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sábado, 28 de março de 2009

Júlia Ribeiro retirada do armário

Soube hoje pelo Nelson que faleceu o Jaime e soube do Peredo onde decorreu o funeral que teve uma pequena multidão de saudade e afecto, que o Jaime bem merecia. Era um homem bom, como honrada e boa é a sua família. E, falando em homens bons, fui ao rebusco na minha arca informática e encontrei o texto que escrevi e li sobre os dois livros e contos e crónicas da minha amiga Júlia Barros (já lá vão, pelo menos três anos, será?). Como vai estar algum tempo separada de nós, aproveito a ocasião para publicar o texto. Estou mais descansado que assim não me vai "perturbar" com os seus comentários que, sendo de tamanha tolerância, nos fazem sentir mais pequenos. Creio que muita gente do blogue não conhece este texto, pelo que me atrevo a publicá-lo. Aqui vai:


"Excma senhora Júlia de Barros, sr. presidente da Câmara, minhas senhoras e meus senhores

Sinto-me honrado pelo convite que me foi endereçado por Maria Júlia de Barros que literariamente se assina Júlia de Barros Biló, para apresentar o seu último livro “Contos ao Luar de Agosto”, volume II, em boa hora patrocinado pela Câmara Municipal da nossa terra. Em simultâneo é apresentado outro livro, de crónicas e contos, “De Olvido e Silêncio”, retratos do imaginário social e da memória afectiva do bairro da Corredoura e de Moncorvo.
Trata-se, quanto a mim, de duas obras fundamentais, como registo de memória e reconhecimento da sociedade moncorvense, da década de 50 à década de 70, ainda que algumas das histórias se reportem ao final do século XIX, se tivermos em conta o diário de então de um funcionário administrativo, Francisco Justiano de Castro que deixou para a posteridade a sua caderneta de lembranças. Este manuscrito foi anotado pelo doutor Águedo de Oliveira e seria publicado, em Setembro de 1975, no Boletim do Grupo “Amigos de Bragança”. A história das onze castanhas, dos tiros no soto do Aníbal Lobo, da ausência de endoenças para os presos, do administrador Ramiro Guerra que mandou prender o Abade, fazem parte, são apontamentos sucintos deste diário que Júlia Barros Biló terá certamente conhecido e que, com rara mestria, transformou, dando-lhes corpo literário.

Os moncorvenses com a minha idade encontram aqui muitas das referências da sua infância, dos seus medos e sonhos.
Desde o pícaro ao trágico, numa linguagem depurada, mas a que não falta a fertilidade poética, a metáfora e o risível em que as gentes de Moncorvo são ricas e temíveis, desde a short story de que “Por Onze Castanhas” é a máxima expressão, pelo domínio da linguagem e do diálogo, até encontramos ao nosso lado, como se ainda o estivéssemos a ouvir e nos respingasse a cara, e nos pegasse no queixo, embrulhado na sua gabardina sebenta, o Horácio Espalha, o paradigma do reviralhista isolado em terras do interior, uma exacerbada consciência crítica. Até ouvimos a banda da Miranda tocar, em Duas Igrejas, o “Bandiera Rossa”, um dos grandes hinos internacionalistas que empolgou gerações, cantado num mirandês de múltiplos sabores. Estes dois livros espelham, mais do que qualquer estudo sociológico, a índole moncorvense, a sua matriz proletária centrada na Corredoura e a sua tendência para o pícaro ( tendência que se manteve provavelmente até aos dias de hoje e de que o Arnaldo, por exemplo, é a expressão mais apurada) e a crítica ácida aos senhores da Praça. Neste livros, os sábios são o povo. Os doutores são a tola arrogância, o convencimento fácil e a estupidez sem culpa formada.

A criação da atmosfera em Júlia Barros Biló assenta num espaço real, que não a lareira como é comum a quase todos os regionalistas e cultores do conto rústico, mas ao ar livre, em Agosto, na Corredoura, na geometria xistosa dos balcões.
Júlio Dinis, um dos grandes representantes do romance moderno, de convalescença na Madeira de uma tuberculose que haveria de o minar aos 30 e tal anos, ia reflectindo sobre a criação literária, em textos que, mais tarde, já depois da sua morte, foram condensados e publicados nos seus “Inéditos e Esparsos”.
O diálogo, um dos segredos da obra de Júlia Barros Biló, merece uma larga reflexão do autor da “Morgadinha dos Canaviais”. Escreve Júlio Dinis: ”O diálogo, sobretudo, não deve distanciar-se do linguajar falado na época, em que o autor escreve, sob pena de dissipar o vestígio da verdade da narração. É necessário acomodá-lo à índole, à posição social e especialíssimas condições do indivíduo que fala, para que na leitura dele a alma vibre como se assistisse a uma cena real (...) Para que o diálogo interesse e iluda, é mister que o autor se esconda o mais possível e, para isso, tem de abdicar do seu estilo próprio e expor na boca dos actores da sua narração palavras que fossem esperar deles por quem os tivesse previamente conhecido”.
Já Garrett defendia que o diálogo devia recorrer à linguagem oral e simples e não escrita e retórica.
Este conceito justo no tempo em que Garrett o enunciou, e justo ainda hoje, é, no entanto, diariamente ultrajado pelos guiões e diálogos da maioria das telenovelas portuguesas, por um desconhecimento profundo da língua e do abuso do adjectivo, como lugar comum, como mera escória da pepita que não se encontra. Mas este tema levar-nos-ia muito longe e creio não ser este o momento para sobre ele reflectir.
Continuando: já Trindade Coelho, cujos contos, repassados de realismo e assentes em costumes rurais, confessava, na sua “Autobiografia”, serem “talvez saudades”, motivadas pela distância, porque se vivesse na sua terra talvez os não tivesse feito.
A longa ausência de Júlia Barros Biló permitiu-lhe uma aproximação mais profunda, passe o paradoxo. Na sua memória, recriou o imaginário e estabeleceu os arquétipos. E conseguiu a síntese feliz, pela voz do povo, da condição social de Moncorvo, após a II Grande Guerra.
Ao lado rústico dos seus contos, na esteira de contistas transmontanos como Trindade Coelho, Araújo Correia e Miguel Torga, e algum Camilo, devemos acrescentar um certo imaginário, entre a superstição e a lenda e a fatalidade de alguns escritores latino-americanos. Moncorvo é a sua Macondo (espaço mítico e obsessivo de Gabriel Garcia Márquez).

A Corredoura aparece como o espaço umbilical, não o espaço central, da vila. A Corredoura assume-se como o reservatório, não só de uma memória colectiva, mas também como o epicentro da crítica social, da força do trabalho e da solidariedade vicinal, na dor e na alegria, que os tempos e as migrações foram, com muita pena, apagando.
Como que é na Corredoura que se reserva e preserva a cultura profunda, a mais profunda, de um povoado, servindo a Praça, não só como instrumento de vaidade de doutores, terreno de funcionários públicos, mas sobretudo, como o centro do Poder, opressor e gratuito. E a Corredoura é do contra.
E não deixa de ser curioso que, à minha semelhança, muitos dos que aqui estão presentes, tenham aprendido as primeiras letras na Corredoura. Na minha infância chamávamos-lhe os índios, ainda a distinção social dos bairros era tão acentuada e a Corredoura uma reserva de homens pobres mas livres.
Nos intervalos das aulas mijávamos no plátano que estava à beira do “canafechal”, na esperança de o secarmos. Não conseguimos. Mas na infância, o sonho é mais importante que o sucesso.


Júlia de Barros Biló confere ao diálogo um grande espaço discursivo. O manejar linguístico torna a sua prosa extremamente visual. Sente-se melhor, é visível no primeiro volume dos contos, quando o narrador é uma mulher. Ela própria o confessa quando afirma que os contos dos homens “ não tinham para mim aquele poder encantatório, aquela magia das histórias das velhas”
Neste volume que hoje é apresentado, o Ti Serafim Galego aparece com um dos grandes contadores em torno de feiticeiras, uma das quais, com dois cornos bem gravados na sola do pé esquerdo, se transforma em parreca nos sábados de lua cheia, após colocar erva dormideira no vinho do homem. A carga judaica do sabath e a importância da lua cheia em toda a literatura hermética e esotérica são constantes nas histórias de Moncorvo.
Já “A Pedra do Mundo”, no fabulário poético dos contares, tem um lugar à parte, onde a poesia se mistura à parábola e a magia quase alquímica do tesouro e dos encantamentos percorre muito do universo do romanceiro português e também moncorvense, na confluência de duas culturas que enformam o imaginário popular: a cultura árabe e judaica.
“Cornudo de si mesmo”, outro conto, entra noutra categoria em que o pícaro, a malícia e a maledicência, tão caras a Moncorvo, ocupam um espaço profano por excelência. A história é o retrato quase desbragado de alguma sociedade machista moncorvense. É contada por Zé Sangra, um homem bom e que, por bem, gostava de arreliar os garotos, oferecendo-lhes em seguida uma moeda para irem comprar rebuçados ao Basílio. Foi assim que o conheci na minha infância. Ao contar da história, também ela com uma conclusão cheia de beleza e poesia, a que o útil se junta ao agradável, assiste o Álvaro Chalaça, “um mulherengo encartado”, como ironiza a autora.
“Mesmo depois de morto...” é outra história pícara contada pelo Todu que eu ainda conheci e que na minha adolescência e juventude deu muitas boleias para Mogadouro e Vila Flor, num tempo em que ele tinha um café e era agente de automóveis.
Relata a história do Tio Tónio Calvo, tocador de bombo na banda de música que, até na morte, foi capaz de pregar uma partida aos vivos.
Depois há histórias mais trágicas onde é visível a passagem da I Grande Guerra por Moncorvo. Luis Malhógrão, desapareceu em combate na guerra de 14. Laura, a sua mulher, de 19 anos, vestiu de preto, mas jamais acreditando que ele tivesse morrido. Um dia imaginou que o seu Luís regressara e que intensa e longa fora a noite de amor. E assim viveu os últimos 20 anos da sua vida, numa pulsão erótica que a mergulhou no espaço trágico do Eros/Thanatos.
Cabe aqui também o registo da história de uma violação, assunto praticamente tabu, ao contrário dos zorros, na memória descritiva de Moncorvo. Houve em seguida o lavar da honra e o menos útil dos três irmãos, por deficiência física, ofereceu-se ao sacrifício, como personagem grega, dando-se ele como o único culpado, de modo a que os dois irmãos válidos ficassem a proteger a mãe e a irmã. Degredado para a
África regressa rico, ainda que com ares de pobre, com um saquinho cheio de diamantes.
Também neste livro vamos encontrar outro degredado de África, que partiu pobre e pobre regressou. Trata-se de João Caramês, o herói da novela “Ares da Minha Serra” de Campos Monteiro. O conto tem a particularidade de jogar com tempos diversos, de intrometer na narrativa o narrador e o herói, o narrador antes de escrever a narrativa e o herói já depois da punição do acto de heroísmo. Ou seja, João Caramês, o jovem da novela de Campos Monteiro, é o mesmo João Caramês, que já cumprido o castigo vai buscar o então ainda jovem Campos Monteiro ao Pocinho. As virtualidades do conto são imensas e o desfazamento dos tempos, entre o narrador e a narrativa e o novo contador da história dariam campo fértil para uma exegese do tempo na ficção.
Em “A Caixa de Rapé”, a autora regressa ao fantástico. Trata-se do relato de uma caixa de rapé pertença de Miguel Malafaia, cheia de diabinhos que ele de quando em quando soltava e que faziam todo o trabalho por ele.
Já “A cidade da Babilorna...” expressa um forte conteúdo social, determinado pela revolta dos escravos, uma história que seria recebida como uma clara alusão às condições de vida na Corredoura em relação a outros sectores burgueses e pequeno-burgueses da vila.
E outras histórias e outros contos mereceriam uma mais alargada análise. Deixo esse prazer para os leitores, porque a partir de agora, os livros já não pertencem a Júlia Barros Biló. Os livros são do leitor, ele próprio os reescreve, a seu modo e à sua memória.
Já vai longa esta reflexão de aprendiz. Não queria deixar, contudo, de lhes ler a história mais curta e no entanto, quanto a mim, a mais intensa e justa e perfeita dos dois livros agora apresentados: “Por Onze Castanhas”.
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Muito obrigado.

6 comentários:

Anónimo disse...

Concordo inteiramente com o que Rogério Rodrigues aqui diz sobre Júlia Biló.
O meu parco conhecimento da pessoa de Júlia Ribeiro é largamente compensado pela imagem de transparente e inesgotável generosidade que emana dos seus escritos , que me deixa tantas vezes emocionado.
O conto é talvez a modalidade literária mais difícil , pela concisão , sobriedade e rigor de escrita que exige. Julgo que muito e bem foi aqui dito pelo Rogério sobre a sua enorme qualidade literária , a sua maravilhosa genuinidade, o seu profundo respeito pela qualidade humana dos personagens que retrata.
Os contos de Júlia Biló correspondem totalmente à ideia que noutro comentário expus sobre a universalidade da boa escrita, da escrita que projecta num universo mais amplo de inesquecíveis figuras aquelas que por vezes estão ao pé nós e que não conseguimos ver.
Júlia Biló dá-nos a chave do segredo - a atenção ao real , o respeito pelo interior da personagem, a ironia suave da singeleza e o grande amor pelas pessoas, que faz a diferença entre os seres humanos comuns e os seres humanos superiores.
Na verdade eu penso que o segredo está neste modo de as olhar - atentem nos comentários que suscita aqui uma simples fotografia de alguém que até pode já nem existir, ou um grupo do passado, ou uma casa ou rua onde viveram pessoas reais e agora poderá ser apenas a sua memória.
E nesse sentido ( discordando agora totalmente de Rogério Rodrigues) eu afirmo que Moncorvo e Trás-os-Montes têm bastantes escritores notáveis e de grande qualidade.
Daniel de Sousa

Anónimo disse...

Gostava de ler os Contos ao Luar de Agosto, mas não os encontro. Pelo que diz o Rogério e o Daniel devem ser obrigatórios para qualquer moncorvense. Sou de Carviçais e portanto sou também de Moncorvo.
A.M.

Anónimo disse...

Então já somos dois a querer o livro e da biblioteca a resposta é que não há. E não há em nenhuma livraria de Moscorvo. Porquê?

Anónimo disse...

E vão três. Também não há na FNAC. A minha filha já foi lá ver.
Maria Amélia

Anónimo disse...

Nesta livraria online encontram os livros que pretendem. Eu já estou á espera deles.
AC

http://www.livrarialeitura.pt/index.ud121?from_zone=Logo


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Xo_oX disse...

O endereço correcto da livraria é
Livraria Leitura

Se fizerem uma busca (na margem direita da página) por Biló, dá uma listagem de 5 registos.
Obrigado AC

Boa Páscoa

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