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domingo, 8 de fevereiro de 2009

Visita ao Horácio Espalha

Vão já quase 40 anos, publiquei um livro de poemas, "Livro de Visitas" em que faço uma "visita" ao Horácio Espalha. Durante anos partilhámos, diariamente, muitas horas, muitas histórias e outras tantas palavras. Também falava muito com outra figura esquecida, o Álvaro Inês, taxista, picado de bexigas ( ai! estas reminiscências camilianas...), sempre de óculos escuros, fumador de boquilha que fora preso e torturado pela Pide no Porto. Ele e o Horácio Espalha (Horácio Morais com tias que tinham uma pensão onde hoje é o Bom Amigo, ou mesmo ao lado, não estou certo). Não sei por que não se falavam. Mas penso que tinham "ciúmes" um do outro, porque cada um queria reivindicar para si a "instrução revolucionária" ou, pelo menos, subversiva, de alguma juventude de Moncorvo.
O Horácio Espalha morreu já depois do 25 de Abril, andava eu longe de Moncorvo, em contencioso com a Vila e comigo mesmo. Só mais tarde, após um processo lento, em que a aprendizagem da tolerância terá sido a melhor ferramenta, me reconciliei com a Vila, ainda que não comigo mesmo.
Após o 25 de Abril, o Horácio Espalha terá sido um pouco utilizado pela juventude do MRPP que surgiu pujante em Moncorvo, sob a direcção desse homem bom que foi o Toni Americano, infelizmente para todos nós, já falecido. E desiludido, tanto quanto me é dado saber pelas visitas que me fazia em Lisboa,vindo da América, com os seus antigos camaradas.
As minhas relações com o MRPP não eram agradáveis. Meses antes de morrer, o Horácio Espalha escreveu-me uma carta, uma longa e dolorosa carta, cheia de queixas, algumas contra mim, mas reatando uma amizade que, da minha parte, nunca tinha sido desatada.
Quando escrevi este poema, que vou copiar, tinha eu 20 e poucos anos, incluído num livro editado em 1972. Poderá ferir pela sua aparente crueza. Engano, na minha perspectiva, porque sempre apreciei a inutilidade dos deuses, sejam eles da Grécia ou de Moncorvo. E sempre me escondi de manifestações de ternura, para que houvesse ternura.
Prefiro a inutilidade dos deuses à vulgaridade dos homens. Aqui vai o poema, sem correcções, tal qual foi publicado. Espero que não se escandalizem e perdão a um jovem de então que tropeçava na escrita, insultava a metáfora e ainda não sabia que a poesia( como diz Jorge de Sena com outras palavras) é o que de mais inútil há, mas não conheço nada mais importante.

Visita ao Horácio Espalha

Tinha nervos de banha o velho azul olhos de
fogo concentrado em cinzas quentes. Pelas mãos
lhe escorriam os ócios ou as palavras eram
franjas de saliva suja ou os sons eram incómodos
arrítmicos no pasmo. Tinha o velho a dimensão
do pedincha centauro instalado na Vila, pus
que só a morte esguichará par as grandes
planícies do silêncio em que ele não crê, azul e fogo.

Abanava trapos pela violência nas mesas caricaturais
do espaço deposto. Apostava o corpo crueldade obesa
aos olhos educados das gentes decentes que mais decentes
não se viram.Vira vai vem vaia o velho veloz
nervos de banha cinzas quentes. Os dentes desistiram do
dia são os sons bolhas as folhas outonais da
eternidade. Verrugas e rugas unhas sujas prisão de fome
ócios lhe escorrem escorrem palavras palavras pus morrem.

As mãos são ovais como cordas de gestos enforcando a luz.
Domador das estradas que ouviu britar até à silicose
roer os homens, estratega do inútil, do inútil vivendo
sabe de cór a dor, da dor conhece a cor dos gritos,
dos gritos cria a pedra, das pedras soterra a Vila na
morte ---ele o pus, a oratória sangrada, o nada.
ele nada--caminhando pelas fezes pétreas
agrestes rudes que consomem os espaços...

Tinha nervos de banha o velho azul olhos de
chama ou concentração de fome, centauro
a petiscar a morte nos que dela próximos estão
cantor da memória, centauro tagarela e inútil
mito roto, deambula pelo plástico hirto
da dimensão comercial da nossa Vila,único
sobrevivente do tempo dos deuses, esperando
que chuva ou névoa o venha desenterrar da pedra.

Livro de Visitas ( 1972)

11 comentários:

Anónimo disse...

Estás perdoado.
H.E.j

Anónimo disse...

H.E.jr tem mm sentido do humor!...
O H.E. original deveria ser, de facto, uma figura! A ideia que dá é que a praça de Torre de Moncorvo tinha muito de ágora grega, ou de teatro de Dionisos: aí se produziam tipos sociais para todos os gostos, desde os "doutores" aos "paliteiros", passando pelos seus críticos purulentos, auto-investidos em funções de pretensos transformadores do mundo, ansiando por uma utopia social que culminou até em personagens de Tragédia, ela própria também quase-grega. Tony da Queija, mais conhecido por Tony "Americano", com um destino bem nos antípodas do seu correlegionário Zé Manel ( o Mr. Barroso das europas), o puto finório que ele conheceu de perto, tal como outros "renegados" que hoje são importantes figuras públicas da política nacional, foi o estereótipo do revolucionário romântico que se manteve fiel aos seus princípios e que acabou num suicídio etílico face ao falhanço do seu ideal de revolução.
Este post do Rogério é um interessante subsídio para uma história social do final do antigo regime e dos inícios do período revolucionário de Torre de moncorvo. Não haverá por aí umas fotos dos chaimites no meio da praça, nas campanhas de "dinamização cultural" do MFA?? e, já agora, dos artísticos graffiti dos émeérres?
N.

Anónimo disse...

"Não haverá por aí umas fotos dos chaimites no meio da praça, nas campanhas de "dinamização cultural" do MFA??"
Caro Nelson, as campanhas ficaram conhecidas pelo nome de DINAMITAÇÃO CULTURAL.
Pergunta: Se a praça já tivesse fonte, nessa época, os dotores andavam à roda? à nora andaram depois. Paciência. É a bidinha…
Compreendeu!?
H.E.j.

Anónimo disse...

OBRIGATÓRIO: Ler o comentário Nº29 de N. in" Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009
Moncorvo, Zona Quente em Terra Fria ".
Pare ,escute e leia, e vá preparando o farnel para o encontro de Setembro na cortinha da guarda.

Júlia Ribeiro disse...

Caríssimo Amigo Rogério:
É grande a nossa simpatia pelo velho Horácio Espalha! Um dia destes conto-vos uma estorinha dele muito linda.
Só agora é que fiquei a saber que o Rogério escreve poesia. Que maravilha!
Tantas coisas acontecidas em Moncorvo e que me passaram ao lado...
Para tentar recuperar algo, pergunto: qual a editora do seu "Livro de Visitas" ? Pela amostra, fiquei com vontade de o ler.

Olá, H.E.Júnior:
Com que então, um desafio para um roteiro da Querdoira? Poderá ser, mas levará o seu tempo. São memórias de há 65 anos ou mais !
Daria um folhetim com uma data de episódios...

Abraços
Júlia Ribeiro

Anónimo disse...

Pois!
O que eu perdi neste meu pequeno périplo por frias e distantes terras em que o acesso à comunicação pela internet pode ser e muitas vezes é difícil senão impossível.
Revejo agora estes posts ( que nome horrível para tão magníficos textos e imagens , por vezes de uma assombrosa força )e a única coisa que me ocorre é dizer como a palavra e sobretudo as ideias correm por aqui ,a desafiar, a estimular, a reviver, reinventar, provocar - de todo a definir um magnífico espaço de partilha cujo ponto comum é - imagine-se lá!- uma terra que nalgum momento, por alguma razão foi por qualquer de nós vivida, bem ou mal, pouco ou muito, com paixão ou com decepção.
Que assim continue. Como todas as coisas boas da vida, há-de ter um fim , estejam certos. Pelo menos terá valido pelo reencontro, pela solidariedade, pela discussão, pela ironia, pelo encanto , pela ingenuidade - pela dimensão humanizada da própria vida.
Afinal o centauro do poema do Rogério foi desenterrado da pedra .
Daniel

Aqueduto Livre disse...

Julia Ribeiro,
Não a conhecendo, sei um pouco de si pelo Rogério.
Soube por ele que conheci o senhor seu marido, homem de leis e advogado de sindicatos de Leiria e Marinha Grande, que eu frequentei.
Mas não é disso que lhe quero falar.
Eu tenho a honra, a felicidade e o deleite de ser amigo do Rogério e de com ele conviver, quase em cada jornada da vida.
Tenho o privilégio de conhecer o Livros das Visitas...e ainda produção mais recente (isto é um segredo: pode encontrar alguma poesia dispersa do RR em dois blogues: Aqueduto Livre e Mainstreet).
Eu, que sobre estas matérias não tenho competência, mas assiste-me alguma sensibilidade e bom gosto, digo-lhe com a mor e avonde franqueza: o RR é um enorme poeta, mas (respeitemos-lhe a teimosia)não se deixa publicar. Oferece, às vezes, como quem lança flores aos ventos rudes das serranias trásmontanas, poemas aos amigos e amigas.
Faz pouco tempo (digo-lhe porque ele já falou nisto)escreveu um poema à neta, Beatriz, filha do seu filho Tiago. O poema em forma de carta - para ela ler quando for grande:do melhor que já li.
Não lhe digo mais, porque está, bem o pressinto, a tornar-se uma quase maldade da minha parte para consigo (que a não conheço).
Escrevi isto para lhe dizer que, de facto, o RR é um grande poeta, um enorme escritor e um venerado jornalista.
Para mim é o irmão, que eu sempre sonhei ter.

José Albergaria

Júlia Ribeiro disse...

Obrigada, José Albergaria. Quem foi amigo do meu marido é também meu amigo.
Agradeço-lhe os esclarecimentos sobre o nosso comum amigo Rogério. Desde a primeira palavra que trocámos, foi para mim evidente que o Rogério era uma mente brilhante. E mais, pelo modo sensível como via o mundo de injustiça que é o nosso, pela revolta expressa ou contida, pela simplicidade das suas palavras, pareceu-me entrever uma alma de poeta (não sei dizer de outra maneira). Mas sobre este ponto nunca ele deixou escorregar qualquer sinal aberto.
Apresentou dois ou três livrinhos meus e os seus textos são lindíssimos. Viu coisas nas minhas histórias que a mim nunca tinham passado pela cabeça... O Rogério é, realmente, extraordinário.
Já que ele não se deixa publicar, seguirei o conselho que me dá e irei ver poemas seus no Aqueduto Livre e Mainstreet.
Um dia destes enviarei ao amigo José Albergaria (para o endereço do Rogério) o livro de escritos do meu marido e "Mulheres da MªGrande - Histórias de Luta e de Coragem" . Estamos a continuar essas histórias, pois há muito mais a contar: situações terríveis e simultaneamente
fantásticas de coragem e abnegação.
O meu obrigada a vós dois e também dois enormes abraços,
Júlia Ribeiro

Aqueduto Livre disse...

Julia,

Obrigada pelo seu cuidado em responder-me.

Mais um segredo: o nosso poeta, quando se deixa publicar, assina Pedro Castelhano...e pour cause (Peredo de Castelhanos...).

Abraço,

José Albergaria

Júlia ribeiro disse...

Obrigada pelas dicas. Já bisbilhotei o Aqueduto Livre. Já encontrei algo e o nosso Amigo já enviou mais poemas. Graças a si.

Abração
Júlia Ribeiro

paulo patoleia disse...

pois pois, o Toni Americano era um rapaz de coragem, eu que o diga, nunca vergou nem diante do MFA, pois pois os dos chaimites...e depois a mulher do Pacheco sim sim o da caixa deu-lhe a fuga com lençois atados pelo seu terraço, quem diria...a filha do sr. Cabeças a mesma ,mulher de coragem revolucionária, deu-lhe a fuga nesses conturbados tempos pós 25 de Abril, onde a barriga do Marrana Velho, sim sim esse da pensão, deu o sinal de ataque ao MRRPP , perdão, Toni Americano, em plena praça Francisco Meirelles, bem no sitio onde o Quim engraxava os afurtunados, descambando o comício do Freitas do Amaral em pauladas dirigididas aos reacionários que, deram à vilas diogo, eu na Peixaria da Lídia outros com menos sorte com a cabeça rachada, como o Teófilo Ruche. Insensatos aqueles que agora se acham Zaratustras...

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