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domingo, 3 de maio de 2009

Memórias do Peredo

Como, por motivos vários, certamente respeitáveis, a colaboração no blogue tem escasseado e porque eu, pela primeira vez, nos últimos tempos, tive um fim de semana prolongado, mais ou menos descansado, envio alguns textos que, porventura, não têm interesse, mas são reflexões à beira ou no interior de duas crises: uma, a visível (economia, trabalho, desemprego, etc); outra, a invísível, a interior, as alterações no relacionamento individual e nas mutações sociais, à beira da explosão, não estivéssemos nós na Europa e no euro. Portanto, que a memória nos sustente, não como nostalgia, a que sou avesso, mas como ferramenta para não desistirmos. Assim, um texto pot pourri, aqui vai:

Faltava só mais um monte para chegar a casa. O meu avô trazia-me bolachas Maria e uma bola listrada de borracha de Ceilão. Outras vezes tomávamos a barca do Douro para a outra margem do rio. "Ó da barca" era o grito vicentino para a barca chegar puxada por uma corda que unia as duas margens e era manejada pelo barqueiro. Cabiam vacas e homens, todos junto na barca. Agora em Maio oferecia-se, como uma bênção, um gesto de apaziguamento e boa vontade, um ramo enfeitado de cerejas, as primícias. As mulheres já mondavam as ervas daninhas no esplendor das papoilas vermelhas, com o trigo já alto e grado. E as jovens solteiras, por honra e vergonha, quando falhava o açafrão abortivo, apareciam a flutuar num poço, com os longos cabelos espalhados como se foram nenúfares negros (histórias que ouvia à minha avó, natural de Ligares).

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Pode haver liberdade sem justiça, mas não pode haver justiça sem liberdade. Às vezes, apenas instantes de felicidade, tamanha a intensidade e a incandescência, que mais parece um momento de eternidade.
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25 de Abril outro ------A minha experiência como professor. A tomada da Câmara pelos meus alunos. Iminência de ser preso. Amargos eram os dias que antecederam ABRIL. A cobardia colectiva. Mas é no estrume que nasce, por vezes, o crisântemo mais belo. O ARNALDO, um homem conservador, generoso nunca deixou de se sentar à minha mesa , não pensando sequer nos prejuízos que daí lhe podiam advir. E hoje estou farto de tantos democratas. É aqui que regresso. Tão sofrido que as cicatrizes reabrem em ferida que ainda não consegui curar. E vem-me à memória um episódio de nojo. Um aluno, informou, como se tivesse feito um acto heróico: "O R. é filho de um pide". Não consegui responder. Dei um grito que se ouviu em toda a escola. E pela primeira e única vez expulsei um aluno da sala da aulas. O episódio perturbou-me durante muito tempo. A denúncia, a bufaria, estão no nosso ADN político e social há séculos. Não há nada a fazer.
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O sábio não é o que já muito sabe. É o que continua a aprender.
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Palavras-------por vezes pedras pintadas de ternura.

3 comentários:

Marco Deus disse...

Realmente vivemos numa liberdade disfarçada, camuflada pelas promessas de tempos de melhores agouros e prosperidade. A Democracia, se assim lhe podemos chamar, parece mais um circo de déspotas lutando entre si pelo melhor "poleiro". Tantas vezes vemos à nossa frente autênticos atentados à tão aclamada Liberdade de Abril, não os nomeio pois o tempo é curto e as palavras são caras.......

Júlia Ribeiro disse...

Gostei do texto pot pourri. E como eu senti o seu grito que ainda hoje arripia!
Um dia, também tive de conter a raiva para não gritar, quando vi no meu dossier , organizado pela pide, os nomes de 4 alunas e alunos meus que relatavam ipsis verbis uma ou outra "bisca" que, en passant, eu ia tentando encaixar aqui ou acolá. Nunca teria podido imaginar aqueles alunos como "bufos". Estará mesmo esta medonha característica no nosso ADN político e social? Espero que não...

Um abraço grande
Júlia

Anónimo disse...

O deixar-nos arrastar pelo campo exacerbado que da ideologia faz, fez e fará pasto abundante toca necessariamente a todos os que sentem conteúdo na ideia de generosidade. É nessas alturas que salta também o pior do ser humano. Sobrevive-se relativizando. Ainda hoje, hoje mesmo, perante rasgos de entusiasmo moderado, construtivista e em tempo de paz, houve quem me fizesse chegar, para que eu fizesse chegar, um comentário que reflecte a pequena inveja.
Quem não faz, empata e tem sempre defeitos a apontar - mas esse tipo de mensagens, que partem do mau carácter ou da falta de robustez que lá terá os seus motivos, empancam em mim, quando cá caem, não seguem para os putativos visados. É mais fácil assim seguir em frente e não compromete o essencial que à vida importa. A distância e o saber guardá-la, mesmo com os nossos, também ajudam.

Carlos Sambade

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