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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Em Viagem II - continuação do poema de Campos Monteiro

Foto da entrada da vila de Torre de Moncorvo (às Aveleiras), no tempo de Campos Monteiro (in Ilustração Trasmontana, 1908-1910)
Olha agora à direita, e vê: parece um cromo.
No sopé da montanha uma sé colossal,
e em volta cinco ou seis centos de casas, como
Ao redor de um castelo um burgo medieval.
É Moncorvo! Está perto o termo do caminho ...
Lá vejo a casa em que eu à luz do mundo vim;
paira-lhe sobre o tecto um fumo cor de arminho,
tão branco, que parece um lenço de alvo linho
Posto ali a acenar, para chamar para mim !
Às Aveleiras, desço e sigo a pé. É perto...

Trajecto que o escritor seguiu, desde a Rua do Cabo, até à sua casa, na rua da Misericórdia -foto de N.Campos (clicar sobre a foto para a ampliar)
Estavam d’antes aqui a esperar-me - era certo!
- meu pai e minha irmã, ambos a par.
Mas a morte passou, e levou-os consigo.
Vê-se d’aqui, porém, o seu jazigo,
e é p’ra eles que mando o meu primeiro olhar,
agora, preparar! Vamos calcar a argila
da rua que conduz mesmo ao centro da vila,
e há caras conhecidas nas janelas
e às portas, a tomar o fresco. E em todas elas,
mal eu desponto, surge um clarão de alegria.
Tenho de saudar, dizer se passo bem,
e perguntar depois como eles vão, também.
E n’esta via-sacra atroz da Cortesia,
vou seguindo e parando ... Até findar o dia.
Aqui tens, logo à entrada, as senhoras Botelhos,
o Daniel e a mulher ... Coitados! Estão velhos,
mas sempre amigos: Dáfnis e Cloé.
Depois, no Lageado, a gente que passeia
n’este cair-de-tarde idílico de aldeia.
Caio em pleno triunfo! É a hora do café,
e o botequin do Ernesto está au grand complet!
E na Rua das Flores, e na Praça
toda a gente que está me saúda e me abraça.
N’um banco do Castelo, o ti’Zirra, ceguinho,
- santo velho! Cegou de tanto trabalhar!
- levanta-se, a sorrir: - «Deus o traga, vizinho!»
E a sua mão tremente de velhinho
Procura a minha mão, a tactear!
Meus bons patrícios, cheios de virtudes!
Honesta, digna, hospitaleira gente!
Como eu me sinto bem entre os seus braços rudes,
E como folgo em vê-los novamente!

Casa onde nasceu Campos Monteiro, em lamentável estado de degradação - foto de João Pinto V. Costa

Ao penetrar na minha rua, todos
Saem de casa para me abraçar.
Recebo beijos... Efusões a rodos...
E a Lídia, à porta, grita com maus modos:
- «Deixem-n’o em paz, que há de querer jantar!»-
Porém, sentado à mesa, tão contentes
Sinto os olhos, a alma o coração,
Que nem toco nos pratos excelentes
Cozinhados por minha devoção.
E a minha mãe - coitada! - a sorrir e a dizer:
- «Come, meu filho! Vais adoecer
Se começas assim a jejuar!» -

Como há de ter vontade de comer
A boca que só tem desejos de beijar!
Campos Monteiro, in “Versos Fora de Moda” (1915)

6 comentários:

Anónimo disse...

Quinhentas casas em torno da vetusta e imponente greja conta, no dealbar do século XX , Campos Monteiro!
Hoje serão umas quantas e poucas mais ( digo-o com ternura e não com ironia), mas a mesma emoção , o mesmo nó na garganta eu ainda hoje sinto quando vindo do Pocinho entro pela estrada das Aveleiras e a minha vista se abre sobre Moncorvo. Vou aí agora muito menos, mas entendo muito bem o delicado fio de imagens que este poema ( um quase poema aliás) nos evoca. Há de resto um pudor imenso na expressão "Versos fora de moda", como que se o autor quisesse deixar intocadas, por transcendentes, as suas emoções.
Por detrás de uma roupagem de época
eu posso recordar aqui o meu roteiro estival de criança e jovem que me levava de combóio à borda do Douro, respirando a sua esmagadora paisagem de uma trágica grandeza, até ao Pocinho e daí até Moncorvo , numa automotora que afinal recriava o poema do nosso Campos Monteiro.
Como se tudo ainda estivesse parado
estaticamente no tempo.
Daniel

N. disse...

Como vê, caro Daniel, Campos Monteiro não foi tão mau quanto isso. Serei eu um pouco mais novo e senti o mesmo aperto na garganta, quando, tendo de me ausentar daqui por largas temporadas, ao olhar para trás, a seguir ao alto da Açoreira, perdia o contacto visual com o burgo; mas sentia a mesma alegria esfuziante quando, regressado em férias dos tempos académicos ou de serviço, ao chegar ao alto da Ventosa vislumbrava este "porto de abrigo", no ponto que alguém baptizou de "curva da saudade". Agora, com a estrada nova a passar por baixo, a aproximação a Moncorvo perdeu a piada; já não se vislumbra a partir de cima; entra-se por baixo, e o poema de Campos Monteiro morrerá agora nas recordações dos vindouros. Quanto a nós, pois vemos que ele perdurou cerca de 100 anos. E quantos mais o sentiram, antes dele o escrever, já que a saída/entrada de Moncorvo, para a barca do Pocinho era aquela, havia séculos?... Ah, estou a recordar-me de outra evocação campos-monteiriana, neste caso da dor da partida, pela outra alternativa (entretanto desaparecida): a da linha do Sabor! - Quando no final da novela "Tragédia de um coração simples" (creio que se intitula assim), dos Ares da Minha Serra, põe o Caramês a lançar um último olhar, para trás, para a vila que fora o seu mundo, a caminho do degredo africano... É uma imagem lancinante, pungente, terrivelmente sofrida, mais ainda do que a imagem do protagonista de Manhã Submersa, filmada na estação do Larinho em 1979 - filme que o Leonel Brito fez o favor de nos trazer e oferecer, há dias (e de que foi produtor, com Lauro António como realizador). Esse combóio (a vapor) era praticamente o mesmo do tempo do João Caramês... Como vê, este é o mundo das permanências, do tempo lento, o que até é bom, do ponto de vista do "congelamento" das nossas referências/memórias... Pode estar certo que agora há muitos mais fogos na vila, do que no tempo de Campos Monteiro (basta comparar as fotografias de 1908 e a actual, talvez de 2007); não sei é se haverá tanta gente como nesse tempo (a residir normalmente). O burgo era pequeno, mas as pessoas viviam em muito menos espaço, uns em cima dos outros, é certo. Todavia, o trajecto que descreve está lá: Aveleiras, Lageado (era o adro da igreja), rua das Flores, praça, castelo... Mudaram as pessoas, naturalmente, mas até certos apelidos, como o do Zirra, se mantiveram por muitos anos, a pontos de alguém os nomear (H.E.jr), aqui há pouco tempo...
Por outro lado, é notável o profundo amor do autor (C.M.) à sua terra natal; o modo carinhoso e comovente como se refere à sua gente ("meus bons patrícios"), aos espaços, ao ninho de onde partiu... Só colhe paralelo nas pedras de minério de ferro que um outro moncorvense de atrás-da-serra transportou ao longo da sua vida... e, desculpe-me, caro Daniel, que lhe diga, é o mesmo discurso que emana da sua primeira "carta" que foi postada neste blog, e dos seus comentários (mesmo este último) aqui no blog. O mesmo a dizer da Wanda, e de outros mais. Discurso da distância e da nostalgia? discurso da Diáspora? discurso do orgulho de pertencer, de algum modo, a esta terra mágica (tão mágica que até um escritor da craveira de um J.L. Borges lhe quis de algum modo pertencer?) -Seja! Resta saber como podemos contribuir para preservar e lapidar este diamante sem o riscar, legando-o o mais possível intacto e perfeito, para que outros, para além de nós, possam reconhecer Torre de Moncorvo nas palavras de Campos Monteiro e, porque não?, também nas nossas, daqui a outros 100 anos... "Património" é "legado"; e património tanto é este poema, como as pedras e as gentes que ele evoca. Património é também o seu autor (goste-se dele ou não) que nos deixou escritas as melhores páginas sobre esta vila, nos inícios do século XX.
Sabemos que não podemos "fossilizar" as coisas, nem o pretendemos para a Vila. Ela está em constante mudança, ainda que pouco pareça. No entanto, que se renove para as "avenidas novas" (de forma harmoniosa e estética) e mantenha o mais possível a sua imagem de marca, no seu centro histórico, um dos mais belos e relativamente preservados de Trás-os-Montes (apesar dos tais casos de decrepitude que terão de se resolver - como é o caso da casa de Campos Monteiro).
N.

N. disse...

P.S. - só uma adenda, a propósito da frase do Daniel: "Vou aí agora muito menos": se calhar está na hora de vir mais vezes... porque não adquirir uma casita dessas algo degradadas, recuperá-la, ter uma motivação para vir cá mais vezes, trazer amigos, visitar familiares e outros amigos... e por que não pensar em gozar cá a reforma? (cá está, de novo, o discurso do Kennedy: "não perguntes.....; pergunta antes o que podes fazer pela tua terra" - com a devida adaptação minha).
Abraço,
N.

Anónimo disse...

En el cometario,P.S. de las 3.53 de Nelson estaba yo pensando:Traer amigos,......Y porqué no,gozar de la reforma.
Lo que si parece cierto,es que por entonces, las calles parecían mas llenas de gente.
Vienen a mí memoria, esas fraguas al atardecer,con todos los labradores haciendo cola para afilar sus herrajes;mientras se liaban um cigarrillo apoyados en la pared.
Y esas fuentes donde los jovenes ibamos con los cantaros a por agua,y convertiamos en lugares de cita y encuentro.
Y esos lavaderos públicos,verdaderos consultorios amorosos, donde como celestinas,se concertaban casamientos.
Barberias,cantinas,bodegas, pequeñas tiendas,etc.Espacios con vida propia, casi todos desaparecidos, y que han sido sustituidos por las colas en hilera de los supermercados.
Lo que quizás empobrezca la imagen de estos edificios,es ver las calles tristes ,sin el jolgorio de los crios de nuestra época,con juegos ya irrecuperables:El clavo,el escondite,las canicas,el aro,y así miles.
Un fuerte abrazo.Angel

Anónimo disse...

Verdad, Ángel, verdad... y no olvidando los huertos, porque las gentes (mismo los aposentados) necessitan de comer... huertos cultivados por su mano o por otras personas que los venderian en el mercado diário o en las ferias (que la feria de D. Dionis, creada cerca en 1286, sigue haciendose) - esta es otra cosa tradicional de Moncorvo que no se puede dejar terminar. Me duele veer morir estas tierras del interior, por eso ahy que usar la imaginación para refundarlas y luchar contra la desertificación humana. Y en este aspecto, los dos lados de la frontera tienen que ayudarse, porque los problemas son los mismos y entanto que Lisboa y Madrid quedan muy lejos de nosotros. No hay que esperar que los "macrocéfalos" resuelvan nuestros problemas; el futuro de la tierra charra, como el del Trás-os-Montes profondo deverá seer lo que sus gentes lo quieran. Los que aún viven aqui, o aunque no vivan, lo puedan venir a adoptar (mismo no sendo nados y creados).
Un abrazo muy grande para ti, Amigo, que es un Moncorvense y transmontano adoptivo! - también de este "charro" adoptivo,
N.

Wanda disse...

Consegui fazer uma viagem imaginária através da descrição feita por Campos Monteiro.
Quando estive em Moncorvo, por causas das curvas da estrada, eu , sem reconhecer o caminho perguntava a quem conduzia:-Já chegamos ao Pocinho?
Sendo a resposta afirmativa ,corria com olhos o caminho para ver se já conseguia avistar a vila.
É uma pena que lugares interioranos estejam sendo trocados pela vida nas cidades.
Já é um bom começo preservar o centro histórico de Torre Moncorvo, espero que o povo e as autoridades levem afinco esta tarefa.
O lugar onde vivemos é mais do que o simples conjunto de objetos entre os quais trabalhamos, circulamos, moramos, mas também um dado simbólico.
A linguagem regional faz parte desse mundo de símbolos e ajuda a criar esse amalgama , sem o qual não se pode falar de territorialidade.
A terra natal não é só o lugar onde estão enterrados nossos mortos, é lugar onde temos nossas raízes, onde possuímos nossa casa, falamos nossa linguagem, pulsamos os nossos sentimentos mesmo quando ficamos em silêncio.
Todos compartilhamos da mesma certeza, essa certeza que Campos Monteiro descreve ao encontrar seu povo.
É o lugar onde sempre somos recebidos.É o que todos desejamos no fundo do coração, sermos recebidos e bem recebidos da maneira como ele descreveu .
Como disse Angel, talvez o que empobreça esses mesmos caminhos, seja a falta das brincadeiras infantis que enchiam de vida com suas algazarras todos os recantos por onde se passava.
Não é emocionante o Campos Monteiro?Escreveu o poema há quase cem anos e ainda estamos aqui a dissertar sobre suas idéias e sentimentos.
Bem por isso, poetas e escritores são chamados imortais!
Abraços
Wanda
São Paulo,26 de fevereiro de 2009

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