torredemoncorvoinblog@gmail.com

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Peredo dos Castelhanos (1)

Quando tropeçamos nas pedras do tempo nem sempre nos magoamos. A entrada de Moncorvo, vindo das Aveleiras, com o cavaleiro, em ladrilhos, a anunciar o nitrato do Chile, quase sempre me remete para a minha infância e para a casa dos meus avós na aldeia, casa que hoje não existe, demolida e transformada em mais uma nova e atípica casa de emigrantes. Era térrea e dela via as eiras onde, descalços, jogávamos a bola, entre cardos secos e algumas agudas pedras, enquanto a “trilhadeira” e os “rolheiros” de trigo não ocupavam aquele nosso espaço privilegiado da infância. Perto, havia o tronco, onde o velho Marcelino de Urros, alto, esguio, de preto vestido, mas muito dado aos copos valhó Deus, ferrava as bestas e os homens jogavam ao ferro, com um caldeiro de água fria ao lado. Eram conceituados os de Maçores neste jogo, de força e rigor. Os homens jogam também à raiola com patacos pesados e já cobertos da patina do tempo. E em Setembro ripava-se o olmo para a vianda do porco. O chilrear dos pássaros irritava o silêncio pacato e quente do crepúsculo. Éramos porventura felizes? Porventura sim porque os nossos desejos e necessidades eram muito limitados. A minha avó fazia-me a marrafa em cabelo crespo e rebelde. Tínhamos a mão afoita à pedra e sabíamos onde se escondiam os ovos das perdizes. O Ângelo Chocalho guardava, com desvelo sem fim, o pinheiro manso junto à Nossa Senhora da Glória, não fosse a canalha roubar os pinhões do patrão. O ti Ifigénio, um santo homem, levava-nos com ele a guardar as ovelhas. Mas vistos hoje os dias à distância de meio século, a miséria era muita. Corrijo, não digo miséria. Prefiro antes pobreza.

Pedro Castelhano

(Em breve os próximos capítulos)

1 comentário:

Anónimo disse...

Pobreza, sim. Havia pessoas que não tinham dinheiro, trocavam ovos por sardinhas, eu vi, sei quem foi, um pouco por essas aldeias, mas não digo. De cada vez que tenho vagar - e são muitas - e olho para a facilidade com que os nossos descendentes arejam a massa (como eu a arejei também, no afogamento do pequeno e recorrente consumo do imprescindível acessório) vem-me isso à lembrança: estou a ver as caras dos que teriam hoje mais de 120 anos. Muita outra gente não sabia que essas pessoas não tinham dinheiro, ainda que tivessem uma casa «feita». Dir-me-ão: é como hoje. Bem, era pior, era mais asfixiante, mais limitativo, com a mesma cultura mas com menos civilização, por assim dizer, a aflição estava ali sempre à espreita, com raras excepções.

Carlos Sambade

eXTReMe Tracker