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quarta-feira, 14 de maio de 2008

Ares da Minha Serra

A última edição (1995) de Ares da Minha Serra, porventura a obra mais conhecida de Campos Monteiro, é da responsabilidade da Câmara Municipal de Moncorvo, com uma tiragem de mil exemplares.
O livro consta de duas histórias e um apontamento, quase jornalístico, de uma viagem de barco rabelo, do Rego da Barca até ao Tua, onde se apanhava o comboio para o Porto.
A primeira história, “A tragédia de um coração simples”, bem ao ritmo camiliano, em escrita eivada de regionalismos, Campos Monteiro conta a história de um jovem moncorvense, João Caramês, cortador de lenha na serra do Roboredo e que se perdeu de amores – e pelos amores se deixou perder—por Madalena Caixeiro, sua vizinha. Tinham sido criados praticamente juntos, como irmãos.
Mas a Madalena caiu nas graças do fidalgote Tomazinho Montenegro que a seduziu.
O Bento Armoges, “um unhas de fome”, como escreve o autor, é o usurário da vila. Tem uma pequena zanga com João Caramês, durante a pisa da uva.
Nessa noite, o Bento Armoges aparece morto. São deitadas as culpas a João Caramês que é preso. Mas Canafrecha ( uma das personagens mais conseguidas da novela), um pobre diabo, sem eira nem beira, sabe quem matou o Bento Armoges. Fora o Tomazinho Montenegro.
Madalena Caixeiro diz ao João Caramês que está grávida de Tomazinho Montenegro.
João Caramês foge da cadeia por uma escassas horas, vai ter com Tomazinho Montenegro e conta-lhe que sabe quem matou o usurário. Tomazinho confessa e garante que se vai entregar no dia seguinte. João Caramês, porém, diz-lhe que se confessará culpado do homicídio, com uma condição: que case com Madalena Caixeiro. E antes do julgamento. E assim é feito.
O advogado acha que não há provas contra o João Caramês. A própria população acredita na sua inocência. Mas João Caramês não falta à palavra, considera-se culpado e é degredado para as Áfricas.

Amores alentejanos
A segunda história, “A Rebofa” ( as cheias da Vilariça), é ainda mais trágica. Trata-se de uma história de ódios velhos que não cansam entre dois abastados lavradores que, desde pequenos, tinham vivido como irmãos, até que, um pouco à aventura mais do que por necessidade, partiram para as ceifas do Alentejo. Aí, ambos se apaixonaram pela mesma mulher, também ela abastada, mas que só um amava. O ciúme destruiu os dois. E destruia-a a ela que, escorraçada pelo pai, começou a andar de terra em terra, em trabalhos do campo.
Eles regressaram a Moncorvo e puseram muros entre as casas contíguas, para que nunca se vissem um ao outro. Tornaram-se mesmo rivais na política. E nasceram-lhe um filho e uma filha que acabaram por se apaixonar, e casar com a sua maldição e viver na miséria até que, desesperados, se suicidaram na “rebofa”, deixando uma criança aos cuidados da caseira da Quinta do Chibos.
Quando souberam da tragédia, os dois velhos inimigos encontraram-se, pela primeira vez, diante do berço do neto. E abraçaram-se, com a caseira na penumbra vertida em lágrimas.
Diga-se que a caseira, que não fora reconhecida, era o antigo amor alentejano dos dois velhos.

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