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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Reflexos

Um dia um homem da aldeia chegou a Moncorvo e dirigiu-se ao Café Moreira ( hoje Café Central) onde, sabia, os médicos paravam O homem da aldeia sangrava. Alguém entrou no café--porque nem toda a gente entrava-- e disse e pediu ao médico presente: Senhor doutor está lá fora um homem muito mal, a sangrar.
E o médico, sem sequer levantar os olhos, respondeu, tuteando: Não me incomodes, estou a acabar um jogo de damas.
E havia quem se passeasse na Praça. Tranquilamente. Administrativamente.Comercialmente. Com um palito, sinal de boa comida ou dente cariado ou mentira de sopa mal mastigada. E andam e desandam e giram e cirandam os gravatinhas.

4 comentários:

jose albergaria disse...

Severo, precioso e rigoroso
retrato de um tempo a preto & branco.
É um deleite ler o Rogério.
Abraço,
J.A.

Anónimo disse...

Ao ler estes reflexos veio-me à memória uma história veridica e algo similar, passada no tempo da outra senhora, no caso, da Monarquia, e em tempo de alta taxa de mortalidade infantil :

No Felgar, em 1907, nasceu num belo dia de Junho, uma criança - que viria mais tarde a ser o meu Avô - e que logo após o seu nascimento a criança começou a mirrar e a morte com a sua gadanha abeirava-se e preparava mais um para a sua leva. É claro que como médico não havia a preocupação dos viventes seria de ir buscar-se o reitor para a criança não morrer sem estar baptizada, o que era o pecado mor e equivaleria a que a barca de caronte com o seu pequeno e infeliz passageiro tomasse o caminho do inferno.
O pai da criança abala resoluto a saber do reitor e depois de muito o procurar vai dar com ele a jogar às cartas na taberna. É claro que o homem bem insistia com o reitor para lhe ir baptizar o recem nascido, mas o reitor - homem até de muitos afazeres não muito condizentes com o seu munus - não tinha pressa alguma por a jogatina das cartas ser mais importante.
Face a isto só restou ao preocupado pai ter de ameaçar o reitor e prometer-lhe umas costelas de pau se o filho morresse sem baptismo.
Por causa da ameaça ou por saber de que especie eram os azeites do pai - pessoa bem terrivel, até de alcunha - o reitor, apesar de contrariado, lá foi baptizar o recem nascido.
Seguro é que, fosse por força das rezas fosse pelo que fosse, a criança arribou e teve uma vida bem cheia de saúde até finais da decada de 80 da outra senhora, no caso, a Republica.


Denso

Anónimo disse...

Interessante esta achega do Denso à estória do Rogério. De onde se depreende, que tanto médicos como padres, em Moncorvo ou no Felgar, grande obcessão tinham com o raio do jogo das cartas! Parece ser um jogo típico da sociedade moncorvense, pois que me lembro do célebre retiro que havia no café do Basílio, a que chamavam a ONU, já que no pós 25 de Abril continuavam a encontrar-se lá todos: quer os do sistema (deposto) quer os do "reviralho" (agora mais ou menos favoráveis ao novo sistema), sendo o principal elo de ligação entre todos, a jogatina das cartas! Creio que até o capitão da Guarda lá parava.
N.

Júlia Ribeiro disse...

Amigos, com vossa licença, também vou entrar com as minhas memórias.
Hoje creio saber que a minha avó morreu cheia de artroses e as dores eram tão horriveis que já não conseguia levantar-se.
Um dia, vi-a tão desesperada que fui a correr à Vila chamar o médico da Casa do Povo, porque só se pagavam 15 tostões. Julgo que há 65 anos nenhum dos dois médicos que então havia gostava de ir à Corredoura. Mas lá foi. Pelo caminho perguntou: "Onde está a tua mãe?" "Anda a trabalhar na ribeira". Foi tudo.
O diálogo entre ele e a minha avó, mais palavra menos palavra, foi como se segue:
"Então, Tia Biló?"
"Ai, Sr. Doutor, estou tolhidinha de todo..."
"Quantos anos tem?"
"Já fiz 80".
"Pois é. Mas eu não lhe posso tirar 20 anos".
"Pois não. Nem eu queria, Sr. Doutor. Para os viver nesta miséria ?... Só quero que me dê um remédio que me tire as dores".
"Sabe, Tia Biló, isso é caruncho e contra o caruncho não há remédio..."
"Ponha-se já daqui p'ra fora, seu... e que o diabo o leve bem carunchoso."
Chamou-lhe um nome feio, que eu não digo aqui.
A minha avó morreu daí a uns dias.
Tempos de muita penúria naquela Corredoura !

Um abração Amigas e Amigos da Corredoura.
Júlia Biló

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