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quinta-feira, 16 de julho de 2009

Morreu Palma Inácio

Aos 87 anos, morreu Palma Inácio, o nosso último herói romântico.
Vai fazer, no próximo Agosto, 41 anos que Palma Inácio foi preso em Moncorvo, esbofeteado e encarcerado no quartel da GNR, hoje o Museu do Ferro, numa cela que ainda existe, e que eu já visitei, embora recuperada para as funções do Museu.
Fui amigo, nos últimos anos, de Palma Inácio. Almoçávamos com frequência. Nunca o ouvi dizer mal de ninguém, mesmo dos seus algozes ( à excepção, que eu nunca compreendi, de Guterres). Só bebia vinho tinto e fumava cachimbo. Foi um sedutor durante toda a vida que acabou num lar, pago pelos amigos, pois a reforma que tinha, equivalente ao salário mínimo, não era suficiente. Era o homem mais modesto que eu conheci. Nunca teve cargos políticos e nunca aceitou que nas acções da LUAR algum operacional matasse ou mesmo ferisse alguém. Nunca foi um político, apenas um anti-fascista. Alguém me contou, talvez ele -- que a memória também me vai falhando-- que aquando da sua prisão em Moncorvo, onde ele ia buscar alimentos para outros operacionais que tinham ficado em Mogadouro, pois o carro destes rebentara e ele não os quis abandonar, foi insultado, com exigências de quase linchamento por parte de algumas criaturas de Moncorvo, ainda hoje vivas, e que deveriam ter remorsos, enquanto uma velha a quem ele encontrou quando já estava algemado e ele lhe disse: "Minha senhora eu não sou um preso comum, eu sou um preso político", essa senhora, esssa velha da aldeia lhe respondeu: "Se eu soubesse issso tinha-lhe trazido um pão". Desculpem-me esta viagem emocionada em torno da vida de um homem que podia ter tido tudo e não quis nada, a ponto de morrer na mais profunda pobreza, mas na maior dignidade. Um dia, no almoço, disse-lhe, meio a brincar, meio a sério: "O agente Serra ( o polícia que começou aos tiros na Praça) anda com medo que lhe façam alguma coisa". Ele sorriu e disse-me: "Pode estar descansado". Palma Inácio não permitiu sequer aos seus homens da LUAR que agridissem ou matassem, logo depois do 25 de Abril, o tipo que os denunciou a todos, o Canário, que tinha e ainda terá um bar na Caparica. Não queria violência, nem vingança.
No dia 14 de Julho, simbolicamente no dia em que os sans cullotes, dirigidos por Camille Desmoulins ocuparam e incendiaram a Bastilha, morria Palma Inácio. Muita gente foi ao seu velório, no Largo de Rato. E às 11 da noite, por ironia do destino, por brincadeira de mau gosto, a sala do velório teve que ser evacuada, pelo anúncio falso de uma bomba. Nunca Palma Inácio foi bombista e o fascismo de colarinho branco ou cabelo rapado, assenta a sua coragem na cobardia do anonimato. Paz, muita paz a este homem bom que nos deixou. Este homem que leva com ele parte do nosso sonho por um mundo melhor.

12 comentários:

Wanda disse...

Olá!
Um homem nada comum, não haveria de ter um nome comum!
Palmas para Palma Inácio, um homem que não morreu no anonimato, pelo que vejo ele tinha admiradores.
Não importa se tenha lutado por uma causa ou se apenas tenha sido confundido com um integrante colaborador de algum partido oposicionista ao governo da época.
Importa que Rogério está agora a prestar-lhe uma homenagem por ele ter sido um homem de caráter e de bravura.
Agora eu, deste lado do Atlântico, sei que existiu um Palma Inácio e que em algum momento ele foi vitima da ânsia do poder de algum regime politico, sim, porque no final das contas é o que todo politico deseja...o poder!Não importando se pisarão em muitos Palmas Inácios para chegar ao objetivo.
Descanse em paz Palma Inácio!
Abraço
Wanda
São Paulo, 16 de julho de 2009

Paulo Patoleia disse...

lembro-me bem desse dia. os polícias de Moncorvo de então, habituados a fazer ciladas aos raparigos que jogavam a bola na canelha acudindo aos telefonemas da Joaninha chefe deos correios e ao que parece informadora da pide (ao menos da fama não se livra)e a vigiar os notívagos na ansia de os apanhar depois da meia noite num café, informados ou não por esta informadora acudiram à praça, junto ao talho e leitaria da Deolinda, onde estava estacionado um mercedes preto, que ao que se fez constar era de terroristas e estava cheio de armas na bagageira.O atabalhoado Serra puxou da pistola e num nervosismo misturado de falta de perícia desatou ao tiros gritando mãos ao ar! influ~encia por certo dos filmes do Bonanza das tardes de domingo. Iniciou-se emtão uma fuga que se estendeu pelos montes limitrofes onde foram defenitivamente presos com a ajuda dos populares nativos. Alto galardão de heroísmo e coragem para estes agentes do oitenta e coroa que o meu pai pagava a custo na esquadra, pelo crime de o filho jogar à bola na canelha. São também os mesmos, que, com o Chefe Soares á frente e em conjunto com o MFA (popcon)invadiram a mesma canelha onde ficava a sede do MRPP para dar voz de prisão ao Tony Americano e ao prof. Costa, já falecidos, que como já expliquei noutro comentário tiveram a fuga dada pelo vizinho de cima, O sr. Pascoal da Caixa e a sua corajosa esposa filha do sr. Garcia Taxista. Estes ainda bem vivos para recordar a história que urge ser escrita por quem sabe porque as memórias são para preservar...

Júlia Ribeiro disse...

Palma Inácio, tantas vezes chamado de "herói romântico" foi, essencialmente, um homem de acção. Generoso e íntegro. Um homem honesto que nunca se serviu do seu passado de resistente anti-fascista para obter cargos políticos ou quaisquer benesses.
A Hermínio da Palma Inácio e a todos os que tiveram a coragem de lutar contra o fascismo, a minha
homenagem.

Júlia Ribeiro

Anónimo disse...

Lembro-me dos Jipes da GNR com os cães policias no Felgar quando procuravam os fugitivos que teriam ido pela Fragada da cardanha e um deles teria sido capturado no cimo de um castanheiro no termo da Gouveia, um outro na Quinta Branca junto ao rio Sabor.
Lembro-me de um garoto no Felgar dizer (Grande Ninhada de Ratos), levando logo um estaladão de um GNR, saído do Jipe.
E se a memória não me falha o Jornalista R.R. Entrevistou o Palma Inácio para o Jornal a “Capital” há quatro ou cinco anos, sob o título " O último revolucionário romântico.

Anónimo disse...

Fico de algum modo emocionado com a coragem do Rogério Rodrigues de trazer aqui a notícia da morte do Palma Inácio. De há muito fazia parte do meu rol de memórias a sua prisão na minha , sublinho a minha terra, por acção de alguns esbirros que o denunciaram nesse episódio do carro avariado na praça.Devo dizer, e não tenho qualquer problema com isso, que depois e durante algum tempo entre 197
( já vários membros da LUAR estavam presos em Caxias) fui o correio de correspondência para diversos exilados da LUAR e familiares de outros em Bruxelas, Anvers e Lovaina, porque a PIDE controlava toda a correspondência dos presos e até a mim próprio.Nessa altura tinha necessidade de me deslocar a Bruxelas com frequência por causa de um trabalho de investigação que estava a desenvolver e levava a correspondência na mala e às vezes alguns objectos pessoais e fazia a distribuição na estação central de comboios de Bruxelas e em Anvers, em casa dos sogros de um elemento da LUAR que não quero revelar.
Quanto à qualidade humana do Palma Inácio a história o julgará.Os amigos, como o Rogério, já o definiram como um homem bom e idealista.Da minha parte, e nessa altura da minha juventude, compartilhei à minha maneira o sonho de liberdade que muitos como eu acalentavam - por vezes pagando com a vida, outras vezes com um duro exílio.
Daniel

Anónimo disse...

Li há dias a notícia da morte de Palma Inácio no JN. Num apontamento biográfico, dizia-se, a dado passo, que uma das últimas vezes que fora preso o tinha sido quando ia a caminho da Covilhã, para se tomar a cidade. Na realidade parece-me que o objectivo era apenas um pequeno quartel que lá havia. E é neste passo que há a omissão do episódio de Moncorvo, onde se deu a captura, não pela PIDE, como aí se escreveu, mas pela GNR. Um parente meu, da GNR de Freixo, participou na caça ao homem que, de facto, se deu na "Fragada" dos Estevais da Vilariça. E, contou-me ele, rapou um dia de fome à conta disso. Pior ainda: praticamente quem tinha apanhado todos os foragidos havia sido a Guarda de Freixo, mas quem então recebeu um grande louvor foi a GNR de Moncorvo, o que motivou a indignação dos soldados da GNR frexenistas. Mas, como quem ri no fim ri melhor, dá-se o 25 de Abril e então os guardas de Freixo quando encontravam os colegas de Moncorvo sempre lhes diziam: "Pois eles agora vêm aí, e vão querer saber quem foi que os apanhou! nós não tivemos nada a ver com isso: os que levaram o louvor é que foram! Portanto agora amanhai-vos!"
Como disse o Rogério, o espaço do calabouço (a que chamavam o "porão") ainda permanece no Museu do Ferro, com a mesma fresta gradeada e a mesma porta. Todavia foi tudo arranjadinho e agora é quase uma "suite", bem longe dos tempos em que aqui pernoitaram Palma Inácio e os seus camaradas, enquanto esperavam a chagada da PIDE que depois os terá levado para Lisboa. Quando a GNR saíu do quartel velho (agora museu), por volta de 1990, ainda lá estava o catre e uma espécie de latrina. Hoje é difícil imaginar os maus tratos e abusos que aí terão sido cometidos´.
n.

Anónimo disse...

Correcção ao meu comentário:
" entre 1971 e 1972".
Daniel

josealbergaria disse...

Em comentário ao passamento de Palma Inácio, outro lutador, Edmundo Pedro, disse, mais ou menos isto: " A nossa sociedade, que é muito preconceituosa, nunca lhe perdoou ter assaltado o Banco de Portugal na Figueira da Foz, no tempo do fascismo".
Só no primeiro mandato de Jorge Sampaio como Presidente da República(creio eu) foi possível convencer o Chanceler das Comendas e das Ordens Honorificas a atribuir-se-lhe a Ordem da Liberdade!
Há mais incongruências destas.
Ainda recentemente, S. Excelência, o actual morador no Palácio de Belém, que, como P.M., se tinha recusado a atribuir uma pensão a Salgueiro Maia (outro dos nosso heróis românticos), por serviços excepcionais prestados à pátria (mas, ao mesmo tempo, atribuia pensões a dois ex-inspectores da PIDE)no últimop 10 de Junho, em Santarém, homenageou Salgueiro Maia e entregou à viúva uma qualquer Comenda!...
É assim a história e a vida dos homens... heróis ou não.
A história que o n. conta da guerreia entre os GNR's de Freixo e os de Moncorvo, a pretxto louvor por teram caçado o Palma Inácio e companheiros...dava uma bela de uma história...digo eu.
J.A.

paulo patoleia disse...

Em 1967 vindos da Covilhâ onde estiveram reunidos, com os trabalhadores fabris dos lanifícios mais o Emídio Guerreiro e pararam em Torre de Moncorvo, a escassos metros do Banco Nacional Ultramarino, em contramão, O recém falecido activista Palma Inácio e mais 5 companheiros num mercedes preto, modelo 190D, dois sairam do veículo, entre eles o Palma e dirigiram-se à praça das regateiras, onde compraram melões. Entretanto o Polícia Serra dirigiu-se aos restantes, que eram estudantes, que ficaram a aguardar no carro, por o mesmo estar mal estacionado. Estes pensando terem sido reconhecidos, mostraram a lgum nervosismo e iniciaram a defesa e fuga, havendo troca de tiros. Um desses tiros acertou no péda filha da Rendas do Larinho de raspão e fugiram todos em direcção ao Sabor, optaram por subir a fragada da Cardanha em direcção á Gouveia, desconhecendo eles tais caminhos foram parar a um sítio sem saída. O comandante do posto da GNR apareceu com a melhor arma uma metralhadora ligeira, que só conhecia dos filmes e o tenente de Urros aprontou-se logo para os perseguir e foi o primeiro a seguir no seu encalço com alguns populares e dois polícias no seu taxi. Isto deu-se por volta das 9h30m da manhã e esta história foi-me contada na 1ª pessoa a que tudo isto assistiu de nome Viriato, esse mesmo o da farmácia, para que sirva ao reavivar da memória e apurar a verdade do que se passou nesse dia em Torre de Moncorvo. À memória também por este grande defensor da Liberdade e um Grande Homem de nome Palma Inácio.

Camilo Alcoforado disse...

O peido. Vem a propósito este preciosismo policial, na praça Francisco Meirelles, que remonta a essa época numa ronda nocturna a pé, feita a dois por esses agentes de autoridade, que para não variar se mantinha por perto de olho na rapaziada da tertúlia e dos copos. Ora bem, sentindo por perto os ditod agentes alguém soltou um sonoro peido. O polícia abordou o grupo, no sentido de apurar quem foi o autor para lhe passar o respectivo oitenta e crôa, como resposta houviu-se um sonora gargalhada geral. Lembro-me de pertencer a esse grupo de estudantes o actual Vice presidente da Camara, Zé Brasileiro, o Toni americano, o Eduardo filho do Tiuo adelino Barbeiro, o Paulo Patoleia, o Rei, O Viriato e o Manelzão entre outros. Como a resposta não foi a esperada, a retaliação não demorou mais que uma hora e foi com uma satizfação espelhada no rosto dos agentes, quando reencontraram este grupo de amigos a meia noite e um quarto, portanto um quarto de hora para lá da permitida, e foi um bota abaixo de multas a oitenta e crôa para os prevericadores e uma a dobrar para o dono do café, neste caso o Angelo Morete, que com a frontalidade que se lhe conhece lhe retribui com estas palavras; «Mamões! havéis de cá voltar mamar coelhinhos bravos á minha pala....» Os Meus agradecimentos ao Rogério por este oportuno post e ao
integro Homem que foi Palma Inácio que após o 25 de Abril nunca reclamou para si qualquer pelouro da democracia que ajudou a conquistar, e já que os conservadores dos bons costumes não lhe perdoaram o assalto ao banco da Figueira nos perdoe ele a nós «os moncorvenses» por ter sido aqui preso por estes agentes do peido.

rogerio rodrigues disse...

Caro Patoleia, o Emídio Guerreiro não terá estado na reunião. A LUAR com este nome surge apenas após o assalto ao Banco da Fugueira da Foz ( os assdaltantes eran, na maioria, algarvios), num artigo em Le Monde. O nome, LUAR (LIga de Unidade de Acção Revolucionária) esse sim foi criado pelo Emídio Guerreiro, Augusto Seabra e Fernando Echevarria. Conheço o contacto da LUAR na Covilhã. Já morreu, mesmo assim, não quero dizer o seu nome. Quanto à história do "tenente" de Urros é verdade. Na altura da prisão em Moncorvo, eu estava em Paris. O assalto não era propriamente para a tomada da Covilhã, mas antes para a tomada do quartel que tinha apenas 12 militares, quartel que é hoje um dos edifícios da UBI ( Universidade da Beira Interior). É também verdade a história do homem pendurado num castanheiro. Mas também não deixa de ser verdade que estava armado e não disparou. UM dos colegas de porão na GNR, hoje Museu do Ferro, também selvaticamente agredido, foi o Pereira Marques, actualmente professor de História Contemporânea da Universidade Nova. Desafiou-me para escrever a biografia do Palma Inácio, só que não me atrevi, pois não tenho capacidade económica para um ano sabático, o tempo que me levaria de investigação e de contactos, alguns ainda hoje míticos nos parceiros da LUAR, como o "comandante" e o Zorba. Muito mais poderia ser dito, mas aqui fica este testemunho. Devo dizer, como já uma vez escrevi, que quando me exilei em Paris, o dr. Ramiro Salgado enviou uma carta ao prof. Emíido Guerreiro que eu entreguei em mão, a interceder em meu favor. O prof. Emídio Guerreiro e o dr. Ramiro Salgado tinham sido colegas no Porto em Matemáticas. E é tudo o que, neste momento, posso ou quero dizer.

Anónimo disse...

Agradeço imenso esta lição de "história" recente. Nós, "os mais novos", sabemos tão pouco acerca dela. Obrigada.

Isabel

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