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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

“Em viagem”, um poema de Campos Monteiro

Em tempo de amendoeiras em flor, é oportuno recordar um belo poema do nosso escritor Campos Monteiro (1876-1933), julgamos que escrito na sua juventude, em forma de carta, para uma amada (que só poderá ser a mulher de sua vida, Olívia, a quem dedicou também um dos seus primeiros escritos, intitulado “Violia”, anagrama de seu nome).

O poema-carta, publicado em Versos Fora de Moda (1915), tem várias partes, começando pelo desembarque do autor na estação do Pocinho; a seguir, este atravessou o Douro, talvez ainda na velha barca de passagem, uma vez que afirma que a diligência estava à espera do outro lado do rio; logicamente não estava construída a linha do Sabor, pois o percurso para Moncorvo é feito na diligência (também chamada mala-posta); segue-se a ascensão pela vertente da Quinta do Campo até à linha de cumeadas por onde corria o velho caminho, em direcção à Ventosa. Julgamos que seria este o trajecto, devido à descrição que o autor faz da paisagem que dele se avista (talvez ainda não estivesse construída a Estrada Real que coincide com a E.N. 220 (agora algo abandonada, depois da construção da recente ligação de Torre de Moncorvo ao I.P.-2).

Para não alongar muito o “post”, dividimos este primeiro poema em duas partes. Esta é dedicada ao trecho da viagem, antes de chegar à vila de Torre de Moncorvo. Colocaremos depois o trecho referente à sua entrada na vila e o percurso que faz até a casa de seus pais, na Rua da Misericórdia.

Nota 1 – actualizámos a ortografia, pois na edição original (que nos foi disponibilizada para consulta pela Biblioteca Municipal), dos anos 20, ainda se escreve “schisto” em vez de xisto; “scintilações” em vez de “cintilações”, etc.

Nota 2 – Sobre Campos Monteiro, ver os “posts” de Rogério Rodrigues, neste blog, datados de 14 e 16 de Maio de 2008 (para melhor facilidade de procura, clicar sobre a etiqueta Campos Monteiro, na coluna do lado direito).

Nota 3 – As fotografias que ilustram este “post” são de autoria de João Pinto Vieira Costa, a quem agradecemos a sua cedência (agradecemos também que sejam respeitados os seus direitos autorais).



I. - EM VIAGEM

Parto p’ra a terra. Sinto-me doente,
e é tal o amor que tenho ao meu cantinho,
que eu creio que melhoro de repente
ao avistar as veigas do Pocinho.
Salto às duas da tarde na estação,
e meto encosta abaixo em direcção ao rio.
O ar é tépido e brando: uma consolação.
Vê tu: no Porto faz ainda frio,
na minha terra já parece v’rão.
Do outro lado do rio a diligência espera
- e começa a ascensão. Nem sequer imaginas
quão pitorescas são estas ravinas
agora, ao começar da primavera!
Como um cortejo, mal organizado,
de donzelas coquettes e palreiras,
todas de branco, as amendoeiras,
descendo em grupos as ladeiras,
dão-nos a sugestão de irem p’ra um noivado.
E cada encosta é um tapete apenas de lírios,
arreçãs, malmequeres, verbenas ...
sulcada de carreiros e de trilhos,
casa-se ao verde intenso dos tremoços
o amarelo vibrante dos pampilhos.
Passam cachoeiras rindo: esse riso impudente
dos rapazes que veem a sair d’uma escola;
e em volta os lótus de húmida corola
tomam seu banho, consoladamente.
Aos raios de oiro pelo sol vibrados,
os xistos e os granitos dos montados
lançam cintilações de lantejoulas.
Corre um filete d’água lá no fundo.
E os trigos riem para o céu profundo
pelos lábios vermelhos das papoulas...
A quatrocentos metros de altitude
o Amâncio pára o carro, a descansar o gado.
E agora o quadro é outro e muito mais variado.
Dize-me se não dá mesmo saúde
olhar este horizonte dilatado!
O que temos subido ! Olha o Monte-Meão,
há pouco inda tão alto, e agora n’um fundão!
Por de sôbre ele vê-se uma faixa amarela
de montanhas, ao longe: é a Serra da Estrêla.
Da Burga, ao norte, a massa informe.
Serras ao poente. A Leste o Roboredo infindo.
E este caixilho sumptuoso, enorme,
que lindo quadro ele emoldura! ... Lindo! ...
Pela vertente das encostas,
co’a rigidez d’uma muralha,
as oliveiras, em cordões dispostas,
lembram soldados, de mochila às costas,
ordenados em linha de batalha.
E há vinhedos sem fim ... Imensos laranjais ...
E na toalha verde-escura
dos azevéns e cereais
põe uma intensa nota de frescura
as pinceladas brancas dos pombais.
Da Vilariça, em baixo, a multicor alfombra,
tão fértil que sustenta três concelhos.
A parte ocidental mergulha já na sombra,
mas nos casais de Leste há reflexos vermelhos.
Corre a meio o Sabor, todo apressado,
porque sabe que o Douro o está a esperar;
E ao chegar junto d’ele, fatigado,
fundem-se n’um abraço demorado,
descansam, dão a volta - e largam para o mar!
Dependurados pela serrania,
lugarejos, torreões, flechas de igreja.
Nos altos picos, d’um verniz de oleografia,
ainda a neve à luz do sol alveja.
Que variedade, d’uma e de outra banda!
Como isto é grandioso, e ao mesmo tempo ameno!
São a Suíça, a Itália, e a própria Holanda
em dez léguas quadradas de terreno!

(continua)

5 comentários:

Anónimo disse...

Da obra poética de Campos Monteiro apenas tenho na minha biblioteca o Raio Verde numa ed. de 1933 e encontrei-o num alfarrabista do Porto. Este poema eu não conhecia, pelo que fico ( aqui também) grato ao Nelson pela sua revelação.
Campos Monteiro não é propriamente um autor da minha preferência, mas respeito-o e aprecio-o pela sua ligação à sua terra , pelo carinho que sempre demonstrou pelas sua gentes ( bem patente nos Ares da Minha Serra ), e por que não dizê-lo pelo estilo límpido da sua escrita. Consegui juntar quase toda a sua obra - e pelo menos uma autografada : o Perdão tardio, dedicado ao seu camarada ( como ele diz) prof. Vasconcelos .
Nogueira.E, confesso, aprecio também a sua verve satírica em Saúde e Fraternidade, embora me demarque do seu contexto...
De qualquer modo eu decidi que estes volumes vão ter como destino a biblioteca do Museu do Ferro , se aí os quiserem.

Wanda disse...

Olá!
Delicioso esse poema-carta.
Destaque para o trecho:
"
Aos raios de oiro pelo sol vibrados,os xistos e os granitos dos montados lançam cintilações de lantejoulas.
Corre um filete d’água lá no fundo.
E os trigos riem para o céu profundo pelos lábios vermelhos das papoulas..."

Só os olhos de um verdadeiro poeta para dar vida as coisas que vemos diariamente e nos parece tão banal!
Ele usou a prosopopéia com grande conhecimento!

Ouso mandar um poema de Gonçalves Dias,que também fala da terra, neste caso o Brasil!

Minha terra!

Quanto é grato em terra estranha,sob um céu menos querido,
Entre feições estrangeiras,ver um rosto conhecido;
Ouvir a pátria linguagem do berço balbuciada,
Recordar sabidos casos saudosos — da terra amada!
E em tristes serões d'inverno,tendo a face contra o lar,
Lembrar o sol que já vimos, e o nosso ameno luar!
Certo é grato; mais sentido se nos bate o coração,
Que para a pátria nos voa,p'ra onde os nossos estão!
Depois de girar no mundo como barco em crespo mar,
Amiga praia nos chama lá no horizonte a brilhar.
E vendo os vales e os montes e a pátria que Deus nos deu,
Possamos dizer contentes:Tudo isto que vejo é meu!
Meu este sol que me aclara,minha esta brisa, estes céus:
Estas praias, bosques, fontes,eu os conheço — são meus!
Mais os amo quando volte,pois do que por fora vi,
A mais querer minha terra, e minha gente aprendi.

Escrito em 1864

Aguardo a continuação do belo poema/carta de Campos Monteiro
Abraço
Wanda
São Paulo,24 de fevereiro de 2009

Anónimo disse...

Esqueci de assinar o meu comentário sobre a obra de Campos Monteiro do que peço desculpa.
Daniel de Sousa

N disse...

Caríssimo Daniel,
muitíssimo Obrigado pelas suas palavras e pelo oferecimento que nos faz dos livros que mencionou de Campos Monteiro. Confesso nunca ter lido o Saúde e Fraternidade, embora saiba que foi o seu grande "best seller" nacional, seguramente pelo conteúdo político, claro está! Todos os monárquicos e muitos republicanos o terão lido, que mais não fosse, para perceber os pontos de vista de um "reaccionário" ao novo regime. Todavia, e apesar disso, não foi como político que Campos Monteiro de destacou, mas pela sua obra literária. Ainda muito amarrado às peias de um camilianismo serôdio, foi um autor muito lido no seu tempo, já que os seus romances estavam para a sociedade um pouco como as telenovelas televisivas estão hoje para as massas... Foi, por isso, de um sucesso datado, que não resistiu ao tempo e é hoje um autor praticamente esquecido. A nós interessa-nos essa dimensão que refere, de evocação e revelação da sua terra natal (apesar de daqui ter saído muito jovem e só muito episodicamente a visitando). Isso é notório naqueles versos (fora de moda, como ele próprio reconhece), que aqui ficam em resposta ao poema de Gonçalves Dias que a Wanda nos enviou, e que estão na peanha do busto de Campos Monteiro, no largo do Castelo, em frente dos Paços do Concelho de Torre de Moncorvo:

"Montes da minha terra! /
na paisagem melancólica e triste que formais /
vejo reflectida a minha imagem /
a pobre imagem que hoje agasalhais".

(o resto não sei, pois cito de memória).

Abraço a todos!
N.

Anónimo disse...

para que conste,
os opusculos Violia E carta ao reverndo padre Martins, primeiras obras de Campos Monteiro, chegaram intactas aos nossos dias, com dedicatória do autor ao director do jornal o moncorvense. Encontravam-se os mesmos na casa de Baltazar Margarido,numa dependência fechada à mais de 70 anos. Esse espólio foi adquirido por compra por Paulo Patoleia, que generosamente os ofereceu. O Violia (anagrama de Olivia) ao Rogério Rodrigues, por achar que o mesmo completava a sua já avançada colecção deste autor transmontano e o outro pela mesma razão ao sr. Oscar, natural do Felgar e a residir em Macedo de Cavaleiros onde se estabeleceu como comerciante.Estas obras estiveram expostas na biblioteca municipal na exposição dedicada a Campos Monteiro.

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