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quarta-feira, 24 de junho de 2009

Em Moncorvo



Ó montes que cercais a vila de Moncorvo,

Ó pinhos cujo odor continuamente eu sorvo,

Ó águas que a cantar passais a nossa vida,

Ó pobres camponeses sempre a trabalhar,

E vós carros de bois pela estrada a chiar,

E tu ó negra fome em todos os lares erguida,

Entoai-me uma canção que me faça chorar,

Que à vida nem eu sei que rumo hei-de já dar …



Gemei eternos montes, sempre adormecidos,

Ó pinhos abaixai vossos ramos erguidos

E vós águas das fontes chorai eternamente …

Camponeses, parai, de trabalhar, parai….

Chiai, carros de bois; Gemei, chiai, chiai …

E tu ó negra fome extermina-os sempre!...

Revolvei-vos montanha! Meu fim não tardará

Que o que me vai na alma não tem remédio já…



Vejo tulipas brancas estremecer de dor

Nesta terra maldita onde não há amor

Onde os homens se batem sabe-se lá porquê?

E onde os animais se comem uns aos outros,

E onde há tolos tantos e espertos tão poucos …

Onde do que era bom nem átomo se vê!

Eu que sou diferente de todos, que fazer?

O vácuo, o nada, o nada! Morrer, morrer, morrer!

30/VIII/1945

Poema: J. Lopes

Foto: Tomás Menezes


3 comentários:

Daniel de Sousa disse...

Atentem na data deste poema, cujo Autor julgo não conhecer- um sombrio pós-guerra, um mundo de privações, de isolamento, de fomes e de medos. Uma geração sofrida, uma dignidade contida, um mundo em mudança cujos ecos aqui não chegavam. Esta geração que gerou a revolta.
É este o retrato deste inquietante poema.
Daniel

Anónimo disse...

Antes de mais, gostava de saudar o "Sarilhos" por esta sua estreia, bem como o Daniel de Sousa, ao vê-lo já no rol dos colaboradores! - da minha parte, Bem-vindos!
Quanto ao poema é, de facto, sombrio e feito de contrastes. Principia bucólico, adquire deppois uma toada de António Nobre (na parte "Entoai-me uma canção que me faça chorar", lembra aquele: "Oh virgens que passais ao sol Poente,/ pelas estradas ermas a cantar /entoai-me uma canção ardente / que me transporte ao meu perdido lar" - cito de memória, mas acho que é isto) e termina num quási pitctórico grito de Munch, carregado de nihilismo. Que tivesse sido escrito em Torre de Moncorvo imediatamente a seguir à II Grande Guerra é sintomático e revela que, até certo ponto, chegavam cá os ecos, senão de uma mudança, pelo menos de um estado de espírito. Mas é preciso atentar que o ignoto autor não escreve terra com maiúscula, pelo que se poderá estar antes a referir a uma realidade mais comezinha e local... "Mutatis mutandis..."
Obrigado, Sarilhos.
n.

Júlia Ribeiro disse...

Reparei na data , sim . Sem dúvida, o poema é inquietante ! É um poema com tempo e lugar.
E, demasiado bem, eu conheci esse mundo: tantas vezes, demasiadas vezes, estive - criança de 6 ou 7 anos - horas, demasiadas horas, em pé, na bicha do pão para, com a senha de racionamento, obter 250 gramas de pão para 3 pessoas.. Pão mal cozido, para pesar mais.
Para os mais pobres a penúria era total, ainda que no mercado negro nada faltasse...
E continuamos num mundo de tremendas contradições e desigualdades.

Desejo para os meus filhos e netos e para todas as crianças e jovens um mundo melhor.

Júlia

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