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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Violante Gomes, a "Pelicana" - IV

[Continuação do post de 12.01.2010]

Abordaremos, agora, o romance histórico Lago Azul de Fernando Campos. Gostaria de dizer uma palavra a propósito do título. Poderá haver quem pense tratar-se de uma novela leve, um romance cor-de-rosa. Nada mais longe da verdade. A referência é ao Lago Lehman, junto do qual viveram D. Manuel de Portugal, filho de D. António, Prior do Crato, e sua mulher Emília de Nassau e Orange, filha de Guilherme de Orange.
Casamento de amor que, depois de 10 anos e oito filhos, acabou em turbulenta separação.
Dentre as obras que seleccionámos é a que mais longamente se refere à Pelicana e que dela nos dá um retrato atraente, cheio de graça.
O narrador omnisciente é o vento que nos fala da morte, omnipresente e omnipotente:
“Tão formoso! Loiro, bom parecer, prazenteiro com todos, até com o sapateiro Simões Gomes que gosta de deitar as sinas dos futuros, galante com as damas e no vestir... Tanto projecto matrimonial falhado! Mas consta que se casou a furto com a formosa e jovem Violante Gomes. Paixão ardente. Ela, porém, honesta, só consentiu amores após o casamento.
- Sois mancebo viçoso e florescente, meu senhor – passeavam os dois namorados à tardinha, pelo recolher das aves ao gasalhado da folhagem. -
- Fico muito honrada com a vossa afeição, mas...
- Mas! – interrompia, desolado o infante D. Luis a sua amada
- ...mas esperam-vos, eu sei, toda a gente fala, casamentos com princesas, com infantas. Quem sou eu para me entremeter nos assuntos da vontade de el-rei nosso senhor?
- Minha princesa sois vós, Violante. Outra não quero... […] Sois de tal jeito insensível? Deixais-me para aqui como as ondas a bater em penedo na Serra da Arrábida? […]
- Donzela virtuosa e honesta minha mãe me ensina não dever dar ouvidos a galanteios de príncipes. Insensível não sou e com ternura meu coração recebe as vossas mostras de afecto, justas galantes, músicas, motes e cantigas em meu louvor, que não mereço...
-Mereceis isso e muito mais.
- ... porém, virtude e honestidade me obrigam. Cumpre-me obedecer- lhes.
- ... discrição e graça que mais vos eleva a meus olhos. [...] Casaríeis comigo?
- Oh! Meu senhor!
- Casaríeis?
- El-rei não consentiria.
- Casaríeis?
- E a princesa Maria de Inglaterra?..... E a princesa Cristina da Dinamarca?
E a princesa Edviges da Polónia?
- Não, não! – balbuciava o jovem infante.
- [...] Grandes e importantes são os negócios de matrimónios entre as famílias reais da Europa...
- A todas rejeito – segurava-lhe Luis as mãos, decidido, caloroso. – Casaremos a furto.
- Não sei. Tenho medo...
- El-rei, meu irmão, de nada saberá. [...]
- [...] Que dirão as pessoas? Vão maldizer-me, amaldiçoar-me... Já me chamam Pelicana...
- ...porque sois formosa...Não temais. Estareis sob a minha protecção.
Nove anos viveram casados Luis e Violante. [Mas ela] compreendeu que o príncipe pertencia mais à república que a ela e nem sequer era senhora do filho, [...] entregue a colégios de frades. Tomou então a resolução de se sacrificar para os não prejudicar...e recolheu-se a sepultar a virtude no convento de Vairão (pp.21-22)

Após esta longa citação, creio que o leitor terá construído um retrato, talvez aproximado do real, talvez beneficiado, de Violante Gomes. Por isso, poupo-me a quaisquer considerações.


Resta-nos a novela de Urbano Tavares Rodrigues: Os Cadernos Secretos do Prior do Crato.
Numa entrevista dada pelo escritor a Ricardo Paulouro e António Melo, em 1.06.2009, Urbano Tavares Rodrigues diz que esta sua obra é um livro da procura da serenidade, através da angústia e através do remorso, da perplexidade e da luta. Considera ainda que “ O Prior do Crato é um herói de causas perdidas. (Revista A23 online, Associação Cultural, Guarda).
E que nos traz, de novo, de Violante Gomes, mãe do Prior do Crato? De novo, propriamente, nada. Coloca na boca de D. António cerca de duas dúzias de palavras de conveniência: “Correm calúnias sobre minha mãe, Violante Gomes, senhora da pequena nobreza, com quem meu pai fez um casamento secreto. Dizem-na agora cristã-nova, de origem judaica. Nada tenho contra os judeus, mas é redondamente mentira”. (p.35)
Teremos em conta que, nesta altura, o escritor nos apresenta D. António exilado em Paris, velho, doente, cansado e pobre. Daí, os seus pensamentos de homem exausto e rei vencido, aquela saudade característica dos velhos e quiçá alguns remorsos:
“(...) minha mãe, a quem chamavam na mocidade "a bela pelicana´. Lembro-me vivamente dela, mas deixámos muito cedo de conviver quando, com o consentimento de meu pai, ela recolheu ao mosteiro de Almoster. Os recados que algumas vezes me mandou eram sempre descoroçoantes, a aconselhar-me reserva, moderação, abandono da luta. Não obstante, sinto ainda correr por mim um fio de amor quando alguém ma lembra ou ela vem ter comigo em sonhos.” (p.71)
É a primeira vez que Violante Gomes nos é apresentada no seu papel de mãe, aconselhando o seu filho único que, bem cedo, havia sido afastado dela.

por: JÚLIA DE BARROS GUARDA RIBEIRO

(Continua)

1 comentário:

Anónimo disse...

Ora quem diria, que a cultura endinheirada, dita Liberal, emergente da Revolução Francesa, se iria preocupar tanto com o Rei Dom António I, o Infante Dom Luís e Dona Violante Gomes.

Deve existir uma razão poderosa para tanto incómodo....

Maria dos Mares do Sul

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