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quarta-feira, 14 de maio de 2008

Moncorvo no início do século XX

Nomes, lugares e expressões

O livro de Campos Monteiro (“Ares da Minha Serra”), não sendo de grande qualidade literária, respeitando embora os cânones da época, tem, no entanto uma virtude única: dá-nos a conhecer não só o linguajar, bem como a topografia e os costumes de Moncorvo no princípio do século passado.
A descrição da amêndoa coberta, a partição da amêndoa, a pisa das uvas, a descrição da Corredoura são textos que deviam ser estudados pelos alunos de Português da Escola Secundária de Moncorvo, Dr. Ramiro Salgado. Seria benvindo professor que houvesse capaz de reflectir no porquê das alterações da arquitectura da vila, sobretudo a partir da descrição da Corredoura, e também nas especificidades linguísticas de um meio rural que se transformou num meio de serviços.

Nomes

Alguns dos nomes presentes no livro, sobretudo na primeira novela, ainda têm ressonâncias familiares no Moncorvo de hoje.
Uma das personagens mais conseguidas de Campos Monteiro é sem dúvida o Canafrecha.
Campos Monteiro dominava o diálogo com a mestria de quem muito teatro já escrevera.
Diga-se que os “Ares da minha Serra” com o “Raio Verde”, livro de poemas, são os últimos livros de Campos Monteiro, publicados em 1933, ano da sua morte.
A definição de Canafrecha: “Olá, Canafrecha! Vens p’ra o rebusco?”
O Canafrecha era “zorro”, filho de pai incógnito. Dormia “nos bancos do Castelo sob a umbela das acácias”. (Já não há acácias no Castelo).
“Era o único ratoneiro da vila--uma povoação de três mil almas que desconheciam o roubo e cujas portas se patenteiam sempre abertas, de par em par”.
Ainda a propósito do Canafrecha, Campos Monteiro lembra “ a mata do sr. Baltazar onde havia medronhos de trás da orelha” (no Roboredo).
Diz o João Caramês, o herói da novela, p’ra o Canafrecha: “Olha que podes emborrachar-te”
“--Melhor! Alguma vez hei-de fingir de rico”.
Já tinha ido à consulta do Hospital. “Disse-me o doutor Ramiro que era do coração e pôs-me a leites” . Pelo menos em 1933 havia Hospital em Moncorvo.
Ainda o saboroso linguajar do Canafrecha: dizem que “fiz o ranfa de um corte de saragoça à senhora Filomena Granzina. Mas são inzonices das más línguas (...)Surripiei na loja do Marrana uma folha de papel e um vidrinho de tinta e fui-me lá p’ra a serra, p’ra do dr. Bernardo, a escrever tudo o que tinha visto”.
Há ainda o personagem da desgraça, o Tomazinho Montenegro que encomendou duas músicas para a festa da Nossa Senhora da Esperança: “a do Peredo e a do Mogadouro”. Existe também uma D. Clemência Montenegro, de Felgueiras. E uma tal D. Clotilde Paredes, em cuja casa se partia a amêndoa e que “possuía vasto amendoais, lá para as arribas do Felgar e nas pedregosas encostas que, da Cornalheira e da Ventosa, descem a buscar o Douro”.
E encontra-se, como vinhateiro, em Moncorvo, um tal William Copperfield, cuja mulher “fora certa menina do Peredo, magríssima e quase sem sangue”. Ainda os barcos chegavam à Foz. A descrição: “Todos os dias chegavam barcos-rabelos ao Rego da Barca, com os mais diversos artigos, fabricados no Porto e no estrangeiro. Em troca, partiam as pipas de vinho generoso, os cascos de azeite, os fardos de lã, os sacos de amêndoa e de milho”.
Também outra das personagens mais vincadas da novela de Campos Monteiro, é Armoges, o usurário que foi morto por Tomazinho Montenegro e que levou à prisão de João Caramês. A descrição da personagem denota da parte do autor de Moncorvo, a leitura dos chamados naturalistas do último quartel do século XIX. Armoges “que só escogita em apedoirar dinheiro, esse birbante (...) se já não está a espernear na forca, é porque enterraram o pelourinho que havia ali na Praça (...) Avaro trampolineiro (...) o cochino(...) o somítico (...) Esse fome-laricas que passava muitas vezes sem janta, só para amealhar mais 10 tostões (...) Armoges (Hermógenes) habitava um casebre no fundo da rua dos Sapateiros”. Tinha um estabelecimento “mixto de prego e casa bancária” na Praça Municipal.
Para quem conhece Moncorvo, passados quase 70 anos sobre a publicação do livro há situações familiares, usos e linguajares que nos vêm á memória e nomes que perduraram até hoje embora em condições sociais distintas. Por exemplo, o Tomé Cantés, “pobre carpinteiro”. Escreve Campos Monteiro: “Iam levar o Tomé para o hospital e que o sr. Abílio Pires oferecera o palheiro da rua das Amoreiras para eles morarem”.
Na novela aparecem ainda outros nomes a merecerem, bem como outros de tempos sequentes, uma biografia social de uma vila que foi importante, como Moncorvo. Algumas referências:” O lagar de vinho do Júlio Gonçalves à rua da Misericórdia(...) Ao torcerem para o Prado, avistaram à porta da taberna do Cachiço”.
O Roberto Caiador, Moncorvo já na altura tinha dois polícias, o 25 e o 18, havia o António Enxamblador, o Joaquim Loureiro, o Chico de Ligares, oficial de diligências, o dr. Areosa. “A rapariga (Madalena Caixeiro) saía acompanhada pela Silvina do Ferrador”.

Ruas e bairros

Moncorvo era então uma vila essencialmente rural e administrativa. Campos Monteiro, muito embora oriundo de Moncorvo, desde a infância que se dividia entre Douro e Minho, tendo na cidade do Porto os seus interesses sociais e culturais. Alguém o classifica como o “grande escritor do burgo portuense”. De qualquer modo, no crepúsculo da vida, Campos Monteiro espalha um olhar entre o distante e o nostálgico, num disfarce de ternura, sobre as suas origens. E, além das pessoas, recorda os sítios.
A Corredoura é vista por João Caramês dos calabouços da cadeia (traseiras do tribunal ou rua do Cabo?). Pelo olhar de Caramês:” “Ali em baixo, por detrás da capela de S. Sebastião, devia ser do Manuel Tenreiro. A outra, mais para a direita, do Miguel Mesquita e a que se divisava lá ao fundo, no extremo oeste da vila, se não fosse a da ermida de S. Paulo, era concerteza a do António Cabrela”.
Também a rua do Poço merece uma descrição pormenorizada de Campos Monteiro, interessante de comparar com o seu estado actual. “A rua do Poço era uma congosta estreita e soturna, com o pavimento sempre recoberto de palha e terra solta, onde o sol penetrava pouco porque não havia casas de andar. O pardieiro da rapariga tinha a vantagem de ser o último; e do pequeno terreiro que lhe servia de quintal descortinavam-se as ladeiras da Costinha, a exígua várzea do Vale das Latas, o maciço granítico, onde raras leiras verdejavam, da serra de além-Sabor”.
Aparecem ainda mencionados a rua do Quebra-Costas, o Val da Perdiz, a curva da Barbatona, o canavial, na esquina da casa do Arco o nicho da Nossa Senhora Mãe dos Homens, o Vale do Marmeleiro, a Fraga do Facho, os cerros do Larinho, a montanha dos Estevais, a serra de Sambade.

Expressões e regionalismos

Moncorvo sempre foi muito fértil em colocar alcunhas às pessoas e a sua veia crítica, por vezes sarcástica, e um linguajar muito próprio, a par de alguma prosápia domingueira, transformam aquela vila num microcosmos social e cultural que quase apetece estudar.
Dou aqui aos leitores algumas das expressões e termos mais comuns do linguajar de Moncorvo ainda não há muitos anos, quando não se temia a massificação e a uniformização linguística, por baixo, através da televisão e da mensagem audiovisual, cada vez mais simplificada, em nome da eficácia, mas alheada de referências.
Dizem os seus contemporâneos que Campos Monteiro tinha uma memória prodigiosa. Pode-se acrescentar que não sendo o linguajar das classes mais sacrificadas da vila a sua herança cultural, social e mesmo económica, Campos Monteiro soube captar no entanto toda a riqueza que se armazenava na linguagem e na sabedoria populares. Sem pretendermos ser exaustivos, alguns exemplos dos “Ares da minha Serra”: a taleiga da merenda; meu enxalmo, molanqueiro, bardino, benairo da esfrega, meu alma de cântaro; andar na gandaia; cortelho de recos; este meco (não em sentido pejorativo, como hoje); cada mocho p’ra o seu souto; terrincando os dentes; quando se via aganada; e regressava sem um gaipo; era capaz de as empontar; um fraca-chicha, um salamurdo que mal a gente lhe aparece acrucha logo o casaco; toda arreguichada; podes ir preparando a vèdalha ( a propósito do casamento); catixa! que chambego de café; lábia tem ele, o fistor; não faz minga, sr. João; p’ra espertar o apetite; tenho andado bem assafiado por via disso; acobardei-me, com um bocado de fajeco; não me salvo se a não gomito; com estes dois que a terra há-de gualdir; acogulou a burra; deitou aparvado pela rua fora; é hoje que despejo o canastro. E vim aqui num esfregante; qualquer dia, trape: lá vai um pobre diabo p’ra o Maneta; e nem farfalha, caladinho que nem um murganho; as ruas acoguladas de neve; o aloquete; até te podia dar um pleuriz; um tanto avelhentada; estomagado a pesar seu; na gorja; soprava um larinhato frígido; que me deitaram os gadanhos; introduziram a yale na fechadura.
E mais expressões e termos poderíamos ainda buscar em Campos Monteiro. Seria muito interessante um estudo linguístico, acompanhado de um estudo sobre a realidade social de Moncorvo e de alguns valores básicos que hoje se vão perdendo, como o valor de honra que enformam as novelas de Campos Monteiro, esta espécie de hino crepuscular à vila onde nasceu, que são as novelas dos “Ares da minha Serra”.

Rogério Rodrigues

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