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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Stabat Mater...

Mãe, não me lembro dos teus olhos.
Mãe, só me lembro do teu olhar.
Do esquecimento do tempo já não sei
os anos. Exaustos fixamos o futuro
com tantas amarguras do passado
que o sorriso é a última flor
que apertamos de mãos dadas
numa indiscreta ilusão. Somos dois
como “sino dolente na tarde calma”.
Vestimos as palavras com trajes decentes
não vá o futuro pesar-nos na memória.


Mãe, quantos dos ecos não respondem à voz
apenas falsos simulacros do que quisemos
dizer? Não ligues, mãe, ao som do pássaro
desavindo com os seus. Errante ao crepúsculo.


Qualquer dia faz anos que a morte nos
ensombrou. Qualquer dia é sempre
um dia em que não sabemos porque
esse dia foi. Esperei esmagado que
os mortos ressuscitassem. Vem aí
o frio. Mãe, aconchega-me no teu
regaço flácido, como se houvera ainda
esperança que a neve nos tornasse
puros e isentos da morte do futuro.

Mãe, não me olhes como se não olhasses.
Deixo nas tuas mãos a última mágoa
de não ter sido feliz. Fui justo para contigo, Mãe.

7 comentários:

vasdoal disse...

Um texto impressionante! Obrigado, Rogério. Não estive só a ler esta pérola. Fui acompanhado por Pessoa e Eugénio de Andrade.

Júlia Ribeiro disse...

Já havia dado ao Rogério a minha opinião sobre “Stabat Mater”. Ainda bem que o poema está agora aqui, para leitura emocionada de todos.
E eu vou deixar também aqui as palavras que há dias lhe enviei , e que, tal como as lágrimas, brotaram espontâneas .


“Se eu soubesse exprimir num poema o que hoje sinto pela minha mãe, diria algo de muito semelhante ao que o Rogério diz.
Creio que todo o homem, em algum momento, é o menino que anseia pelo aconchego do regaço de sua mãe.
Ah, como eu sinto a falta desse regaço bom, onde ficavam sepultadas todas as minhas angústias ! Que saudade !
Dou-me agora conta que foi uma palavra que o Rogério não usou. E compreendo. Mas eu, que já estou quase nos 71, "sinto a saudade cada vez mais perto".

Deixe-me dizer-lhe que este é não só um poema de amor, mas um hino de amor ( outros chamar-lhe-iam elegia, pelo título, pelo tom de desalento , tristeza ...) . Na minha opinião, é um magnífico hino de amor , em que as palavras finais "Fui justo para contigo, Mãe" descobrem um apaziguamento que nos obriga a limpar as lágrimas.

Obrigada por ter partilhado comigo um momento tão especial.
Esquecia-me de dizer que o poema só podia ter o título que lhe deu.

Se calhar tudo o que eu estive para aqui a debitar, não deveria ter sido dito assim, pois sei que, quando se trata de poesia, tudo o que digo fica muito aquém daquilo que realmente sinto.
Um abraço muito grande.
Júlia “

Anónimo disse...

Comentar um poema é de alguma forma dessacralizá-lo.O acto poético é,como disse Herberto Helder, uma criação solitária e uma possessão. Revelar um poema tão íntimo como o Rogério o faz é um acto de doação generosa. Deixemo-lo pois intocado.
Daniel

Anónimo disse...

Felizmente o Rogério voltou! Que falta ele fez!
É tão bom ler os seus textos, enchem-nos a alma!
Obrigada Rogério

Anónimo disse...

Estou de acordo com o Daniel. A profundidade e a delicadeza do poema mergulha-nos naquele tipo de mutismo perplexo que nos atinge quando contemplamos a "Pietá" de Miguel Ângelo. Rendidos ao Belo e à "Mater Dolorosa". - Prolonguemos, pois, o silêncio das sem-palavras com que nos deixa...
E longe vá o epitáfio, Deus conserve sua santa mãe por muitos e bons anos!
abraço,
n.

Anónimo disse...

À "Mater dolorosa", Mãe Coragem, a Dona Cândida, que viu "crucificados" dois filhos tão prematuramente, a minha homenagem e o meu profundo respeito e carinho.

M. da M.

Anónimo disse...

A dona Cãndida é a mãe do Rogério ( e também do Anísio e do Vítor, ambos falecidos tragicamente).

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