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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Ainda sobre Violante Gomes, a Pelicana - algumas achegas

Em primeiro lugar queremos saudar a inicativa da Drª. Júlia de Barros G. Ribeiro em trazer à luz, aqui no blogue, a problemática de Violante Gomes, a "Pelicana", no que toca à sua relação com a nossa vila. Este é, também, um assunto que há muito nos interessa, sem que, todavia, o tenhamos conseguido dilucidar e com dúvidas sobre se, algum dia, se possa esclarecer em absoluto. Na verdade, o único argumento com alguma base de sustentação para se relacionar a Pelicana com Moncorvo é a tradição popular. E, neste particular, há dois grandes argumentos:

1º. – a passagem do Pe. António Carvalho da Costa, in “Corografia Portugueza”, vol. I, Livro II, Tratado I, Lisboa, 1706 (páginas 424 e 425), em que se diz claramente: “He tradiçam bem fundada, que foy natural desta Villa a mãy do Senhor D. Antonio, Infante, que seis mezes se vio coroado Rei de Portugal; ainda de presente se apontão as casas em que nasceo, e se conhecem pessoas, que lhe são conjuntas em sangue”. Carvalho da Costa, homem ilustrado, astrónomo, com preocupação de certo rigor científico, é tido como um autor probo, que não inventa histórias. Assim, recolheu a informação (certamente por inquéritos enviados aos párocos das localidades, ou junto dos senados dos concelhos) e publicou-a tal como lha enviaram. Tendo este autor nascido em 1650 e falecido em 1715, a maior parte das informações para a “Corografia” devem ter sido obtidas ainda no séc. XVII, possivelmente nos finais desse século. Ora o séc. XVII não estava ainda muito distante da verdade dos factos (as vidas de Violante Gomes e D. António percorrem o séc. XVI, tendo este falecido em 1595) sendo difícil de aceitar que alguém, localmente, inventasse a “estória” para prestigiar a terra, invocando ainda parentes de sangue da Pelicana (e por consequência de D. António) se não houvesse nada que o justificasse. A menos que haja fantasistas em todos os tempos, e se tenha dado com a Pelicana algo semelhante com o que se passa com a ascendência (também moncorvense) do escritor argentino Jorge Luís Borges. Mas, a ser assim, Carvalho da Costa, se tivesse como segura outra localidade alternativa mais credível para o berço da Pelicana, decerto que o diria, ou descartaria esta informação;

2º. Ainda com base em Carvalho da Costa, diz-se que “ainda de presente apontam as casas em que nasceu” [Violante Gomes]. Ora as tradições populares em sociedades em grande medida àgrafas tende a perdurar no tempo. As casas que então apontavam (nos finais do século XVII) só podiam ser as mesmas (passaria a ser uma só, mas decerto ligando duas casas contíguas) que se apontavam no início do século XX, ou seja, em 1908, quando na revista “Illustração trasmontana” (depois compilada num volume, mas em artigo correspondente a 1908) se dá uma foto com a legenda: “Moncorvo – casa onde viveu a Plicana[sic], mãe de D. António Prior do Crato”). Daqui se prova que a tradição não assentava no vazio: tinha/tem um suporte físico, material.

Mais uma achega: quando dei aulas em Moncorvo, há já um bom par de anos, lembro-me de ter um aluno de apelido “Pelicano”. Posteriormente conheci uma moça do mesmo apelido (é a mesma pessoa que consta na lista telefónica de Torre de Moncorvo). Perguntei-lhe se tinha alguma coisa a ver com a famosa Pelicana e ter-me-á dito que sim, mas não é credível que memórias familiares (sem pergaminhos a comprová-lo) tenham perdurado tanto no tempo. No entanto, avento uma outra hipótese: “Pelicano” não teria nada a ver com a ave, que aqui não há, nem tão-pouco em Évora ou Covilhã, ou mesmo em Portugal (a não ser no Zoo), mas teria a ver com uma outra coisa, ou seja, pode derivar de “peles” ou “pelicas”. Assim, “pelicano” seria alcunha dada àqueles que trabalhavam com peles, a quem também chamavam “Peliqueiros”. Ora isto de peles, é actividade caracteristicamente judaica. E onde fica a actual rua do Prior do Crato (antiga rua de Trás)? – à boca da rua dos… Sapateiros!!! Aqui está outra actividade ligada a judeus (basta lembrar o famoso Bandarra de Trancoso).

É nossa convicção (desde há muitos anos) que a “judiaria” de Torre de Moncorvo andaria extra-muros, no arrabalde, nas imediações da praça F. Meireles. Com a conversão forçada, os cristãos-novos aí continuariam e, ao alargar-se o casario em redor (e no encosto da muralha medieval da vila, ao longo do séc. XVI-XVII), o “locus” preferencial desses “cristãos-novos” esticar-se-ia ao longo da rua dos Sapateiros (facto que as transcrições que recentemente se têm feito de fontes inquisitoriais tem vindo a comprovar). Assim sendo, é preciso muita pontaria para alguém se lembrar de “inventar” uma casa para a Pelicana, em Torre de Moncorvo, num local onde seria de esperar, na convicção de que a senhora seria, de facto, de origens judaicas, o que terá pesado não pouco nas pretensões de D. António, sobretudo num quadro de Contra-Reforma, tridentino, inquisitorial, face a uma Espanha católica (Filipe era designado por "S. Majestade Católica") e anti-judaica.

É, assim, uma hipótese sedutora e cheia de romantismo essa da Pelicana ser uma cristã-nova natural (ou com ligações a) de Torre de Moncorvo. Isso não exclui ligações a Évora ou à Covilhã já que a gente da nação circulava muitíssimo (eram andarilhos por natureza, pelos seus negócios, e também por razões óbvias) – diríamos que tomavam o eixo do actual “IP-2”, num tempo em que a fronteira tinha uma grande vitalidade económica (rede de castelos), fortemente segurada pela “gente da nação” (lembremos Belmonte, Trancoso, Guarda…).

Estamos em crer que nunca se encontrarão documentos que esclareçam de vez o problema, pois a terem existido, teria sido de todo o interesse, por parte de muitos (até a nível local), a sua destruição/apagamento, nesses conturbados tempos que precederam o reinado filipino e mesmo depois. Ou então desapareceram mesmo na voragem do tempo. Ficou a Lenda, como sempre acontece nestes casos. No entanto, esta é uma lenda/tradição que nos interessa a nós, moncorvenses, acalentar. Até porque nos liga remotamente a um Resistente, a um homem que teve a ousadia de defrontar o soberano mais poderoso do mundo do seu tempo: uma formiga contra um elefante!

E a melhor forma de acalentarmos esta poética tradição é conservando a casa que, na ancestral versão popular, se diz ter sido de Violante Gomes e sua família. A nosso ver dever-se-ia picar-lhe o reboco, restituindo-lhe o aspecto que tinha no início do séc. XX. Ou então, substituindo o reboco de cimento e tinta azul por uma massa pobre caiada.E,inevitavelmente dever-se-ia colocar uma placa informativa na fachada, aludindo à tradição da Pelicana. Mais: a dita casa deveria ser classificada como Imóvel de Interesse Municipal ou Concelhio. E, já agora, a travessa da Farmácia Martins, em vez de travessa Prior do Crato, poderia ser travessa de Violante Gomes, a Pelicana. Mãe e filho assim associados e associados a Moncorvo, fosse a dita senhora nossa conterrânea ou não (mas nós queremos que seja)! - Tal como sete cidades gregas disputaram a naturalidade de Homero e outras tantas disputam ainda, em Portugal, a de Camões.

por: N.Campos

Fotos (de cima para baixo):

1 - frontespício da obra do Padre A. Carvalho da Costa, Corografia Portugueza (1708-1712)

2 - foto retirada de Ilustração transmontana, 1908.

3 - rua Prior do Crato, em Torre de Moncorvo (foto de N. Campos)

4 - casa que a tradição assinala como tendo pertencido à Pelicana (foto N.Campos)

5 - placa toponímica da R. Prior do Crato (foto N.Campos)

6 - idem, da travessa Prior do Crato, que poderia ser de Violante Gomes, a Pelicana (foto N.Campos)

5 comentários:

jose albergaria disse...

E três para D. Afonso Henriques: Guimarães, Viseu e, menos, mas ainda assim, Coimbra.
É um prazer viajar com o meu amigo pelos meandros do passado.
Gostei daquela sua atitude, deveras assertiva: "(mas nós queremos que seja)".
Abraço,
José Albergaria

Anónimo disse...

Após quase uma belíssima hora de leitura sobre a bela Pelicana, gostei deste remate do N.. se queremos que a Pelicana seja "nossa", devemos protegê-la também fisicamente na memória do tempo. E nada melhor do que a preservação da sua morada!

Isabel

Júlia Ribeiro disse...

Olá Nelson, Isabel, Albergaria e demais Blogueiros e Amigos:

Estive sem computador desde o apagão que a EDP pregou aqui à zona Oeste, ou seja desde 12 ou 13 de Janeiro. Depois veio o computador, mas não conseguia aceder aos comments. Enfim, hoje parece que já está tudo normalizado.

Obrigada pelas achegas de todos os comentadores, destacando o Nelson e a caríssima Maya de los Dioses , a quem vou já dizer que não tenciono desistir.
Não é minha intenção produzir uma novela histórica, muito menos um ensaio. A minha formação não me habilita para tal.
Gostaria de proceder mais ou menos como fiz para a "quási-biografia" do Constantino, Rei dos Floristas. Só que no caso da Violante Gomes, isto fia mais fino. Quer se queira quer não, é uma figura que tem o seu lugar (pequeno, é certo) na nossa História. Por isso, a investigação tem de ser mais profunda e aturada.
Ora, a pesquisa é como as cerejas: ao puxar uma, vêm uma data delas agarradas. Só que o diacho é que estas cerejas não se podem voltar a pôr no cesto, sem serem muito bem miradas por todos os lados.

Estou a lembrar-me das perguntas - muito certeiras - que já vi ali para trás e quero ir lá TENTAR responder, pois toda a pergunta merece uma resposta.

Só para terminar este comentário que já vai longo, acho que devo dizer que, tal como para o Constantino, o que eu vier a escrever sobre a "fermosa Pelicana" é, em grande parte, em resposta ao desafio do Engº Aires Ferreira.

Um abração para todos

Júlia

N.Campos disse...

Resta-nos então aguardar por mais este trabalho da Drª. Júlia. Aqui vai mais este apontamento, repescado de um livrinho recentemente saído com o Correio da Manhã, da colecção dos reis de Portugal editada pela Academia Port. de História, volume sobre o "Cardeal-rei D. Henrique(1578-1580)", de autoria de Carlos Margaça Veiga (ed. QN, Edição e Conteúdos, S.A., 2009 - distribuído em Janeiro de 2010):
"As cortes [de Lisboa, de 1579] encerraram em Junho. No final, D. Henrique exigiu ao duque de Bragança, que representava D. Cataina na sua causa, à Câmara de Lisboa, em nome do braço popular, a D. António e a Filipe II, que acatariam a decisão dos juízes e não pegariam em armas para impôr qualquer candidatura. Filipe II recusou-se a fazê-lo. D. António retardou quanto pôde, mas acabou por jurar. Tadovia fez saber ao núncio papal, Alexandre Frumento, que o fizeram sob pressão e não livremente, que o descomprometia.
D. António, para competir em pé de igualdade com os demais pretendentes, tinha de se apresentar como legítimo. Para tanto, com breve papal, conseguiu que Manuel de Melo, freire da Ordem do Hospital, redigisse uma sentença do casamento dos pais. As apreciações críticas do documento apontam-lhe nulidade canónica e jurídica. D. Henrique organizou um processo judicial, com abalizados juristas e teólogos que sentenciaram a falta de verdade do casamento, estando implícita a ilegitimidade de D.António. A partir de então, a conflitualidade entre tio [D. Henrique] e sobrinho [D. António] conheceu tal agravamento que D. Henrique, por sentença proferida em 23 de Novembro de 1579, o destituíu de todos os cargos, honras e rendas e desnaturalizou do reino.
Quanto às pretensões de Filipe II, D. Henrique ainda tentou convencer o sobrinho a transferir o seu direito para o seu filho segundo - na altura o príncipe Filipe - casando-o com uma filha dos duques de Bragança. Chegou a propor uma entrevista pessoal com o soberano espanhol, que esta recusou liminarmente. Argumentava que abria caminho a um futuro conflito de direitos entre irmãos. Assim se esgotaram todas a s tentativas de salvaguarda plena da independência nacional."
Com vista à resolução do problema, e porque D. Henrique já se encontrava bastante enfermo, foram convocadas cortes para Almeirim, abertas a 11 de janeiro de 1580, depois de se falar num entendimento secreto entre D. Henrique e Filipe II no sentido do princípio de um rei/dois reinos. No entanto, D. Henrique nunca o disse publicamente e escusou-se sempre a uma declaração sobre o assunto. Acabou por morrer no dia 31 de Janeiro de 1580, aos 68 anos, sucedendo-lhe um colégio de cinco governadores. Tudo isto se passou há cerca de 430 anos...
Enquanto isso, o agente de Filipe II em Portugal, um certo Cristóvão de Moura(será um avoengo do dr. Pina Moura???), oriundo de uma vila aqui bem próxima, a saber, Castelo Rodrigo (no actual concelho de Figueira de Castelo Rodrigo), distribuía por aí largas dobras e dobrões de ouro, comprando adeptos... O que faria Filipe II afirmar (segundo dizem), sobre Portugal, já depois de ser aclamado como rei: "Lo heredé, lo compré y lo conquisté!..."
A verdade é que essas dobras e dobrões não chegaram para comprar a cabeça de D. António, que conseguiu escapar-se, ao que se supõe pela Galiza, tendo atravessado todo o reino de Portugal, depois da derrota da ribeira de Alcântara, e isto com a cabeça a prémio por uma exorbitante quantia...
A despeito de um percurso algo ziguezagueante, o Prior do Crato representa um exemplo de obstinação e coragem dignos de admiração, tanto mais que morreu na miséria, no exílio, em Paris.
Resta o problema de sua mãe a nossa "Pelicana":
Boa Sorte, drª. Júlia!

Anónimo disse...

Dá gosto ver aí em Torre de Moncorvo uma placa toponímica aludindo ao corajoso resistente que foi D. António, Prior do Crato. No entanto, ficam bem mal esses cabos elécticos ao pendurão, mesmo ao lado da placa. O mesmo se passa com essas casas velhas na mesma rua. Ou se picam as fachadas e se deixa ver a pedra nua, ou então, podiam-se rebocar e caiar à maneira antiga. Quem são os proprietários? E a autarquia porque não apoia isso? - O Prior do Crato merecia melhor...
Manuel J. R.

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