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sexta-feira, 23 de maio de 2008

Em louvor do dr. Ramiro

Era apenas por dr. Ramiro que conhecíamos o dr. Ramiro Salgado. Era um modo de manifestarmos respeito, mas sobretudo afecto.
O meu irmão mais velho tinha sido um aluno do dr. Ramiro, um grande aluno, marrão e de altas notas. E um dia surgi eu qual ovelha ranhosa, rebelde, libertário, indisciplinado, em suma, mau aluno. Dizem as más línguas – que as há sempre em todo o lado e em grau maior – que eu tinha um razoável coeficiente de inteligência, mas tão desaproveitado! Não sei o que a vida veio provar, se o meu QI, se o seu desaproveitamento.
Mas o dr. Ramiro simpatizou comigo. Hoje fala-se muito em empatia, conceito que, na altura, só funcionava entre os iniciados ou nos que adormecem com Homero à cabeceira.
Quando entrei no Colégio Campos Monteiro éramos todos rústicos a que a vida concedeu ou condicionou, de bom ou mau grado, caminhos distintos.
O dr. Ramiro era um homem de afectos e respirava sensualidade. Estava-lhe na massa do sangue. Era um apreciador de mulheres.
Tinha eu então por colegas de turma o Simão do Larinho, um barra em Matemática, o António Grande de Felgueiras que já na altura tinha barba enquanto em nós a penugem penava em fortalecer, o Adérito Camelo, de Açoreira, discreto, silencioso, sorrateiro, olhar de caçador furtivo para fêmea passante, o Humberto Pires Dias ( e leia-se Pirés no seu sotaque ligarês) que punha gravata sempre que o dinheiro se lhe acabava, o Eduardo Reis, o Jorge Calijão, cunhado do sr. Braga, vindo de Macedo e que usava sempre dois pentes, um esmero de elegância, e tantos outros de que a memória se vai fatigando. Reincido: fui sempre um mau aluno. Acabei por ser expulso, para mágoa do dr. Ramiro, por um empurrão que dei ao dr. Sobrinho, então presidente da Câmara e professor de Português. Era um professor medíocre, por muito que isto custe dizer de alguém que já faleceu e de cujos filhos ( sobretudo do Zé) sou amigo. O dr. Sobrinho tinha por hábito esbofetear com o seu anel de curso de Filologia Românica, os alunos. Eu não permiti. Agredi-o com alguma violência, mas vivia na revolta, na procura e na inquietação interior, estados que nunca mais me abandonaram ao longo da vida, apaziguado que estou com os outros, mas em guerra constante comigo mesmo.
Moncorvo era então uma sociedade fechada, entre a pesporrência e o caciquismo. O café do Basílio era um espaço metafórico da “luta de classes”. No reservado, chamado a ONU, juntavam-se os que se consideravam senhores da terra e alguns serventuários que julgavam os eflúvios da ONU lhes concederiam um maior estatuto social.
Honra lhe seja feita, que o dr. Ramiro não respeitava nem frequentava estes conciliábulos de sabedoria galinácea. Na ONU jogava-se às cartas por vinho verde rasca.
No centro do café reunia-se a alma, a verdadeira alma de Moncorvo. Jogava-se dominó, bilhar e damas. Nas damas brilhava imbatível o Álvaro Reis, tendo como adversários temíveis o Álvaro Mateus e o Manuel Relojoeiro ( não lhe sei outro nome, mas na altura era a única expressão de convívio social que se lhe conhecia). No dominó brilhava o Chico do Porto, também um exímio bilharista, o Preto de Freixo de Espada à Cinta, o Abel da Venatória, o Renato. O tenente de Urros, viciado no dominó, mas com pouco jeito, era o bombo da festa. Chegava a perder grades de cerveja, enquanto os clientes desesperavam que os levasse para Urros.
Mas regressemos ao Colégio e ao dr. Ramiro.

Fazia parte do nosso imaginário – e ainda hoje não sei se há verdade ou lenda no episódio – o confronto entre o dr. Ramiro e o dr Sobrinho. No auge da discussão, o dr. Sobrinho terá gritado, na sua voz apiflautada: “Olhe que eu tenho nervos”. E então dr. Ramiro, erguendo-se, encostou-lhe a sólida barriga, levantou os braços, cerrou as mãos em punho e, com voz de gigante, clamou: “E eu tenho nervos e força”.
Nunca mais pude esquecer esta cena que, real ou hipotética, entrara no nosso caderno de lembranças, numa elevação do dr. Ramiro que era generalizada entre os alunos.
Por vezes, em pleno Inverno, obrigava-nos a levantar cedo (uma vez entrou mesmo no meu quarto e destapou-me) para uma sessão de ginástica, antes de começarem as aulas; por outras, acompanhado do César Espanhol, contínuo, ia-nos buscar ao Jardim onde ouvíamos música da juke box ( a malhadeira como nós lhe chamávamos na nossa ruralidade mal assumida) do Norberto Moreira, em vez de estarmos nas aulas.
Passou então pelo Colégio, a dra. Túlia, de Alfândega da Fé, professora de Inglês, com um ténue buço a sugerir mulher grega. A dra.Túlia também fazia parte dos nossos sonhos eróticos de adolescente. Tinha um olhar triste. Não sei se a vida lho cativou.
Vivíamos no rame-rame de uma sociedade fechada, sem comunicação, poucos sonhos, mas alguma solidariedade.
Quando o devaneio e a sedução passavam as marcas, ainda que fossem manifestações canhestras de que qualquer Casanova urbano se envergonharia, entrava o dr. Ramiro na sala de aulas e, entre o raspanete e uma certa compreensão e olhar cúmplice, perguntava, para não obter resposta: “Julgais que isto é alguma Ilha dos Amores?”

Um dia, eu decidi fugir à guerra colonial. O dr. Ramiro foi das poucas pessoas a quem o revelei. Não comentou. Apenas escreveu uma carta de recomendação para o seu colega de Faculdade no Porto, o professor Emídio Guerreiro, que estava exilado em França.
(Creio valer a pena abrir aqui um pequeno parêntesis, como um regato da memória paralelo à turbulência da narrativa. O professor Emídio Guerreiro foi preso pela polícia política ---creio que ainda então se chamava PVDE, no Aljube, donde fugiu de uma forma algo rocambolesca. Chegou a Espanha ( Galiza) no auge da Guerra Civil. Esteve para ser fuzilado pelas tropas franquistas. Com a ajuda do consulado inglês, ligado à Maçonaria, conseguiu chegar a Gibraltar, donde rumou para França. Entretanto, rebentara a guerra com a Alemanha. Entrou para a Resistência e no maquis chegou a capitão. Hélio se chamava. Conquistou a cidade de Montauban. Herói da Resistência francesa, ficou com a dupla nacionalidade, foi condecorado por De Gaulle e dava aulas de Matemática num liceu de Paris.
Entreguei-lhe a carta e fui encaminhado para um Centro de Refugiados Políticos. Mas isso é outra história que não vem para o caso. Já muito, mas muito mais tarde comecei a conviver com o prof. Emídio Guerreiro. Estive, em Guimarães, na celebração dos seus 105 anos. Morreria uns meses depois).

Ia, de Paris, escrevendo poemas sobre poemas, com nítidas influências do Paul Élaurd e de Aragon, bem como de Brecht cujos oito volumes de obra completa lera na Biblioteca de Montreuil, que enviava ao meu amigo Paulo Salgado. Ainda então não sabia que o sussurro é por vezes mais estridente que o grito. Poemas menores, datados, mas de aprendizagem.
Um dia regressei clandestino a Portugal. Contactei o Paulo que informou o pai. O dr. Ramiro disse para me irem buscar à Guarda. Foram o Ramiro e o Paulo. Creio que num mini do Ramiro, já não estou bem certo. Era o último dia do ano. Fui directamente para o Colégio Campos Monteiro. Onde celebramos o fim de ano. Fui dormir a casa e, ainda antes de amanhecer, parti numa carreira para seis meses de clandestinidade, repartidos pela Guarda, Tortosendo, Coimbra e Lisboa.

Contas de outro rosário. Regularizada a minha vida, não normalizada, que sempre fui renitente em relação a normas e normalização, um dia encontramo-nos eu e o dr. Ramiro, professores-colegas na Escola Secundária de Moncorvo. Senti-me muito mal. O dr. Ramiro estava triste, o fulgor que sempre vira nos seus olhos, feito de paixão e futuro, estava baço. Os amigos eram menos. Quase me lembrava o soneto de Camilo. Tomávamos quase todos os dias café ( eu creio que o dr. Ramiro, nescafé) no Martinho, quase em frente à igreja. E um dia propôs-me como mote “ o rio que transborda as margens”, com umas ressonâncias brechetianas que não me eram estranhas. Glosei o mote e entreguei-lhe o poema. Não sei se ele ainda existe.
Um ano depois de ele morrer, já eu padecia das desumanidades de Lisboa, a família pediu-me que lhe fizesse o elogio fúnebre numa romagem ao cemitério do Larinho. Amigos não havia muitos. Mas eu estava lá. Não fiquei com o texto que entreguei à família, não sei se ao Paulo se ao Ramiro.
Eu sei que “recompensa mal o Mestre quem se contenta em ser discípulo” ( F. Nietszche). Mas o dr. Ramiro que me perdoe porque ainda não consegui recompensá-lo.

RR

2 comentários:

Anónimo disse...

Concordo que o Drº.Sobrinho era um professor medíocre.(mas como ele havia mais)
Mas em Moncorvo nessa altura havia bons professores:
O prof. Rogério Rodrigues, o prof. de História (não me recordo do nome), O Sº.Padre Rebelo, o Drº. Pires de Cabral que vindo substituir o antigo Director da Escola(Ditador e terror da época).

paulo patoleia disse...

Moncorvo desse tempo, que eu bem conheci... descrito assim, com prosa deste calibre, dá mostras de ter tido bons Mestres e ser um grande humanista e um observador atento, retratando tão bem o ambiente da época assim como o do café do Basílio, que por momentos emocionei-me! Já agora tmb dei um empumrrãozinho ao Pr. Sobrinho (Carranha), por causa do dito anel, mas já no fim dos seus dias na varanda do castelo fizemos as pazes... parabéns!
Paulo Patoleia

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