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domingo, 3 de maio de 2009

Staline e a igreja

Peço desculpa por esta insistência, mas os últimos acontecimentos, do Primeiro de Maio e outros, levaram-me a uma reflexão cuja publicação ponho à consideração do administrador do blogue. Qualquer que seja a decisão que ele tome, aceitá-la-ei de bom grado, ainda que pense esta reflexão pode ser útil nos tempos que correm. Aqui vai:

Sem me querer envolver na polémica sobre o stalinismo - pensando eu que a existência e defesa do dogma não são boas conselheiras - sempre me apetece dizer que o estalinismo e - porque não?- o leninismo, têm na sua prática similitudes com o catolicismo. Têm os seus mártires, seja do nazismo e fascismo, seja dos imperadores romanos, têm as suas certezas como absolutas e que hão-de vencer no futuro, mesmo que o presente seja de derrotas. Staline estudou para pope (padre), a Passionaria (santa maria das Astúrias que deu o nome de guerra a Dolores Ibarruri) era uma devota até à sua reconversão já próximo da idade adulta; Cunhal teve, por parte da sua mãe, uma esmerada educação católica. Ambas as crenças ou dogmas admitem que a principal razão lhes pertence. Mataram em nome da razão e da fé (fosse ela 'revolucionária' ou apenas religiosa), na Inquisição e no Goulag, acreditaram-se sempre como vanguardas, seja na luta contra os infiéis, seja no combate a todos aqueles que acreditam e acreditaram que as "liberdades colectivas", "amplas liberdades" no eufemismo, não podem de modo algum esmagar, como esmagaram, as liberdades individuais. Milhões de mortos seja nas fogueiras dos torquemadas ou nos nos campos de concentração estalinistas, retiram a qualquer um deles (Igreja ou comunismo que nunca chegou a haver) qualquer superioridade moral, qualquer dimensão ética, enquanto colectivos e instituições. Não ponho eu em causa que na Igreja Católica, quer nos partidos comunistas, não haja excelentes pessoas, de irrepreensível conduta. O que está em causa não é qualidade do indivíduo, o que está em causa é uma ideologia que, em seu nome, pode levar um homem bom a matar outro homem bom. Um carrasco pode ser um pai exemplar, que não significa que deixe de ser carrasco; um homem livre, vítima do carrasco, pode não ser um pai exemplar, o que não significa que deixe de ser um homem capaz de ser livre. Ao nazismo e ao fascismo, na sua barbárie, devemos acrescentar o "comunismo" de Staline, na sua necessidade de matar os outros, em nome de uma utopia em que ele próprio não acreditava. Podemos acrescentar Pol Pot, a Coreia de Norte, a China e tantos e tantos atentados à dignidade humana. Penso que os pedidos de perdão sobre um passado não são suficientes se não forem claramente condenados por uma prática presente. Que me interessa que se condene Staline se se continuam a utilizar métodos stalinistas (não obviamente com o terror e a morte, que os tempos são outros e o poder é outro); que me importa que o Papa peça desculpa por Galileu, pelos queimados na Inquisição, pelas guerras que fomentou, se, nos seus métodos, já sem Inquisição nem poder temporal, continua, porém, a tentar impor valores morais (tão dogmáticos que não permitem a dúvida), a sociedades profanas, seja ela qual for a sua ideologia, e a condicionamentos e restrições das liberdades individuais? Vivemos um tempo de inquietação e dúvida, sem certezas, apenas com algumas convicções, com a necessidade de um aprofundamento ideológico em que o religioso não esmague o laico, ainda que a espiritualidade aprofunde o conhecimento do homem. As religiões inquietam, sejam elas quais forem, no Médio Oriente, nos USA ou, mesmo na Europa, porque querem condicionar a política e servir de freio e constrangimento à liberdade do homem, ao seu pensamento e ao seu protesto.

17 comentários:

Anónimo disse...

Bemvindos ao blogue que estava adormecido!!
Infelizmente não posso concordar com o Rogério quando compara coisas não comparáveis. A vertigem sanguinária e homicida do estalinismo e do nazismo ( que incorporaram o próprio sistema e dele fizeram uma orgia do poder incontrolado e do ódio )nada tem a ver com a repressão inquisitorial da Igreja, símbolo negro de um obscurantismo fanático . Têm contextos históricos, culturais e ideológicos distintos. O juízo histórico está feito.
A liberdade, como bem supremo, não existe . É um bem ideal e a liberdade total é o caos total.
Hegel apenas reinventou S. Agostinho no que este entendeu do contínuo fluir do tempo e na necessidade de coincidir com ele. Há o celeste e o terrestre, há o sagrado e o profano. Talvez o que Deus actou na história humana. Talvez o sentido da imperfeição olhando a eternidade.
Daniel de Sousa

Anónimo disse...

Gracias Rogerio, me doy por agradecido al considerarme uno de los vuestros. Creo que para comentar estas entradas tan bien traídas a cuento, habría para un mes entero.
Ninguno de los personajes que comentas, se hubiera dejado matar porque se salvase la humanidad. Nunca serían mis ídolos. Ni de uno de otro bando.
Los biógrafos e históriadores de todos ellos, nunca han sido objetivos. Unas veces por simpatía y otras por animadversión.
Ni siquiera los que mas han investigado al único que se hubiera dejado matar por lo anteriormente dicho. Exacto, Jesucristo.
Cuando Cervantes pone en boca de Sansón Carrasco la diferencia entre el historiador y el poeta, dice que este último puede contar las cosas no como fueron sino como debían ser. El historiador las ha de escribir no como le gustaría que hubieran sido sino como fueron.
Y añade, que a los que mientan de estos últimos, debían ser quemados, como a los que hacen moneda falsa.
Sobre esto último, el valor de la moneda no tiene que ver hoy con la falsedad de la misma, sino con la credibilidad de nuestros gobernantes. Nula.
Un abrazo. Ángel

Marco Deus disse...

Em relação ao comentário do Rogério, muito se pode debater sobre essa mesma problemática, contextos históricos ou ideologias diferentes à parte, a realidae é que devido a essas situações muitos foram os que sofreram e penaram quer pela pura ignorância ou pela cobarde ânsia de poder e afirmação. Cito apenas uma célebre afirmação:
"Dê o poder ao mais apaixoonado dos Liberais que ele logo se transforma num Ditador"!

Anónimo disse...

"Dê o poder ao mais apaixonado dos Liberais que ele logo se transforma num Ditador"! - faço minhas as palavras de Marco Deus.
"Deus" é, de facto, clarividente!... E mais não digo.

jose albergaria disse...

Caros,
Ele há uma ferramenta, que os historiadores, os linguistas, os antropólogos chamam "diacronia", que permite comparar o, aparentemente, incomparável:Inquisição; Jiad;Estalinismos; Nazismo;Fascismos e etc.
Depois, ele há já muita investigação sobre o MAL (profano e teológico: façam favor de ler Ricoeur, Hannah Arendt, entre outros).
Entretanto, sobre as malfeitorias do Século XX leiam a abordagem que Paul Ricoeur faz aos três mestres da suspeição, responsáveis por muitas das malfeitorias que vimos no século passado:(...)Marx, Nietzsche e Freud.
Os Torquemadas (este foi beber as insanidades do Bispo de Roma), os Mussolini, Hitler, Lenine, Estaline, Pol Pot,Mao Tse Tung, Fidel Castro, Alvaro Cunhal foram aí beber(e antes deles noutros cantis...)a exegése para as inenarráveis malfeitorias!
A ninha senhora, amarantina, Agustina Bessa-Luís tem uma frase que é todo um programa:"Com a implosão do politeismo nasceram os territórios das preversões, insanidades e depressões".
Quando se interrompe o sentir plural, a polissemia de ideias e de ideais, o outro transforma-se numa "aberração" que é preciso fazer desaparecer: o burguês;o árabe; o cristão; o preto; o branco; o inimigo do povo; o ocidental;o chinês; o mexicano; o indio; o judeu; o cigano, o homosexual e etc.
Permito-me discordar do Daniel de Sousa.
A LIBERDADE é mesmo um dos poucos ABSOLUTOS que existe.
Aqui, mestre Aristóteles, na sua definição imorredoura, resolve-nos o problema: "O homem é um animal, racional e social".
Aqui, no "social" está a chave: Eu só existo porque o Outro existe; eu sou livre poprque o outro é livre, somos todos livres, porque integramos várias raças, mas uma só espécie: A HUMANA.
O Rogério tem uma frase, que eu gosto de, aqui e acolá, citar: "Posso não estar de acordo contigo, mas bater-me-ei até à morte se for necessário, para que tu o possas exprimir."
A LIBERDADE é eu poder DIZER sem que nada me aconteça.
É eu poder dizer que o Sócrates, o nosso P.M. está ao serviço do grande capital (isto é uma anedota...quem costuma dizer isto são os comunistas do PCP), escrevê-lo e não ir preso.É poder sustentar que ele, o P.M., é suspeito de favorecimento no processo do Freeport e não me acontecer nada.
Tudo isto era impossível sob Estaline, sob Hitler, sob Pol Pot, sob Mao Tse Tung, sob o regime do Tribunal do Santo Oficio, sob Fidel Castro, sob Kim Il Sung ...
Releiam o belo poema de Eluard,
"Liberté" e, depois, depois poderemos voltar a cavaquear sobre o tema.
Abraços,
J.Albergaria

Júlia Ribeiro disse...

Olá Rogério: Olá, Amigos:

Começo por dizer ao Rogério que o seu texto é um tratado. Pela minha parte, um bem haja por nos dar textos que nos enriquecem, enriquecem o blog e nos fazem reflectir profundamente..
Amigo José Albergaria: vou dizer algo de muito pessoal, mas que vai como comentário ao seu comentário : eu até já escrevi a palavra “Liberdade” sobre as cinzas do escritório queimado do meu marido e sobre as cinzas do meu carro queimado e sobre os vidros estilhaçados e as portas desfeitas à machadada da minha casa . E tudo isso em Leiria, no mesmo dia : 1975, 15 de Agosto , dia de Nossa Senhora da Assunção, após a Missa e a homilia pelo Sr. Bispo desta cidade. E, tal como diz Eluard, recomeçámos a nossa vida da estaca zero. E, tal como Eluard, também sinto que nasci para conhecer a Liberdade e para bem alto a nomear.
Mas , quanto mais os anos pesam, mais me convenço de que é o Daniel quem tem razão: não se pode dar total liberdade aos matadores da Liberdade.
Só mais uma achega, para não entrar em polémica, pois este assunto daria ( e tem dado) muitos milhares de livros e outras tantas opiniões. È apenas oma observação pessoalíssima: todas as religiões monotaístas são, por definição, intolerantes. Para cada uma, o seu Deus é único e o único verdadeiro. Omnipotente, omnisciente e omnipresente. Sabemos as consequências. Ponto final.
Também o poder absoluto nas mãos (mesmo) de um liberal se tornará ditadura. O ditador será omnipotente, omnisciente e omnipresente. Nesta terceira vertente, através dos seus eficientíssimos serviços de “escuta, vigilância e segurança”, isto é, através dos seus “bufos” humanos e tecnológicos. E o pior é que ressuscitará num seu filho, ou irmão , ou sobrinho e em qualquer parte do mundo. Continuamos a assistir a essas ressurreições.
J. Algergaria: a Agustina tem toda a razão: os gregos, os romanos, os egípcios, os assírios, os velhos germanos e eslavos,os celtas e muitos outros povos conviveram pacificamente com imensos deuses e deusas que eles , homens, criaram à sua imagem e semelhança, com defeitos e virtudes como qualquer ser humano. Claro que havia guerras: pela posse de territórios, por gado e outros bens e por mulheres - e até por uma só mulher- mas não havia guerras por causa de um deus ou de uma deusa. Neste campo a tolerância era uma constante.

Um grande abraço
Júlia

jose albergaria disse...

Caríssima Júlia Ribeiro,

Minha boa amiga, ele há duas coisas na vida que me atrapalham:

1/ Não sou capaz de resistir a uma boa tentação;

2/Não sou capaz de ser tolerante com a intolerância (de qualquer cor que ela se disfarce).

Um abraço do tamanho do mundo (pode ser do tamanho do Nordeste transmontano, que eu estou a aprender a amar),
José Albergaria

Anónimo disse...

Estava tudo tranquilo, olham para o charco, sapos e rãs olhando para nós e nós assobiando. Era a tertúlia dos unidos . Posto eu e dizes bem tu , postas tu digo bem eu. E lá íamos…Mais uma vez o Rogério Rodrigues atirou uma pedra pró charco .Os sapos saltaram ,o lodo abriu em circulo e fundo apareceu. Mudam-se os tempos mas não se mudam mentalidades. Unidos venceremos dizem uns, unidos divertimo-nos dizem outros-
Entendeu?
H.E.j

Anónimo disse...

Quer V.EXª,Sr.H.E.J., explicar o que escreveu por miúdos?
Diga-nos quem é que engole sapos.Os unidos ou os divertidos?

Anónimo disse...

Realmente o último anónimo tem a sua razão: não se percebe o que o H.E.jr quer dizer, como não se percebe o porquê desta reflexão sobre "Staline e a Igreja" neste blogue... Logo abaixo do cabeçalho diz-se que: "Este blog destina-se à divulgação, em palavras e imagens, do concelho de Torre de Moncorvo; visitando lugares, recordando pessoas, dando notícias... etc." (não percebemos onde se encaixa aqui o Staline...)
Assinado: Um impertinente.

Marco Deus disse...

Não pretendia alimentar polémicas nem incutir opiniões. A verdade é que o Rogério referiu e sublinhou no início do texto, que ficaria ao critério do administrador do blogue a decisão de postar ou não a reflexão por ele apresentada. Portanto como colaborador, está no seu direito de expor no mesmo matérias que julguem pertinentes e cabe à administração decidir se o mesmo se enquadra ou não nos objectivos definidos do dito blogue. Eu próprio não me direcciono com algumas das afirmações do Rogério, não sendo por isso que critico opiniões nem achincalho ideais. Pensamentos para mim são para mim como os feitios, cada um tem os seus! Em relação ao facto do mesmo não se enquadrar com Moncorvo, prefiro ver a situação da seguinte perspectiva: A mensagem que se pretende transmitir é a de uma análise social e politica mundial e como tal Moncorvo enquadra-se perfeitamente na mesma, é crucial a percepção que os Moncorvenses têm da mesma. Ou apenas podemos falar sobre monumentos, paisagens e amendoeiras? A estrutura politica, social e económica é também um instrumento útil para aprofundar os conhecimentos sobre o concelho, o distrito e o próprio País. Aceitam-se propostas, analisam-se as opiniões e tenta-se construir desses elementos uma opinião crítica e construtiva, independentemente da temática abrangida. O objectivo do Rogério não será o de incutir e “obrigar” ninguém a aceitar a sua opinião, mas sim apresentar a mesma, abrindo assim a mesma à discussão (fundamentada) e troca de opiniões.
Não pretendo com estas afirmações aliciar a uma percepção antidemocrática, muito pelo contrário, embora o blogue seja livre e aberto a todos, este é regido por regras e condutas de utilização que devem ser respeitadas. Termino com a já célebre frase: “Quem não está bem...Muda-se”! Pois freguesias a precisar de visitantes não faltam por ai!

César Urbino disse...

Rogério:
Sabes que por um bom debate sou capaz de ir daqui ao fim do mundo, e, por isso, quando vi o teu desafio, não pude deixar de participar pela primeira vez neste fórum.
Começo por dizer que estou de acordo contigo num ponto: a democracia, enquanto regime político de convivência pluralista de diversos pontos de vista e interesses sociais e políticos, não tem substituto, por muitos defeitos que tenha aqui e ali.
No entanto, já não estou de acordo contigo quando comparas a religião cristã à prática estalinista do marxismo. Essa tua convicção assenta, a meu ver, em dois pressupostos errados. Por um lado confundes convicções com convicções totalitárias; por outro, confundes ideologia com praxis.
Quanto ao primeiro pressuposto, uma coisa é ter convicções profundas, e outra bem diferente é ter convicções totalitárias. As religiões assentam naturalmente em dogmas, isto é, em verdades reveladas, não atingíveis apenas pela via da racionalidade. Acreditar que Jesus Cristo é Filho de Deus, por exemplo, é um dogma de fé para os cristãos, não é uma verdade atingível pela razão ou pela ciência. Mas ter fé, acreditar profundamente numa determinada verdade de uma determinada religião, não significa que se use a violência para impor essa verdade aos outros, ainda que alguns o façam, da mesma forma que ser ateu não significa defender a violência para impor o ateísmo, ainda que alguns ateus eventualmente o façam. De igual modo, defender no plano teórico que o casamento entre homossexuais é uma aberração contra a natureza é um direito que assiste a qualquer cidadão desde que esse cidadão não use a violência, seja a violência individual ou de grupo, seja a violência do Estado, para impor esses pontos de vista.
Como é óbvio, se qualquer um tem o direito de se opor no plano das ideias ao casamento entre homossexuais, já ninguém tem o direito de usar a força para impor esse seu ponto de vista, assim como ninguém tem o direito de usar a violência para impor o quer que seja a não ser o respeito pelo Outro. Portanto, uma coisa é ter convicções, e outra bem diferente é ter convicções totalitárias.
Ora, entre cristianismo e estalinismo (marxismo, leninismo, maoismo, castrismo, etc.) há uma diferença abissal e que é esta: o cristianismo assenta em convicções profundas, capazes de levar uma Madre Teresa de Calcutá a renunciar a tudo na vida para se dedicar ao serviço dos excluídos da sociedade (aqueles que só dão sofrimento e trabalho e de que ninguém quer saber), mas não é uma doutrina totalitária, ou seja, não defende em momento algum que se use da força e da violência física para se impor a quem quer que seja. O marxismo (e não apenas o estalinismo), ao contrário, assenta na materialismo dialéctico e no materialismo histórico através dos quais defende o uso da força para impor a política marxista, ou seja, o marxismo defende a ditadura do proletariado (em que o aparelho do Estado fica controlado por uma minoria de iluminados ao serviço dos seus pontos de vista, dos seus devaneios e até dos seus crimes, como aconteceu com Estaline, Pol Pot e praticamente todos os regimes de Leste) em que uns poucos se arrogam o direito de usar o aparelho repressor do Estado para impor os seus pontos de vista aos demais cidadãos.
Em síntese, o marxismo (e não apenas o estalinismo) é uma doutrina totalitária porque defende o uso da força para se impor, enquanto que o cristianismo, enquanto doutrina, pelo contrário, não só defende a tolerância da diferença como defende que todos somos filhos do mesmo Pai e impõe, no plano doutrinário, o “amor aos outros como a nós mesmos”.
Aqui dirás tu: mas essa não foi nem é a prática de muitos cristãos. Estou de acordo, e aqui passamos ao segundo pressuposto errado em que se apoia o teu raciocínio. Pensa nisto: George Bush foi eleito democraticamente e dizia-se um defensor acérrimo da democracia. Aliás, foi em nome da implantação da democracia que ele, esgotado o argumento das armas de destruição massiva, justificou a permanência dos EUA no Iraque. Por outras palavras, G. Bush, dizendo-se democrata e em nome da democracia, instrumentalizou a própria democracia a favor de uma prática totalitária contrária a todos os princípios da lei internacional. Isso faz da democracia um mau regime? É óbvio que não. Uma coisa é a doutrina em si, e outra bem diferente é a praxis, ou seja, o uso que se faz dessa doutrina, que pode ser totalitária, desonesta, criminosa, até. E o facto de ter havido cristãos, e até bispos e papas que tiveram praxis totalitárias e ofensivas dos direitos do Outro, numa clara antítese da doutrina cristã, não faz do cristianismo uma doutrina totalitária.
Em síntese, o marxismo é estruturalmente totalitário, porque defende o uso da violência com instrumento sine qua non para a sua implantação, enquanto que o cristianismo de modo algum se pode considerar totalitário porque em termos doutrinais defende precisamente o oposto, não obstante aqui e ali alguns cristãos (padres, bispos e papas) poderem ter práticas totalitárias e anti-cristãs.
César Urbino Rodrigues

rogerio rodrigues disse...

Não gostaria de fazer comentários ao meu texto "Staline e a Igreja", mas dois comentários, de cariz diferente, é certo, levaram-me a partilhar convosco algumas das minhas dúvidas e interrogações sobre o comentário do Impertinente ( comentário que eu muito prezo e que só é justo se tivermos uma dimensão imediatista e redutora do estatuto deste blogue, mas lá iremos) e do comentário do César Urbino Rodrigues. Para que não haja confusões: eu e o Césat somos primos, fomos educados juntos pelo que somos quase irmãos e considero-o das pessoas mais honestas e íntegras que me é dado conhecer. É necessário escrever isto primeiro, para melhor de poder compreender a análise que eu venha a fazer do seu comentário. Quanto ao Impertinente, gostaria de lhe dizer que eu pus à consideração do administrador do blogue a publicação ou não do texto. Não passou de uma reflexão sobre o que se passara no Primeiro de Maio e no encontro entre o secretário-geral do PCP e o arcebispo de Braga. Dir-me-á que não cabia nas características deste blogue.Porventura tem razão se pensarmos que o blogue se esgota na minha aldeia quando eu defendo que o mundo é que é a minha aldeia. Aceito e defendo que não se devem fulanizar, partidarizar ou politizar as questões neste blogue, mas o facto de pensarmos e de vivermos na sociedade em que vivemos leva-nos a reflectir sobre valores e comportamentos. E foi o que eu fiz. Peço-lhe desculpa se não fui claro ou me excedi nos limites impostos à reflexão. Quanto ao César, logo de início me dá razão quando declara que " as religiões assemtam fundamentalmente em dogmas", em "verdades reveladas, não atingíveis". Deu-me em palavras suas, a essência de qualquer fundamentalismo, porque as convicções que assentam em dogmas ( portanto indiscutíveis, infalíveis e reveladas não se sabe lá por quem e como), quando transformadas em Poder, tranformam-se em totalitárias. César,quando falas na Santa Teresa de Calcutá, com o seu gesto individual mas também com as suas dúvidas, mesmo sobre a existência de Deus nas últimas cartas que escreveu ao seu confessor, estás a falar de uma abnegação individual por uma causa. Também aqui, quer na Revolução Russa, quer na resistência do PCP houve actos de heroísmo único e não é por isso que eu tenha de concordar com a Revolução Russa ou com o PCP. O que nós estamos a falar aqui não é de convicções ou comportamentos individuais. O que estamos a falar é do uso, do exercício do Poder. A Igreja, como bem sabes, nunca foi democrática. Salvo raras excepções, apoiou sempre o Poder que estivesse mais à direita, não porque era apenas coincidente com os seus valores e conceitos de sociedade, mas porque lhe permitia a manutenção e a sustentabilidade do Poder. Conheci e conheço comunistas muito bons e não é por isso que sou comunista; conheci e conheço católicos muito bons e não é por isso que sou católico. O que eu sei e a História mo comprova é que qualquer concepção dogmática do Poder é anti-democrática e totalitária. Quanto ao Bush, sabes bem que, para além dos profundos interesses económicos e estratégicos, ele era um fundamentalista religioso que concebeu a guerra contra o Islão como uma guerra contra o eixo do Mal, uma Cruzada em que não permitia sequer que do outro lado houvesse um Saladino tolerante. Eu que não sou capaz de ter certezas, como é que poderei aceitar dogmas? Um abraço, César. Quanto ao Impertinente, creio que o seu comentário é pertinente mas, far-me-á justiça, penso ser precipitado. De qualquer modo, agradeço.

César Urbino disse...

Rogério:
Entre nós os piropos são desnecessários, porque, como dizes, somos como irmãos, e entre irmãos, a esse nível, está tudo dito.
Quanto à questão sobre a qual temos ideias divergentes, estou de acordo com todos os exemplos que dás, mas eu entendo-os como reforçando a minha tese: a ideologia e a praxis são coisas diferentes. De facto, como tu dizes, e bem, a mesma ideologia pode ser servida por pessoas completamente diferentes: há bons católicos e maus católicos, há católicos de direita e católicos de esquerda, há padres de direita e padres de esquerda, há bons padres e maus padres, há bons comunistas e maus comunistas, etc., etc. É verdade que historicamente, a hierarquia da Igreja Católica, no Ocidente, a partir de uma determinada altura esteve quase sempre do lado do Poder, mas isso não anula tudo o que a Igreja fez (e continua a fazer junto das comunidades mais excluídas e miseráveis da sociedade, sobretudo nos países do Terceiro Mundo (e não foi apenas a Madre Teresa de Calcutá, mas muitos milhares de católicos leigos e sacerdotes).
Parece que estamos também de acordo que o marxismo (tu preferes estalinismo) é uma doutrina totalitária e, por isso, sobre esta matéria por aqui me fico. Aquilo em que discordamos é saber se o cristianismo, como doutrina ou ideologia, se pode considerar ou não uma doutrina ou uma ideologia totalitária. Tu dizes que sim, porque no Cristianismo há dogmas; eu digo que não, porque tenho um conceito diferente de dogma. Por isso, a primeira coisa a fazermos é esclarecermos o conceito de dogma.
Em Filosofia, Aristóteles é considerado um dogmático porque, em oposição aos sofistas relativistas e cépticos, defendia a possibilidade de o ser humano conhecer a verdade, ou seja, a possibilidade de ter um conhecimento universal e objectivo da realidade. No entanto, o conceito de dogma em epistemologia não tem aquela conotação que muitos lhe dão de verdade indiscutível que ninguém pode pôr em causa senão vai parar à cadeia. Em epistemologia, apesar de haver dogmáticos, ninguém é punido por ser céptico, ou seja, por negar a possibilidade de o ser humano atingir qualquer tipo de verdade.
De igual forma, em religião, um dogma é uma verdade que, numa dada religião, se aceita como tal (ou seja, como verdade, ainda que não atingível pela via da ciência) como condição sine qua non para integrar essa religião, mas isso não quer dizer que quem a não aceite vá parar à cadeia por esse facto. A liberdade de acreditar ou não, de aderir ou não a uma determinada religião é total, e não difere da liberdade de aderir a um clube de futebol ou a qualquer partido político. Por isso, pelo facto de uma religião assentar em dogmas (que só aceita quem quer, sem que se defenda qualquer punição para quem os não aceitar) não faz dessa religião uma doutrina totalitária, assim como, em democracia, ninguém é obrigado a aderir a um partido político, embora, para aderir, tenha de concordar com o seu programa e com o modelo de sociedade que defende.
Concluindo, só podemos dizer que uma doutrina ou ideologia são totalitárias se fizer parte do seu património conceptual a imposição pela força dessa doutrina ou ideologia. Ora, como não faz parte do ADN conceptual do Cristianismo em geral ou do Catolicismo em particular a defesa da imposição da sua doutrina pela força, eu concluo, à maneira silogística aristotélica, que o Cristianismo não é uma doutrina totalitária, ainda que aqui e ali tenha havido católicos ou cristãos com ideias totalitárias.
Espero que ninguém entenda estas minhas divergências com o Rogério como questões pessoais ou qualquer animosidade de qualquer espécie. Como ele disse, somos verdadeiramente como irmãos, mas suficientemente adultos e amigos da busca do saber para cada um pensar pela sua cabeça.
Um abraço a todos os moncorvenses, que torno extensivo a todos quantos, não o sendo, participam neste blogue.
César Rodrigues

jose albergaria disse...

Caríssimos,
Como a conversa está boa e a qualidade dos "conversantes" o merece, aqui deixo mais uma acha (não para as fogueiras do Santo Ofício...), mas para o debate.
Quero apenas comentar uma tese de César Rodrigues:"a ideologia e a praxis são coisas diferentes".
Sendo isto uma verdade ( o basileiro sertanejo já o afirmava: «a teoria, na prática, é coisa, sempre, diferente»)
por definição, o César tem razão.
Mas a praxis de Estaline, de Álvaro Cunhal, de Fidel de Castro, de Pol Pot...não podem ser descodificadas, interpretadas, consideradas, valoradas, sem nos remetermos aos "dogmas" do marxismo, do leninismo e das vulgatas em curso na época.
Do mesmo modo que, o que ocorreu, na vizinha Espanha, com Sta. Teresa d'Ávila e os sofrimentos, que pela Regra (em construção) das Carmelitas Descalças sofreu o grande poeta e místico S. João da Cruz, seu prócere e amigo, às mãos do Principal daquela Ordem, é incompreensivel sem nos reportarmos à ideologia cristã...dominante à época.
O que, provavelmente, o César quer sustentar (peço-lhe desculpa por este depudor de o tentar descodificar...)é que a ideologia tem uma dimensão SAGRADA (que não pode, não deve ser corrompida) e a PRAXIS, pela sua dimensão profana, deixa-se, bastas vezes, brutamente corromper.
Mas, como estaremos todos de acordo, tanto a ideologia, como a praxis é sucesso humano e, a humana condição é feita de imperfeições.
Nenhuma ideologia quer o MAL, sustenta que quer fazer o MAL, mas, falando de comunismo, de nazismo, de fascismos, de catolicismo, de islamismo, de...de...lá vamos encontrar o MAL (o que tem dimensão teológica, mas também o que tem dimensão ideológica...).
Leia-se um pequenos ensaio de Paul Ricoeur Le Mal e perceber-se-á que os empreendimentos humanos, todos eles, mesmo quando reinvidicados de ideologias da bondade, as mais das vezes se deixam esbarrundar na maior das intolerâncias, das insanidades.A história aqui ajuda muito.
Mesmo os Santos, assim como os Doutores da Igreja não ficaram imunes a esse MAL, que tudo corrompe.
Veja-se a biografia integral do "nosso" Beato D. Nuno de Santa Maria (agora Santo) e estaremos quase conversados.
Um abraço para os primos e para todos os conversantes,
J.A.

César Urbino disse...

Eu pelo-me por um bom debate, e daí a minha participação neste debate que o Rogério em boa hora despoletou. No entanto, não quero monopolizar o quer que seja e, por isso, esta deve ser a minha última participação neste tema.
Sobre a última intervenção do José Albergaria, diria que no essencial parecemos estar de acordo. A citação que faz de Paul Ricoeur “e perceber-se-á que os empreendimentos humanos, todos eles, mesmo quando reivindicados de ideologias da bondade, as mais das vezes se deixam esbarrundar na maior das intolerâncias, das insanidades. A história aqui ajuda muito ” merece-me toda a minha concordância, porque reforça a minha tese da distinção entre praxis e ideologia/doutrina. Já não me merece, todavia, a mesma concordância a interpretação que faz do meu pensamento a respeito da diferença entre praxis e ideologia/doutrina comparando-a com a diferença entre o profano e o sagrado. Mas alongar-me aí, levar-me-ia a bizantices sem interesse e por isso por aqui nos ficamos.
Voltando, porém, à questão colocada pelo Rogério, e sobre a qual já expus aquilo em que não concordo com ele, devo acrescentar, por uma questão de boa consciência, aquilo em que concordo. E há um ponto em que o Rogério tem razão: entre a Igreja Católica e os Partidos Comunistas, enquanto instituições organizadas -o que é diferente da natureza das suas doutrinas - são muito semelhantes, ou até, fotocópia uma da outra. Efectivamente, não obstante no plano da doutrina se situarem nos antípodas, no plano da organização pouco ou nada as distingue. A Igreja Católica assenta a sua estrutura organizativa (e, portanto, de poder interno) numa hierarquia que funciona de cima para baixo, desde o Papa, aos bispos e aos padres, sendo que os de baixo têm sempre que se sujeitar aos de cima. Quem o não fizer é facilmente rotulado de herege, e pode até ser excomungado, como esteve para acontecer comigo por vontade do antigo bispo de Bragança, que não gostou dalgumas críticas que lhe fiz na Voz do Nordeste, que na altura dirigia. Os partidos comunistas, por sua vez, por força do designado centralismo democrático, assentam também a sua organização interna (e a cadeia de poder interno) numa hierarquia de cima para baixo, desde o secretário-geral aos presidentes das concelhias e das secções, em que os de baixo não podem contestar os de cima sob pena de serem acusados de traidores, burgueses, reaccionários, revisionistas ou outras coisas do género, acabando quase sempre por serem expulsos. Por isso, neste capítulo há grandes semelhanças entre o modelo organizativo interno da Igreja Católica e o modelo organizativo interno dos partidos comunistas.
Se era a isto que o Rogério se referia, então não há divergências entre nós. A discordância existirá no entanto se quisermos dizer que a doutrina católica é tão totalitária como o é a doutrina marxista. Aí é que eu não estarei de acordo pelas razões expostas nas intervenções anteriores.
Um abraço a todos.
César Urbino Rodrigues

Anónimo disse...

Só hoje cheguei aqui, a esta postagem. Nos livros está tudo dito, sobre ideologia-dominante e sobre religião-na-história.
Um ponto que parece não ter nada que ver com este: ninguém prevê as grandes crises e, no entanto, retrospectivamente, os que mais se aproximam desse predizer, os demiurgos, têm necessariamente mão de artista cuja obra, de certo modo patente, sempre escapa ao tempo que a gerou e por vezes ao próprio que a confecciona.
tudo o que dissermos encerra um não dizer fundamental, alavanca sublime do acontecer, num exorcismar, ou exorcizar da pseudo-mudança que todos ou quase todos professamos, a fim de, em última análise, termos a paz à nossa medida.

Quem dá a vida não diz que a dá. Quem dá qualquer coisa também não, a não ser que se trate de substância residual que, por acumulação, se possa pôr nobremente a circular pelas estações de tratamento hodiernas. Quanto mais falamos mais calamos e deste paradoxo não é fácil fugirmos. Só a construção de novos mitos verdadeiros, sem pés de barro, nos pode de algum modo ajudar a re-nascer, não sei.

Carlos Sambade

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