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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Violante Gomes, a "Pelicana" - III

[Continuação do post de 11.01.2010]

Vejamos agora a obra Príncipes de Portugal, Suas Grandezas e Misérias, de Aquilino Ribeiro.
(Na sua nota de advertência ao leitor, os editores informam que o critério de Aquilino Ribeiro foi o do romancista: interessou-lhe tudo o que não é comum).
Revisitado o seu ensaio : António I, Rei Efémero, verifica-se de imediato que Mestre Aquilino não foi nada meigo para com os progenitores do Prior do Crato. Logo de entrada e sem mais delongas, mimoseia D. Luís com os epítetos de:
“(…) medíocre de entendimento, sagaz no viver, piedoso mas com boa dose de hipocrisia, acrescentando:
“(...) ele é o perfeito filho segundo de monarcas, tipo acabado de parasita nacional”.
É com fina ironia que remata , dizendo o que dele ficou para a História :
“(...) era pessoa de muito saber, amador de música (...)” e pouco mais.
Sobre Violante Gomes não é muito mais brando. No entanto, na voz de Aquilino perpassa um certo tom de pesar pelo que o destino reservou à bela e infeliz Pelicana: “(...) uma Violante Gomes, judia bonita e salerosa, alcunhada no bairro de Pelicana e ainda de Pandeireta, que [D.Luis] fez claustrar no Convento de Santa Maria de Almoster, quando se saciou dela e para atalhar ao engulho dos reais parentes que não podiam levar à paciência ter-se metido com uma criatura tão baixa e para mais rescendendo todos os ranços da Sinagoga”.

Quanto à tragédia, O Indesejado (António, Rei) de Jorge de Sena, obra grande no cenário da Literatura Portuguesa, buscaremos as palavras que o autor escreveu no Pós-Fácio: Esta peça é uma tragédia, uma tragédia histórica. Uma tragédia em verso. (…) Sendo a tragédia a representação simbólica de uma crise dialética … (p.153)
Qual a crise dialética nesta tragédia? Os gregos chamavam hamartia à culpa que o herói carregava sobre si, mas que herdara dos antepassados. D. António é o filho bastardo, o filho de D. Luis, sim, mas também o filho da Pelicana, da Pandeireta. Ele é, pois, o bode expiatório do pecado dos pais. É o próprio Jorge de Sena quem nos diz:
O Prior do Crato sofre as consequências de seu nascimento, da legitimidade duvidosa de sua pretensão. (p.154)
A explicação surge logo no 1.º Acto, em diálogo entre D. António e o Bispo da Guarda, seu fiel seguidor:
D. António: (...) E eu sou um homem. Que sou mais que um homem?
Que uma ambição lutando contra tudo (…).
Bispo : (...) Se tivéssemos
Com que comprar todas as memórias,
todos se lembrariam de nós.
Perdão, senhor, de vós, do vosso nome.
D. António: Qual? O que minha mãe não me concede?
E tantos me contestam?
Bispo: Esse ou outro.
Ninguém, senão a Igreja nos baptiza.
O resto: alcunhas, quando não são títulos.
D. António: Alcunhas (... ) “Pelicana” ( ...) ” Pandeireta” (...)
Bispo : Nomes de vossa mãe (... )Deixai que falem!
Judeu, bastardo – tudo vos chamaram. (pp.23-24)
D. António, o bastardo, o não legitimado, sente que tem de salvar o seu povo. É essa a sua missão. Mas é, ao mesmo tempo, um homem indeciso, inseguro.
D. António: (...) E sou tão frágil eu, nesta aventura.
Que só por ambição ainda flutuo ... (p.24)

Olhando para o Homem que carrega, qual cruz, a culpa legada por seus pais e que se move entre a ambição e a fragilidade, sentimos que é aí que reside o trágico. Portanto, o fado, a moira terá de cumprir-se: derrotado, não será rei.
Muito, muito mais há a dizer sobre esta obra imensa, mas que não cabe no objectivo nem no âmbito deste pequeno escrito.

Temos agora na nossa frente a peça de teatro de Jaime Gralheiro, A Longa Marcha para o Esquecimento.
À minha pergunta se classificaria a Longa Marcha como farsa ou como tragi-comédia, o autor respondeu-me sem hesitar: tragi-farsa.
E porque introduzi esta tragi-farsa, justamente a seguir à tragédia de Sena?
A obra foi escrita a propósito de grandes homens que deixaram obra notável e hoje estão totalmente esquecidos. Para concretizar este objectivo, o autor lançou mão da crise dinástica de 1580, com os seus traidores, os vira-casacas do tempo, o seu herói, D. António, e a sua ascendência, particularmente sua mãe.
O autor considera que a nobreza atribuiu tão pouca importância à mãe do Prior do Crato que produz o seguinte diálogo entre um nobre – que nem sabe ao certo o nome da mãe de D. António - um mercador e um clérigo, ou seja, os representantes das três classes sociais. As franjas, isto é, a plebe também está em cena, mas não dialoga. Escuta e dá vivas:
Real! Real! Por D. António, rei de Portugal! (p.4)
Nobre: Bom! D. António, Prior do Crato, é filho do Infante D. Luis, irmão do sr. Rei D. João III, que Deus guarde, e de uma tal Guiomar...
Clérigo: Filho do pecado!...
Mercador: Eu diria... filho do amor...
Nobre: Não! Não! Filho do pecado... Diz bem o Sr. Padre Francisco: filho do pecado.
Mercador: Pronto! Fica filho do pecado. E depois?...
Nobre: Como filho ilegítimo que é, está impedido de ser rei de Portugal...
Mercador: Ah! Quer dizer: os filhos da puta não têm lugar neste país . (pp.5-6)
Depois de o Nobre e o Clérigo se terem escandalizado com tal linguagem, ao que o mercador responde: “É a linguagem da gente da minha terra” (p.6) continua perguntando aquilo que realmente lhe interessa: se o Prior do Crato tem dinheiro para aguentar o comércio das Indias, para a guerra contra Filipe II, para a crise em que o país está ... Todos se calam, mesmo os que aclamavam D. António como rei. Chega então Cristóvão de Moura que distribui moedas de ouro às mancheias a toda a gente e logo o grito de todos passa a ser:
Real! Real! Por D. Filipe, rei de Portugal! (p.20)

Talvez o leitor se pergunte se esta peça tem lugar neste trabalho, ou se terá sido trazida aqui para chocar pela linguagem. Primeiro, esta linguagem hoje não choca ninguém. Segundo, que querem dizer sábios historiadores e doutos investigadores ao apodarem Violante Gomes de “concubina, amante, mulher ignóbil, criatura baixa, mulher de vida incerta”? Nem mais nem menos do que aquilo que Jaime Gralheiro pôs na boca do mercador.
Por outro lado, Gralheiro escreveu a Longa Marcha mantendo um pé na crise de 1580 e o outro na crise (ou na sequência de crises) que o país vem atravessando. Relembremos ainda que na crise de 1383-85, D. João I, apesar de filho ilegítimo de D. Pedro I, fora eleito rei de Portugal. A questão da legitimidade nunca então foi posta, nem houve aproveitamento da origem social da mãe para a cobrir de insultos e, por essa via, denegrir o futuro rei. Contudo, se o caso era rigorosamente paralelo, em termos pessoais, ao de D. António, era muito diferente em termos conjunturais.

Por: JÚLIA DE BARROS GUARDA RIBEIRO
[continua]

1 comentário:

Anónimo disse...

Eu sou de Moncorvo e não sabia nadinha sobre Violante Gomes a Pelicana. Nunca tinha ouvido falar dela.
Afinal há muitas coisas que estou a aprender com o blogue.
Vou andar por aqui mais vezes.

Manuel Fernandes

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