torredemoncorvoinblog@gmail.com

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Foi há 113 anos: anexação do concelho de Freixo por Torre de Moncorvo

Mapa da época, com marcação do itinerário seguido pelos de Moncorvo, na operação de posse da documentação oficial do concelho de Freixo. A força militar que deu cobertura ao acto, certamente com receio da reacção popular, terá vindo do Porto pela Linha do Douro. Assim o trajecto assinalado foi apenas o do Administrador de T. de Moncorvo, do corpo policial que o acompanhava e, naturalmente, dos carrejões transportadores dos livros oficiais de registos. Como se sabe, esta anexação foi sol de pouca dura, mas a verdade é que, por momentos, Moncorvo foi um super-concelho, à custa do antiquíssimo concelho de Freixo.
Junho, 26 [do ano de 1896] – chegou à Barca d’alva o Snr. Governador Civil de Bragança, com 40 praças do corpo nº 18 que as trouçe consigo do Porto, e mandou ir ao nosso administrador [de Moncorvo] que era o Snr. Marculino Margarido a estar com elle e depois mandaram ir a toda a preça os dois pulicias que aqui estavam destacados a ter com eles e no dia 27 chegou às 9 horas de manhem o sr. admnistrador com 2 puliçiais e com as 40 praças a Freixo e mandou cercar as repartições e intrarão dentro e mandou inorcar [sic] todos os livros e papeis que avia nas repartições e mandou carregar tudo em jumentos que logo os levou para isso e marcharão para Poiares e onde estiverão todos a comer alguma coisa, por ainda estavão em jejum, porque não quizeram comer nada em Freixo, e chegarão à barca dalva às 9 horas da noite e no dia 28 pellas 4 horas da tarde chegaram a esta villa, o admnistrador e os 2 pulicçiais com a papelada toda nos 2 carros, o do correio e o do Lazaro”. – in Caderneta de Lembranças de Francisco Justiniano de Castro (transcrição e notas de Águedo de Oliveira, edição dos Amigos de Bragança, 1975), pág. 15

O moncorvense F. Justiniano de Castro (falecido em 16.07.1901), era um amanuense reformado da Administração do concelho de Torre de Moncorvo, que nos últimos anos de vida se entreteve a anotar episódios interessantes do quotidiano da vila e redondezas, num caderninho que intitulou de "Caderneta de Lembranças", o qual viria a ser publicado pelo Dr. Águedo de Oliveira (antigo ministro das finanças do Estado Novo, natural da Horta da Vilariça), no jornal “A Torre”, sendo depois republicado em separata pela associação Amigos de Bragança (1975).
O episódio que o referido cronista aqui nos relata tem a ver com a extinção do concelho de Freixo de Espada à Cinta e sua anexação a Moncorvo, em consequência de mais uma de muitas reformas administrativas ocorridas no séc. XIX, sendo esta decretada por um governo do Partido Regenerador, ainda nos tempos da Monarquia. Tudo isto tinha a ver com questões políticas da época, tendo motivado, meses mais tarde, aquando de um período eleitoral, uma forte reacção do Partido Progressista, que encenou, inclusive, um enterro do concelho de Freixo (com urna e tudo, coberta com a bandeira do concelho), dando-se morras! aos “traidores” que tinham compactuado com esta extinção e anexação. Com a vitória dos Progressistas (a que chamavam então os “Penicheiros”) o concelho de Freixo voltou a ser restaurado logo no ano seguinte (1897) e, naturalmente, devolvida a documentação oficial que tinha sido confiscada neste acto de força. Note-se que o trajecto foi feito por caminho-de-ferro (entre Pocinho e Barca d’Alva) e o resto do percurso nos dorsos de animais e em carros, também de tracção animal, claro! (ver mapa em cima).

7 comentários:

António Sá Gué disse...

Será que neste interessante caderninho de lembranças, haverá alguma referência a alguém condenado no tribunal de Moncorvo por fogo posto?

Este episódio aconteceu provavelmente nos finais do século XIX e a pessoa em causa era meu atepassado. O facto deve ter sido muito badalado na época, já que acaba por ser inspirador para o Campos Monteiro, pois nos "Ares da minha serra", que é escrito, creio, uma dezena depois, quando o personagem principal é preso injustamente, tal como ele, o companheiro da cela, se bem se lembram, era alguém condenado por fogo posto e vai com ele degredado para África. Lembram-se?

Anónimo disse...

Pois, senhores, este vício de inorcar já tem raízes e está na massa do português. Dantes inorcava-se o espólio e, carregado em mulas, transferia-se a repartição, o arquivo, os selos e a finança, montes afora, ao sabor dos ditames que, das Cortes, regulavam o poder. Agora inorca-se clikando no botão e, surpresa infinita, o inorcado vê-se de repente sem fazenda , sem renda e sem mula, inorcadamente espoliado e tremendo de frio no meio da rua.
Inorque-se lá isto!!

Daniel

jed disse...

Boa tarde,

eu teria muito interesse em ver essa Caderneta de Lembranças. Poderão indicar-me onde encontrar um exemplar?

Por razões de estudo de história da minha família interessa-me tudo que o que tenha a ver com Torre de Moncorvo e com Freixo de Espada-a-Cinta.

O meu email, caso me possam dar alguma indicação: joaoediogo@gmail.com

Obrigado!

João Emanuel Diogo

Anónimo disse...

Sobre o que pergunta o A. Sá Gué, a dita Caderneta, parece-me ser omissa no que diz respeito ao caso do seu antepassado. Talvez esse caso se tivesse dado já depois de Junho de 1901, momento em que o autor da caderneta deixou de escrever. Sobre Carviçais, escreveu que no dia 24 de Outubro mataram uma mulher por apanhar 11 castanhas!... Outra tragédia que lhe mereceu registo deu-se em 14 de Outº de 1899, quando um lavrador de Carviçais, com um carro de bois carregado de cortiça, atropelou um homem de Freixo de Numão que ia para a feira dos Gorazes, ali perto das Lamelas. De resto, sobre Carviçais, só mais uma nomeação de um professor primário, em 3.01.1901para a escola régia.
Respondendo ao João Emanuel, pode conseguir fotocópias desta brochura na biblioteca municipal de T. de Moncorvo, ou biblioteca da associação PARM, se passar por Moncorvo.
n.

Anónimo disse...

Olá, Daniel:
Também creio que o verbo "inorcar" vai entrar no nosso vocabulário. E não paga direitos de autor, pois já data do ano da graça de 1896 .
Amigos, reparem que o Daniel inorcou o termo - como verbo, como substantivo e como advérbio - no seu divertido comentário. Isto é que foi uma inorcação a sério !
Já me diverti hoje.
Obrigada, Daniel.

Júlia

António Sá Gué disse...

Obrigado, "n"!
Pelas minhas contas, que são pouco concretas, como compreendes, terá acontecido antes.
Obrigado, na mesma.

Abraço!

jed disse...

Caro n.

obrigado pela indicação.

abraço
João Emanuel Diogo

eXTReMe Tracker