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domingo, 25 de outubro de 2009

Junot e Saramago


Peço desculpa pelo atrevimento,mas, recusando-me a falar ou escrever sobre a questão Saramago-Igreja ( Saramago que não é meu autor preferido), gostaria de recordar neste segundo centenário das Invasões Francersas, que ainda está a decorrer, papel da hieraquia da Igreja católica portuguesa, afinal a sua superestrutura, face ao Poder de Napoleão e Junot. Qualquer semelhança com a discussão entre Saramago e a Igreja é lamentável coincidência ou mero acaso... O Poder é afrodisíaco. Se nem sempre corrompe, sempre deforma. Desculpem o texto( talvez longo demais) as almas mais sensíveis e, porventura mais católicas do que patrióticas, ou, pelo menos, tão católicas quanto patrióticas.


Andoche Junot
Andoche Junot entrou com as suas tropas em Lisboa. Vai fazer ou já fez 200 anos. Napoleão tinha sido coroado imperador pelo Papa da Igreja Católica, Apostólica e Romana. Maçon, Junot quis ser grão-mestre da maçonaria portuguesa, o que lhe foi recusado pelos maçons portugueses. Futuro rei de Portugal, como esperava e declara vir a ser, quis que na Maçonaria o retrato de D. João VI fosse substituído pelo retrato de Napoleão. A maçonaria portuguesa recusou. E que fez a Igreja Católica, Apostólica e Romana, perante este jacobino? Deu-lhe laudas e em pastorais dos seus bispos, aconselhou os fiéis a aclamaram-no, ajudando-o, denunciando e o mais que aprouvesse à hierarquia da Igreja. É Luz Soriano, na sua lucidez e rigor, que regista para o futuro as pastorais da ignomínia dos bispos-chave da hieraquia da Igreja Católica em Portugal. Recordemos alguns extractos. O cardeal patriarca de Lisboa, José Francisco de Mendonça, apela, na sua pastoral, a ler em todas as igrejas da cidade de Lisboa: "Não temais, amados filhos, vivei seguros em vossas casas e fora delas; lembrai-vos de que este exército é de sua majestade o imperador dos franceses e rei de Itália, Napoleão o Grande, que Deus tem destinado para amparar e proteger a religião e fazer a felicidade dos povos: vós sabeis, o mundo todo sabe. Confiai com segurança inalterável neste homem prodigioso, desconhecido a todos os séculos; ele derramará sobre nós as felicidades da paz, se vós respeitardes as suas determinações, se vos amardes todos mutuamente, nacionais e estrangeiros, com fraternal caridade".É raro ler um texto com tanta hipocrisia, quando todo um povo começava a ser violado e violentado e as igrejas saqueadas.Também o bispo do Porto, António José de Castro ( embora mais tarde se arrependa da pastoral da ignomínia e adira à Junta Patriótica do Porto), divulga entre os fiéis do seu rebanho: "Estas tropas que aqui vedes entrar, são nossas aliadas e pacíficas, e quem as manda entrar tem sido prevenido e armado por Deus de poder e sabedoria para as fazer entrar e para as saber dirigir a fim da nossa felicidade, e devemos seguramente confiar no mesmo Senhor que não seja outro o seu destino. Sim, o Imperador dos franceses e Rei de Itália, o Grande Napoleão, não poderia de outro modo servir-se de nós para aumentar a sua glória verdadeira, senão fazendo-nos felizes. Não é crível que na grandeza sem igual do seu coração, no ardente desejo da sua glória, pudesse entrar em Portugal para outro fim. Este grande imperador, elevado sobre o trono dos seus triunfos, tem unido a eles a glória de fazer dominar a nossa santa religião nos seus estados (...)Os templos estão cheios destes militares que edificam, e que por tudo nos poem interiormente na necessidade de os amarmos como próprios filhos, e exteriormente na obrigação de darmos este testemunho público da nossa satisfação e do seu merecimento. Esperamos que este testemunho fundado já na experiência e conhecimento destas tropas religiosas, pacíficas e bem disciplinadas, vá servir não só para desvanecer aos vossos ânimos qualquer receio que vos pudesse causar a sua entrada, mas também para mostrar a obrigação em que estamos todos de praticar com elas todos os bons ofícios da caridade e de hospitalidade, como se fossem nossas próprias, e ainda mais por se acharem fora do seu país".Trata-se é certo de uma encomenda de Roma, vinda do Papa que consagrara Napoleão como Imperador. Mas também não era necessário tanto exagero...Por último, leiamos a pastoral de inconsútil patriotismo do bispo titular do Algarve, José Mátia de Melo, confessor privativo da louca D. Maria I : " É necessário ser fiel aos imutáveis decretos da divina providência e, para o ser, devemos, primeiro que tudo, com coração contrito e humilhado, agradecer-lhes e tantos e tão contínuos benefícios que da sua liberal mão temos recebido, sendo um deles a boa ordem e quietação com que neste reino tem sido recebido um grande exército, o qual, vindo em nosso socorro, nos dá bem fundadas esperanças de felicidade. Este benefício igualmente o devemos à actividade e boa direcção do general em chefe que o comanda, cujas virtudes são por ele há muito tempo conhecidas. Lembrem-se que este exército é de sua majestade o imperador dos franceses e rei de Itália, Napoleão o Grande, que Deus tem destinado para amparar e proteger a religião e fazer a felicidade dos povos. Confiai com segurança neste homem prodigioso, desconhecido de todos os séculos; ele derramará a felicidade da paz, se respeitarem as suas determinações, e se amarem todos, nacionais e estrangeiros, com fraternal caridade. Deste modo a religião e os seus ministros serão respeitados, não serão violadas as clausuras de esposas do Senhor, e todo o povo será feliz, merecendo tão alta protecção".O bispo do Algarve estava preocupadíssimo com a virtude das 'esposas do senhor' ( freiras em linguagem corrente). A substância das três homilias tem uma raiz comum: a directriz do Papado para não molestar Napoleão, mesmo que Napoleão molestasse nações inteiras. A real politik do Vaticano consegue conciliar a conciliação com o Poder profano à hipocrisia da justificação do poder sagrado. Hoje como ontem...

2 comentários:

Anónimo disse...

A história de Portugal é uma mina, basta ir aos textos originais. Que digo? A isso o historiador chama história curta, historiografia.

Saramago sabe que há a dimensão simbólica e hermenêutica mas avisa que, com mil diabos, nos deixem alguma coisa do que é literal, está patente, é a face da letra, não sendo esse caminho necessariamente sinónimo de espírito de seita ou de algum modo redutor.

O editor de Saramago, por outro lado, sabe que a polémica é sempre bem vinda.

A Igrega, na sua inteligência prática, sabe que Saramago é dos seus melhores aliados, hoje.

Napoleão era, é um mito que, nessa condição, atrai.

Saiamos por um momento do Café, como quer J. Rentes de Carvalho. Nem que seja por um janelo. Para depois entrarmos de novo na porta.

Carlos Sambade

Júlia Ribeiro disse...

Por razões alheias à minha vontade, tenho andado muito arredia do nosso blog.
Desde 24 de Outubro que não lhe punha a vista em cima. Comecei por ler atentamente o texto do Rogério. Como sempre, excelente e no momento exacto.
Permitam-me uma pequena achega, pois tive de, há dias, estudar este assunto para ajudar uma das netas.
Não há sombra de dúvida que as reacções da Igreja - Papa, cardeais, arcebispos, bispos e quase todo o clero - foram manifestamente de cariz político e não religioso. O Papa defendia os interesses terrenos do Papado. Vejamos: em 1801 Pio VII e Napoleão assinavam uma concordata que restabelecia a igreja católica em França, embora submetida ao estado. No ano seguinte nova concordata, em consequência da qual a igreja católica recuperou a sua autonomia e legalidade em França. Em 1804, como é por demais sabido, Pio VII, obedecendo a uma ordem de Napoleão, esteve presente em Notre-Dame , na auto-coroação deste como Imperador. Ora, o Papa obedeceu a Napoleão porque , além de imperador estava em vias de se tornar rei de Itália, o que aconteceu daí a pouco tempo. Por isso, o Papa temia que Napoleão tomasse as enormes e ricas terras do Papado ( a Umbria, as Marches, Roma...). Exclusivamente por interesses materiais convinha à Igreja lisongear Napoleão, chamando-lhe defensor da religião católica e seu anjo salvador. Assim, abençoou-o e abençoou as suas campanhas, mesmo quando estas eram totalmente indefensáveis. É a hipocrisia da Igreja em grande visibilidade.
Quando, tempos depois, Pio VII, contra o estipulado na Concordata de 1801, exige nomear os bispos franceses, Napoleão não lho consentiu e, em represália, tomou as ditas terras, incluindo Roma, pelo que o Papa foi deportado para Savona (3 anos) e depois para Fontainebleau (2 anos). Só regressou a Roma em 1815, precisamente quando Napoleão era derrotado em Waterloo. Caído e exilado, Napoleão deixou de ser o anjo salvador, para se tornar o vivo demónio na Terra que o Papa já não hesita em excomungar.

E , para terminar uma palavra sobre a polémica Saramago/Caim. Gosto do autor Saramago, mas reconheço que “Caim” não chega ao nível literário de “O Ano da Morte de Ricardo Reis” ou de “Levantado do Chão” ou de “Memorial do Convento”. E quanto ao conteúdo? Qualquer escritor é livre de escrever sobre qualquer tema e a Bíblia não lhe está vedada. Também não deixa de ser verdade que o Deus do Velho Testamento, é cruel e vingativo : “olho por olho e dente por dente” . Saramago tem razão, mas não tem fé. Parece-me que o seu desencontro com Deus obedece a esta lógica contraditória. Como, aliás, o desencontro dos não-crentes.
E estou em crer que o "Deus vingativo" se vingou de Saramago, pois , segundo a opinião de dois livreiros com quem conversei, a Bíblia está a vender-se tão bem como o “ Caim ”. Este golpe inesperado e involuntário de publicidade foi para a Bíblia como ouro sobre azul.

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