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quinta-feira, 15 de maio de 2008

Afonso Praça

Gostaria de escrever mais alguns textos (alguns deles já escritos, passe a redundância) sobre o Afonso Praça, ou seja, escrever sobre alguém que teve um amor sem fim por Trás-os-Montes

Carta ao Afonso Praça
Caro Afonso Emílio:
escrevo-te depois de uma longa ausência, que cada vez será mais longa a ponto de se considerar interminável. Não me tens telefonado e não te tenho telefonado porque, se porventura te encontrares em algum lado, será num lado onde não há telefones. E agora vamos às notícias: amigos teus deixaram um rasto de saudade e ternura pelos jornais, espalharam a cinza das suas lágrimas por muitas palavras que resistiram à pressão do efémero. Tenho seguido com atenção este caminho de reconhecimento e afecto. E nas suas palavras renasces, retirada a escória profana. E surges como sempre te conheci: sem inimigos declarados, incapaz de levantar a voz, não sujeito aos pecados da cólera e da inveja, bem mais tolerante em relação à gula e à luxúria.E há quem lembre os teus sofrimentos no seminário e na tropa. Mas registam com alguma surpresa que sempre mantiveste relações privilegiadas com gente da Igreja católica e da instituição militar.Com algum sentido de humor, a tua sogra disse um dia: “Imaginem com quem as minhas filhas haviam de casar—com um Praça (Afonso) e um Tropa (Alfredo)”. Conheci-te mal acabaras de sair do seminário e eras falado por todo o distrito de Bragança como o jovem que dominava o Latim qual Cícero e o Português como um padre António Vieira.Era eu então um imberbe adolescente e mal imaginávamos que mais tarde, durante anos e anos, viveríamos juntos tantas horas e tantas noites.De quando em quando atacava-nos a melancolia. A tua, mais suave e disfarçada; a minha, mais crua e descarnada.Jantávamos e almoçávamos na Casa Transmontana, às Escadinhas do Duque. Mandávamos vir as alheiras de Moncorvo e tínhamos convencido a Teresa a ter também a ementa em mirandês. Por vezes cansada, deixava-nos a chave e ficávamos até de madrugada a esmoer histórias, numa prolongada digestão de afectos, com alguma crítica, pouca, de permeio. Sabes? a Teresa está mal, vive com o Chico em Álvaro, uma aldeia da Beira Baixa, tem uma casa toda em granito, há muito abandonou o restaurante e a cidade, mas a Teresa está mal. Telefonou-me há dias e chorava de tanta solidão e doença.E que saudades tínhamos nas longas noites do Snob e outros ínvios bares, esconsos, de africanidade –tu sempre tiveste uma sedução particular pelas mulatas – do nosso Trás-os-Montes que nos foi tão padrasto, mas que amámos tanto.Tu ainda conseguiste arrumar as contas. Vendeste a casa no Felgar e fomos buscar a tua mãe a Poiares, para vir morrer junto de ti. Depois, compraste uma casa na Alentejo, na Igrejinha. Tu sempre foste o transmontano mais alentejano que conheci, até no modo como cortavas o pão, tasquinhavas o queijo e o presunto e contavas histórias, no ondular lento e melodioso da palavra, com o acento transmontano que nunca perdeste. Que o diga o Manuel da Fonseca, o teu dilecto parceiro de fins de tarde, nos tempos do República.Mesmo a cidade está muito diferente, Afonso, desde que os teus amigos não conseguiram impedir que tu partisses. Mas nós fizemos-te algum mal para partires assim? A cidade, Lisboa que tu amavas tanto, fez-te algum mal? O teu Campo Grande que tu olhavas olhando os montes e as pedras bem mais longe mas tão perto, o próprio Campo Grande já deu pela tua falta. Já nem sei como está a Feira Popular, nem sei se o restaurante Mirandela ainda existe. Fomos lá uma vez, a primeira em que a médica te obrigou a fazer dieta, porque a pele da tua cara, parecia um tambor. Sentamo-nos. Era a tua última refeição antes de entrares em dieta. “Não achas que se deixar de ser gordo, perco a graça toda?” Confessaste-me já nos últimos dias antes da partida que estavas a preparar um conjunto de cartas românticas para mulheres sós. Escritas em linguagem adaptável à condição social e cultural de cada mulher imaginada. Estou a ver o teu apego à ternura, o teu passar de mãe gorducha e lenta pelos cabelos cansados das mulheres sós.Tinhas tanta capacidade e necessidade de pensar nos outros que às vezes te esquecias de ti próprio. Vai longa a carta. Não quero que canses a vista. O teu coração está forte, como sempre. E mordo-to. Prometo-te que na próxima feira irei comprar uma corneta de barro. Se ainda houver oleiro na tua aldeia que faça cornetas de barro. Eu também quero ser o rapaz da corneta de barro. Um abraço do Rogério.

*Este texto foi publicado num opúsculo da responsabilidade da Câmara Municipal de Lisboa, em edição do Museu da República e Resistência, em homenagem a Afonso Praça.

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