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domingo, 18 de outubro de 2009

Poesia - "Janela Indiscreta", de Paula Salema

Em tempo de Outono, a Poesia apetece, ganha outro sentido. E, como apelo aos sentidos, recomendamos vivamente um livro recentemente editado, de autoria de uma jovem moncorvense, que consideramos uma revelação no campo da Poesia:

Capa de autoria de Emanuel Bessa Monteiro
A autora, Paula Cristina Reis Salema é licenciada em Românicas, variante Português e Francês, com pós-graduação em Cultura Portuguesa, pela UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro). Depois de uma breve passagem pela Sorbonne (Univ. de Paris), onde desenvolveu competências ao nível da língua francesa, leccionou na Escola Secundária de Mirandela, acabando por vir a integrar (desde 2001) um projecto da UTAD em parceria com autarquias da região de Trás-os-Montes, com vista à implementação de Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (Internet) nas zonas rurais, trabalhando presentemente no município de Torre de Moncorvo. Alia a sua actividade profissional ao gosto pela literatura, pelas línguas e pela escrita.
Janela Indiscreta é o seu primeiro livro de poesia, o que não desmerece - bem pelo contrário! - a sua alta qualidade. Alguns poemas revelam já uma maturidade de poeta consumada. Dela escreveu a sua amiga Drª. Lourdes Girão (médica e também poeta), no Prefácio do livro: "Mulher/menina, Menina/mulher? Qual delas nos dá a conhecer a sua riqueza interior? / No seu dualismo sensitivo utiliza o saltitar de palavras cadenciadas no seu ritmo para se libertar de grilhetas sociais que lhe encarceram os sentidos. / E é, na liberdade de expressão que os sentimentos aparecem, quer aflorando o onírico quer embriagando-se e aturdindo-se nas nebulosas dos destroços da menina que já cresceu".
Ou ainda, como a autora adverte em nota introdutória, Janela Indiscreta/livro de poesia, pretende ser um apontamento de Olhares e de viagens, que se explanam numa sucessão de binómios: confronto/confissão, intimidade/evasão, realidade/fantasia, equilíbrio/desequilíbrio, Amor/Vida, reflectindo "a intensidade transportada por todos os momentos vividos na primeira pessoa (...), sempre com a sensação de que se é aprendizagem, e sobretudo, cada vez mais, necessidade de escutar a voz dos outros e do mundo num estado de luta e doação permanente".
Compõem o livro 58 poemas em português (apesar de alguns levarem título em inglês), dois em francês e um em língua castelhana, num total de 74 páginas.
Dá título à obra - "Janela indiscreta" - um longo poema dividido em três partes, belíssimo e inquietante, de ressonâncias simbolistas, de que apenas transcrevemos a primeira parte:
"Noites garças de relógios partidos
Folhas espaços de palavras desabrigadas
E assim corre o sangue nas veias escangalhadas.
Paredes, espelhos em momentos
Íntimos, fechados como aortas.
Reflexos dos mundos que faltam desenhar.
Lá fora, cães vadios a chorar a
Solidão dos desorientados.
Um olhar lunar
Uma pedra rubra no chão
Um gato no telhado
- Alvíssaras aos descrentes -
Um fruto colhido pela metade na chuva.
Dois namorados a escrever o tempo
O sussurro da terra aos bêbados solitários
O desespero dos sonhadores em terras de capitães
A dor enterrada de doentes nas casas brancas
As janelas do teu quarto sempre
E só as janelas do teu quarto
Que esperam por mim.
As almofadas que acolhem segredos
Medos partidos, enrufados no licor dos sonhos.
As palavras párias ao desejo embargado, envenenado.
As casas que recebem a força da história
Os dons adormecidos pelo torpor das estações
As silvas enroladas nos meus pensamentos
A tristeza montanha que se quer em vão superar
A velhice amarga, escondida no sono das horas
O tédio que pegou em reticências...
E, ainda as ruas cansadas, purpúreas
Passos volvidos em desânimo
Passos agarrados aos vazios estridentes,
à soberba de destinos ignorados.
As janelas do teu quarto sempre
e só as janelas do teu quarto
Que esperam por mim.
A tua existência alheia ao meu cansaço.
Uma voz amante que chora o fim do amor.
A lava da tua imagem a queimar a noite
é pistola, munição, trompetes verdes
A matar toda e qualquer ideia de Morte.
(...)
Fenomenal ainda o belo poema em prosa da pág. 24 - "Ao fundo dos Homens" - que assim principia: "Ao fundo do teu nome vejo a solidão em reflexo dos teus sonhos escondidos. Há uma qualquer realidade púrpura que ameaça subir ao lugar onde depositas a tua tranquilidade, onde habita, como águia-real, uma paz fictícia que vive para além da tua imagem, desprega-se das tuas palavras; ela parece mobilizar-te, paralisar-te. A missão última do indivíduo tornou-se a sua evolução interna, recriação e renovação de si mesmo para não sucumbir ao outro lado da vida (...)".
Ou ainda a certeira advertência do poema "Vice-versa": "Um louco pisa os teus pés / Não te mexas /Não te voltes /Não o olhes /Poderias cair na sua loucura. / Curiosamente / Acontece aos dois".
Obrigado, Paula. Parabéns e continua!
Em tempo: depois da apresentação deste livro, há meses, no Clube Literário do Porto, aguardamos a sua apresentação também em Torre de Moncorvo. Vale?

5 comentários:

Daniel de Sousa disse...

Cara Paula Salema
Não imagina quanto me parece revificante - isto sem conhecer o seu trabalho poético - a coragem de publicar poesia num País em que os poetas são ostensivamente ignorados. Para mim, que julgo a poesia como as emoções inventadas que dão sentido à vida, a vida por si mesma, revisitada, reinventada, ressacralizada - é um dom perceber que ainda se faz poesia, malgré tout, neste mundo brutalizador.
Não é importante publicar, creia. Pessoa apenas publicou a Mensagem e a isso foi quase obrigado. Mas deixou um baú atafulhado de geniais e labirínticos percursos.
O importante é fazer poesia, senti-la como uma urgência, uma necessidade visceral de nomear o mundo. Ou como dizia António Ramos Rosa nesse definitivo poema " O sentido" -
"O sentido não está em parte alguma. É como um lábio truncado ou como a música de um planeta distante (...)
Muitas vezes os seus nomes não são nomes ou são feridas, paredes surdas, finas lâminas, minúsculas raízes, cães de sombra, ossos de lua."
Fazer poesia é exactamente isso - viver, procurar o sentido.Muitas vezes o som do sentido.
Daniel

Anónimo disse...

Concordo plenamente com o que diz o Daniel sobre a coragem de se editar poesia neste país. No entanto, estatísticas de há uns anos atrás diziam que Portugal era dos países europeus onde mais se lia Poesia(ou comprava, não sei, a APEL saberá). Não deixa de ser curioso que os grandes vultos da literatura Portuguesa foram poetas: sem falar em Camões, Antero ou Pessoa, outros escritores foram também poetas: Garrett, Herculano, Torga... Enquanto a obra maior da literatura espanhola, p. ex., foi essencialmente uma obra em prosa (o Quixote, de Cervantes), na literatura Francesa, talvez os Miseráveis, de V. Hugo (prosa), na inglesa, a obra de Shakespeare, um dramaturgo, apesar da forma poética da expressão.
Quero apenas dizer que a poesia sempre teve, nesta fachada atlântica, uma especial predilecção, com ecos longínquos nas velhas cantigas de Amor e de Amigo, para não falar nas de Escárneo e maldizer, dos menestréis medievais. Até o rei Dinis se quis poeta. E que dizer da profusão de poetas populares que sempre existiram, desde sempre, no mais recôndito do nosso mundo rural?
Quanto à procura do "som do sentido" referido na parte final do seu comentário, aproveito para transcrever apenas mais um poema do livro da Paula Salema:

"IDENTIDADE

Adormecem os sons das palavras,
Os sentidos estão trancados
Nesta torre há já tanto tempo,
E pela janela vejo outras vidas,
Passos que caminham em destinos opostos.
E entre o silêncio e mim
Impulsos gritantes desmedidos.

Sou-me mais do que simples caracteres".

- Os "impulsos gritantes desmedidos" que rasgam o silêncio, serão - a meu ver - a expressão máxima desse som do sentido, quiçá o momento primordial, genesíaco, do acto poético, que transcendem a grafia ou a identidade grafada, os "simples caracteres" de que fala a autora.
N.

Daniel de Sousa disse...

Só uma pequena nota para dizer o quanto gostei desse poema "Identidade"!

Anónimo disse...

Quero deixar, neste espaço de encontro humano, ainda que virtual, uma palavra de agradecimento; em primerio lugar, ao Nelson, pela sua delicadeza e gentileza em fazer referência aos meus rabiscos de indole poética. Em segundo, ao Daniel por partilhar aqui o seu amor pela poesia, que, tal como para mim, é um amor incondicional.
Ainda que a vida de hoje nos obrigue a um certo pragmatismo e dinamismo, e nos deixe sem tempo para o deleite literário, se conseguirmos ao menos conservar uma atitude poética durante todo o nosso trajecto, já podemos afirmar com convicção que somos o maior dos Poetas; a poesia não está só na escrita, ela vem de dentro de nós. Essa é a minha condição e, talvez, a de muitos que gostam da palavra e que amam a vida.

Parabéns pela crescente qualidade deste Blog.

Paula Salema

Anónimo disse...

Do inusitado nasce o momento...o vazio, o inócuo, o espaço em branco traçam esquiços em forma de Palavras.

Que a escrita em forma de Poesia, escreva a História da vida da Poetisa que nos envolve, num estado de admiração plena como se de uma Obra de Arte se tratasse!

O meu agradecimento por tais palavras que me forneceram o antídoto em noites de solidão.

Just a smile:)

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