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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Mensagem sem mensagem e sem Natal


Há um ano escrevi este texto, sem perceber que, ao relê-lo, mantinha alguma actualidade. Como eu embirro com o Natal, esta quadra sinistra como costuma dizer um amigo meu, entre o consumismo selvagem e a solidariedade hipócrita, deu-me para a recordação e algumas reflexões. Aqui vão, datadas como é óbvio, com as necessárias Boas-Festas, pensando no que é bom e nas festas no sentido mais amplo do convívio ao afecto.

«Agora, que entrei definitivamente no grupo etário daqueles que não têm nome quando são atropelados, os sexagenários dos bares que vão morrendo, desencantados com o futuro, que já relêem mais do que lêem, avessos aos acordos ortográficos, mal sabemos o que havemos de fazer com o nosso passado. Torná-lo futuro? Ou dizermos que a história é a memória do futuro?São tantas as presenças como os dias que me faltam. As tardes longínquas e melancólicas com o Assis Pacheco no Fim de Século e no Hotel Britânia, as noites longas e sem cansaço, tão só de nostalgia transmontana, de uma ruralidade que não perdíamos, com o Afonso Praça, esse sólido mais líquido que me foi dado conhecer, esse odre de ternura, que passou de mansinho pela vida como se tivesse sempre a pedir desculpa pelo talento que tinha. As noites, longas, muito longas, em que o álcool corria como um regato de afectos contidos, mas sem fim, com o Cardoso Pires, entre o colérico, o iconoclasta, mas o melhor contador de histórias dos bas-fonds desta cidade ( leia-se Lisboa) que tanto amava. O Cardoso Pires, era de ódios e amores. E tinha muito mau perder, como ele próprio confessava.E depois o Luís, o Sttau Monteiro, o mais admirável e generoso mentiroso que me foi dado conhecer. Escrevia à minha frente a Guidinha, numa Hermes (máquina de escrever) pesada, a correr, que tinha que ir a algum lado. Efabulador, grande cozinheiro na sua casa de Campo de Ourique, inveterado bebedor de gin, homem de muitos encantos, de um charme muito britânico, de uma ironia corrosiva, era, porém, tansbordante nos afectos para os seus amigos. Morreu ainda as últimas rosas não tinham florido.Hoje, proclamam-se os best-sellers de aeroporto, lidos enquanto se mascam pastilhas; os jornais são economicamente obedientes, reverentes e pouco venerandos; a mediocridade, mas com boas maneiras, é um bom princípio para o sucesso. O país é apenas o reflexo do país, não a sua realidade. Utiliza-se o espelho como se fosse a verdadeira face. A imagem do rosto secundariza o rosto. Querem-nos impôr uma clandestinidade ética, tornar a norma da virtude como um desvio. Um perigoso desvio que deve ser tratado ou combatido.Querem-nos sem ideologia, assépticos, flor artifical, sem cheiro, mesmo do suor, sem tabaco ( se no céu não se pode fumar, eu não quero ir para o céu, escreveu Mark Twain), tão limpos que querem transformar a cidade num imenso hospital com multidões saudáveis mas proibidas de transgredir.Querem proibir a transgressão; são os inquisidores do interdito; os que definem a liberdade dos outros, como se a liberdade não fosse um valor individual; que tentam pôr um chip na nossa alma e controlar os nossos sonhos, e isto tudo para que vivamos mais anos a criar mais problemas à Segurança Social.Querem-nos clonados, sejamos novos ou velhos, querem-nos tão iguazinhos a ponto de um dia conseguirem que nós não saibamos quem somos. Apenas eles sabem, nos seus arquivos, o que nós fomos.Já cá não estarei por certo, quando algumas liberdades e indignações utópicas não passarem de mero estudo académico para teses de doutoramento, tão bem comportadas que até Júlio Dantas vai ser considerado, a par de José Rodrigues dos Santos, um génio injustamente ignorado por esses libertinos cuja memória é proibido recordar...»

6 comentários:

Anónimo disse...

Muito bom texto. É exactamente isso.
Tenha o melhor Natal que puder, porque pessoas com a sua inteligência e lucidez não têm Natal, quando tantos sofrem e as saudades dos que já partiram apertam o Natal faz pouco sentido.

Uma leitora do blog

Anónimo disse...

Não concordo muito com este olhar desencantado do Rogério sobre a vida e o mundo. É claro que há uma tremenda perversão das mentalidades, que se perdeu muito do entusiasmo- talvez até ingénuo- de mudar o mundo,que a utopia morreu, que a sociedade se emaranha numa teia de dúvidas e de mentiras. Mas acho que nem tudo está perdido.
Acredito no lado bom da natureza humana e que esse prevalecerá.
Daniel

António Sá Gué disse...

Por outro lado, “os que não sabem o que fazer com o passado”, sabemos que o faz de nós aquilo que somos, mas, de facto, não interessa para mais nada.
Por outro lado, “os que relêem mais do que lêem”, sabemos que o presente não existe, é fugaz, escapa-se na rotina do trabalho, na serenidade do lar, na pacatez do fim-de-semana.
Por outro, mesmo “os desencantados com o futuro”, sabemos que só o futuro interessa.
BOM ANO!
Abraço!

Anónimo disse...

Há momentos para tudo. Tudo são momentos. O tudo, o nada, o quase nada nos movem. Até chegar a hora. Que hora? Não sei. Sucede que, em épocas de extravase, a gente se põe a falar, ou, como diz o outro, e sem ofensa, a Ladrar à Lua.
Não há encantamento sem desencantamento, e vice-versa, ainda que a simultaneidade seja de evitar.
Carlos Sambade

Anónimo disse...

Um texto repassado de nostalgia e desencanto. Os tempos não estão para menos, sinal do fim dos tempos... O dealbar de um novo século deveria trazer um novo espírito, mais positivo, todavia parece ter inaugurado antes a Era da Incerteza. E o R.R., com toda a sua lucidez, deixa-nos aqui, além de um excelente naco de prosa de fino recorte literário que muito enriquece a antologia deste blogue, dizia, deixa-nos aqui também uma catilinária digna de um velho tribuno da república romana, face aos tempos da decadência em q mergulhou o Império - neste caso, a civilização ocidental, pois este estado de coisas transcende o nível do local, sendo reflexo de uma crise mais global.
Esperemos que o Dr. Pangloss do Daniel venha a prevalecer, mas confesso que sinto dúvidas quanto a isso, com as nuvens negras que se adensam no horizonte da Europa e do Ocidente. Vivemos um tempo de Ocaso e pouco há a esperar dessas "properidades" que anualmente se repetem em cartões de boas festas. Por isso me limito a desejar-vos boa saúde e que ninguém morra à míngua (já é muito bom se assim for), no novo ano que se avizinha. Com um abraço do
N.

Anónimo disse...

ERRATA:
onde se lê "properidades", deve ler-se: "prosperidades", obviamente.
n.

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