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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A Parábola dos três desejos

Suponhamos que o génio é Bruxelas, que a velha decrépita é Portugal, que a cama são os fundos comunitários e que o gato é o nosso futuro muito mal acautelado pelo passado. É uma parábola e todas estas suposições são susceptíveis de ser contrariadas ou mesmo interpretadas de modos muito diferentes. A minha leitura da parábola não passa de uma interpretação altamente subjectiva, muito motivada pelas previsões do professor Karamba. Aí vai então a parábola:


Ainda não há muito tempo, havia uma velha muito decrépita, quase tão secular como o país, que vivia com um gato, a sua única e desinteressada companhia. Um dia o gato, por distracção, destapou um jarro na sala de jantar. E do interior do jarro saiu um génio libertador que disse à velha decrépita: “Pede-me três desejos e eu conceder-tos-ei”. A velha, perturbada, pediu: “ Faz-me jovem e bela”. E assim se fez. “O teu segundo desejo”. “Uma cama, uma grande cama, como espaço de prazer”. E assim se fez. “Pede-me o último desejo”. E a bela jovem reclinada no leito a rescender a sensuais penumbras, pediu: “ Transforma o meu gato num jovem belo”. E assim se fez. E o génio libertador deixou para sempre o jarro destapado na sala. E nessa noite o quarto estava enfeitado de sonho e memória de longos e havidos anos.
Deitaram-se os dois jovens na cama. E já com a luz apagada e quando cometas brilhavam nos olhos, o belo jovem desatou à gargalhada. “De que te ris?”, estranhou a bela jovem. “Querida, esqueceste-te que me tinhas castrado enquanto gato”.

4 comentários:

Anónimo disse...

Caro Rogério,
Foi a melhor parábola que já ouvi depois da parábola dos Três Anéis da Drª. Júlia Biló (esta de outro sentido)! "Vão-se os anéis, fiquem os dedos" diz o provérbio, mas desta feita e por este andar, qualquer dia já nem anéis nem dedos, nem isso que faltou ao gato!... Está uma parábola digna de Almanaque, sim senhor! (pena não a ter enviado para o Juízo do Ano, do velho Cheringador...).
Caso para perguntar, como haveremos de nos amanhar daqui'àmanhã, sem o colchão do chubchídio???
abraço,
N.

Júlia Ribeiro disse...

Olá, Rogério:

Isto de parábolas tem que se lhe diga... "Semeiam-se ventos, colhem-se tempestades". Aí está um dos possíveis provérbios a recolher deta fantástica parábola.
Mas a velha, porque decrépita , tinha a memória enfraquecida. Outros há, ainda não tão revelhos, que têm a memória muito curta. Curtíssima. Só é pena que, neste caso, a tempestade caia em cima de quem tem a casa mais fraca. Lá vem outro possível provérbio: "Quando o mar está revolto , quem se lixa é o mexilhão".

Abraço
Júlia

josé albergaria disse...

Olha, meu bom amigo, já não me ria tanto desde a última vez que me contaram aquela outra anedota do alentejano...
Agora, a sério.
Por que isto de parábolas podem-se levar, também, à séria: genial e de uma actualidade faiscante.
Parabéns.
J.A.

Anónimo disse...

Temo que já não haja "viagra" que resolva o problema do gato/homem e da amnésica mulher.

Talvez uma nova velha?
Talvez um novo génio?

Pelo que ficou exposto nem um nem outro são de fiar...

A. Manuel

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