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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Júlia e o Constantino

Sendo-me de todo impossível estar no encontro dos blogueiros a seis de Junho por razões que já expliquei em domu próprio, não quero, contudo, de deixar de dar o meu contributo, por pequeno que seja, para o ágape e tertúlia que creio vão frutificar no dia seis. Alguns apontamentos: o José Manuel Remondes, cujos versos têm sido publicados, é meu amigo de infância e fui eu (generosidade sua) que apresentei o seu livro em Moncorvo. Quero dizer do Zé Manel, meu amigo de infância, que é das pessoas mais puras que conheço a par de outro grande amigo que a morte ceifou (deixem-me usar o lugar comum que não é do meu hábito mas que neste caso, falando de um técnico do MAP se ajusta, o AAA Beto como nós dizíamos, por que era gago, o Beto Castelo). Foi em casa do Zé Manel (e eu já era amigo do seu pai, o Zé Emílio que, a trabalhar na Holanda saltou um dia para o campo de futebol para abraçar o Eusébio, como se pôde ver na televisão) que eu comi até hoje as melhores e mais saborosas sanchas, cozinhadas pela sua mulher (uma exímia cozinheira). Recebeu-me com uma hospitalidade que eu não esqueço. Posto isto, vamos ao que interessa. Tem-se falado muito da Júlia Barros na sua vertente ficcionista. Não sendo injusto é uma visão incompleta. Com efeito, o seu livro “Constantino, o Rei dos Floristas, uma Quasi-Biografia, é um trabalho de investigação que só uma formiguinha como a Júlia poderia levar a cabo. Coube-me a honra de ser eu a apresentar o livro nos Paços do Concelho de Moncorvo. Gostaria de partilhar convosco a introdução que eu fiz ao livro, mais como uma pista para a leitura do que outra coisa. Palavras que vou recolhendo do baú informático, onde ainda não encontrei, na desordem em que me ordeno, o texto sobre os versos do Zé Manel. Como em seis de Junho vai estar na minha terra muita gente que não conhece o livro, seria bom adquiri-lo na Biblioteca se é que ainda existem exemplares. É, porventura, uma faceta (a de investigadora) que não conhecem da Júlia. Se lerem o livro vão ficar impressionados, pensando como é que uma fraca figura é tão forte.
Deixo-vos com o texto que na altura escrevi.

Constantino, o Rei dos Floristas

Falar de Constantino é falar de flores artificiais, tão belas que pareciam mais naturais do que as naturais.
Ao contrário do que finge que é dor a dor que deveras sente, o cúmulo do artifício é esconder o próprio artifício.
Sinal dos tempos que, por vezes, hoje se repete de outra forma, de um modo a que não resisto citar.
Trata-se de uma história de uma senhora que estava na bicha de uma grande superfície, acompanhada de uma filha, uma criança muito bela. Enquanto não chegava a hora de pagar entabulou-se conversa e uma outra senhora exclamou: “Tem uma filha muito bonita”.
E a visada respondeu: “E ainda a senhora não viu a fotografia”.
Constantino José Marques, o menino da Roda, a quem na glória, na hipocrisia tão característica desta terra, ofereceram mais de três linhas de ridículos mas sonantes nomes, o florista, mais do que um produto de Moncorvo, o que o conformaria a não passar de criado grave de uma família nobre, de arroto fácil mas cabedal exíguo, é produto da guerra civil que transformou o país e com a vitória do liberalismo questionou a nossa individualidade histórica e colectiva (entre a pimenta da Índia e o ensino dos jesuítas), é fruto do cosmopolitismo apreendido e desenvolvido em 40 anos de Paris e França, com viagens pela Europa.
Constantino, de 1802 a 1873, do seu nascimento à morte, viveu uma das épocas mais ricas, na criatividade e no paradoxo, na ruptura com modelos seculares e na afirmação de um pensamento que haveria de revolucionar o mundo e numa industrialização que havia de extremar as classes, desenvolvimento e progresso ao mesmo tempo que aumentava a miséria.
O século XIX é o século em que tudo é posto em causa.
Provavelmente Constantino morreu sem ler “O Vermelho e o Negro” de Stendhal (1830); gostaria que não houvesse aqui pessoas a imitá-lo. Morreu provavelmente sem ouvir a Nona Sinfonia (1824) de Beethoven, sem apreender o significado e a magnitude do Manifesto Comunista de Engels e Marx (1848), ano em que foram construídas em Portugal as primeiras estradas macadamizadas e milhares de operários morreram na Comuna de Paris; sem se aperceber que “As Origens das Espécies” (1859) de Charles Darwin revolucionou o conhecimento secular e empírico das nossas origens e da nossa evolução.
No ano da sua morte foram escritos outros dois monumentos da arte e da literatura e da utopia do século XIX: “Ana Karenina” de Tolstoi e “A Volta ao Mundo em 80 Dias” de Júlio Verne.

Contemporâneo de Vítor Hugo e Balzac, situemos, contudo, Constantino. Andava por outras paragens em que o artifício, a coqueterie e a camélia branca na botoeira davam distinção.
Sucederam-se as guerras de conquista e hegemonia, os operários foram escorraçados para as periferias, onde criaram cinturas vermelhas, onde se avolumaram miséria e revolta. É obrigatório ler Dickens e Zola.
A burguesia prospera. Tem a banca e a usura. É historicamente confirmado que entre o povo e a nobreza, a burguesia escolhe sempre esta. Por vezes casa os seus filhos e filhas com fidalgotes arruinados e pelo dinheiro que entrega como dote recebe um penduricalho nobiliárquico.

Já vai longe o intróito ao livro de Júlia de Barros, “Constantino, Rei dos Florista, Uma Quasi-Biografia”.
Pela primeira vez, se faz uma abordagem à vida de Constantino, suportada num acervo documental e numa paciência de santa e numa procura em arquivos e terras remotas do sul de França, para aclarar esta presença, brilhante mas efémera que foi a de Constantino, requisitado pelas grandes casas reais da Europa, para tornar bela e convincente a ilusão que há em todo o artifício.
Esta quasi-biografia é enriquecida pela contextualização histórica, no tempo português e no tempo francês, desde a guerra civil entre os liberais e miguelistas, até à Comuna de Paris, com barricadas, metralhadoras e fuzilamentos de todos os homens que vestiam as blusas de operário até à queda de Paris pelos exércitos de Bismarck, em que os partidários da Comuna são chacinados. Morrem mais de 20 mil homens. São presos mais de 50 mil. É neste tempo histórico e neste lugar de luta que Constantino apura as suas flores artificiais, tão enganadoras que a francesa Rainha Dona Amélia lhe dirá um dia (frase que os jornais espalham em primeira página): “As suas flores são tal e qual as naturais. Com a única diferença que estas murcham e as vossas não”.
Júlia de Barros, após uma lúcida – e porque não? – comprometida descrição do tempo histórico em que foi dado viver Constantino, divide a obra em quatro partes: Constantino criança, rapaz, soldado, florista e Rei dos Floristas.
Enjeitado, casado, viúvo aos 25 anos de mulher de 60, miguelista, exilado, adulado por Paris e por uma apoteótica viagem a Portugal, com brinde e elogio de Garrett e banda de música de Moncorvo, Constantino acaba por morrer, isolado, praticamente abandonado, na pequena aldeia de Tercis-Les-Bains, a 800 quilómetros de Paris.
Algo o consolaria na sua certidão de óbito, se a pudesse ter lido, se a morte fosse uma flor artificial: pela primeira vez não é o enjeitado, mas filho de fulano e fulana tal, com um nome que a sua incomensurável vaidade e a não menos incomensurável hipocrisia da suposta nobreza de Moncorvo e arredores lhe deram. Aqui vai, até que o fôlego me falte: Constantino José Marques de Marialva Lopes Pinto e Moutinho Sequeira Coutinho Freire de Sampaio e Mello de Araújo Borges Pereira Costa Bacellar Teixeira de Magalhães e Lacerda.
Obrigado pela obra à dra. Júlia de Barros. Obrigado a vós pela paciência. É tudo, meus amigos.

Rogério Rodrigues

9 comentários:

jose albergaria disse...

Depois de se ler este texto do Rogério fica-se:

1/Sem folgo, tal a qualidade, em modo de enxurrada, literária do mesmo;
2/Com uma vontade danada de ler o livro que ele tão brilhantemente apresentou.
A quem o tiver e mo puder emprestar...eternamente agradecido.
JA

Júlia Ribeiro disse...

Caríssimo Rogério:

Não sei se na altura lhe agradeci pelas suas palavras - que são palavras de Amigo - e pelo texto que , de forma tão brilhante, soube entretecer.(Aliás, característica marcante de todos os seus escritos).
Creio que ainda há muitos "Constantinos" na Biblioteca de Moncorvo, pois o interesse pelo livro não tem sido grande. Julgo que o tamanho da "Quási-Biografia" leva algumas pessoas a pô-lo de lado e, a investigação feita e documentada, é outro dos factores para a rejeição do "Constantino-livro". Também o enquadramento histórico que achei que devia apresentar no início da Biografia parece que assusta uma ou outra pessoa.
Pode ser que, agora que o Rogério chamou aqui no blog a atenção para o "Constantino, Rei dos Floristas", surjam mais interessados na sua leitura.
Quem sabe não será uma das grandes vantagens deste e doutros blogs.

Um grande abraço
Júlia

Anónimo disse...

Porque na altura da apresentação do livro não pude estar presente (afazeres profissionais retinham-me noutras paragens, ao tempo), congratulo-me com este "post" do Rogério contendo a sua apresentação do livro de Júlia Biló sobre o Constantino Rei dos Floristas. Uma apreciação bem ao nível da obra e que desconhecia. Acho que é um excelente complemento da mesma e que poderia integrar uma reedição futura (por isso esperemos q esgote depressa). Na realidade essa "quási-biografia" contém 3 partes essenciais: uma introdução histórica (contextualização) elaborada pela autora; uma biografia romanceada, com vozes, do personagem principal e secundários que com ele se teriam hipoteticamente cruzado; um grosso apêndice documental de suporte, para quem queira construir a sua própria imagem do Constantino.
Na verdade este nosso conterrâneo é, ao mesmo tempo, uma celebridade e um homem comum. Não foi um general, nem um sábio, nem um escritor famoso, nem um político hábil, nem ninguém de berço de ouro... foi antes um artesão, melhor, um artista, um enjeitado mas que singrou, para, logo depois de ter tudo, acabar sem nada. Um homem comum, sendo fora de comum, um soldado da aventura, um anti-herói até certo ponto... Uma existência praticamente paralela de um outro moncorvense distinto, um pouco mais novo, e que este ano completa 200 anos lá para Outubro: o Professor Doutor Júlio Máximo de Oliveira Pimentel. Constantino nasceu em 1802; Júlio Máximo em 1809. Em pouco tempo, dois meteoros moncorvenses que, cada qual a seu modo, riscaram os céus da História. Um deles, consequência de atribulado berço e "postado" na Casa da Roda, tornar-se-ia num soldado miguelista; outro, de família já distinta, sobrinho de general e nascido em solar de traça barroca junto à igreja matriz, seguiria o encaminhamento familiar e militou nos batalhões liberais. O anterior, tendo subido a pulso, sem formação de maior e tendo como único recurso o engenho e a arte, chegou às Cortes de França; outro, empenhou-se nas Ciências, no mundo académico e na política, e recebeu um título do rei de Portugal (apenas Visconde, quando o outro foi aclamado como Rei). Um acabou em glória, com um legado intelectual de renome e família bem alicerçada socialmente. Outro acabou pobre, e não se lhe conhece descendência. É provável que nunca se tenham cruzado (se bem que Júlia Biló refira um imaginário convite para jantar com o Dr. Luís Cláudio de O. Pimentel, pai de Júlio Máximo, e outros ilustres de Moncorvo, aquando da sua visita triunfal à vila). Em todo o caso, vidas desencontradas (que se poderiam ter tocado, ao menos nas Exposições Universais de Paris e de Londres), saídas de um mesmo mundo, que era uma pequena vila transmontana, capaz de gerar, num mesmo tempo, personalidades deste calibre, tão grandes e tão díspares.
Ficam mais estes toscos apontamentos para uma leitura atenta da obra Constantino Rei dos Floristas - uma quási-biografia (Magno Ed., 2003).
N.

Anónimo disse...

Nelson
Brilhante este cotejo de percursos de vida dos dois ilustres moncorvenses. De Constantino florista (curiosamente o meu consultório foi durante bastos anos num prédio de esquina com o Jardim Constantino , em Lisboa, mas só tarde vim a saber quem era esse afamado conterrâneo ) e do Prof. Júlio Máximo de Oliveira Pimentel o "fatum" da vida se encarregou de delinear percursos totalmente diversos.Quanto ao Prof. Júlio Pimentel , cuja grande figura de cientista, homem de cultura e político ( que seguramente não precisaria da benesse de Visconde para ser quem foi) bem merece ser aqui lembrado.
Daniel

Anónimo disse...

Penitência e arrependimento , ou o contrário, não sei bem. Li SÓ a biografia do Constantino. Mas agora vou ler as outras partes.

Um leitor habitual

Anónimo disse...

Também eu. Agora até me envergonho.
Um Moncorvense.

Júlia Ribeiro disse...

Caríssimo Daniel :
Numa de insónia, acabo de ler o seu comment ao post do Rogério "Júlia e o Constantino" e sorri quando diz que, tendo o seu consultório sido juntinho do Jardim de Constantino, só tempos depois veio a saber quem era esse Constantino.
Não é para admirar, pois no dia em que por lá andei a tirar fotografias, ia perguntando a pessoas daquela zona se sabiam a quem pertencia o nome Constantino dado àquele jardim. Nem uma única acertou.
E, pior ainda, o "Guia do Munícipe" (ano de 2000, mas ainda em vigor em 2003) da responsabilidade da Câmara de Lisboa apresentava vários lapsos:
a)começava por lhe trocar o nome - em vez de Constantino José, chamava-lhe José Constantino;
b) em vez de lhe dar a profissão de florista , dizia que era floricultor ;(falei com uma senhora que colaborara no Guia, justamente na secção dos jardins, mas ela achou que florista e floricultor era tudo igual);
c)por último, diziam-no natural de Lisboa em vez de Moncorvo.
Em resumo: não tinham acertado uma.
A minha ida à Câmara de Lx. só tinha como objectivo explicar a necessidade de uma placa com o nome de "Constantino, Rei dos Floristas, natural de Moncorvo". Muito espantada a senhora chamou mais uma outra, sua chefe, e ambas quiseram saber o porquê do meu interesse. Expliquei que estava a a proceder a umas pesquisas a fim de escrever um livro, etc. etc. Acharam que essa coisa de investigação e do livro poderia ser muito interessante para a Câmara de Lx. também, e alvitraram que eu escrevesse uma cartinha ao Sr. Dr. João Soares, então o Presidente da Câmara, pois achavam que ele ficaria muito interessado no assunto e, de certo, ajudaria a patrocinar a edição.
Escrever a carta, escrevi. Resposta é que não tive.
A publicação do livro foi em 2003 e julgo que o Dr. João Soares saiu pouco depois.
Creio que ainda não está placa nenhuma no jardim, ou se está é muito recente.
Coisas à portuguesa...

Um abraço
Júlia

Anónimo disse...

Ao Dr. Daniel agradeço a benevolência da sua apreciação às minhas "bocas" sobre Constantino vs. Júlio O. Pimentel (tem razão, este não precisava do título para ser quem foi, mas era o sinal dos tempos e acho q não quis fazer desfeita ao rei). Sobre o jardim do Constantino em Lx., eu próprio até há pouco tempo desconhecia que era referente ao nosso Constantino. Todos agradecemos as "démarches" da Drª Júlia junto da Câmara de Lx., e achamos que é oportuno voltar-se à carga, até porque agora temos um novo contexto de oportunidd de os chatearmos com outro moncorvense (que até foi presidente da câmara da Lísbia): o dito Júlio Máximo de Oliveira Pimentel, visconde de Vila Maior, cujo duplo centenário ocorre este ano (o Leonel está já em contacto com o sector cultural da câmara lisboeta, a propósito de um livro que eles lá vão lançar sobre os antigos presidentes de câmara de Lx. em q está o nosso Júlio) - por isso, pode ser que agora se importem com o assunto, ao menos por voltarem a ouvir falar de Moncorvo ("onde é que isso fica?"). Ah! e ainda há o pormenor de também terem 2 corvos no símbolo heráldico deles (os da barca de S.Vicente), mais um ponto a favor de uma hipotética geminação T.Monc/Lísbia (não que me agrade muito, mas, na verdade, os lisboetas de verdade não têm culpa daquilo se ter tornado um ninho de corvos, mas de outro tipo...). Por isso fica a proposta!
cps.
N.

Anónimo disse...

Aviso à navegação:
“Cría cuervos, y te sacarán los ojos”

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