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terça-feira, 21 de julho de 2009

Exposição "Vestígios" - inauguração

Conforme anunciado, foi inaugurada no passado sábado, dia 18 de Julho, a exposição VESTÍGIOS... - Património Arqueológico e Arquitectónico da região de Moncorvo, organizada pelo Museu do Ferro & da Região de Moncorvo em articulação com o PARM, e patrocinada pelo município através da dotação orçamental para o Museu.

Momento da inauguração, dia 18.07.2009 (foto Patrick Esteves/Foto-Bento)

Esta mostra comporta 10 painéis fotográficos, organizados cronologicamente, desde os Tempos Pré-históricos, passando pelo mundo "Castrejo", o período da Romanização (com uma agricultura intensiva, a mineração/metalurgia e a difusão da Escrita), a Idade Média (com as características necrópoles de sepulturas escavadas na rocha, povoados fortificados e aldeias, a arquitectura românica com vestígios na desaparecida capela de S. Mamede do Baldoeiro e a igreja matriz de Adeganha, o castelo e vila de Torre de Meem Corvo), a Idade Moderna (com a igreja matriz de Torre de Moncorvo, a igreja da Misericórdia, a ponte do Sabor, o eremitério da Srª. da Teixeira com os seus frescos, fontes e chafarizes, solares, etc.), os antigos caminhos lajeados (praticamente todos destruídos nos últimos 20-3o anos!), o património rural, a arqueologia industrial e mineira...
Este acervo fotográfico resulta na quase totalidade dos Arquivos do PARM, com bastantes fotografias a preto & branco, com mais de 20 anos. Não são imagens de profissionais da fotografia mas sim de jovens arqueólogos (ou candidatos a tal) que, com entusiasmo, em boa hora registaram valores patrimoniais que hoje não são mais que meros "Vestígios", em alguns casos já desaparecidos.

O Dr. Rui Leonardo (co-organizador da exposição) explicando o painel sobre o período "castrejo" (Idade do Ferro) na região (foto N.Campos)
Além das fotografias, complementam a exposição uma série de objectos, que começam logo a aparecer no início do percurso, ao entrar-se na galeria do Museu que dá passagem para os jardins das traseiras: uma pedra decorada românica proveniente da desaparecida capela de S. Mamede (Baldoeiro); um pequeno sarcófago medieval recolhido na Adeganha, nos anos 80, várias pedras da igreja de Santiago da Torre de Moncorvo, a primitiva igreja do povoado, ainda antes de ser vila (referida nos meados do séc. XIII) , etc., e, finalmente, no interior do auditório, mais peças em granito, em xisto, machados polidos, cerâmicas, moedas, etc. Tudo disposto de forma a contar uma história, a história da nossa região nos últimos 15 a 20.000 anos... uma longa viagem aqui resumida através de uma série de Vestígios...
Logo no início é feita uma evocação dos pioneiros que estão na base dos primeiros reconhecimentos arqueológicos realizados na região, desde há mais de 100 anos: Abade José Augusto Tavares (1868-1935), Professor Santos Júnior (1901-1990), Professor Adriano Vasco Rodrigues, entre outros, culminando no aparecimento do PARM em 1983, no seguimento dos primeiros trabalhos individuais e incipientes de um dos elementos do grupo. Este grupo informal só viria a adquirir a fórmula jurídica de associação sem fins lucrativos (que ainda hoje mantém), por escritura pública celebrada em finais de 1986.

O Presidente da Câmara, Engº Aires Ferreira, observando atentamente a exposição (foto Patrick Esteves/Foto-Bento)

A última grande exposição sobre Arqueologia e Património edificado da região foi organizada pelo PARM em 1986 (sendo reeditada em 1987, a pedido do município, por ocasião de uma visita do então Presidente da República, Dr. Mário Soares). Algumas imagens agora patentes foram aproveitadas dessa mostra, obviamente noutro tipo de suporte. A ideia da exposição surgiu no início do ano de 2009, após a entrega do relatório e ficheiro do inventário arqueológico do concelho para o novo PDM. Após se terem revisitado os Arquivos e ficheiros da associação, entendeu-se pertinente voltar-se a fazer um novo balanço dos conhecimentos, até porque se poderia constituir um embrião da sala de Arqueologia e História que desde sempre esteve prevista no âmbito do Museu do Ferro & da Região de Moncorvo.
A razão de ser neste período do ano prende-se com o impacto que se pretende dar ao evento, uma vez que durante o Verão é sempre maior o número de visitantes, quer sejam moncorvenses que se encontram a trabalhar fora e que "vêm à terra" nesta época, quer sejam turistas de outras paragens, interessados em alternativas ao "sol e praia".

Aspecto geral da exposição, no auditório do Museu do Ferro & da Região de Moncorvo (foto Patrick Esteves/Foto-Bento)
Esperamos manter esta exposição com carácter programático e permanente até à organização da sala de Arqueologia & História do Museu. No entanto, como é possível que algumas peças venham a ser recolhidas por motivos de conservação, recomendamos vivamente a sua visita quanto antes, aproveitando este período de férias de Verão. De caminho pode dar um salto ao Centro de Memória e saber mais sobre a história contemporânea de Torre de Moncorvo, complementando a sua viagem temporal. - Pode crer que depois de estar na posse destas "chaves de leitura" vai apreciar melhor os monumentos, o urbanismo, as paisagens e as pessoas. Depois dessa introdução, terá decerto entrado no espírito da terra... desta terra.
Para saber mais, ver o blogue do PARM: http://parm-moncorvo.blogspot.com/

6 comentários:

wanda disse...

Olá!
Mais uma vez, parabenizo os idealizadores e colaboradores desse importante evento.
As pesquisas das raizes de um povo e sua história , são de máxima importância , seja no campo intelectual ou espiratual!
Estimo que a cada ano cresça mais esse documentário.
Abraços
Wanda
São Paulo, 21 de julho de 2009

Anónimo disse...

Só me ocorre dizer que por esses cartazes, essas peças, essas fotografias,essas "chaves" como lhes chamais, está muita da nossa identidade.
Não subestimemos o passado. Sobretudo quando nos é mostrado - e explicado.
Das faldas do Coa, aos berrões draganos, aos celtas, aos romanos mineiros, aos medievos da terra velha, aos marranos, a todos devemos homenagem e respeito. Mal de nós se vivermos só de foguetório e bandas .
Daniel

Anónimo disse...

O nosso agradecimento aos Amigos Wanda e Daniel pelo seu estímulo ao nosso trabalho ainda hoje tão incompreendido e por muitos tido por inútil. Daí que me permita recomendar-lhes a leitura de um interessante quanto importante livro de Guilherme Oliveira Martins, "Património, herança e memória - A cultura como criação" (ed. Gradiva, Lx., 2009), que anunciámos no blog do PARM: http://parm-moncorvo.blogspot.com/2009/07/aquisicao-para-biblioteca-do-parm.html
Logo a abrir, o autor escreve: "A cultura ganha uma nova importância na vida política e económica contemporânea. O desenvolvimento humano não é compreensível nem realizável sem o reconhecimento do papel da criação cultural, em ligação estreita com a educação e a formação, com a investigação e a ciência. O que distingue o desenvolvimento e o atraso é a cultura, a qualidade, a exigência - numa palavra, a capacidade de aprender." - Não os vou maçar mais com outras não menos interessantes citações. A páginas tantas o autor reflecte sobre o Património Cultural em geral, a necessidade da sua preservação e as questões de "valor" e de "norma" (aliás, o livro publica no final a versão em português da Convenção-Quadro do Conselho da Europa relativa ao valor do Património Cultural para a Sociedade, assinada em Faro, em 27.10.2005, e aprovada pela resolução da Assembleia da República portuguesa, nº 47/2008, de 12.09.2008, public. in D.R. nº 117, série I, 12.09.2008).
Todavia, a meu ver, a "norma" emana da valoração que a sociedade no seu conjunto faz do elemento patrimonial. E, a este nível, a definição de Património cultural, logo à partida, como um conjunto de "recursos" (artº 2º da citada convenção) parece-me algo perigosa. Não sei porquê, isso de "recursos" faz-me lembrar algo parecido com o petróleo. Como também algo perigosa me parece ser a premissa do preâmbulo em que se salienta o valor e as potencialidades de um Património cultural bem gerido, enquanto fonte de desenvolvimento sustentável e de qualidade de vida numa sociedade em constante evolução". - A despeito da bondade da causa (e não admira que G. Oliveira Martins não seja crítico, rendido que está ao documento), acentuo a parte da "sociedade em constante evolução", que pode até funcionar em favor de eventuais desclassificações do referido Património cultural, num cenário em que o valor cultural conflitue com outro tipo de valores (que sabemos quais são).
Em todo o caso o livro merece uma leitura atenta, assim como o próprio texto da Convenção. A angústia que me fica destas leituras, é que, por um lado, temos reflexões que planam nas altas regiões da estratosfera do pensamento sobre estas coisas; por outro, temos uma realidade social e cultural que não se compadece com estas "filosofices". A ideia de se repetir uma exposição deste tipo, 24 anos depois de uma outra, similar, na Misericórdia, e 23 depois da sua reedição no Mercado Municipal, tinha/tem por objectivo medir também o grau de interesse das pessoas locais pelo Património, nomeadamente arqueológico, tentando avaliar se houve ou não uma evolução/involução. As exposições de 1985 e 86 foram realizadas em espaços que não museológicos (a simples ideia de existência de um museu era um sonho remoto, longínquo mesmo, sabendo nós do fracasso da ideia do Abade Tavares, em 1895, quando defendeu a criação de um "museu archeológico" em Moncorvo). Neste plano, é inquestionável que houve uma evolução. Agora temos que averiguar, no decurso das visitas à exposição (temos um livro de opiniões para o efeito), o grau de interesse (e de conhecimento) das pessoas sobre este assunto, sendo certo que, à partida, os que visitam estes espaços são os mais interessados.
O facto de pretendermos que esta exposição seja de longa duração, pode vir a funcionar como um instrumento de motivação e de captação de novos públicos, a começar pelos estudantes, logo que se inicie o novo ano lectivo. Que há um longo trabalho a fazer, disso não há dúvida, e o Museu existe para isso mesmo. Aguardamos a visita de todos os interessados (e sobretudo dos desinteressados!)
N.

jose albergaria disse...

Caro N.,
Ainda não li o livro do bisneto do nosso grande Historiador Oliveira Martins e fracassado ministro das finanças (curioso que o bisneto também o foi, mas não se desempenhou tão mal quanto o bisavô), mas já o comprei.
Entretanto acabei, nas minhas modestas andanças académicas, um seminário anual sobre "vandalismo patrimonial de oitocentos" e descobri autores portugueses, e alguns estrangeiros:
-CHOAY, Françoise, Alegoria do Património, Colecção “Arte e Comunicação”, Lisboa, edições 70, 2008;
-DE QUINCY, Quatremère, Lettres à Miranda sur le déplacement des monuments de l’art de l’Italie (1796), Paris, Editions Macula, 198;
-RÉAU, Louis, Histoire du Vandalisme : les monuments détruits de l’art en France, Paris, Coll. Bouquins, Editions Robert Laffont, 1994 ;
-CHASTEL, André, La vie d’artiste selon Vasari, Les Collections de l’ HISTOIRE, p.p. 40 a 45, Paris, Avril-Juin 2009;
- RAMOS, Paulo Oliveira, « O Alvará Régio de 20 de Agosto de 1721 e D. Rodrigo Anes de Sá Almeida e Meneses, o 1.º Marquês de Abrantes”, Blogue HISTÓRIA DO PATRIMÓNIO, publicado a 1 de Maio de 2007;
– ALBUQUERQUE, Luís da Silva Mouzinho de, Memória Inédita Acerca do Edifício Monumental da Batalha, Leiria, Typographia Leiriense, 1851;
- HERCULANO, Alexandre, Monumentos Pátrios. 1838, in Opúsculos Tomo II, Lisboa, 1838;
- VITERBO, Sousa, Archeologia industrial Portuguesa, in “ O Archeologo Português”, Vol. II, Agosto e Setembro de 1896, n.ºs 8 e 9, p.p. 193 a 204, Lisboa, edição do Museu Ethnographico Português;
– FEIJÓ, António M., Monumentos Nacionais, in Colóquio/Letras (Revista Trimestral), p.p. 229 a 240, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1991;
– ORTIGÃO, Ramalho, O Culto da Arte em Portugal, Lisboa, Esfera do Caos, 2006;
– Noticia in OCCIDENTE, 12.º Ano, Volume XII, Nº 375, Lisboa, 21 de Maio de 1889;
– VITERBO, Sousa, “A Torre de Belém”, Lisboa, in Diário de Noticias, 17 de Setembro de 1896;
– LARCHER, Fernando, “Relatório Projecto de Lei Conservação dos Monumentos e Objectos de Arte”, Diário da Câmara dos Pares do Reino, N.8, Sessão de 27 de Janeiro de 1897, p.p. 79 a 83;
– GUIMARÃES, Delfim, “O Gazometro”, in Arquivo nacional, Lisboa, 1938, p. 341;
Ele há mais material sobre esta problemática, muito mais. Então na actaualidade há Disertações de Mestrado, algumas monografias, Teses de Doutoramento, mas listei estes quantas referências bibliográficas e não só para dizer o seguinte.
A nossa preocupação com o Património é antiga. Somos dos primeiros países a legislar sobre a matéria, mesmo antes dos franceses.
Somos, como todos os povos, madrastos com o nosso património. Os casos de vandalismo, de todo o tipo, são mais que muitos.
Não seria interessante, no quadro da actividade do Museu de Moncorvo, umas palestras, uns "seminários" de sensibilização sobre a problemática?
Eu acho que há muito "expert" disponivel para visitar e conhecer Moncorvo.
Abraço,
José Albergaria

Júlia Ribeiro disse...

Em primeiro lugar um bem haja ao Nelson pelos seus esforços na defesa do Património - neste caso - arqueológico da região e, pelo que me foi dado apreciar, muito bem sucedidos. Parabéns, Amigo.
Ainda bem que a exposição é de longa duração, porque em Setembro aí estarei.
O que eu aprendo, corrigindo, o que todos aprendemos com a leitura dos textos do Nelson! Mais aprenderei quando vir a exposição.
Um grande abraço.
Júlia

N. disse...

Caríssimo José Albergaria,
Muito obrigado pelo seu comentário (aproveito para agradecer também à Drª Júlia) e pela preciosa bibliografia que nos enviou sobre o tema do Património e sua vandalização. Aluns títulos são nossos conhecidos, outros foram novidade para nós. Muito Obrigado. Já agorma informo que sempre me interessei pelo tema por causa da destruição do castelo de Moncorvo, no século XIX. Curiosamente no artigo que cita, de A. Herculano, publicado originalmente no Panorama, ele fala dos casos de destruição das muralhas de Santarém e das torres de Moncorvo, chegando a dizer: "na antiquíssima villa de Torre de Moncorvo, hoje Moncorvo só, porquanto deitaram abaixo a antiga torre que dava nome à povoação". _ aqui há dois erros: a "torre" não era uma só, mas duas; e a povoação já se chamava "torre" antes da construção destas torres deste Castelo. Isto não retira que o disparate tenha sido tão grande que até chegou aos ouvidos de Herculano, para aí em Lisboa... Talvez lhe tenha escrito o primeiro defensor do Património que houve nesta terra, o Sr. Jerónimo José Meirelles Guerra, que escreveu também à rainha D. Maria II a denunciar o disparate, a qual mandou a carta para o governo civil de Bragança que, por sua vez, a enviou à câmara de Moncorvo, motivando uma série de ataques desta ao peticionário, no sentido de o desacreditar, explanando depois a justificação da sua decisão com a consabida política dos "melhoramentos públicos"...
Aliás, é esta mentalidade do que apodamos de "deus Progresso", além de alguns aspectos mais políticos (como em França a destruição da Bastilha, ou da abadia de Cluny, ou, mais caseiramente, a destruição dos pelourinhos), que caracteriza a ideologia do Liberalismo. E como toda a acção provoca uma reacção (2ª Lei do movimento de Newton), talvezz tenha sido a consciência de perda que faz despoletar o desejo de "Preservação". É fundamental para este tema aquele outro livro que decerto bem conhece, "O Princípio de Noé, ou a ética da salvaguarda", do Delacroix.
Como vamos fazer uma palestra sobre o património arqueológico e arquitectónico da nossa região, no próprio espaço onde decorre a exposição, no próximo dia 8 de Agosto, acho que seria intressante se o Amigo Albergaria pudesse cá dar um salto. Sabemos que é um pouco longe, mas talvez possa aproveitar a boleia do nosso coumum Amigo R.R.. Acho que poderia dar um contributo muito importante para o debate que sempre fazemos nestas tertúlias.
Grande abraço,
N.

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