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segunda-feira, 20 de julho de 2009

Caracterização de Homem e Mulher à luz do "Dicionário de Transmontanismos” de Adamir Dias e Manuela Tender* II - por Júlia de Barros G. Ribeiro

(continuação do post anterior e conclusão)

Então, vejamos: de acordo com as listagens, o pior que pode chamar-se a um homem é: “chavelhudo, cornampas, galheiro, panacho”, ou seja, “cornudo”.
Ora, se tal acontece, a culpa é da mulher. E se o homem está amantizado , dir-se-á que é “aputado”, sendo ainda a mulher a ter de carregar com esta culpa… vocabular.
De resto, (exceptuando o termo “azeiteiro”, há uns 50 ou 60 anos o pior insulto que se podia lançar a um homem), epítetos como: “mandongueiro, mantilheiro, mentrasteiro, saioleiro” isto é, “mulherengo”, eram tidos quase como elogios, ainda que , por vezes, um tanto velados.
Vemos pela presente listagem que o homem é essencialmente “labrego, vadio, aldrabão, preguiçoso, lorpa…” . (almanicha, cerdo, chambas, lafrau, zorrão… etc. etc.) .

Mas, se bem repararmos, não há homem “de má nota” nem “de mau porte”. Isso é reservado à mulher: em 57 ocorrências negativas, a mulher é mais de uma dúzia de vezes apodada de “Mulher de má nota” e “de mau porte” (azagal, bornal, calandrina, calhau, coldre, etc. etc. ). Se a estes mimos acrescentarmos o ferrete de “rameira, meretriz, concubina, prostituta, putéfia, vagabunda, desprezível, muito reles, desavergonhada…” ( calatrão, castelã, cóia, estardalho, franjosca, ganirra, juco, etc. etc. ) então chegamos às três dúzias dos piores insultos. Com “alcoviteira, mentirosa, preguiçosa…” (belbroteira, merondeira, zopeira… etc. ) teremos a lista completa.

Daí, poder inferir-se que, apesar de menor número de características morais negativas atribuídas à mulher, a sua carga pejorativa é muito mais pesada.

Mas, nem tudo é mau: quanto ao aspecto físico, a nota, altamente positiva, pertence às mulheres: contra 1 “mancebo forte” (azagal) – repare-se que ainda nem é homem feito - , há 8 “mulheres elegantes, atraentes, bem feitas, jeitosas” (adengada, janguista, repolhaça, seitoira …) .

No respeitante a características físicas negativas, não há diferenças muito acentuadas entre homens e mulheres: elas são “altas e magrizelas, lingrinhas, féias , desajeitadas…”
(estauta, canoa, galdrapa, lusmeia…) ; eles são: “atarracados, gordos, balofos, grosseiros…” (alforgeiro, bazulaque, charrasco, porcho…) .

Gostaria de terminar com umas palavras que, um dia, Mark Twain escreveu : “Nunca procurei, em caso algum, tornar cultas as classes cultas. Não estava equipado para o fazer. Faltavam-me os dotes naturais e a preparação”.

Tal como Twain, também não pretendi escrevinhar “coisas cultas”. Tive em vista, sobretudo, as pessoas comuns que, como eu, gostam de rever algo que faz parte do seu imaginário e da sua herança cultural.[1]

[1] Mark Twain, 1889, em carta a Andrew Lang. Cit. por Italo Calvino, in “Porquê Ler os Clássicos?”, Ed. Teorema, Lisboa, 1994, p. 159.

12 comentários:

Wanda disse...

Olá!
Um trabalho muito bem feito, Júlia!Devemos sempre estar atentos as nossas heranças culturais!É atravéz do estudo dela que podemos aprimorar o certo e corrigir o errado.
Baseada nesse tema escrevi no meu blog um comentário, se quiser dar uma olhada deixo abaixo o endereço.
Abraço a todos do blog

Wanda
http://esperandoprimavera.blogspot.com/

São Paulo,21 de julho de 2009

Anónimo disse...

Olá Júlia!
Brincando um bocadinho e saudavelmente, sempre lhe digo que afinal não falta ao homem transmontano alguma imaginação quanto à apreciação das mulheres . Senão veja-se - à falta de uma tem oito, de subtil adengada, até à redundante repolhaça e à brejeira seitoira!Repolhaça imagine-se!
Gostei do seu trabalho. Só desejo que nos tempos de hoje, em que a realidade social é diferente e a igualdade de sexos ( agora diz-se de género...) se espera seja um facto, os homens transmontanos não fiquem tão mal na fotografia.
Abraços
Daniel

Anónimo disse...

Esperei para ver o que daí vinha. Muito curioso, muito bem feito. Lá vou eu ter de comprar um dicionário de Transmontanismos.
Um grande abraço
Conceição

Anónimo disse...

Se o homem é chavelhudo, galheiro, cornampas,panacho, então não é culpa da mulher ? E se é saioleiro, mentrasteiro, mantilheiro, claro que é por culpa das mulheres. È assim e mai nada.

Zé d'Adega

Anónimo disse...

Zé D'Adega, ou já nasceu machista ou alguma mulher lhe deu com a porta nas trombas e fez ela muito bem.
Uma das Marias da Querdoira

Anónimo disse...

Já sei onde se pode ler o trabalho completo da nossa Julinha Biló, é na última revista número 3 do Colégio Campos Monteiro. São muitas folhas e aqui está um resumo. Gostei muito porque se lê e dá gosto ler.

Um amiga moncorvense que agora é tambem tripeira e que lhe manda um abraço e para o todo o blogue que está muito bom.

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Anónimo disse...

São trabalhos como este que ajudam(sou optimista) a eliminar os machistas da face da Terra.Além do enriquecimento da língua,claro.
Obrigada,Julinha.

Maria

Júlia Ribeiro disse...

Obrigada à Wanda, ao Daniel e aos outros amigos que deixaram os seus comentários. Penso que entre os grandes valores do nosso património está a Língua. Talvez até o primeiro . E, por isso, há que preservar tal tesouro.
O Daniel divertiu-se , não foi? O texto tinha esse objectivo. Também me diverti muito a escrevê-lo. Realmente, parece que "o Homem não ficou lá muito bem na fotografia". Mas o tempo e os esforços conjuntos de mulheres e homens conscientes e inteligentes vai alterando conceitos, preconceitos e situações. A tendência é, de facto, para o tratamento de "igualdade entre os sexos". Esperemos que tal seja a realidade para os nossos netos e netas.
Abraços
Júlia

Júlia Ribeiro disse...

Esqueci-me de deixar o meu comentário a um comentário que foi retirado por um dos administradores e que, portanto, eu não li.
Deve ter extravasado algum dos limites previamente estabelecidos para comentários no nosso blog.
Só queria dizer que não foi coisa em que eu não tivesse pensado, mas convenci-me que ficariam por algo com a sua graça, como o Zé da Adega e a resposta muito engraçada de uma Maria da Corredoura. Grande Maria esta!
Abraços, vou ler outos posts que ainda não me chegou o tempo para isso.
Abraços
Júlia

Gestão de Informação disse...

"Esqueci-me de deixar o meu comentário a um comentário que foi retirado por um dos administradores e que, portanto, eu não li.
Deve ter extravasado algum dos limites previamente estabelecidos para comentários no nosso blog".

- Para informação da Drª. Júlia (e demais leitores), o tal comentário eliminado não foi por nada que se tivesse dito de inoportuno, não Senhora! Foi eliminado porque vimos que havia uma repetição do comentário anterior (o anónimo anterior mandou duas vezes o mesmo comentário e eliminámos a repetição que involuntariamente foi postada).
Aqui fica a explicação devida.
N.

Anónimo disse...

Vê-se que em tempos passados Trás-os-Montes era um outro mundo. Até no falar. É bom que apareça quem nos lembre estas coisas. Parabéns aos autores do Dicionário e à Dra. Júlia que não conheço , mas a quem tiro o meu chapéu.

C.Matos

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