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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Sessão de Apresentação do livro "A parábola dos três anéis", de Júlia Guarda Ribeiro

Momento da apresentação do livro, no auditório da Biblioteca Municipal (foto gentilmente cedida pela Biblioteca)


Conforme foi anunciado aqui no blogue, realizou-se no passado sábado, dia 5 de Dezembro, a cerimónia de apresentação do mais recente livro da nossa conterrânea e colaboradora, Drª. Júlia Barros Ribeiro, intitulado "A parábola dos três anéis". Ilustrado com preciosas aguarelas de Guilherme Correia e um excelente acabamento gráfico da Folheto Edições & Design, este livrinho, pequeno no tamanho, é grande na mensagem que incorpora.
Depois da intervenção do Dr. Adélio Amaro, responsável pela edição, coube a apresentação ao nosso também colaborador Rogério Rodrigues, que salientou a actualidade da temática versada na obra, apesar de se basear numa peça do séc. XVIII, de autoria do iluminista alemão Gotthold Ephraim Lessing, que, por sua vez, a recuperou de um trecho anterior do "Deccameron" de Boccacio, censurada pela Inquisição. Os três anéis, são, afinal, os três pilares religiosos fundados no Médio Oriente - o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo - cujo diálogo tem sido particularmente difícil ao longo dos séculos, e, particularmente, nos nossos dias, nessa mesma região, como se sabe e se vê diariamente nos telejornais. Daí a actualidade da mensagem, que é um apelo à tolerância, concluíu Rogério Rodrigues.
Abertura da sessão, com o Sr. Editor no uso da palavra. À direita: Drª. Helena Pontes, Chefe de Divisão de Cultura e Turismo, Drª. Júlia Ribeiro e Dr. Rogério Rodrigues

Seguidamente foi lido um trecho do livro apresentado, pela voz da Drª Conceição Barros, irmã da autora. A narrativa começa com uma avó que conta às netas (Catarina e Inês), uma história (ficcionada) que se teria passado em Jerusalém, no tempo das Cruzadas, tendo por intevenientes um judeu, o Sábio Nathan, um sultão muçulmano (Saladino), um guerreiro cristão que salva a filha de Nathan, e sobre o qual se descobre, no final da história, que era seu irmão, afinal sobrinhos de Saladino. De onde se conclui que eram todos de uma mesma família, como na verdade são as três grandes religiões monoteístas, com o seu tronco comum.
Na sua intervenção, Júlia Ribeiro explicou que esta bela história, na versão de Lessing, é um grande obra escrita para teatro, em 5 actos, sob o título: "Nathan, Der Wiesel" (Nathan, o Sábio). Foi uma obra censurada ao longo dos tempos pela cultura cristã dominante na Europa, tendo sido expurgada durante o nazismo, na Alemanha. Em Portugal só teve uma edição em Português, em 1915, e nunca mais foi reeditada. Já em Espanha, entre 2006 e 2009, fizeram-se três reedições, por ser tema muito actual. Disse ainda Júlia Ribeiro que, na Alemanha, Natahn, der Wiesel, foi a segunda peça mais vista nos últimos anos, logo a seguir ao Fausto (de Goethe).
A autora durante a sessão de autógrafos
O encerramento da sessão coube ao Sr. Presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, Engº Aires Ferreira, que felicitou a autora por mais este livro, destacando que a mensagem de tolerância remete para uma verdade que, disse, é a única verdade que conhece: "Não há uma só verdade". Daqui extrapolou para um outro tema que lhe é muito caro, e que assumirá um particular relevo no ano que se aproxima, no contexto do centenário da implantação da República. Assim, lançou um repto aos investigadores do concelho, no sentido de fazerem pesquisas sobre este período (final do séc. XIX e inícios do séc. XX), não só sobre eventuais acontecimentos em torno da República na vila de Torre de Moncorvo, mas também relativamente ao resto do concelho. Contou, a propósito, um episódio ocorrido no Felgar, durante a Monarquia do Norte, envolvendo seus familiares directos. Espera-se, assim, que no próximo ano se possam apoiar outras edições, no âmbito da história do período republicano.
Depois da habitual sessão de autógrafos, foi oferecido um beberete, noutra sala da Biblioteca Municipal, onde o numeroso público presente pôde confraternizar e trocar impressões com a autora.
Fica o convite a lerem esta bela síntese (só aparentemente para crianças) da grande obra de Lessing, numa versão própria e original, a qual é excelente presente natalício. Por todas as razões.

9 comentários:

António Sá Gué disse...

Olá, Júlia!

Parabéns e muito sucesso.
Depois de ler o texto, aqui "postado", fiquei com uma certeza: NÃO VOU PERDER.

Abraço.

Júlia Ribeiro disse...

Olá, caríssimo Nelson:

Obrigada pelas suas palavras de Amigo e pelo seu excelente relatório da sessão.
Aproveito para agradecer a presença de tantos bons Amigos que quiseram deslocar-se até à Biblioteca naquela tarde tão fria.
O meu bem haja também para a Isabel. Se tivesse o seu endereço mandava-lhe o livrinho para a sua menina.

Aproveito ainda para deixar aqui uma espantosa opinião de Lessing:
" Se Deus tivesse toda a Verdade na sua mão direita e, na esquerda, nada mais do que uma busca incessante da Verdade, com a condição de errar, e me desse a escolher, eu escolheria reverentemente a mão esquerda e diria: Pai, dá-me isto. A Verdade pura é para Ti apenas". (Brian Johnston "Nathan, Utopia and Enlightenment", Carneggie Mellon University, 2006).
Foi exactamente isto que levou Hannah Arendt a afirmar que "A grandeza de Lessing não se reduz simplesmente à iluminação teórica de que não pode existir no mundo humano uma verdade única, mas que essa grandeza reside também no seu júbilo por ela não existir, já que isto implica o discurso incessante entre os humanos. Caso contrário, seria o fim do discurso, o fim da amizade e, assim. o fim da humanidade." ("Reflexões sobre Lessing" em "A humanidade em tempos sombrios" , 1968 ).

Belíssimo, não é?
Desculpai ter-me alongado tanto.

Abraços para todos
Júlia

Anónimo disse...

É belíssimo, sim.
Mas cada um quer sempre ter na mão a verdade absoluta. Por isso é que o mundo está como está.
Gostei do seu livro que não é só para crianças.

Fernanda

Anónimo disse...

viva Drª. Júlia, nós é que agradecemos mais este belo trabalho, profundo na sua singeleza, que esta nota final sobre Lessing (sobretudo a análise de Hannah Arendt) ainda mais valoriza.
Será assim a Verdade da mão direita de Deus - o Absoluto - um ideal a atingir, talvez o Ponto Final do Universo, enquanto a incessante busca dessa Verdade, será a dialese em que tudo se move e confere dinâmica a todas as coisas?? Será isso que nos exaspera? Bem, afinal sabemos hoje que não há fins da História e que quando algo atinge esse suposto "ponto final" se pode dar uma contracção de tal forma terrível que novamente pode explodir num novo "big bang". Uma sucessão de eternos recomeços? Eis a questão.
N.

Wanda disse...

Olá!

Uma expressão muito usada por ai e que nunca ouvi por estas terras de além mar, "o meu bem haja" para você Júlia.
Sei que é uma forma de agradecimento que aqui seria "traduzida" por: Tudo de bom !
Nestas duas formas quero te agradecer por dedicar-se a transmitir ,aos seus leitores e legar ao mundo , o seu conhecimento e o seu talento.
Um grande abraço, como diz você,"para que alcance o outro lado do oceano"

Wanda

São Paulo-Brasil

Anónimo disse...

Foi a historia mais linda que li em toda a minha vida. Li e reli e acho que devia ser como leitura obrigatoria nas escolas e até na igreja.

M. Rodrigues

Anónimo disse...

Olá Júlia!
Não pude estar presente, pelas razões que tive ocasião de lhe expor. Mas li deliciadamente a história ( que teve a bondade de me fazer chegar) bem como o seu comentário acima citando Hannah Arendt. Ambos notáveis.Lições sobre a tolerância e as razões da fraternidade universal - valores tão espezinhados hoje em dia!
Um abraço e parabéns.
Daniel

Anónimo disse...

Dra. Julia Biló:

Só quero dizer duas coisas:
1 - recebi á pouco e li de segida a Parabola dos 3 Aneis e acho que devia ser obrigatoria não so nas escolas, mas em todas as familias.

2 - tenho muito orgulho em ser moncorvense, porque tem gente como a Julia, o Dr. Daniel , que so conheço do blogue, o Rogerio, o Lelo , o Nelson, a Dra. Isabel e mais alguns de aldeias prossimas.

Desejo a todos um feliz NATAL com tolerancia e paz.

M.Brites

Júlia Ribeiro disse...

Olá, Amigos:
Não sei se é a Mª da Conceição Brites e M. Rodrigues não estou a localizar.
Agradeço-vos e à Wanda e ao Daniel e retribuo os desejos de um Natal em Paz e Tolerância.

Abraços
Júlia

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