Quando tropeçamos nas pedras do tempo nem sempre nos magoamos. A entrada de Moncorvo, vindo das Aveleiras, com o cavaleiro, em ladrilhos, a anunciar o nitrato do Chile, quase sempre me remete para a minha infância e para a casa dos meus avós na aldeia, casa que hoje não existe, demolida e transformada em mais uma nova e atípica casa de emigrantes. Era térrea e dela via as eiras onde, descalços, jogávamos a bola, entre cardos secos e algumas agudas pedras, enquanto a “trilhadeira” e os “rolheiros” de trigo não ocupavam aquele nosso espaço privilegiado da infância. Perto, havia o tronco, onde o velho Marcelino de Urros, alto, esguio, de preto vestido, mas muito dado aos copos valhó Deus, ferrava as bestas e os homens jogavam ao ferro, com um caldeiro de água fria ao lado. Eram conceituados os de Maçores neste jogo, de força e rigor. Os homens jogam também à raiola com patacos pesados e já cobertos da patina do tempo. E em Setembro ripava-se o olmo para a vianda do porco. O chilrear dos pássaros irritava o silêncio pacato e quente do crepúsculo. Éramos porventura felizes? Porventura sim porque os nossos desejos e necessidades eram muito limitados. A minha avó fazia-me a marrafa em cabelo crespo e rebelde. Tínhamos a mão afoita à pedra e sabíamos onde se escondiam os ovos das perdizes. O Ângelo Chocalho guardava, com desvelo sem fim, o pinheiro manso junto à Nossa Senhora da Glória, não fosse a canalha roubar os pinhões do patrão. O ti Ifigénio, um santo homem, levava-nos com ele a guardar as ovelhas. Mas vistos hoje os dias à distância de meio século, a miséria era muita. Corrijo, não digo miséria. Prefiro antes pobreza.
Pedro Castelhano
(Em breve os próximos capítulos)
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Peredo dos Castelhanos (1)
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1 comentário:
Pobreza, sim. Havia pessoas que não tinham dinheiro, trocavam ovos por sardinhas, eu vi, sei quem foi, um pouco por essas aldeias, mas não digo. De cada vez que tenho vagar - e são muitas - e olho para a facilidade com que os nossos descendentes arejam a massa (como eu a arejei também, no afogamento do pequeno e recorrente consumo do imprescindível acessório) vem-me isso à lembrança: estou a ver as caras dos que teriam hoje mais de 120 anos. Muita outra gente não sabia que essas pessoas não tinham dinheiro, ainda que tivessem uma casa «feita». Dir-me-ão: é como hoje. Bem, era pior, era mais asfixiante, mais limitativo, com a mesma cultura mas com menos civilização, por assim dizer, a aflição estava ali sempre à espreita, com raras excepções.
Carlos Sambade
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