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quarta-feira, 14 de maio de 2008

Itinerários - A Linha do Douro

As carruagens são poucas e obsoletas e vermelhas, num fim de Verão, numa estação de comboios, na margem direita do Douro, em Campanhã, no Porto, onde todas as viagens começam para o espaço mais sofrido de Portugal.
É sempre uma aventura interior mergulhar no xisto, lavar os olhos no Rio e sentir como a memória se fere nas escarpas ao longo de 200 quilómetros.
As montanhas trepam por nós adentro.
Há séculos que se venera e teme o Rio. Não há outro Rio para além do Douro, diz-se do Porto à raia. O sentido do sagrado permanece. A história dos naufrágios passa de boca em boca, de gerações sobre gerações, são quilómetros e alturas não mensuráveis de socalcos que mais parecem construídos pelos escravos ressuscitados das pirâmides do Egipto.
Mas não. Foram cavados e dinamitados por sísifos sem história, desprezados pelos deuses, abjurados pelos homens, foram os galegos e os transmontanos e os beirões que trabalhavam sol a sol, robustos e telúricos, por uma mão quase vazia de moedas, meia sardinha e um copo de aguardente.
Miguel Torga, o grande poeta ibérico, chamou-lhe Reino Maravilhoso, a este universo agreste aonde vamos entrar, a partir do Porto até ao Pocinho com um bilhete de comboio ainda de baraço e papel-cartão.
“Douro, rio e região, é certamente a realidade mais séria que temos. Nenhum outro caudal nosso corre em leito mais duro, encontra obstáculos mais encarniçados, peleja mais arduamente em todo o caminho; nenhuma outra nesga de terra possui mortórios tão vastos, tão estéreis e tão malditos” (Miguel Torga - Portugal).
A viagem demora quatro ronceiras horas.
A primeira paragem acontece em Valongo. Mas o tempo alterou a estação. Já não se ouvem os pregões das ‘regueifas’ (uma espécie de pão espanhol em rosca), já se não vendem as bilhas de barro com água fresca, para atravessar montanhas de xisto que refulgiam e fulminavam.
Os passageiros ainda trazem o garrafão de vinho, mas já não usam os cestos de vime, de cores vermelhas e ocre, para a merenda: salpicão, presunto, bolos de bacalhau, queijo e sardinhas fritas, das pequenas, a encherem a carruagem e a memória de intensos cheiros e aromas.
Cabe na geografia sentimental, como um espaço de repouso, como antecâmara de intermináveis vinhedos da epopeia do “fine wine”, a estação do Pinhão, coberta, como uma galeria ao ar livre, de azulejos de azul celeste, que contam ladrilhada a faina da vindima. Azulejos que se perdem no tempo, peças raras do nosso imaginário.
Os WC ainda se chamam retretes e os depósitos ferroviários são em matéria enegrecida pelo tempo e pelo fumo das velhas locomotivas movidas a carvão ou hulha, que se alongam, negras, ao abandono, como sinais de um tempo já passado, em velhos e ferrugentos carris cobertos pela erva.
Nesta viagem sentimental, neste reencontro com as raízes da terra em que fui parido, vêm-me aos lábios, como sons musicais, os nomes das quintas de que se contavam histórias na minha infância: amores realizados e desavindos, facadas, violência e morte, mas sempre miséria.
E ouço-as e vejo-as enquanto começam a surgir, nas margens do Rio, laranjais, amendoeiras, chorões, salgueiros e olivais. E os nomes em casas baixas, teimosamente serenas nas encostas dos vinhedos a tocarem o céu – a Quinta Velha, a Quinta da Vacaria, Valbom, Ventozelo, S. Luís, Pego, a Casa do Castelinho na Alegria, a Ferradosa, já com vinha nova, com plantio à UE, comunitária apenas nos fundos e nos subsídios, com compasso obrigatório.
E a memória de que aquele reino pertenceu aos ingleses. E lê-se pela montanha acima: Cockburn, Taylors, Sandeman.
E a memória repete-se, após longos anos de ausência de viagem na Linha do Douro: porque é que o comboio pára onde não há sequer uma casa, muito menos uma estação ou alguém que toque a corneta para ordenar que retome a marcha?
Estabelece-se um silêncio de plenitude na chegada à Valeira, outrora local maldito pelos seus açudes e pela sua raiva. Foi aqui, nos seus cachões, que morreu o barão de Forrester. Por trazer um cinturão cheio de libras de ouro, que lhe pesavam no seu corpo de inglês e o empurraram para o fundo. Mais à frente, no Vesúvio, foi a vez de D.Antónia, a Ferreirinha, se salvar, boiando, com as saias rufadas em balão. Ao naufrágio só ela sobreviveu. É o que ouço desde a infância. É o que hoje se continua a ouvir. Mas também D. Antónia se salvou de ter como compadre o todo poderoso duque de Saldanha que tentou arrematar casamento do seu filho com a filha da proprietária. Mas D.Antónia não foi no engodo. E quando se passou para o outro lado, aos 85 anos, além de bens em nota, moeda e ouro, no seu pecúlio constavam 24 quintas no Douro.
Do Tua parte outra linha para Mirandela. Esta placa giratória é também um espaço quase mítico na memória transmontana. Durante tempos, zona de paludismo, de calores tão intensos que, conta-se, os trabalhadores no Verão assavam as sardinhas nos carris.
Ao darmos a curva para entrarmos no Pocinho , o fim da Linha, o começo de outro mundo, a escassos quilómetros do Parque Arqueológico de Foz Coa, ensaiamos o olhar na Quinta do Monte Meão, que fecha um ciclo e onde se tem produzido o melhor e mais caro vinho português: Barca Velha, da Ferreirinha.
O Pocinho tem um ar decadente. Dali partiam duas Linhas, já extintas, para a Barca d’Alva ( a ligação com a Espanha, através de Lumbrales) e para Duas Igrejas, o sítio ferroviário mais a norte do Nordeste transmontano.
É a hora do crepúsculo no Pocinho.
É aqui o princípio e o fim da epopeia do vinho do Porto.
Em finais de Setembro, princípios de Outubro, começam as vindimas.
Rogas de transmontanos e beirões descem até à região dos socalcos. Mulheres e crianças ou homens mais fracos cortam os cachos; os mais robustos, carregam as uvas em cestos altos (60 a 70 kgs) para os carrinhas e tractores ou, directamente, para os lagares. A estas rogas juntam-se hoje, entre legais e ilegais, ucranianos, moldavos, bielo-russos. Podem nunca ter visto uma uva, mas ao fim da colheita conhecerão já, por certo, o intenso cheiro do mosto.
Bem vindos ao Reino Maravilhoso do Alto Douro e Trás-os-Montes, o único reino onde os lobos ainda uivam e as velhas de preto esperam sempre por alguém que deve estar a chegar, nem que seja aquele viajante que um dia perguntou: “Então velhinha, diga lá se não gostava de ir a Lisboa”. “A Lisboa?” “Sim, a Lisboa” “Estou farta, estou farta de Lisboa” “Mas já foi alguma vez a Lisboa?” “Tenho lá seis filhos”.
Terra de emigração, Trás-os-Montes está quase deserta de transmontanos.
Reino Maravilhoso? Só de passagem e pela janela de um comboio.
“Venham, venham ver o Rio”, diz a mãe com sotaque do Porto, para as duas crianças da cidade.

Do Pocinho a Miranda

Do Pocinho, o entreposto ferroviário onde nasceu Francisco José Viegas, figura da televisão e autor da “Morte no Estádio”, em autocarro ou automóvel de amigo partimos em direcção a Moncorvo. São 11 quilómetros, sempre a subir, e com mais de 300 curvas, entre o enjôo e árida paisagem.
Chegamos a Moncorvo e frente ao edifício da Câmara deparamos com o busto de Campos Monteiro, o escritor consagrado da terra, um médico que, fazendo a sua vida na periferia do Porto, não esqueceu as suas origens. Nos anos 20 teve algum sucesso e notariedade com “Saúde e Fraternidade”, sátira de monárquico reaccionário à República anárquica, com “Miss Esfinge”, um dramalhão camiliano, com “Ares da Minha Serra”, duas novelas que retratam, com fidelidade e alguma nostalgia, a vida de Moncorvo do princípio do século XX.
Se fizermos uma pequena paragem, para jantar que seja, podemos ir até ao restaurante das piscinas, o Dom Mendo, ou ao Artur de Carviçais, já com a encomenda feita de amêndoas cobertas e enchidos, sobretudo alheiras (galinha do campo, peças de caça, tudo amassado no pão regional, com azeite e alho silvestre), a chouriça da resistência dos cristãos-novos aos esbirros da Inquisição, como bem escreveu Manuel Mendes, o eterno conspirador com raízes em Mogadouro.
Deixámos para trás a mastodôntica igreja que levou 100 anos a construir e onde espirra, dentre granitos, um raquítica figueira que dá dois ou três figos todos os anos.
Deixamos para trás o Museu de Ferro, o único no país. No concelho, na serra do Roboredo( bosque de carvalhos numa pertinência latina), estavam e ainda estão em recato as maiores jazidas de ferro da Europa.
Ao nosso lado direito, fica a aldeia do Felgueiras, terra de Armando Martins Janeira, o embaixador que se apaixonou pelo Japão, crítico literário nas horas vagas e com interessante espólio em Cascais; terra de onde partiu o bisavô de Jorge Luís Borges, em andanças militares e outras que desaguaram na Argentina. Ao lado esquerdo, fica o Felgar, onde nasceu e calcorreou caminhos, o Afonso Praça, jornalista e autor de “O Coronel Morreu de Sentido” (noveleta satírica com assento na sua terra) e “Um Momento de Ternura e Nada Mais”, crónicas de saudade de Trás-os-Montes visto do Campo Grande (Lisboa). Homem de saberes, comeres e beberes, publicou “Receitas Afrodisíacas”, com desenhos de Francisco Simões, e, em parceria com Maria de Lurdes Modesto, publicou, na Verbo, dois volumes das “Festas e Comeres do Povo Português”.
Avançamos até tomarmos a decisão de cortar à direita para Freixo de Espada à Cinta. São sem dúvida os piores 15 quilómetros de estradas transmontanas. Mas vale a pena o sacrifício. Entramos na vila portuguesa com mais casas manuelinas e com pinturas de Grão Vasco na Igreja da Misericórdia. Se queremos comer alguma coisa, já fruto de ser terra de fronteira, podemos encaminharmo-nos para o Cinta de Ouro, com carne espanhola, fresquíssima e tenra, entradas espanholas e presunto aparentado com o pata negra.
Terra do interior, estamos em terra de marinheiros, aventureiros e missionários. Daqui houve Jorge Álvares ( com direito a estátua em Macau), companheiro de peregrinação de Fernão Mendes Pinto e o primeiro português a chegar ao Japão; daqui houve Sarmento Rodrigues, o almirante ( indo ao Turismo o leitor pode comprar uma biografia de Sarmento Rodrigues, com muitas surpresas e novidades, da autoria de Nuno de Sotto-Mayor Quaresma Mendes Ferrão); daqui houve Basílio de Sá, autor do primeiro dicionário de tetum-português, prisioneiro dos japoneses em Timor; daqui houve o padre Manuel Teixeira, considerado dos maiores sinólogos vivos.
Para fazer a digestão, nada melhor que subir ao Penedo Durão,donde avista terras de Espanha e o céu parece estar mesmo à beira da sua mão; ou então, desce até à Congida e repousa os olhos no Rio, numa serenidade semelhante à que haveria no Paraíso, não fosse a gulodice da maçã.
Meta-se de novo a caminho até Mogadouro. Entrou no planalto, viu em Castelo Branco a casa das 365 janelas e portas, já a ser recuperada após longos anos de ruína.
Entrou no reino da posta mirandesa, tem muito por onde escolher. Ou siga até Miranda e ouça o linguar estranho de uma língua (o mirandês), um dialecto do leonês, hoje falado por cerca de 15 mil pessoas e que já tem expressão escrita e literária em Francisco Niebro (Amadeu Ferreira) com os “Cebadeiros” e “L Ancanto de l Arribas de l Douro”.
A Língua mirandesa foi descoberta há mais de 100 anos pelo prof. Leite de Vasconcelos e foi aprovada como segunda língua oficial pela Assembleia da República em 1999.
Visite o Menino Jesus da Cartolinha, já bem fornecido da posta mirandesa na Gabriela das Duas Igrejas e lembre-se do padre Mourinho, o resistente dos Pauliteiros de Miranda, da gaita de foles, das danças celtas e compre uma Palaçoulo, com cabo de bucho que medra nas margens do Sabor.
Se quer chegar a tempo a Bragança pode internar-se em Espanha. É o caminho mais cómodo para a capital do distrito e durante três dias, da diáspora transmontana.
De regresso a casa pode passar por Macedo de Cavaleiros, almoçar na estalagem, comprar Vale Pradinhos e a caminho do Pocinho fazer um desvio até Vila Flor comprar o seu queijo e as Portas de D. Dinis, um vinho único. Se ainda tiver tempo, pare na Foz do Sabor e coma uns peixes do rio no Chico Barbas ou no Zé da Branca. Pode comprar vinho da Quinta da Silveira ( se ainda o houver), Fraga do Facho, Cistus ou Montes Ermos que, por certo terá bebido em Freixo. Quantos aos queijos escolha os da Cardanha ou da Quinta Branca.
O comboio já apita. Mal chegue ao Porto, visite o Nuno Canavez, de Mirandela, a cuja biblioteca tem dado muito do seu precioso espólio da palavra transmontana, caçador inveterado e avô que todos os netos gostariam de ter.

Rogério Rodrigues

1 comentário:

nelson disse...

Caro Rogério,
Excelentes e truculentos nacos de prosa, que relerei e comentarei com mais atenção. Este primeiro, a partir do Porto e do Douro é um roteiro extraordinário. Se o nosso amigo Nuno Canavez é o avô que todos os netos gostariam de ter, o autor deste guião é o cicerone que qualquer urbanóide gostaria de ter(atenção, "urbanóide" é um designativo carinhoso para o pessoal da cidade que nunca viu a arçã). - Vê-se que é escrito datado, pois há já algumas desactualizações, como p. exemplo: 1 - para a Torre de Moncorvo já há uma alternativa à estrada das 300 curvas; 2 - a estrada de Freixo já não é o calvário de buracos que aí se descreve, mas está uma pista larga e com tapete novo; 3 - o monsenhor Manuel Teixeira já morreu; 4 - ah, e o Barca Velha já não se produz no Vale Meão, onde agora impera um substituto que não lhe tem medo, com a vantagem de ser um pouco mais barato, e que leva o nome da dita cuja quinta, longe vá o agouro de ter o IP-2 a passar-lhe à porta e a desfeitear-lhe o cenário.
Deixo para saborear depois os nacos sobre o Campos Monteiro.
Abraço e as minhas felicitações pela estreia em grande.
N.

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