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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A política em Moncorvo, há mais de um século...

Civilizados vão os tempos de hoje, à vista do que se passava há mais de um século, nos tempos finais da monarquia, em que tiros, facadas, bengaladas, vira-casaquismos e impropérios festejavam os actos eleitorais, de que saíam as tais chapeladas de votos com que os caciques locais entronizavam os coriféus dos respectivos partidos sedeados em Lisboa. Lá vinham depois as prebendas, ou uma nomeação política, para governador civil, ou outro cargo mais destacado, com sorte, junto da corte.Dois grandes protagonistas destas guerras políticas, na Moncorvo dos fins de século XIX, foram o Dr. Gallas (do Partido Progressista) e o Dr. Ferreira Margarido (dos Regeneradores, partido mais conservador).

Fotografia do Dr. Ferreira Margarido, in O Trasmontano, Outº. 1902 (cortezia da Biblioteca Municipal de T. de Moncorvo)
O Dr. António Joaquim Ferreira Margarido, natural de Torre de Moncorvo (nasceu em 1842), concluíu o curso de Medicina em Coimbra, tendo exercido em vários locais, tais como Mértola e Figueira de Castelo Rodrigo, antes de se fixar em Moncorvo. Depois de uma carreira política brilhante, viria a ser nomeado Conselheiro, tendo desempenhado o cargo de governador civil do distrito de Bragança várias vezes. A primeira vez foi em 1890 (de 30 de Julho a 13 de Novembro); depois em 1891 (de 16 de Julho a 7 de Abril de 1892); em 1893/94 (de 14 de Dezembro a 13 de Dezembro de 1894); em 1906 (22 de Março a 17 de Maio) e em 1908/09 (de 22 de Fevº. a 14 de Janeiro de 1909). Após a implantação da República o Dr. Margarido apagou-se por completo, acabando por falecer nesta vila, em 1922. Pelos relevantes serviços em prol do concelho, de que se destaca a intervenção a favor da ponte do Pocinho e da construção da linha do Sabor, o seu nome foi dado à rua que fica por detrás do Jardim Municipal.

Mas, como este "post" vinha a propósito das lutas políticas desses tempos, aqui transcrevemos alguns assentos da "Caderneta de Lembranças" do moncorvense Francisco Justiniano de Castro (1829-1901), sobre esse tema:

Por exemplo, veja-se como se fazia uma campanha no ano de 1897:
"Maio, 4 - andarão quaze [sic] toda a noite o Doutor Gallas [era do partido Progressista, mas parece que, nesta ocasião, se teria bandeado para os Regeneradores], e os Margaridos e todos os regeneradores, com a muzica desta villa atucar [sic], e a butarem [sic] muito foguete, a correrem as ruas todas da villa, dando vivas ao partido regenerador e a todos os regeneradores." - ora hoje estas arruadas fazem-se em ruidosas caravanas automóveis, com bandeiras, megafones e, à falta de banda de música, com as buzinas a apitar. No essencial não é muito diferente.

No ano de 1900, foi também ano de eleições, tendo saído vencedores os Regeneradores, cujo elenco municipal tomou posse no dia 21 de Julho:
"- Dia 21 de Julho de 1900, tumou poçe [sic] da camara municipal desta villa a cumição[sic] nova regeneradora composta dos cavalheiros seguintes: Affectivos [sic]: Joaquim António da Silva / José Manoel de Campos / José António dos Reis / Adelino Augusto Menezes (da Horta) / António Manoel Mota / Manoel António Candoso / Luís António Mendes / Subestitutos: (...)".

Mas a dança das cadeiras não se ficava só pela Câmara, já que no dia anterior mudara a direcção do Hospital (este ficava no actual centro de dia da Misericórdia):
"- No dia 20 de Julho de 1900, tumou poçe do Hospital desta villa a comição composta dos cavalheiros seguintes o Exmº. Snr. Doutor António Joaquim Ferreira Margarido e o Exmº snr. Joaquim António da Silva, e o Exmº Snr. José António dos Reis, etc".
Naturalmente também havia os "vira-casacas", ou boatos a respeito das suas "oscilações":
" -Dia 20 de Julho de 1900, tornouçe[sic] o Gallas a virar para o partido progreçista mas foi falso este buato[sic].

Depois também havia as "révanches" pós-eleitorais, os saneamentos por razões políticas, por "morderem a mão" que lhes dera inicialmente o "tacho":
"-Dia 11 de Agosto de 1900 é que butarão fora desta villa o snr. Antonio José Martins que tinha entrado dia 8 de Maio de 1877 por o ter nomiado a camara regeneradora... agora era contra os que o tinham nomiado, foi bem feito".
Outros tinham que ir para o "exílio", embora o chefe dos derrotados conseguisse dar um jeitinho para se arranjar trabalho fora daqui:
" - Dia 19 de Agosto de 1900, foi o Anibal que era cantuneiro da camara desta villa para o Porto, para outro emprego que também lhe lá arranjou o Dor. Araújo, por paga das rusgas que fizerão nas eleições a favor delle". -Note-se que o Dr. Araújo era generoso para com os seus apoiantes saneados:
"E o Briato [Viriato] Lopes Russo que era o guarda fios nesta villa e o butarão fora também o Dr. Araujo lhe está dando o ordenado que ganhava por ser socio das rusgas da eleição a seu favor". - andar nas "rusgas" da eleição, era o mesmo do que hoje andar nas caravanas de apoio.

Talvez já a preparar a contestação, saía em Setembro um jornal novo:
" - Dia 27 de Setembro de 1900 é que apareceu neste villa o jornal novo dos Guerras atitulado [sic], o Eco de Moncorvo, que é só de poucas vergonhas porque só [eles] é que apresentavão assim um jurnal ao publico, mais ninguem o aperzentava". - os Guerras eram os proprietários da casa grande da rua do Cabo, antigo solar dos Tenreiros, à entrada da vila, para quem vem das Aveleiras.

No seguimento do acto eleitoral, certamente durante a distribuição dos cargos, talvez se tivessem "zangado as comadres". O Gallas (aparentemente "comprado" pelos Regeneradores) parece ter-se zangado com o Margarido, o que explica o boato que correu no dia 20 de Julho (ver acima). Mas entretanto alguém negociou uma solução entre esta coligação de interesses, e o assunto resolveu-se:
" - Dia 8 de Outubro de 1900 à noite os regeneradores fizerão conferencia em casa do Oliveira e o Dr. Gallas e o Dr. Margarido fizerão as pazes e ficaram outra vez amigos". - A "casa do Oliveira", deve ser a de António Caetano de Oliveira, que corresponde ao solar onde hoje se encontra a Biblioteca Municipal.
Mas o rescaldo político ainda não devia estar bem feito, ao nível das bases, pois o cronista da vila desse tempo ainda acrescentou este remoque, sobre um colega seu:
" - O snr. Thomaz de Maçores, amanuençe [sic] desta ademinstração tem 20 costelas no corpo, 19,5 são progressistas e outra meia é regeneradora, e esta não é toda" - uma nota de ironia e de sarcasmo bem à Moncorvo, de onde se depreende que o dito Justiniano de Castro devia ser simpatizante dos Regeneradores, como se nota ao longo de outros assentos da dita caderneta.

Entretanto, o Dr. Margarido deve ter ido avistar-se com membros do gabinete ministerial a Lisboa, tendo chegado a 29 de Outubro:
" - Dia 29 de Outubro de 1900 chigou ...... [truncado na transcrição original] villa, vindo de Lisboa, o Exmº ..... Antonio Joaquim Ferreira Margarido... Doutor, e forão a esperá-lo os Exmºs. Senhores Dr. João José Dias Gallas e o Dr. Alberto Charula e Dr. Abilio da Costa Pontes e António Caetano de Oiveira, Eduardo Lopes Pereira e José Meirelles."
A nível mais baixo, as consequências da vitória eleitoral de 1900 continuaram a repercutir-se pelo ano de 1901:
"Dia 5 de Fevereiro, butarão o Victorino fora de jardineiro e de cuveiro[coveiro] e introu o Almendra. / Também butarão fora o lampianista... José Truvões e meterão o António.... " - o cargo de lampianista consistia em acender e apagar os lampiões de petróleo que havia nas esquinas das ruas principais, nessa época. Eram estas as consequências, naquele tempo, de se apostar no cavalo errado... Esperamos que esses tempos tenham definitivamente passado.

Fonte: Caderneta de Lembranças, de Francisco Justiniano de Castro, publicada por Dr. Águedo de Oliveira, ed. dos "Amigos de Bragança", 1975.

1 comentário:

Isabel Mateus disse...

Mais outra liçao muito interessante de historia no rescaldo da politica. A nossa esperança e que tudo mude sempre para melhor!

Abraço

Isabel

P.S. Peço desculpa pelos acentos, devido ao mau funcionamento do teclado.

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