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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Ponto final


-Avô, a Terra tem ponto final?
Esta a pergunta que o meu neto António me fez ao olhar para o céu onde eu lhe mostrava o quarto crescente lunar.
Pergunta que me deixou boquiaberto de espanto e também eu próprio cheio de perguntas.
Não tanto pela certa finitude do espaço físico terreno, mas pela forma sob a qual a conhecemos na sua biodiversidade, o clima, os oceanos, as próprias civilizações. Mas por tudo o que o homem tem transgredido, violando a suprema regra do equilíbrio da natureza. Sem olhar aos seus custos. Sem pensar nos que, como o meu neto, virão depois de nós e depois da sua geração.
Ponto final, talvez prolongado terá se assim tudo continuar.
Mas será apenas um fim de frase?
Ou, pior do que isso, um ponto final de parágrafo? Ou até um fim de texto?

4 comentários:

Anónimo disse...

Caríssimo Daniel,
a pergunta pertinente de seu neto é, realmente, um grande ponto de interrogação, que tende mesmo a transformar-se em ponto final.
Ontem ouvi a notícia de que iria encerrar uma estância de sky no Chile, por sinal a mais alta do planeta, a mais de 3.000 metros (ou seriam 4000?) de altitude, porque o glaciar que alimentava o desporto derreteu e não há meios artificiais de reposição do que desapareceu: a neve! Entretanto foram ouvidos vários especialistas em climatologia e Ambiente, que logo anunciaram que esta era a primeira, mas não seria a única, ou seja, a seguir há mais. Se fosse só pelo ski, isto não seria grave, só que a presença desse glaciar (cujo nome não me recordo) e os seus ciclos de formação e degelo fornecem água para várias cidades importantes dessa zona do Chile, país conhecido pela sua aridez.
Para estas problemáticas recomendo vivamente que se procure conhecer a teoria de Gaia, enunciada já em 1969 por James Lovelock, o qual voltou à carga, mais recentemente com outro livro, "A Vingança de Gaia" (ed. port. da Gradiva, 2007), em que faz uma análise mais que preocupante sobre o destino do planeta. O planeta Terra, identificado com a deusa GEA ou Gaia, da Antiguidade clássica, é aqui identificado como um organismo vivo: e tudo o que lhe fizermos de mal, ela ressentir-se-á, e é o que está a acontecer.
Ver ainda o "site": http://pt.wikipedia.org/wiki/James_E._Lovelock
de onde se retira:
"Escrevendo no jornal britânico "The Independent" em janeiro de 2004, Lovelock afirma que como resultado do aquecimento global no final do século 21:
"Bilhões de nós morrerão e os poucos casais férteis de pessoas que sobreviverão estarão no Ártico onde o clima continuará tolerável"
Ele afirma que, pelo final do século, a temperatura média nas regiões temperadas aumentarão 8°C e nos trópicos até 5°C, tornando a maior parte das terras agriculturáveis do mundo inabitáveis e impróprias para a produção de alimentos.
"Temos que ter em mente o assustador ritmo da mudança e nos darmos conta de quão pouco tempo resta para agir, e então cada comunidade e nação deve achar o melhor uso dos recursos que possui para sustentar a civilização o máximo de tempo que puderem".

Não esquecendo que houve já várias "grandes extinções" de formas de vida na Terra, de entre as quais a mais famosa foi a dos Dinossáurios. Será a do Homem apenas mais uma? Engendrará a água dos Oceanos (com toda a poluição deixada pelo bicho das duas patas) outras formas de vida futuras? E poderão estas algum dia a adquirir inteligência para perceberem o que se passou? Ou serão as baratas, esses pouco simpáticos bichos antiquíssimos, a evoluirem, em eventuais condições de êxito, para novas formas de consciência? e, nesse caso, referir-se-ão as baratinhas futuras, em hipotéticas escolas, e em aulas de biologia ou História planetária, a uma Era dos Homens, dissertando sobre as causas da extinção desses bicharocos cujos fósseis se encontrarão por todo o lado?
Será um mistério que nenhuma barata saberá decifrar. E se soubessem que parte das razões da extinção teve a ver com um certo conceito de "economia do bem-estar", seguramente que muito se ririam com a anedota!
Ora aqui tem, caro Daniel, uma história (tenebrosa) para contar ao seu neto, esperando que isto possa contribuir para uma mudança de atitude da sua (dele) geração, conquanto ainda se vá a tempo de restarem alguns humanos nos círculos polares árticos, lá para os finais deste século...
Grande abraço,
N.

Anónimo disse...

Magnífica como sempre a análise do Nelson! Achei por bem trazer aqui estas questões, não só pela originalidade da forma em que foi colocada pelo meu pequeno "herdeiro"(passe a orgulhosa imodéstia), como sobretudo pelo facto de esta ser uma questão transversal a toda a humanidade. Se aqui (e muito bem) nos preocupamos em preservar o passado, o tal locus ou identidade, também é bom que nos preocupemos em olhar para o futuro - porque na verdade só há uma Terra!!
Abraço
Daniel

Anónimo disse...

Caríssimo Daniel,
Esta é a análise possível, infelizmente. Fez muito bem em trazer aqui estas questões - o Local só faz sentido tendo em conta o Global e, noutro sentido, acabou por introduzir o assunto do post seguinte (local/universal).
Voltando ao nosso problema ambiental global, veja também o Público "on line" de hoje:
http://ecosfera.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1397821&idCanal=2101

- Se a Revolução de Ontem se pretendia Vermelha, é cada vez mais imperioso que a de Hoje seja Verde! - ou não será.
n.

Júlia Ribeiro disse...

Extraordinária pergunta a do seu neto, Daniel!
As perguntas das crianças têm um alcance frequentemente insuspeitado. Ficamos a pensar nelas o resto da nossa vida . Quantas vezes sem que acertemos com a resposta.
Já muitas vezes pensei em remexer as gavetas da minha memória e ir tirando lá de dentro perguntas que os alunos mais pequenitos e os meus filhos e netos me foram colocando ao longo da sua meninice e em mais de 40 anos da minha vida como professora, mãe e avó. Perguntas que me deixavam perplexa, por vezes em espanto e desassossego, tal a sua precisão e profundidade.
A certa altura, já adolescentes, deixam de fazer esse tipo de perguntas. Talvez porque pensem que já são crescidos para colocarem tais questões ou porque pensem que são perguntas estúpidas. No entanto, e em minha opinião, todas as perguntas têm , no seu momento, a sua razão de ser. Pode é acontecer que, nesse tal momento, não tenhamos repostas para dar.
Mas estou certa que o Daniel sabe dar as respostas exactas aos seus netos. Têm sorte em ter tal avô.

Um grande abraço
Júlia

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