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terça-feira, 28 de julho de 2009

A Aldeia


"De longe era mais nítida a claridade do céu e o recorte da serra. Os grandes rochedos semeados ao lado dos caminhos, pareciam guardar antigos tesouros, invocar esquecidos deuses. Aproximava-se a hora do encontro e todos os fantasmas que me habitam vinham assustar-me e profetizar.
De tão longe! Cada vez mais perto!
Ali, após uma curva poeirenta, surgia a aldeia. Pousada no alto do monte, cor de pedra e de terra, a aldeia envolveu-me e magoou-me no seu abandono e beleza. Tinha-a sonhado tantas vezes e ei-la desafiando os sonhos e as esperanças. Intacta, acolhia-me e serenava-me todas as questões. Chegara, ao fim de tanto tempo!"
in: Jacinto de Magalhães, 1985.
Foto: N.Campos
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Torre de Moncorvo in blog deseja aos conterrâneos da Diáspora uma boa viagem de regresso e um feliz reencontro com seus familiares e amigos em suas terras de origem, durante este período de merecidas férias!

6 comentários:

Anónimo disse...

Associo-me muito sinceramente aos votos do Nelson, pela sua oportunidade nesta época estival e por entender muito bem o que as suas palavras significam.
Para mim é um rol de memórias que desfilam. Para muitos conterrâneos nossos é um reencontro com o torrão - a origem, a identidade e a fonte. Hoje depara-se-nos uma realidade diferente, inevitável porque o tempo não para.Mas sempre a mesma emoção e, porque não dizê-lo, a mesma paixão.
Moncorvo é feito de gente, de velhos, novos, crianças, dos que já partiram para sempre e recordamos hoje, dos que a habitam e dos que a guardam no seu peito, intocada e sempre bela terra.
Para todos também a minha saudação.
Daniel

Anónimo disse...

Caríssimo Daniel,
Mais do que os meus votos de boas férias, quis salientar o belíssimo texto poético de Jacinto de Magalhães. A foto é que é minha e foi escolhida a pensar em si e nos nossos amigos urrenses: é a terra dos seus maiores (como dizem os espanhóis), a antiga vila de Orrios vista do lado daquela serrania por onde se vai para a Gafaria, salvo erro. Ao longe, do lado direito, vê-se parte da serra do Roboredo.
Boas férias, com uns diazitos por aqui, assim o esperamos.
Abraço,
N.

Wanda disse...

Belissimo texto e bela foto!
Eu nunca morei fora do lugar onde nasci e cresci, mas imagino como é a emoção das pessoas quando voltam ao seu lugar de origem.
Deve ser muito bom retornar, sentir a mesma brisa, o mesmo cheiro,rever pessoas,pisar novamente o mesmo chão.
Não valorizamos enquanto o temos ao nosso alcance , mas eu bem sei,pelo que vi na saudades dos meus sogros, o que é estar longe!
Desejo muita saúde a todos que estão aproveitando as férias e que renovem sua energias sorvendo os de ares da terra .
Abraços
Wanda

P.S.Ampliando a foto, vi que aparece uma aldeia no cume da serra, qual povoado é aquele?

São Paulo, 29 de julho de 2009

Anónimo disse...

Olá Wanda! sim, o texto é de facto muito nostálgico e toca fundo naqueles que estão a trabalhar longe e que nesta ocasião vêm às terras das origens, cada vez mais desertas e vazias... Até quando virão? (será que os filhos e netos desses serão capazes de valorizar estes rincões sagrados, desolados, no cimo dos montes). A aldeia que se vê em primeiro plano é Urros (uma antiga vila que deteve foral no fim do reinado de D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal). Daí terá saído alguma emigração para o Brasil creio que ainda no final do séc. XIX, em consequência da filoxera (doença das vinhas) e também do desejo de melhoria de condições de vida. Na linha do horizonte, à esquerda, parece ser Vila Nova de Foz Côa. Mais ao longe, muito atrás de Urros, parece-me ser Sequeiros ou Açoreira. A serrania do lado direito é o Roborêdo. Moncorvo fica do lado oposto da serra, pelo que estas eram as aldeias de "atrás da serra", longínquas e esquecidas.
n.

Anónimo disse...

Tenho a certeza que os filhos e os netos são (serão)capazes de valorizar o nosso património paisagístico e o outro. De férias em Itália, onde os meus filhos por sangue também pertencem, de cada vez que eu valorizo a beleza por exemplo de Urbino, San Leo, situados no alto dos montes e com uma imensidão deles à volta, solta o meu Alberto uma frase galhofeira:"- Mas os de Trás-os-Montes são mais bonitos, não é mãe?"
"- São, mas..."
O "mas" quer dizer tudo, quer salientar que para comparar temos que conhecer o Mesmo e o Outro. Mas significa que o nosso é muito importante e que se nós amarmos as nossas raízes os nossos filhos farão o mesmo mais tarde ou mais cedo e descobrirão para os seus descendentes Vales da Vilariça por esse Trás-os-Montes fora.
Em Agosto levarei os meus dois filhos pela mão e mais uma vez lhes mostrarei os Montes. Aliás, Outros Contos da Montanha já andam por Santiago de Compostela a fazer de pequeno guia às fragas...

Obrigada ao N. por sermos tão bem recebidos na nossa terra.

Abraços

Isabel Mateus

Anónimo disse...

olá Isabel! certeiro comentário, na certeza da razão que tinha o nosso bem-amado Torga: "O Local é o Universal sem paredes..." > Pensando "local" poderemos agir "global" e pensado "global" poderemos agir localmente! - Cá está o ensinamento do nosso embaixador "tchoqueiro": com três pedras do Roboredo (de ferro) viajando pelo mundo inteiro. Um pela longínqua Nippon, e por outras paragens; "outra" (digo "outra" quase felgueirense), pelas Itálias, Inglaterras, míticas europas, quiçá com outras tantas pedras da mesma serra, cumprindo a sua peregrinação, obedecendo à tal pulsão de evasão que deve ter acontecido seguramente um certo dia olhando o mundo a partir do alto do Roborêdo... E o mar que se avista(va) do talegre do alto de Felgueiras... "Mar Talegre" bem o sabia, sonhou, e foi... mas voltava sempre, amiúde, atraído por este gigantesco magneto que desnorteia todas as bússolas...
Aquele abraço, até breve! (A vossa Ítaca sempre vos espera, e aqui haverá sempre um Argus que vos reconhecerá)...
N.

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