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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Violante Gomes, a "Pelicana" - II

[continuação do post de 2010.01.09]

> Retrato de D. António, prior do Crato, filho de Violante Gomes, numa gravura posterior que o apresenta como D. António I, rei de Portugal e dos Algarves.



Quanto ao Quadro Histórico (1601-1660) que nos é apresentado por Camilo ( já D. António havia morrido em 1595, no exílio em Paris, na mais triste pobreza ), ainda está bem vivo o ódio do Escritor não só pelo derrotado Prior do Crato, mas por toda a sua descendência e ainda pelo Infante D. Luís, seu pai, a quem apoda de vil, infame e pérfido, ao contrário dos historiadores que consultei e que tecem rasgados elogios a este príncipe.

Porém, é Camilo quem, numa longa nota de rodapé (pp.112-119) nos dá uma assaz convincente opinião sobre a Pelicana e o seu casamento com D. Luís. Ouçamos, pois, o escritor: “Violante Gomes (...) Digo suposta judia, porque apesar da quase unanimidade dos historiadores, creio que Violante Gomes era christã velha. O pae de Violante era Pêro Gomes que residia em Évora em junho de 1554. (...). Os que dizem que Violante professou em Almoster e ao mesmo tempo a reputam judia, não reparam na incompatibilidade da profissão com o sangue inquinado. É certo, porém, que Violante nunca professou.
Esteve alguns anos em Vairão, e d’ahi passou para Almoster, onde morreu [em 1568], sobrevivendo quatorze anos ao infante.
Para muita gente está ainda indeciso se D. Luiz casou ou não casou com a mãe de D. António. Os documentos officiaes convencem de que não houve um casamento canonicamente válido; mas eu pendo a crer que houve um casamento simulado, uma fraude pouco menos de infame, uma perfídia para remover as dificuldades que Violante punha a deixar-se possuir. As minhas suspeitas esteiam-se em um documento coevo em que Pedro ou Pêro Gomes, pai de Violante, é nomeado sogro do Infante D. Luiz. No livro dos baptizados de uma freguezia de Évora lê-se o seguinte assento:
"Em 15 de julho de 1544, baptizou o bacharel della (da parochia, o Padre Diogo VidaL, a Luiz filho de uma escrava de Pêro Gomes sogro do infante D. Luiz, foram padrinhos (…), e por verdade assigneij. Diogo Vidal Cura (…)" [1].
Se aqui não há falsificação contemporânea a fim de fortalecer as pretensões de D. António à legitimidade em 1580, este documento tem grande valor para justificar a desmoralização do infante e a resistente virtude de Violante, enganada vilmente pelo aparato de um casamento em que também foi enganado o pai da atraiçoada e o cura que baptizou o filho da escrava. (…). Estes casamentos com falsos padres clandestinamente não eram extraordinários na sua sociedade”.
(Fim da citação da longa Nota de Camilo).


O mesmo assento de baptismo é transcrito de Camilo pelo Abade de Baçal que na sua obra “Memórias Arqueológico-Históricas do distrito de Bragança - Os Notáveis”, (Tomo VII, p.212), dele faz leitura bem diversa: “Este documento constituirá uma prova esmagadora a favor da legitimidade de D. António se realmente não foi forjado para reforçar as pretensões de D. António ao trono português”.
É esta também a opinião de Veríssimo Serrão e de vários investigadores. Aliás, este historiador, a começar pela a sua tese de doutoramento, tem procurado, com o seu labor, pesquisa e estudo aturado de documentos da época em Portugal e no estrangeiro, muitos deles inéditos, dar continuidade àquilo que o Visconde de Faria começara e a que podemos chamar a reabilitação da figura de D. António, muito denegrida durante a dinastia filipina, pois poucos historiadores se tinham interessado verdadeiramente por trazer luz a esta figura que tanto tempo permaneceu obscura, desgarrada e de tal modo esquecida que os seus ossos ainda repousam fora da Pátria.
Todavia, esta questão foi aqui trazida, não para confirmar ou infirmar historicamente da legitimidade do Prior do Crato, mas porque, do ponto de vista literário, é sempre essencial aclarar ideias sobre o carácter e o modo de ser das personagens. Neste caso, os heróis, infelizes e trágicos, seriam D. António e sua mãe, Violante Gomes.

Passemos a Júlio Dinis e ao seu Escrito Incompleto. Trata-se apenas de um esquema, nada mais que 16 páginas, orientadas talvez para novela, talvez para teatro. Júlio Dinis, nesta mancheia de páginas, é o único escritor a mencionar o nome de Marta de Évora, de quem há remotas suspeitas que possa ter sido a mãe de Violante Gomes. Historicamente nada se sabe da mãe da Pelicana e na Geneall está representada por um N, o que significa "Não Conhecida, Incógnita".

A ter Júlio Dinis concluído a obra em mente, qual teria sido a acção principal? Quais as acções secundárias? Como se teria desenvolvido o enredo? É que, para além da existência de Marta de Évora (supostamente filha bastarda de D. Diogo, duque de Viseu, irmão da rainha D. Leonor e de D. Manuel, assassinado por D. João II), criada como filha por Briolanja Henriques - personagem esta que é referida por Garcia de Resende na sua Crónica “Vida e Feitos de El-Rei D. João II”, e que poderá ser extremamente importante em todo o enredo e talvez mesmo na vida de Violante Gomes - o autor sugere que Marta estaria destinada pelo rei a casar com Antão de Figueiredo, seu camareiro, mas que, por oposição da Rainha a tal casamento, acabaria a donzela por casar com Pedro ou Pero Gomes, que foi pai de Violante Gomes.
Porém, para além desta história, há ainda outro mistério a desvendar: o rapto de uma judia de nome Ester pelo Infante D. Afonso, filho de D. João II e herdeiro da coroa, o qual veio a morrer da queda de um cavalo junto da Ribeira de Santarém. O que teria acontecido a Ester, raptada e violada pelo príncipe herdeiro e, ao que tudo indica, logo oferecida a Antão de Figueiredo?
E não são os únicos estes dois núcleos de acção. Outros parecem delinear-se, como o destino de D. Jorge, filho bastardo de D. João II, criado por sua tia, a Infanta D. Joana de Aveiro. Por morte desta, seu pai, o rei, não sem oposição da rainha D. Leonor, decidiu trazê-lo para a corte.
Bem como o destino de D. Afonso, outro filho bastardo do mesmo D. Diogo, Duque de Viseu, portanto irmão de Marta de Évora, e criado em Pinhel às escondidas do rei.
Ou o destino de uma outra criança, D. Beatriz, filha do Duque de Bragança, decapitado em Évora, e que a rainha D. Leonor protegia.
Todos estes fios e estas vidas parecem entrelaçar-se, só não sabemos como Júlio Dinis o teria feito.
Mas que têm estas dramáticas intrigas a ver com Violante Gomes? Apenas o seguinte: se todas as personagens e factos descritos e sugeridos por Júlio Dinis são verdadeiros ou têm a sua base histórica, porque o não seria Marta de Évora?
Assim, pelo menos a Literatura poderia ter um nome para atribuir à mãe de Violante, e um nome de linhagem real, além de uma alcunha.[2]
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[1] Peço desculpa por colocar esta nota num post do Blog. Mas penso que aqui impõe-se o esclarecimento seguinte:

Este assento de baptismo, de que muito se tem falado ultimamente, como tendo sido descoberto por Luís de Mello Vaz de São Payo e apresentado em um estudo recente (?): D. António, Prior do Crato e Outros Cavaleiros da Ordem de S. João, 1997, e que seria importantíssimo para provar a legitimidade do Prior do Crato, não parece ser uma descoberta assim tão recente. Deste estudo não achei rasto. Mas o mais curioso é que Veríssimo Serrão nos diz que o documento em causa foi descoberto por António Francisco Barata que dele falou a Camilo, tendo sido divulgado em primeira leitura por este escritor. Afirma que nele não consta (…) Pero Gomes sogro do Iffante dom Luís (…), mas sim (…) Pero Gomes sobrinho do Iffante dom Luis (…). Francisco Barata sustenta que no séc. XVI viveram muitas famílias de apelido Gomes na cidade de Évora e poderá tratar-se de um sobrinho de Violante Gomes, o qual seria também sobrinho por afinidade de D. Luís. Veríssimo Serrão não crê que o documento tenha sido forjado, mas admira-se que, escondendo D. Luís o seu casamento com a Pelicana para não ferir D.João III, o Piedoso, como permitiu que o seu nome figurasse naquele papel? Remata dizendo: A menos que D. Luis não se encontrasse presente na cerimónia do baptismo. Cf. Veríssimo Serrão em: O reinado de D. António, Prior do Crato, Coimbra, 1956, pp. LXIII-LXIV. Este assento não só está no livro competente, mas também se encontra copiado na Biblioteca de Évora no Códice CIII /1-17, fl. 56.

[2] Desculpem mais outra Nota. Prometo que não haverá mais:

Inúmeras vozes vêm sugerindo que D. Briolanja Henriques, que terá criado Marta de Évora, a terá ensinado a tocar pandeiro tendo, por isso, a menina recebido a alcunha de “Pandeireta” e terá passado essa alcunha a sua filha Violante. ( Ver: «Marta de Évora - Debate sobre a “Legitimidade de D. António, Prior do Crato”», in Geneall-Forum - Geneall.pt/Geneall.net/ Fórum/ Guarda-Mor/Livraria).

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Por: JÚLIA DE BARROS GUARDA RIBEIRO
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[CONTINUA]

4 comentários:

Anónimo disse...

Se Violante Gomes tinha costela judia então tal costela vinha do lado do pai Pedro Gomes .
Mas podia vir de outro lado: se Violante era filha de Marta de Evora e esta era filha daquele Duque de Viseu que foi apunhalado por rei D.João II, resta saber quem era a mãe de Marta. Era amante desse duque? Era judia? O nome Marta indica que sim.
Os infantes de Portugal e os Duques tinham um fraquinho por jovens judias?
Aqui a nossa cronista Júlia Biló diz-nos que Marta foi criada em Evora por Briolanja Henriques. Quem lha deu a criar? Foi a propria mãe da criança? Porquê? Por medo, porque o pai da menina tinha sido assassinado pelo rei ? Ou a menina foi retirada a força a mãe? Por quem ? Porquê? Para esconder e assim salvar a criança?
Estou curiosa e estas perguntas se calha tem resposta la mais para frente. Eu gostava e ainda gosto muito de Historia de Portugal. E ainda mais qando está ligada a Moncorvo.

Outra Maria da Cordoira

Anónimo disse...

Antigamente as desencaminhadoras da realeza, eram as Mouras, depois passaram a ser as Judias.

Será que as portugueses eram assim tão feias?

Ou será que não havia oftalmologistas?

Eu também estou muito curiosa com o próximo capítulo da telenovela:

A Pelicana - Pandeireta ou Duquesa?

Sobretudo, também estou curiosa em saber quem foi que deu a infeliz criança a criar.

E já agora, Pelicana, porquê?
E Pandeireta, porquê?

E será que a ilustre articulista confirmou "in loco", o tal assento de Baptismo da tal escrava do tal Pero Gomes, que poderia ser Judeu...ou não?

É que eu também ainda gosto da História de Portugal, mas detesto ser enganada.

Maria Paloila

Júlia Ribeiro disse...

Olá, Amigas:

Já me coloquei essas e outras interrogações. Penso que algumas não terão resposta conclusiva.
Mas se eu tiver saúde e genica para uma "Quási-biografia", algumas das possíveis respostas terão de ser ficcionadas, com base no que de histórico tenho encontrado e/ou venha a encontrar. De qualquer modo as respostas têm sempre de ser credíveis.
Para isso, ainda terei de ir uns tempos largos, feita "rato de biblioteca", para a Torre do Tombo.
Veremos se não vos irei desiludir .

Um abraço
Júlia

Anónimo disse...

Cara Júlia

Se me permite uma sugestão, eu investigaria os filhos de Dom António.

Além de D. Manuel de Portugal, ele teve outros, que devido ás circunstâncias, passaram ao esquecimento:

D. Cristóvão de Portugal, D. Dinis de Portugal, Dona Filipa de Portugal, Dona Luisa de Portugal.

Dom António I, lutou toda a vida por Portugal, mas parece que escolheu nomes um bocado estranhos para os filhos...

Maria dos Mares do Norte

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