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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Matança do porco

Matança do porco, em Mós (foto Artimagem, autor: António Basaloco, 2004?)
«... enxotou o porco para fora e os homens pegaram-no, estenderam-no de lado sobre o banco, apertaram as cordas de carro em volta do corpo e do focinho, para que grunhe menos.
O Zé ajoelha-se a meter a faca e o sangue espicha, aparam-no num alguidar até às últimas golfadas. Tiram as cordas. Com molhos de palha começam a chamuscar-lhe os pêlos, a pele estala aqui e ali, acastanhada, e de repente, com um urro formidável, o porco abala rua abaixo, cego, esbarrando contra as paredes».

Rentes de Carvalho, O Rebate, ed. Círculo de Leitores, 1973

13 comentários:

Angel disse...

Que cure bien la matanza.
Imagino que lo de los vasos será vino, o aguardiente.
Nunca agradeceremos al porco lo que ha hecho por los humanos.Debía haber un monumento en cada pueblo.
Preciosa la foto.
Un abrazo.Angel

lopes disse...

Velhos tempos Angel, actualmente as tradições são poucas porque não são permitidas. Apesar disso as matanças do porco, embora sem a importância que teve outrora, continua a realizar-se por todos os concelhos do nordeste transmontano, mas na actualidade obedece a um certo ritual. Realizam-se sobretudo nos meses de, Novembro, Dezembro e Janeiro quando o frio cria condições propícias para tal.
A todos os presentes nesta foto, os meus sinceros votos de bem hajam da continuidade da tradição.

Anónimo disse...

Viva Angel e Lopes! É verdade, estas tradições, com as imposições de ASAE's, normas comunitárias e teorias do bacteriologicamente limpo, vão matando todas estas tradições. Entre o momento do texto de Rentes de Carvalho e o da foto vão muitos anos e muita coisa mudou. Para a matança da foto foi precisa uma licença, mas de resto foi igual. Uma manhã fria, inverniça, mas valeu a pena! Saúdo também todos os presentes, especialmente os mózeiros, com um abraço para o fotógrafo (que não ficou na foto), e que está lá longe a lutar pela vida, nas nevoentas terras do United Kingdom.

Anónimo disse...

esta fotografia tras-me uma quantidade de recordações que não podem imaginar. Não que algum dia tenha gostado do ritual da matança, que sendo necessário, pois comer o porco vivo é um pouco complicado, sempre me pareceu cruel na forma como era realizado. Mais agradavel era sem dúvida, a reunião familiar e de amigos que se juntavam na comida que se seguia. Essa entreajuda bem transmontana que morreu nas aldeias, onde por uma borga ao final da tarde, se perdia uma tarde inteira. Claro que não se fazia pela comida mas sim por amizade. Como os tempos mudaram...
Agradeço ao autor da foto por me levar numa viagem de milhares de km a tempos que passaram á muito...

Anónimo disse...

Não sei quem é mais animal. Se o que estava amarrado pelas cordas se os restantes que estavam em redor...

Anónimo disse...

Sobre a opinião do(a) último(a) anónimo(a), pois, acho que todas as opiniões são válidas, neste aspecto. Animais somos todos, racionais ou não. E a Humanidade chegou onde chegou, desde os remotíssimos tempos do Paleolítico Inferior, na savana africana (berço da Humanidade), como animais omnívoros. Se calhar houve australopitecos vegetarianos que ficaram pelo caminho, na longa marcha da evolução humana. As proteínas que o nosso organismo foi buscar à carne animal permitiram a nossa sobrevivência e o "sucesso" deste símio pelado (apesar das roupas de marca de alguns espécimes) que hoje domina a Terra, para bem ou para mal (isto já é outra questão). O sacrifício do animal, neste caso do nosso irmão Porco, faz parte da nossa sobrevivência, e, no caso da Trasmontânya, está tão enraizado que os porcos e javalis tiveram honras de esculturas em pedra, desde a Idade do Ferro. Discutir esta Tradição e os sabores do Presunto, do Chouriço, do Salpicão, das festas da marrã, enfim, é discutir a essência dessa ancestral trasmontaneidade. É um pouco como discutir as touradas no Alentejo ou nas Espanhas. Será a nossa barbárie ibérica? Eu prefiro chamar-lhe identidade, mas respeito outros pontos de vista. Se o caro(a) anónimo(a) é um(a) vegetariano(a) completo(a), bem, admito que tenha razões para falar. Se, por outro lado, já provou um bom presunto, ou salpicão ou chouriço transmontano... bem, então que se cale para sempre! E reze uma acção de graças pelo nosso deus Porco, com o qual comungamos e nos consubstanciamos, como descendentes desses bárbaros trasmontanos dos castros da Idade do Ferro...
N.

Anónimo disse...

Post Scriptum: faço minhas as palavras do Angel: "Nunca agradeceremos al porco lo que ha hecho por los humanos.Debía haber un monumento en cada pueblo".
É verdade, tal como os nossos antepassados castrejos, de que sobreviveu a célebre Porca de Murça. Também a porca do pelourinho de Bragança, do mesmo modo que o berrão da Torre de D. Chama, para não falar dos sete berrões das Cabanas de Baixo (Vilariça, Moncorvo), entre muitos mais. Os nossos antepassados foram mais agradecidos a este animal que, pelo seu sacrifício (involuntário), nos garantiu a sobrevivência. Os tempos agora são outros? Pois, talvez as novas gerações optem pelo vegetarianismo, comendo só soja... Talvez o porco passe então a ser um animal de jardim zoológico, se não entrar em extinção como os burros mirandeses...
N.

Anónimo disse...

Amigo N. Vc deve ter uma imaginação fértil.

Anónimo disse...

Caríssimo(a), não é imaginação, são factos.
N.

Júlia Ribeiro disse...

A matança do porco representava o governo de uma casa para o ano inteiro. Era uma cena bárbara? Vista à distância e talvez por quem nunca soube o porquê da morte do porco sangrando até morrer, sim, talvez fosse bárbara. Mas era necessário que o sangue corresse para um alguidar onde mão experiente o batia rapidamente e com um certo jeito, para não coalhar, pois era preciso para as morcelas, as vulgares morcelas e, nas casas mais abastadas, as doces. É que, lá diz o ditado, "sem sangue não se fazem morcelas". Também era preciso dar as migas de sarrabulho ao matador e ajudantes. Tudo isso foi sempre, para mim, completamente normal e não fiquei minimamente traumatizada.
Os meus filhos não me deixam contar a matança do porco aos netos : "È bárbaro". E eu pergunto : "Não estão as crianças hoje expostas a tantas outras barbaridades, quiçá mais crueis, porque nada as justifica, a não ser a ganância, a sede do lucro e a sede de poder "?

Júlia

Anónimo disse...

Gostei do comentário da Drª. Júlia. Essa "barbaridade" ancestral fazia parte do nosso quotidiano. Hoje come-se o frango do aviário comprado no super-mercado, ou a carne no talho, esquecendo que "aquilo" foi precedido de uma morte do animal - e, longe da vista, longe do coração... Naquele tempo tinham que ser as próprias pessoas a fazer esse "trabalho": matar e pelar a pita, matar o reco ou o cabrito. A isto se resumia algo mais do que uma palavra: subsistência/existência.

Ainda sobre o que era a matança do porco, recomendamos a leitura do conto: "A matança", de Isabel Maria Fidalgo Mateus, in: "Outros contos da Montanha" (págs. 111 e seguintes).
N.

Bird disse...

Concordo com o Angel. Devia de haver um monumento em todos os povoados.Vejam Graça Morais, em Bragança, no Centro de arte Moderna com o mesmo nome (estão lá expostas as "matanças" que a catapultaram para o mundo inteiro, segundo palavras dela própria). Tem piada!O que foi reconhecido afinal pelo mundo inteiro foi a forma fantástica com que a autora representou as suas raízes (técnicas à parte!). Temos vergonha de quê?

Marco Deus disse...

Lendos os diferentes comentários, principalmente do(a) anónimo(a), resolvi fazer algo que não fazia à muito, comentar no blog, (por falta de tempo ou abundância dele, quem sabe). Focando-nos no ponto essencial, não podemos ser ignorantes ao ponto de julgar algo que não compreendemos, a matança do porco é uma das ancestrais tradições transmontanas, verdade que abafada pelos desígnios de entidades "superiores" foi caindo no esquecimento, embora aqui e ali se continue a praticar. Custa-me que dissimulados pela "cobardia do anonimato", exista quem além de apresentar um completo desconhecimento das "realidades", consiga ainda catapultar insultos a pessoas que deconhece completamente. Pois tal como disse o N. a necessidade de subsistência e sobrevivência são as causas destas mesmas práticas, não esquecendo que provavelmente quem o continua a praticar, fá-lo única e exclusivamente com os mesmos propósitos.
Convido o (a) carissimo(a), a expor uma justificação válida para tais reparos.
Pois animais somos todos, uns racionais e outros não, e também há os que se julgam racionais, mas possuem a inteligência de...

Um abraço da Invicta

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