torredemoncorvoinblog@gmail.com

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Livro e escritor - ... ainda Armando Martins Janeira

Porque o pequeno livro "Peregrino" poderá dizer pouco aos moncorvenses, visto que versa sobre personagem alheio à nossa região, em longínquas paragens, recomendamos em contrapartida, também de Armando Martins Janeira (1914-1988), um livro de contos das suas primícias, se bem que posteriormente revisto por si e reeditado em 2004, numa iniciativa da Comissão de Festas de Felgueiras.



Esse livro, intitula-se "Esta dor de ser Homem" e foi escrito quando o autor tinha aproximadamente 28 anos, nos inícios da década de 40, sendo a primeira edição de 1948. A despeito do seu interesse literário (que tem), é igualmente um testemunho das vivências do nosso mundo rural nessa época, dando conta do arreigado apego do autor às suas terras de origens, como bem evidencia Paula Mateus, na nota introdutória à 2ª edição: "Desde a primeira vez que saíu de Portugal, sempre o acompanharam três pedras da sua serra do Roboredo e um cântaro de barro de Felgar, por ele considerados um tesouro que lhe dava forças para superar agruras e caminhar o mundo da única forma que achava possível: 'de passo firme e cara ao alto'".

Não vamos referir-nos aos contos, pois o livro merece ser procurado e lido, mas não resistimos a transcrever algumas passagens do prefácio que deixou para uma eventual 2ª edição (que aconteceu, como dissémos, em 2004): 
"Neste livro estão as minhas raízes de homem. Sou um montanhês. O homem da terra tem raízes na terra como os castanheiros e os carvalhos. Se não fiquei preso ao chão, como as árvores e os cavadores da minha aldeia, é porque levei as minhas raízes comigo - a minha paixão pela terra, o meu amor pelos que trabalham com simplicidade e a minha humildade diante do seu pão, a minha indiferença pelos grandes, a minha independência que me teve sempre de cabeça direita ao falar aos grandes deste mundo - diante de homens e de deuses. 
Levei as cantigas do meu povoado e cantei-as por toda a parte, sozinho, na minha voz sem tom nem som, mas que me consolava e me refrescava a alma e o sangue. (...)
Falei com imperadores e com reis, presidentes, ministros, e toda a escala do poder e da grandeza. Nunca nenhum deles me impressionou porque os medi sempre, não pela imponência dos seus cargos ou pelo oiro das suas medalhas, mas pelo valor que é timbre real dos homens e das mulheres. 
E nesse, raras vezes chegaram ao escalão que me parecia deviam medir.
Como não tenho ambições de grandeza, a grandeza dos outros não me impressiona, nem se me impõe, a não ser aquela verdadeira grandeza humana que tenho encontrado mais vezes na gente humilde.
A vida é breve e a glória, que não tenho e espero nunca ter, aborreço-a. Mas é grande consolação para mim saber que em passagens deste livro primitivo e tosco uns poucos de leitores possam encontrar aquele virgem contentamento de ser homem que nele quis exaltar quando o escrevi".

- Cremos que este é um testemunho eloquente de transmontaneidade, que diz muito do carácter deste nosso conterrâneo. Continuação de boas leituras!

12 comentários:

Anónimo disse...

"Páginas de Caça na Literatura de Trás-os-Montes" é a Biblioteca III!!

N. disse...

tem razão, caro anónimo. Teríamos de pedir ao Rogério para colocar essa indicação no título, porque só ele pode mexer no seu "post". - Mas, como já havia "posts" anteriores dedicados a "Livros & Escritores", se calhar é melhor retirar a numeração (romana, neste caso) e ficar apenas "Biblioteca: ... " ou, talvez ainda melhor: "Livros" ou "Escritores" (consoante os casos) precedendo a obra recenseada. Neste caso poderei tirar o I, II, III, IV. - Digam de vossa justiça como vos parece melhor.
Abraço,
N.Campos

Anónimo disse...

Hola Nelson,ya tengo para entretenerme el día 21 por la mañana.
Mucho de D. Quijote veo en esos estractos que has sacado del libro.
Uno llevaba por apellido el lugar de su tierra;el otro la misma tierra(piedras).
La ambición de grandeza,es a veces la culpable de muchas "malsanas"envidias.¡Y con lo mal que se duerme!.
Ya tengo preparado el licor de bruños.
Un abrazo.Angel

Anónimo disse...

Angel,
São as bodas do rico Camacho,o castillo ou a casa del Caballero del Verde Gabán,o castillo del Duque, a casa de Don António Moreno, ou terminamos todos na Isla Baratária, com o doctor Pedro Recio de Aguero?
Dime!

Anónimo disse...

Pois eu acho (e Angel que me desculpe, mas certamente está a brincar...) que este prefácio do livro do Embaixador Martins Janeira tem muito que se lhe diga!
É um auto-retrato belíssimo de um grande espírito, de um homem verdadeiramente superior, uma visão do mundo e das pessoas que, pelo menos a mim, me marcou profundamente. Um homem que mede os grandes do mundo com a bitola das qualidades morais , concluindo que muitos deles são verdadeiros pigmeus , um diplomata que não curva o pescoço numa altura em quase todos vergavam o joelho ao poder censório e inquisitorial do velho das botas , um apaixonado dos seus montes , das suas fragas , das suas raízes , que encontra aí a verdadeira grandeza e não no poder - não é um Homem qualquer. Ele o diz - a vida é breve e a glória aborreço-a. Que fique a sua memória.E a sua voz.
E mais uma vez gratíssimo ao Nelson por entender esta verdade e a transmitir aqui. Com respeito igual pelos grandes e pelos humildes - que sem eles não se faz história.
Abraços
Daniel

Anónimo disse...

Se que hay muchos portugueses,cosa que me alegra,que han leido mas a Cervantes que muchos españoles.
De todos modos tan concretas referencias,me suenan a Zé de Cabo.
¿Estará presto a aparecer en el huerto del guarda?.¿Tendrá preparada la botella de licor prometida?.Como dice Nelson ,el día 21,seguro aparece el hombre de la mascara de hierro,(de la sierra de Reboredo).
Un abrazo.Angel

n. disse...

Sereis, Anónimo, acaso, o grande Cid Hamete Benengeli, historiador arábigo da altissonante epopeia do Ingenioso Hidalgo de La Mancha?? - pois que grande é o vosso saber e conhecimento sobre os quixotescos sucessos!! De Angel, El Salamantino, não nos admira, pois que o Quijote é o seu livro de cabeceira, a sua bíblia de todos os dias... E se ele diz que há muito de Quixote nos extractos de Armando M. Janeira, quem seremos nós para duvidar! Aliás, numa rápida consulta do famoso livro, no Capítulo L (50 para quem não conhece a numeração romana), intitulado:
"Das discretas altercações que D. Quixote e o cônego tiveram, com outros sucessos", encontramos esta passagem: "- Isso acredito eu — disse o cura — que já sei, por experiência, que os montes criam letrados, e que as cabanas dos pastores encerram filósofos". Ora A.M.Janeira, sem ser pastor, dizia-se um montanhês (= os montes criam letrados...).
E subscrevo integralmente essa frase: "La ambición de grandeza, es a veces la culpable de muchas "malsanas" envidias. ¡Y con lo mal que se duerme!". Por isso A.M.Janeira procurou estudar a filosofia Zen, tal como fez (e praticou) Wenceslau de Moraes. Conheço alguns pobres pigmeus que àvidos (e grávidos) dessa ambição de grandeza, enfeitando-se de títulos, repenicando-se no falar, com trejeitos até ridículos, roubando os trabalhos dos outros, traindo e trapaceando, espreitando oportunidades para aparecer, tendo como combustível o ódio e a inveja, sobretudo a quem alguma coisa devem. Quem assim é, se tivesse consciência não dormiria, de facto; só que, como a não tem, decerto dorme também. Por isso, ser-se "quixotesco", hoje em dia, é algo depreciativo; e, por isso, seleccionei, também essas palavras de Janeira: "A vida é breve e a glória, que não tenho e espero nunca ter, aborreço-a". (Sic transit gloria mundi).
Hasta Sábado!
Abrazo,
N.

n. disse...

Bem, a filtragem dos comentário tem destas coisas: acumulam-se e depois saiem em catadupa, à medida que o nosso "blogmaster" os disponibiliza. Assim foi que quando escrevi o meu úlitmo comentário só tinha lido o do anónimo que se seguiu à primeira fala de Ángel (que, não o quis dizer eu, mas também me cheirou a Zé do Cabo, El Desaparecido, ehehehe); quanto "postei" o meu comentário é que vi, depois os de Daniel e Ángel, de novo. Creio que houve ali um pequeno mal entendido, da parte do Daniel em relação ao Angel, pois acho que ele não estava a querer dizer que havia uma "mania de grandeza" da parte de Janeira, ao levar as pedras/terra com ele, mas sim, referia-se, ou comentava, ao que ele dizia no resto do texto. Penso que nisso estamos todos de acordo. E, fenómeno de convergência, utilizei tb o termo "pigmeus", sem ter lido ainda o seu comentário. É interessante! Temos leituras semelhantes sobre este Homem, que, curiosamente, era grande amigo de um outro Armando, também já aqui bastante falado, e que infelizmente nos deixou pelo Natal: o Dr. Armando Pimentel. Acho q foram colegas de Faculdade e mantiveram uma longa correspondência, mesmo quando Janeira estava no Japão. Da sua tebaida (ou, como gosto de dizer: Estebaida) dos Estevais do Mogadouro, A. Pimentel escrevia longas cartas para Janeira, dando-lhe conta da situação política (curioso que as informações não iam da capital do império, a Lísbia), mas de uma obscura aldeia, lugar anexo de uma outra freguesia, neste lugar, não da Mancha, mas de Trás-os-Montes, que outro Quijote habitava. Em 1997 acompanhei a D. Ingrid aos Estevais, para conhecer pessoalmente o Dr. Pimentel, que ela conhecia muito bem das famosas longas cartas extraordinariamente bem escritas (palavras dela). Levou-lhe ainda um pequeno caderno, de capa de pano azul, com decorações de inspiração japonesa, que é um longo texto em forma de carta, que Janeira tinha para Armando Pimentel, o qual deve estar agora no espólio que deixou. Era uma longa reflexão sobre a vida, que certamente mereceria publicação. Ou seja, uma biografia de cada um destes homens de excepção, terá de passar pelo estudo dos espólios de ambos.
É verdade que a chamada "Nova História" privilegia o esudo das massas, dos anónimos, dos humildes que a História não regista - os que não passam de um nome nos livros de baptismos, casamentos e óbitos, que a igreja tridentina insituíu a partir do final do séc. XVI, muito antes de haver registo civil. Mas, em todo o caso, não esquecendo que a História se constrói no colectivo, é importante também reter as tais "personalidades de excepção" (com seus defeitos e virtudes, pois ninguém é perfeito), sobretudo a que nos deixam lições de vida e testemunhos em que nos devemos rever, quer como indivíduos e cidadãos, quer como membros de uma comunidade que partilha uma mesma ancestralidade. Janeira foi o que partiu; Pimentel foi o que ficou, ambos transmontanos à sua maneira, ambos imbuídos desse espírito de corpo com o "seu povo", mesmo pertencendo à casta dos "senhores da terra", tal como o ingenioso hidalgo, sendo fidalgo, integrava a sociedade da sua Mancha, com o barbeiro, o lavrador, o bacharel, o ferreiro... (há que distinguir o aristocrata, mesmo sem título, do burguês/burgesso, o tal pretenso "grande" sem substância, os tais q Janeira deplorava no texto citado).
cps.,
N.

Anónimo disse...

Amigo Daniel.
Creo que el idioma y la moderación del post,"nos ha jugado una mala pasada".
Nunca mas lejos de mí,el criticar el personaje y la obra,que conocía solo por referencia de Nelson,y que he sido el primero en decir que este sabado tengo que recorrer las librerias de Torre de Moncorvo, para comprar algo.
Aquí en Masueco,se fundó un colegio en 1692 que ya vereis,donación de un personaje del pueblo.
En un extracto de los estatutos de su fundación,y que paso a poner a continuación,es a lo que me refiero,y es que, el que no espera gratitud ni encumbramiento,suele dormir mejor, y dice:
.....Por esto he sido molesto y pesado en esta Fundación y cumplo con dejarle lo que tengo, y como eclesiástico y práctico cristiano cumplo con la Iglesia, con la Tierra y con el Lugar de Masueco y con los pobres sirviéndoles con lo que Dios me ha dado: A Su Majestad las grandezas y alabanzas que yo no las merezco, ni las quiero ni me las deben.
A esta última frase me refiero.
Un abrazo.Angel

Wanda disse...

Olá
Não daria para eu comentar todos os textos aqui postados(aliás muito bem escritos), mas gostaria de falar sobre essa gente humilde a quem Armando M.Janeira se refere e reverencia
Posso comentar sobre os que partiram porque convivi com muitos deles. Já descrevi em comentário anterior o grande número de imigrantes que vivem em São Paulo.
Meus avós maternos chegaram ao Brasil em 1924, já com três filhos pequenos, fugindo da guerra e da fome na Espanha.
Meus sogros vieram bem mais tarde, em 1953, também sem opções para criar os filhos em Portugal, pois a aldeia onde viviam(Lousa),das terras da família já tinha muita gente para trabalhar e pouca coisa para colher e sustentar a família que crescia cada vez mais, e os filhos iam casando-se e tendo filhos e todos a viver do que colhiam nos mesmos terrenos .
Chegaram a passar muita necessidade nos anos 40 porque os que iam trabalhar da mineração do volfrânio deixavam de trabalhar nas lavouras, escasseando assim os produtos agrícolas, sendo que muitos não plantavam só pensavam em ganhar dinheiro com a mineração.

"Se não fiquei preso ao chão, como as árvores e os cavadores da minha aldeia, é porque levei as minhas raízes comigo - a minha paixão pela terra, o meu amor pelos que trabalham com simplicidade e a minha humildade diante do seu pão,........."

Assim também me deparo com muitos imigrantes aqui em SP, minha avó apesar de ter vivido aqui por setenta anos, se recusou a aprender o português, só falava em espanhol, acho que foi o que ela conseguiu trazer e conservar como raiz e que de alguma forma foi como as pedras de minério que Armando M.Janeira levou da Serra do Roboredo(Reboredo?).
Eu ia à casa de minha sogra todos os domingos e participava da viagem que ela fazia em pensamentos, falando da Vilariça,Lousa, Cabeça Boa, Castedo, Felgar,Torre de Moncorvo, Carviçais, Vide, e outros lugares que lhe enchiam os olhos de lágrimas e o coração de saudades.
Acredito que ninguém deixaria sua terra se nela pudesse viver com dignidade.
Os que partiram, de certa forma, contribuíram para o bem estar dos que ficaram e também para o progresso da terra hospitaleira.
A globalização fez com que tudo ficasse perto, por meio de transportes rápidos e pela internet,mas décadas atrás era comum encontrar pessoas saudosas de seus rincões sem que nunca pudessem voltar nem a passeio.
Concordo em gênero, número e grau com A.M.Janeira, quando escreve:
"Como não tenho ambições de grandeza, a grandeza dos outros não me impressiona, nem se me impõe, a não ser aquela verdadeira grandeza humana que tenho encontrado mais vezes na gente humilde."
Vejo que ele foi um grande homem.
A verdadeira grandeza está nos humildes; que lutam pela sobrevivência e ainda assim conseguem conservar a honestidade e a franqueza.



Abraço a todos do blog

Wanda

São Paulo - Brasil

Anónimo disse...

Amigo Angel
Pois a "mala pasada" nem sequer existiu - e se dúvida houvera aqui está a prova da minha grande estima.
De um dos meus Poetas preferidos, o Gabriel Celaya, o Poeta de " A poesia é uma arma carregada de futuro " e de " A Sancho Pança" lhe trancrevo esta :

"(...) porque não foram os homens famosos que fizeram
para cá de toda a história - pó e palhas- a nossa pátria,
mas tu como se não fosse nada.

Sancho-terra , Sancho-santo, sancho-povo,
tomo o teu pulso constante, olho os teus olhos que brilham mesmo após os desastres.
Tu és quem és. Adiante!"

Eu gosto de brindar com um pacharán - aqui vai à nossa!


Daniel

Júlia Ribeiro disse...

Num dia de claro de Dezembro de 1948, entregou o carteiro Teodorico uma pequena encomenda que eu recebi. O meu pai, a brocar um dente de um paciente, mandou-me abrir o pacotinho. Lá dentro estava o livro "Esta Dor de ser Homem", com uma dedicatória do autor ao meu pai.
Tinha eu 11 anos mas lembro-me que o li de um fôlego e, imaginem, recomendei ao meu pai que o lesse. "Vale a pena?" perguntou ele. A minha resposta foi uma palavra: "Muito".
O livro, como tantos outros, foi emprestado e ... nunca mais voltou. O meu pai costumava dizer : "Se anda a ser lido, vale mais do que estar parado aí na estante" . Mas eu lamento a perda!

Júlia

eXTReMe Tracker