicana, como figura central, rigorosamente nada.

São estes os títulos das obras que li/reli e sobre as quais procurarei tecer algumas considerações (no final, se for caso disso, tentarei inferir algumas ilações):

- Virginia de Castro e Almeida , A História Mais Triste de Tôdashistória infanto-juvenil, n.º 35 da Coleccção Pátria, editada pelo S.P.N., ( Secretariado Nacional de Propaganda),1943.

- Camilo Castelo Branco, D. Luis de Portugal, neto do Prior do Crato, Quadro Histórico (1601 -1660), Livraria Chardron, Lello & Irmão, 2.ª ed., Porto, 1896.

- Júlio Dinis, Inéditos e Esparsos, Secção: “ Escritos Incompletos”, Porto, 1910, pp. 580-596

- Aquilino Ribeiro, “António I, o Rei Efémero”, in Príncipes de Portugal – Suas Grandezas e Misérias, Lisboa, Livros do Brasil, 1952, pp. 195-217.

- Jorge de Sena, O Indesejado (António, Rei), tragédia, Edições 70, 3ª ed., Lisboa, 1986. (escrita entre Dez. de 1944 e Nov. de 1945, publicada em 1951; representada em Portugal em 1986).

- Jaime Gralheiro, A Longa Marcha para o Esquecimento, tragi-farsa, publicada e representada em 1988/89 pelo Círculo Experimental de Teatro de Aveiro.

- Fernando Campos, O Lago Azul, romance histórico, DIFEL, Lisboa, 2007.

- Urbano Tavares Rodrigues, Os Cadernos Secretos do Prior do Crato, novela, Lisboa, Ed. D. Quixote, 2007.

Julgo que a amostra apresentada, ainda que reduzida, comporta uma razoável variedade de géneros literários e abarca um período de mais de 100 anos, o que me parece tempo suficiente para se terem apaziguado paixões, diluído ódios e amores e aclarado ideias.

Comecemos pela pequena história infanto-juvenil que li pelos meus 9 anos. Chamava-se A história mais triste de todas e falava-nos das lutas do Prior do Crato pelo trono de Portugal contra Filipe II de Espanha, depois Filipe I de Portugal, e da sua derrota frente ao poderoso exército comandado pelo Duque d’Alba.

(Estes livrinhos, que enalteciam determinadas figuras históricas, eram enviados às Escolas Primárias e distribuídos gratuitamente pelos alunos da 4ª. classe. A história mais triste de todas”, tinha o n.º 35, da Colecção Pátria, ed. S. P.N. [Secretariado de Propaganda Nacional] 1943).

Da autoria de Virgínia de Castro e Almeida, o nome de Violante Gomes é aqui simplesmente omitido. D. António é o herói, o rei que a Pátria desejava e que o povo aclamava. Mas havia questões legais a ultrapassar. Ora, tendo a escritora assumido que esse herói não era filho de um legítimo matrimónio, o nome da mãe é escondido. Assim, a autora, não vê outra saída airosa senão escrever que D. António era filho natural do grande, mui culto e generoso Infante D. Luís. O nome do pai, porque príncipe, estava ali, engrandecido. Nem outra coisa seria de esperar, pois estava-se em pleno Estado Novo e a nova trindade era Deus, Pátria e Família. Família legítima, entenda-se. Portanto, de Violante Gomes, nem uma palavra.

(Para mim, como para qualquer outra criança de 9/10 anos, era absolutamente claro que o filho de D. Luís fosse natural. Simplesmente desconhecíamos o sentido tão camuflado da palavra. E não é para admirar: no Grande Dicionário de Morais, só à 20ª entrada do adj. “natural” é que vem o sentido de “filho ilegítimo”; no Houaiss nem aparece esse sentido e, buscando num dicionário corrente, o Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 5ª Edição, s/d, tal sentido também não aparece. As crianças não compreendiam por que razão o Prior do Crato não podia ser rei).

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Por: Júlia de Barros Guarda Ribeiro

[CONTINUA]

1 comentário:

Anónimo disse...

Julinha, cá ficamos à espera.

Bom ano ,
Maria da Querdoira

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