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quarta-feira, 6 de maio de 2009

Um poema sem repetição

Tinha-me prometido a mim mesmo não publicar no blogue qualquer poema meu (além do do Horácio Espalho que já tem mais de 37 anos e está pulicado em livro). Mas como fazemos um ano e a melhor forma para mim de celebrar o aniversário é revelar aquilo que, porventura, me é mais íntimo e caro, a chamada tortura poética, a escrita mais inútil, mas a mais importante que eu conheço, glosando o Jorge de Sena um dos meus poetas de referência. Li alguns poemas de que sinceramente não gostei, por falta de oficina e de um certo amadorismo que a chamada e muito controversa "iluminação poética" difilmente aceita. Espero que não me levem a mal, mas garanto-vos que é a primeira e última vez que vos aborreço com um poema meu. Aqui vai, então.

CARTA À NETA

( para a Beatriz ler só daqui a 10 anos)

Natal 2008, celebrado em Palmela


Naquele tempo tinhas sete anos
mais velha do que os pássaros
mais forte do que as flores
mas voavas como os pássaros
e eras mais bela que a beleza.

Naquele tempo tinhas sete anos
alguns enganos e nenhuns desenganos
e os barcos perdidos andavam à procura
das margens ainda por encontrar.
O sol não era luz mas secura
e tão sofrido era o deserto que por perto
nem areia havia para o nomear. Ninguém
conhecia ninguém e os frutos recolhidos
na noite sabiam a estrelas amargas.
Os deuses devoravam deuses, mas tu
caminhavas. Pequena e bela, caminhavas
em estradas que não havia, a futurar.

Naquele tempo tinhas sete anos
e o céu mal cabia no inferno
tão cheio que estava de lamentos
de quem se recusa a acreditar.
E os pássaros enlouqueciam
e as flores frágeis adormeciam.



Passaram as estações como se tivessem passado
e os limoeiros da lembrança foram cortados
a mando dos dias ocultos que nos devastaram.
Nas manhãs calcinadas da alegria, com a quimera
amarrotada na algibeira, penso em ti, como
se o teu futuro fizesse parte do meu passado.
Olho-te amanhã olhando-te hoje, ainda
que a cegueira esteja tão próxima que só sinto
que te estou a olhar sem te ver. Trago
pedras que muito pesam mas não liberto.
Trago feridas, o caos e ternura deserdada
porque para tudo dou nada e a noite sangra
só de me conhecer. Dá-me um gesto para te agradecer.

Naquele tempo tinhas sete anos
e nada havia que não tivesses:
uma lua, um anel de brilho sagrado,
um riso sem mácula, que a madrugada
te acompanhava, amiga e alada
até ao último transporte da alegria.

No crepúsculo da tristeza, lembra-te
dos dias luminosos, quando caminhavas
com as mãos coloridas e lenços brancos
como velas de um navio que tu eras.
Mas o tempo corrupto corrói-nos até secar o osso.
Como te hei-de dizer que fiquei sempre
à porta do infinito com a chave errada?
Se um dia te disserem que passei na vida
como ausência, acredita. E o ausente se diluiu
como fertilizante na terra de ninguém, acredita.
E que dos teus lábios floresçam palavras
sinais de que o voo da borboleta procura
a harmonia e que nas terras altas do castigo
o sofrimento ensaia melodias sem sentido.
Voltarás um dia como folha limpa e branca
para desenhar sonhos que já não posso acompanhar.
Dói-me ter alma e não há segredos para revelar
nem heranças nem destinos. Apenas um viajante
sedentário que sabe nunca chegou a nenhum lugar.
Que os teus olhos não se cansem a olhar a tristeza
mas que as tuas palavras amansem a amargura
e tragam nas suas letras a explicação do silêncio.

Quando passeares na cidade, não te esqueças das montanhas.
Ali se escondem os espíritos, os abandonados pelo tempo,
os banidos ladrões falhados do assalto à alegria.
Serei uma sombra, um nome vago, um morrer
sem memória. Não serei. Obscuro nulo de nada. Talvez um grão.
Estou de abalada para dentro de mim, sem bornal nem seguro.
Mas como eu sonho que um violino me toque como
se eu fosse o violino e a sua melodia. Flor,
deixa-me os espinhos e respira. Sinto que é brisa.

O poço da frescura vai secando. A metáfora sofre
de artrite, o verbo iluminado esmorece, os filamentos
do sonho fundem-se e Deus chegado a esta idade já não me habita.
E a ternura é um lenço sujo que escondo no bolso roto.

Naquele tempo tinhas sete anos
e ainda havia guerras e povos
e gente mal vista que pedia
esmola como sentinela em riste
com granadas de dor prestes a explodir
e nós sem dó ouvíamos cantos e não prantos.

Abertas as pétalas da memória lembro-te como se fosse amanhã
e a chuva no seu ciciar em chão translúcido
não conseguisse apagar as tuas pegadas. Na primeira hora da noite
o caracol voltou a casa e noutros lugares de infância acenderam
a lareira. Há dores que se queimam nestes incêndios antigos.
Retomo a mão que não aguenta o movimento. E recolho-te
à distância, como se jogássemos às escondidas, para enganar
o tempo. Não me vês mas eu vejo-te e mal a mão sossega
num aceno que ninguém aceita. As palavras são tão breves
que não chegam até ti. São tão surdas que ninguém pára
para as ouvir. Descarrego sombras e melancolias, no vício
de julgar que o barro se transforma em ouro e quando
te acenar todas as sirenes do Mundo começam a soar.

O corpo está cheio de apelos, coberto da cinza do vulcão
luz do Mal em áridos campos de erva queimada.
Mas tu voaste sobre a cratera e soubeste histórias
de um vulcão que morreu de tristeza ao ver que o trigo não crescia
e os animais pujantes fugiam da lava fria. Um dia vais saber
o que estava no interior do vulcão: pedras, fogo
proibido e roubado aos deuses, ameaças e ventos com grilhetas.
Hoje é dia de nada e os bêbedos encostam-se aos lugares
mais estranhos da terra, falsas sibilas de hálitos falhados.
Olho-te amanhã como se fosse ontem, no ludíbrio de espelhos
que nos iludem como habitantes do País das Maravilhas
e a Utopia e o Futuro fossem duas aves bem-vindas
no precipício, sedutoras como a Morte que se esquece.

Naquele tempo tinhas sete anos
mais que ter eras o tempo de ser
e não havia flores que te não cheirassem
nem pássaros que te não cantassem.
E os passos que davas eram mais
do que passos: longa viagem sem terminar.

Escrevo-te esta carta como se o tempo já tivesse passado
sobre ti e parado em mim. Não acredites no tempo
e na sua ilusão. Amanhã julgarás que ontem não foi diferente
do que julgas. Mas foi. Na penumbra a música
começa a chover com remos ao fundo
para viagens sem destino até ao quebrar
da quilha ou o rio transbordar das margens.
Olha como são antigos os mitos e bebemos sangue
fartos das promessas de mel e leite e água pura.
Queria que soubesses que o Mundo não vai acabar
que só acaba quando nós acabamos, um a um,
flores pisadas quando todos correm em direcção ao terror.
Amanhã já o braço me pesa para te dizer adeus
já os olhos te confundem com uma flor boiando no lago.

Escrevo-te esta carta para leres quando já não existirem cartas
e se acreditares na Idade do Ouro eu também acredito
ainda que não acredite. Mas tu és a crença e a minha
senha para qualquer outro lugar. Deixemos que os mortos
nos esqueçam e com os teus olhos contempla os vivos
e com as tuas mãos liberta o vento e exalta os dias.
As trevas aproximam-se. Ouvem-se no silêncio.
Trazem contas para ajustar. Não temas. Canta e
ilumina as trevas e embala o silêncio
até ele morrer. E canta, canta com paixão
e compaixão pelos que já estão proibidos de cantar.
Escrevo-te esta carta à beira do cais, à espera
de um barco que não há meio de chegar.

Naquele tempo tinhas sete anos
que ninguém mais pode inventar.
Os dias eram curtos para tanto sonho.
O tempo que demoraste aqui chegar!
Já demos a volta ao mundo
está na hora de regressar. Os
que já entardecem, saúdam-te.
Vá, acorda, começa a madrugar.

Rogério Rodrigues
26/28 de Dezembro de 2008.

8 comentários:

Daniel de Sousa disse...

Caríssimo Rogério
Acabo de ler um dos mais maravilhosos, profundos , comoventes poemas que alguma vez li em toda a minha vida.
Já não não falo da oficina da escrita - uma escrita contida,justa, envolvente, sábia- mas do seu humaníssimo significado . Este foi talvez o momento culminante do Descoberta. Agradeço o ter compartilhado com todos nós esta deslumbrante e inesquecível manifestação de generosidade moral.
Daniel

Júlia Ribeiro disse...

Rogério, Amigo:
Ainda bem que tomou a decisão de colocar este poema no nosso Blog. É do mais belo que conheço. (Creio que já lhe tinha dito). E também penso que é uma pena privar leitores de se comoverem: “Trago feridas e caos e ternura deserdada” , de sentirem o desassossego que mora na alma do poeta: "Dói-me a alma e não há segredos para revelar/ nem heranças nem destinos", até à dor pungente da sua condição humana : " Fiquei sempre/ à porta do infinito com a chave errada" . E sobressai como uma papoila num trigal o contraste com a esperança implícita na história feliz que conta para a neta: "Mas tu voaste sobre a cratera e soubeste histórias/ de um vulcão que morreu de tristeza a ver que o trigo não crescia/ e os animais pujantes fugiam da lava fria". Ou o júbilo solto perante a beleza de Beatriz e a luz que dela irradia: “Naquele tempo tinhas sete anos/ [...] e eras mais bela que a beleza “ ; “[..] Canta e/ ilumina as trevas e embala o silêncio ...” Vejam-se novamente as estrofes nº 5 e nº 12 .
Aliás, leia-se o poema todo uma dúzia de vezes e ficaremos com a certeza de que há sempre algo de novo e extraordinarimenta belo a descobrir. Seja na música das palavras, seja no sentido, na metáfora , no ritmo, na cadência..., “... e a chuva a ciciar em chão translúcido...” ; “que as tuas palavras amansem a amargura...” “Obscuro nulo de nada “ , etc , etc.
Não tenho a pretensão de, em meia dúzia de linhas, fazer a análise da poesia.
Só quero deixar bem claro que considero que este poema é um legado que , não só pertence à neta, Beatriz, como agora pertence a todos nós, amigos - transmontanos, monvorvenses e outros - que tivemos o privilégio de o ler.
Bem haja, Rogério. É uma felicidade poder chamar-lhe Amigo.
Júlia

Anónimo disse...

Obrigado por este lindo poema e por o partilhar com os pequenos mortais e nos presentear com momentos assim. Apenas perfeitos.
AC

Anónimo disse...

Caro Rogério:

Um Poema de sabedoria.
Obrigado pela partilha.

J. Rodrigues Dias

Anónimo disse...

Do melhor que li de R.R., sem dúvida. Parabéns!
Os meus precedentes já disseram tudo (ou quase), mas permito-me apenas salientar os versos seguintes:

“Quando passeares na cidade, não te esqueças das montanhas.
Ali se escondem os espíritos, os abandonados pelo tempo,
os banidos ladrões falhados do assalto à alegria.”
- É a montanha como o lugar das raízes, das referências, das cinzas dos “mayores” (no sentido hispânico) de cada um. Há sempre uma montanha atrás de cada um de nós, há vinte, quarenta, cinquenta, cem anos, ou há mil, dois mil ou 10.000 anos atrás. E a montanha é também, tem razão o Poeta R.R., o lugar do homizio, dos que falharam a vida. Se não o Peredo, pelo menos Urros, Mós, Freixo, etc. – todavia lugares de liberdade, apesar de uma liberdade cruel e bárbara, onde também vigoram leis de mais forte, as leis dos fora-da-lei.

De ressaibos borgianos os versos em que diz:
“Serei uma sombra, um nome vago, um morrer
sem memória. Não serei. Obscuro nulo de nada”
- Ibant obscuri sola sub nocte per umbram, cantou Virgílio, na Eneida…
Parece uma despedida, longe vá o agouro, apesar de todo o poema ser de toada muito soturna, melancólica e até triste. Beatriz compreenderá, sem dúvida, um dia, mas precisará mais de 10 anos para o poder captar (talvez quando tiver 70 e tais, e se este sentimento filosófico, este pathos que herdámos do mundo grego-latino, com tempero de judío-cristianismo cultural, mesmo que em espírito que se pretende laico, ainda persistir em tempos futuros do século XXI). Para já, é ainda muito cedo para o avô R. tanger violinos, se bem que deva alertar Beatriz para os perigos que a espreitam, na floresta de enganos que é a Vida, e tendo em conta as nuvens cinzentas que pairam no horizonte, sobre o mundo ocidental (reedição do Declínio e Queda do Império Romano?? - ninguém melhor q o autor para nos responder). Todavia, o perigo, as desilusões, os desencantos, são escolhos de todos os caminhos e em todas as Eras… Viver é fazer uma corrida de obstáculos. A Felicidade (ou infelicidade) só depende da nossa atitude perante a Adversidade. A meta são os Sonhos, a força invisível que nos puxa para diante, mesmo quando somos tentados a sentarmo-nos à beira da estrada.
No dia em que morrerem os sonhos, aí sim, estaremos condenados ao fim. – Que fique também esta minha mensagem para Beatriz… (ah, e que ela não se esqueça da Montanha, ainda que esta possa ser, nesse tempo, um lugar deserto e cinzento, ao lado de um vulcão extinto, ou de um lago parado…). Bjs. e abraço,
N.

Anónimo disse...

Depois de ler este poema, não sei por onde andam os meus sentidos, por onde vagueia o meu instinto nem sou capaz de achar a "razão". Perdi-me na profundidade do poeta, perdi-me e ainda não sei por onde vou....

M.S.

Anónimo disse...

Na praia da Nazaré / houve um grande burburinho/ Toda a gente de roupão / e D. Fuas de Roupinho.

Viva o blog! Viva a Democracia! Viva a sopa de letras!

Todos temos o direito inalienável de nos exprimirmos : em prosa e em verso/em prol do universo.Há quem se exprima em Poesia.Parabéns, R.R.

Anónimo disse...

Poeticamente habita o homem na Terra...
Foi um, para muitos maldito e para outros da estirpe dosm génios, que o escreveu, o disse (ou recuperou, que, afinal, nunca ninguém, inserido numa cultura e numa tradição, mesmo pondo-a de certo modo em causa, acrescenta nada de inteiramente novo, há uns séculos para cá, a não ser sobre matério micro ou macro, sem mega e sem meso): Heidegger, provavelmente em Carta sobre o humanismo, um texto aparentemente fácil de ler.

Quando a gente está aflita e tem quintal, courela ou leira compostos para a sobrevivência básica decente, na cidade ou na aldeia, pode sempre, recomendavelmente, deitar mão de sentimento que religa, à beira do pélago, porém evitando-o (a não ser que se esteja essencialmente perante a salvação da hipótese postergada de rupturas quase consentidas, acontecidas e a acontecer).
Carlos Sambade

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