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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Sobre o trajo regional

No seguimento da Partidela da Amêndoa realizada no museu de Moncorvo, o nosso amigo Carlos Manuel Ricardo (Camané), actor do grupo Alma de Ferro, enviou-nos uma fotografia das actrizes Esperança Moreno e Marilú Brito, trajadas respectivamente de “brecheiro” e de apanhadora da amêndoa. Para quem não sabe, os “brecheiros/as” eram os que andavam “à brecha”, actividade ilícita que se traduzia no roubo da amêndoa, colhendo-a directamente da amendoeira, antes de a mesma ter sido apanhada pelos donos, ou pelo rancho de apanhadores/as, a soldo dos donos.

Ao mesmo tempo, o Camané sugeria que se investigasse se havia um trajo tradicional da nossa zona, ou do Douro em geral, visto que o grupo de teatro havia improvisado, para este efeito, um guarda-roupa inspirado no modo de vestir que os nossos lavradores usavam até há uns anos atrás, mas, ao que percebi, pretendia um pouco mais de rigor, até para se compreender a evolução do trajo campesino ou outro.

Quanto a nós, não é fácil definir-se um trajo tradicional da nossa região. Ao que sabemos, essa questão já se colocou há uns largos anos (década de 70) quando se constituíu um rancho de dançarinos(as) na associação do Santo Cristo, os quais actuaram na respectiva festa, em 1979, num palco junto aos prédios do Fundo de Fomento de Habitação, então acabados de construir. Segundo informação que então recolhemos junto dos dinamizadores (era então presidente dessa associação o Sr. João Evangelista) parece que se tinham baseado em algumas informações de pessoas de Moncorvo, mas também com qualquer coisa de "criativo" (com as cores amarelo e preto a condizer com as cores da associação).

Durante o Estado Novo, a preocupação em arranjar especificidades turísticas regionais, levou a que o SNI de António Ferro e outras estruturas análogas, como as Casas do Povo ou serviços de promoção turística, se dedicassem à dinamização do que então se chamava o "folclore", criando (ou inventando) trajos para certas regiões (as “Nazarés”, as “Minhotas”, etc).. Sobre o próprio trajo dos pauliteiros de Miranda há quem considere ser também uma invenção.

Mas, à parte estes trajos folclóricos, é evidente que as pessoas se vestiam de alguma maneira. E a melhor forma de saber como só pode ser através de fotografias ou gravuras, estas mais raras (e, para a nossa região - Moncorvo - praticamente inexistentes). Mesmo com base na análise fotográfica, há que ter um certo cuidado, uma vez que, muitas vezes, as pessoas se “preparavam” para a fotografia. Se, por um lado, há fotógrafos eventualmente mais espontâneos na fotografia de campo, como Emílio Biel, ou os registos da Foto-Beleza, já o grande fotógrafo Alvão (anos 40 do séc. XX), trabalhando muito para a Casa do Douro, procura dar uma imagem “retocada” das personagens da região duriense, com belas vindimadeiras apresentadas como se fossem estrelas de Hollyhood, muito limpinhas e arranjadinhas (eram fotos para cartazes publicitários, postais ou calendários).
Fotografias do povo, no trabalho, ao natural, são raras, pois as pessoas quando sabiam que era para a fotografia metiam logo o fato domingueiro, "para não parecer mal". É preciso saber distinguir o fato domingueiro do fato de trabalho, reparando, desde logo, se está remendado ou não, já que as pessoas dos extractos sociais mais humildes, ou até certos proprietários, usavam a roupa do campo com uma série de remendos.

É muito difícil (senão impossível) que alguém tenha alguma peça de vestuário de trabalho de há mais de 50 anos, em casa, pois esses trapos eram normalmente deitados fora, ou queimados, ou reciclados para panos do chão, etc.. E, com a melhoria das condições de vida, urgia apagar tudo o que lembrasse esses tempos de miséria. Mas é bem possível que se tenham conservado camisas ou casacos do tempo do avô, ou algum vestido mais elaborado da avó (refiro-me aos fatos domingueiros, ou então de extractos sociais mais altos, como funcionários públicos, comerciantes, advogados, médicos, etc.). Uma coisa que as idosas até há bem pouco tempo ainda usavam (ou ainda usam) é o xaile, sobretudo no Inverno, além do lenço preto na cabeça, peças normalmente pretas, sobretudo ao enviuvarem.

Embora sabendo que não é fácil fazer este tipo de investigação, com o intuito de ajudarmos o grupo Alma de Ferro a definir o seu guarda-roupa, aqui apelamos a quem tenha fotografias antigas (anteriores aos anos 80 do séc. XX), onde estejam representadas pessoas em fainas agrícolas ou do dia-a-dia, ou até mesmo em fatos mais “finos” que as digitalizem e as enviem para o nosso endereço do blogue (torredemoncorvoinblog@gmail.com) que aqui as postaremos e/ou encaminharemos para os elementos do grupo de teatro, depois de as copiarmos.

Foto de Camané Ricardo

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