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terça-feira, 27 de outubro de 2009

Globo, Torre de Moncorvo - a tipografia da Resistência

Tivesse sido através de post's colocados neste blogue (7.09.2009) ou blogue do PARM (em 20.02.2008), ou pela reportagem saída no Mensageiro de Bragança ainda no ano passado (de autoria de Carla Gonçalves), ou, mais recentemente (Setº. 2009), por outra reportagem na LocalVisão/Bragança (de autoria de Lígia Meira e Marcos Prata), a verdade é que a Tipografia Globo, sedeada na Rua Visconde de Vila Maior, em Torre de Moncorvo, começa a ficar famosa.
Uma fama que talvez chegue tarde, mas que, mesmo que não traga um acréscimo de trabalho por aí além, o que seria essencial para uma vida condigna dos nobres profissionais que aí laboram e para a sobrevivência deste património técnico, pelo menos é um suplemento de alma e o reconhecimento da sua gesta resistente.

Vem este arrazoado a propósito do excelente artigo que abre o nº. 25 da revista Nós (projecto da revista do jornal "i"), saída no passado sábado.
Esta publicação, sob a forma de revista, resulta de um projecto da empresa Netsonda e da revista do "i", em que se solicitou a um número considerável de leitores (por amostragem), que indicassem adjectivos que gostassem de ver tratados. Coube ao último número (o 25º) a palavra "Resistentes", precedido do genérico "Nós". Aqui se apresentam diversos tipos de Resistentes (ao vício da droga, à resistência política, em histórias de vida), mas quem teve a honra de abertura foi a tipografia do Manel Barros e do Morais, uma empresa quase familiar.
Sónia Morais Santos (texto) e Gonçalo F. Santos (fotografias) assinam o artigo que assim começa, em "leed": "Em Torre de Moncorvo a Tipografia Globo resiste ao tempo e imprime quase como no tempo de Gutemberg: letra a letra. Em chumbo e níquel, numa escrita em espelho que faz confusão a quem não é do ofício. O proprietário diz que o seu tempo está a acabar. Mas entretanto a impressão continua".
Apesar de algumas teimosas gralhas - que aconteciam mais frequentemente no tempo da impressão tipográfica - e que o corrector automático do computador lhes deixou passar, como "carácter" por "caracter", o texto é interessante e de leitura obrigatória.
Só nos resta apelar, mais uma vez, para o interesse em classificar-se este património industrial ou técnico (alíneas i e j do artigo 21º. do recentíssimo Decreto-lei nº 309/2009 de 23 de Outubro) se não como de interesse público, pelo menos de interesse municipal, conferindo-se uma tença aos artistas-tipógrafos para que possam manter o mais possível esta "resistência", com a contrapartida de aceitarem visitas de alunos das escolas que aqui, poderiam ver, ao vivo, uma sobrevivência de um sistema parecido ao de Guttemberg, o alemão que no séc. XV inventou a primeira prensa tipográfica. Fica a ideia.

4 comentários:

Daniel de Sousa disse...

Tenho um respeito quase sagrado pelos ofícios artesanais. Talvez porque o meu pai era alfaiate. Talvez porque eu próprio sou um artífice quando utilizo as minhas mãos, o meu olhar e o meu coração na minha actividade. Gosto de olhar o mundo como uma imensa catedral onde trabalham muitos pedreiros que desdobram a bruteza da pedra em lavores como se fossem cânticos. De resto quem entra na minha casa depara logo com uma gravura de Doré que materializa o sonho do Templo reconstruído aos ombros de esforçados operários.
Assim não posso calar a minha admiração por estes artistas-tipógrafos ( como muito bem lhes chama o Nelson) que também pelas suas mãos recriam o milagroso ofício da imprensa. Daqui lhes envio um forte abraço de solidariedade pela sua persistência.

Anónimo disse...

Quero só deixar expresso o meu contentamento ao ver valorizada esta oficina, que mais do que uma simples tipografia é uma oficina de Amores pelas palavras; muitos, como eu, que por lá passam, sabem reconhecer este sentimento.
bem hajam os seus resistentes!

Paula Salema

Anónimo disse...

Caríssimos Amigos,
Na verdade a Tipografia é sempre um lugar cheio de magia. A magia da multiplicação das palavras, dos textos, da escrita. O que faz do tipógrafo um demiurgo. Hoje, nas grandes gráficas, como em tudo, tudo parece ser muito impessoal, com máquinas sofisticadas, electrónicas, computadores, etc.. O que torna esta tipografia um lugar de Arte (no sentido quase medievo de "Arte" e que chegou até ao séc. XX, na expressão "aprender uma arte", fosse ela de ferreiro, sapateiro, alfaiate, pedreiro, ou tipógrafo), é o trabalho personalizado, paciente, de um técnico que fez todo o "cursus honorum" da sua corporação, passando de aprendiz a oficial e a Mestre. A resistência destes homens é a da dificuldade em mudarem de vida, depois de todo este trajecto. Dantes aprendia-se uma arte para a Vida, para toda a vida. E hoje? Quando há cerca de um ano um grande guru das economias, dinamarquês, veio cá à Tugalândia, dizer em discurso certamente bem pago: "preparem-se os jovens, hoje, para mudarem de emprego pelo menos 20 vezes ao longo da vida"... Vivemos sob o signo do PRECÁRIO, do EFÉMERO, do DESCARTÁVEL!... Dizem que tem a ver com a aceleração da História, boa desculpa para quem proclamou o fim da dita... Tem antes a ver, quanto a mim, com a voragem e o desvario do sistema capitalista, que, se por um lado acelerou os progressos técnicos (e falta saber se isso é bom ou mau, pois estão a ver-se certas consequências desse culto do famigerado deus Progresso), por outro criou uma sociedade (ocidental)sem alma, desumanizada. A Era do Vazio, com a devida vénia de Lipovetsky.
Mas, chega de "letras" e de "palavras": e se se criasse um grupo de Amigos da Tipografia Globo?
Fica a ideia e o repto.
N.

Post Scriptum - Sobre a questão da "Resistência", há quem lhe contraponha a da "adaptabilidade", necessidade de "modernização", no fundo o discurso de um certo darwinismo social. É a conversa do editor da revista citada no meu post, o sr. Pedro Rolo Duarte, quando dita o caminho: "Fechar o ciclo das resistências para poder abrir o ciclo das novas aberturas (...) Não é preciso ser fundamentalista do optimismo - basta não ser absolutamente resistente à mudança". Quão fácil é teorizar...

Júlia Ribeiro disse...

Gostei imenso deste post sobre a artesanal tipografia. Num mundo onde o consumismo desordenado e sem limites conduz ao efémero e ao descartável, ver uma oficina tipográfica onde ainda se coloca letrinha a letrinha, do avesso para o direito, é algo parecido com um milagre. Ou antes, é o milagre perante os nossos olhos.

Vamos a isso , Nelson. Crie-se um
grupo de Amigos da Tipografia Globo.

Parabéns aos artistas e um
abração para todos.

Júlia

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