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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Livro - "Peregrino" de Armando Martins Janeira

Foi reeditado recentemente, no Outono passado, com a chancela da editora Pássaro de Fogo e apoio da Câmara Municipal de Cascais, um belíssimo livrinho (pequeno no tamanho, mas belo no conteúdo), intitulado “Peregrino” de autoria do nosso conterrâneo o embaixador Armando Martins Janeira (a primeira edição, há muito esgotada, era de 1962).





Com excelente acabamento gráfico, a presente edição abre com uma nota da editora, referindo a intrudução de algumas emendas deixadas pelo punho do autor, assim como um glossário final e várias fotografias tiradas em 1954, no dia da homenagem a Wenceslau de Moraes (o peregrino a que o livro se refere), realizada no Japão, sob os auspícios do embaixador A. M. Janeira.

Esta edição, que se deve ao empenho da Srª D. Ingrid Bloser Martins, viúva do embaixador, foi ainda enriquecida com um prefácio da Drª. Paula Mateus, estudiosa da Obra de Martins Janeira, em que é explicitado o contexto em que “Peregrino” apareceu: “...partindo da descrição de um acto simbólico – a inauguração em Tukushima, no Japão, de um monumento a Wenceslau de Moraes. Estamos em 1954. Passam cem anos sobre o nascimento de Moraes, e vinte e cinco anos sobre a sua morte. // Armando Martins Janeira, o maior estudioso de Wenceslau de Moraes, escreve neste ano O Jardim do Encanto Perdido, publicado em 1956, e o pequeno Peregrino, que chega ao leitor apenas em 1962”. Sobre o resto do conteúdo do livro, a prefaciadora acrescenta: “…em Peregrino encontramos ainda a silhueta de Moraes, mas essa silhueta serve a Armando Martins Janeira para outras páginas, cheias de delicadeza e sensibilidade, sobre todo um sistema filosófico e religioso que então o fascinava – o budismo zen”.

Em última instância, esta ideia de “Peregrinação” paira, desde Fernão Mendes Pinto (séc. XVI), sobre os homens (portugueses) que foram a essas longínquas paragens do Japão. Talvez pela longa distância da viagem, ou pela viagem interior que a ela se associava.  Assim, terá acontecido também com Wenceslau (séc. XIX-XX), a quem A. M. Janeira foi buscar o título do livro, que assim começa: “Para poder entrar no Céu pelas piedosas mãos de Buda, Wenceslau de Moraes despiu-se do seu nome português e recebeu o Kaimyo, nome de morto, de Soukou Inden Hensou Bunken Daikoji, que magnificamente quer dizer: peregrino escritor habitante de um iluminado castelo de algas – algas movediças, sugerindo a vida de marujo e aventureiro”.

O resto deixamos para os nossos leitores mais curiosos. Alguns dos quais já se terão perguntado: mas quem é este Armando Martins Janeira? Pois… se calhar já passaram pelo seu busto, de bronze, no largo da Corredoura, em Torre de Moncorvo, e ainda nem repararam no seu nome… O mesmo perguntarão sobre Wenceslau de Moraes. - Tentando responder ao quem é quem? aqui ficam uns breves apontamentos, retirados das badanas da capa do livro “Peregrino”:

Armando Martins Janeira [mais precisamente Virgílio Armando Martins, nome a que acrescentou o apelido de sua mãe – Janeiro – e que transformou depois em “Janeira”, porque era assim que os japoneses o pronunciavam] nasceu a 1.09.1914 em Felgueiras [Torre de Moncorvo] e morreu a 19.07.1988, no Estoril.  Formado em Direito pela Universidade de Lisboa, cedo abraça a carreira diplomática, representando Portugal em capitais como Sydney, Tóquio, Bruxelas, Roma e Londres. É o grande responsável pela reactivação das relações luso-japonesas no séc. XX. Nas suas mais de vinte obras publicadas, destacam-se os estudos comparativos sobre o Oriente e o Ocidente, nomeadamente O Impacto Português sobre a Civilização Japonesa e Japanese and Western Literature.  Foi biógrafo de Wenceslau de Moraes”.  – Sobre este, aqui fica:

"Wenceslau de Moraes nasceu a 30.05.1854, em Lisboa. Estuda o curso de marinha e dedica-se a oficial da marinha de guerra, tendo feito inúmeras viagens pela América, África e Ásia. Após cinco anos na China, fixa-se no Japão. É cônsul de Portugal em Kobe e Osaca. Aos 59 anos retira-se para Tukushima, uma pequena cidade de província, e aí viverá até à sua morte, a 1 de Julho de 1929.  Escreveu primorosos ‘livros de costumes’, onde retrata a vida e a alma do povo japonês.  O Bon-Odori em Tukushima e O-Yoné e ko-Haru são dois dos seus livros mais admiráveis”.

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Para saber mais sobre o nosso conterrâneo Armando Martins Janeira e também sobre Wenceslau de Moraes, recomendamos uma visita ao site: www.armandomartinsjaneira.net > está na coluna do lado direito aqui do Blog (secção “Ligações”), ora veja!

Se ficou mesmo interessado(a) em conhecer ainda mais sobre o embaixador Janeira, então vá ao Centro de Memória de Torre de Moncorvo (uma extensão da Biblioteca municipal), e veja a sala do Legado deste moncorvense ilustre, onde encontrará uma exposição de vários objectos pessoais, fotografias, manuscritos e a sua fabulosa biblioteca, que os seus herdeiros, especialmente a Srª Embaixatriz Ingrid Bloser Martins, fizeram questão de deixar a Torre de Moncorvo, gesto digno do nosso maior apreço. A parte da documentação manuscrita está guardada no Arquivo Municipal de Cascais, onde o casal Bloser-Martins Janeira residia e onde o nosso conterrâneo faleceu.

 

Biblioteca de Armando Martins Janeira, no Centro de Memória de Torre de Moncorvo - foto de autoria da Biblioteca Municipal de T.Moncorvo, in: www.armandomartinsjaneira.net

Em 1985 o embaixador Armando Martins Janeira foi alvo de uma homenagem colectiva a vários moncorvenses ilustres, promovida pelo município. Em 1994 foi feita uma pequena exposição sobre a sua vida e obra, no solar do Barão de Palme, por ocasião da inauguração do busto na Corredoura (iniciativa da Associação Cultural de Torre de Moncorvo com apoio do Município). Em 1997 reeditou-se essa exposição, com maior amplitude (e em colaboração com o Arquivo Municipal de Cascais e D. Ingrid Martins), no Museu do Ferro & da Região de Moncorvo, sendo inaugurada pelo então Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio. Em 2004 foi-lhe ainda feita uma singela homenagem na sua terra natal (Felgueiras), aquando da reedição do livro de contos "Esta dor de ser Homem", por iniciativa da Comissão de Festas local. 


2 comentários:

Anónimo disse...

Obrigado a N. Campos pelo cuidado e carinho posto na evocação destas figuras ilustres como a do Embaixador Martins Janeira, brilhante diplomata e intelectual que sempre evidenciou com grande orgulho a sua origem transmontana.Fico-lhe grato pela sua evocação, como moncorvense. Compartilho com ele uma visão aberta e cosmopolita do mundo, com os seus defeitos e qualidades, e a reafirmação das origens como uma forma de genuinidade e também de apreço e solidariedade com todos os que a esta terra estão ou se sentem ligados. Num período de violenta crise identitária tenho a certeza que esta é uma forma certa de reforçar a nossa auto-estima nacional . Obrigado.
Daniel de Sousa

N. disse...

Caro Daniel, nós é que agradecemos a sua atenção e o estímulo que nos dá com os seus comentários sempre oportunos.
Quanto ao embaixador Janeira, lembro-me de o ter visto e ouvido uma única vez, por ocasião da homenagem que já referi, no cine-teatro, em 1985 (foram incluídos também nessa homenagem colectiva, o general Tomé Pinto e o pintor Dario Alves, ambos de Maçores, os jornalistas Afonso Praça e Rogério Rodrigues, nosso amigo e colaborador aqui do blog, e ainda o Dr. Horácio Simões). Da intervenção do Dr. Armando M. Janeira retive uma passagem em que ele disse que tinha com ele 3 pedras de pedra ferrenha (hematite) q sempre o acompanharam nas suas andanças pelo mundo; e que, quando se sentia desanimado, precisava de as tocar, de lhes pegar, como que para recobrar energias... Isto impressionou-me muito, pelo forte telurismo que evidenciava. Por isso, quando anos mais tarde participei na organização da exposição realizada no espaço do Museu do Ferro, já no solar do barão de Palme, cá na vila, ocorreu-me perguntar à sua viúva D. Ingrid (que trouxera os objectos pessoais do embaixador para a exposição), se possuía essas tais pedras, ao que ela me respondeu: "- Infelizmente essas pedras não podem figurar na exposição... é que ele fez questão que fossem colocadas no caixão quando morresse e essa vontade foi cumprida!..." Achámos q este facto não poderia passar em claro numa mostra biobibliográfica, pelo que acabámos por ir ao Alto de Felgueiras buscar outras 3 pedras de minério de ferro, colocadas na caixa de madeira onde o embaixador habitualmente transportava as pedras, e assim figuraram na exposição, sendo devidamente explicado o seu significado.
Este seu apego ao rincão está bem patente no seu primeiro livro de contos: "Esta Dor de Ser Homem", que escreveu aos 28 anos, e publicou em 1948 (1ª ed.), com o pseudónimo de Mar Talegre. Este mesmo pseudónimo pode descodificar-se pelo "mar " de montes que se avistam do alto de Felgueiras, onde está um grande e sólido "talegre" (marco geodésico). Realmente as ondulações dos montes, que se avistam desse ponto, sugerem as vagas de um imenso oceano de terra. Como imaginámos que esse deveria ser o seu lugar de inspiração na sua juventude, deduzimos que as 3 pedras mágicas só poderiam ser recolhidas nesse sítio - e daí foram colhidas as pedras substitutas das originais, que estão no seu túmulo...
Foi a pensar no caso de A.M.Janeira que um dia referi essa "pulsão de evasão" dos transmontanos que sobem a montanha e se deixam seduzir pelos mares longínquos que estão por detrás dos mares de montes... Mas, como num jogo bipolar, a "pulsão de evasão" carece de uma compensação, quiçá um "remorso" pelo abandono do rincão sagrado (quando não é a ausência de expectativas no dito rincão, que dita o "exílio"), suscitando uma necessidade imperiosa de geo-referenciação: é o apego sentimental às origens (a transmontaneidade), por vezes um Trás-os-Montes mitificado e transmutado num conjunto de valores (a solidariedade, p. ex.) ou sensações-saudade, a começar pelos géneros alimentares: o salpicão, a chouriça, o presunto, a alheira, os grelinhos, o queijo, o pão, a posta, o cozido, o vinho, etc, mas que inclui depois outras séries de nostalgias: a água das fonte e dos ribeiros (no tempo em que ainda se podia beber nos ribeiros), os sons do chocalhar dos gados, as fainas agrícolas, para não falar no apego aos próprios espaços, à paisagem e mesmo às arquitecturas (embora, neste caso, o transmontano menos erudito se estivesse a marimbar nos xistos e nos granitos, que simbolizavam a sua pobreza ancestral que urgia apagar e substituir por algo que significasse o seu novo estatuto). Neste particular, estamos a falar já de outro tipo de emigração transmontana que não a "evasão" da gente do nível social de A.M.Janeira ou aproximados (os que se aglutinaram e aglutinam em torno das Casas de Trás-os-Montes). - Uma análise destes fenómenos dava pano para mangas e dariam matéria para um congresso de Trás-os-Montes a sério, que não o que se viu no último (Bragança, 2002), muito pobre a esse nível, e ainda por cima 61 anos depois do 2º (realizado em 1941) e 82 sobre o primeiro...
Bem, não o maço mais.
Abraço,
N.

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