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sexta-feira, 13 de março de 2009

Miguel Mesquita, o homem do Cinco de Outubro


Foi na casa de Miguel Mesquita, na Corredoura, hoje casa destruída com terreno ocupado por outra sem história, e à revelia da memória, que o Cinco de Outubro de 1910 foi proclamado em Moncorvo.
A fotografia não era, na altura em que foi tirada ( talvez anos 50, não sei), um acto banal. Exigia algum estudo, mesmo que não fosse em estúdio. E Miguel Mesquita quis marcar, consciente ou inconscientemente, a sua presença e o seu carácter, homem da Corredoura de lavradores e proletariado rural. É fotografado longe da Vila, mas donde visse a Vila, republicano que não escapa à presença gigantesca da Igreja. De chapéu e casaco num muro de xisto, lendo o jornal, talvez o Século, talvez a República, como republicano que se preza.
Seria muito interessante, agora que se aproximam as comemorações do centenário da República, começar a vasculhar nos jornais da época ( e Moncorvo tinha uma grande tradição de publicação de jornais, semanários ou quinzenários, dos vários partidos) para sabermos melhor como o Cinco de Outubro foi visto e implantado na vila. Moncorvo tem uma tradição liberal que se deve ter manifestado no Cinco de Outubro. Gostaria de saber um pouco mais sobre as convulsões políticas na época em Moncorvo. Um pequeno trabalho de pesquisa agradecia-se. E a pergunta: há uma tradição republicana em Moncorvo?
Rogério Rodrigues

Nota:
Lamento profundamente que, por lapso, não aparecesse o nome do autor do texto, Rogério Rodrigues. A ti ,Rogério, as minhas desculpas públicas por este erro. Limitei-me a copiar o texto para colocar com a fotografia de Miguel Mesquita.

22 comentários:

Anónimo disse...

Anónimo disse...
Ele, Miguel Mesquita, e Afonso Ferreira (ou Hospitaleiro, de alcunha ),eram, na vila ,os republicanos mais convictos e entusiastas antes e após o Cinco de Outubro.
Nesse dia de 1910 ele proclamou a República na varanda de sua casa, acto que repetiu durante anos seguidos, sempre com o entusiasmo e a convicção da primeira vez.”Viva a República!”era o grito por ele lançado na Corredoura ,o seu bairro .Costumava referir-se ,com saudade ,à viagem que fizera com a esposa até Lisboa, na comemoração do primeiro ano do novo regime.
Leitor ávido do “República”,fez do jornal o seu companheiro diário desde o primeiro número.
Anticlerical à Guerra Junqueiro (que admirava como pessoa e como poeta ),homem de carácter e verticalidade (“de um só parecer, de um só rosto, de uma só fé”,como diz o poeta),comentava-se em família a existência de uma carta de Campos Monteiro a ele dirigida ,em que o escritor, depois de um negócio realizado entre ambos, louvava o seu sentido de honradez e honestidade. Adversários em politica (um ,monárquico ;outro ,republicano),admiravam-se e respeitavam-se mutuamente.
Também não lhe faltava sentido de humor .Contava-se ,entre os familiares , que, depois de lhe terem nascido dois filhos varões ,desejava que o próximo fosse uma menina. Nascida a primeira de quatro filhas no dia de Reis ,costumava dizer ,com graça e orgulho que, embora republicano, tinha em casa uma rainha.

A neta mais velha de Miguel Mesquita

13 de Março de 2009 15:11


Anónimo disse...
O 5 de Outubro foi implantado em Moncorvo por telegrafo, à semelhança de todo o outro Portugal, à excepção de Lisboa.
Foi um dejá vu ou o retomar da crise de 1383/85 : tomada esta tomado estava o País.
Acredito que haviam por cá alguns republicanos, poucos de certeza,e a republica foi vista inicialmente com a indeferença e o habitual encolher de ombros, do tipo : pior do que o que estamos não vai ser...
pelo que, a tradição republicana, à altura, em Moncorvo era pouca.
Depois já era quase tudo republicano, até os mais assanhados monarquicos, o que levou, por ex. um ilustre felgarense - Artur Pires, vulgo Cara Fatal - e profundo republicano a, no seu jornal Alma Trasmontana,desancar o partido democratico por as sinecuras do novo regime terem sido atribuidas todas aos adesivos, que mais não eram do que os velhos monarquicos donde se destacava a figura do Dr. Constancio Carvalho.
O que não devemos estranhar muito uma vez que o próprio Poeta de acerrimo monarquico - até foi deputado progressista e regenerador - passou a profundo republicano por caminhos algo invios.
Resultado das benesses dadas pelos democraticos aos adesivos e talasssas, foi o Artur Pires e demais correligionários terem-se filiado no partido evolucionista que passou a ter grande implantação aqui em Moncorvo o que levou o lider nacional José Antonio de Almeida a visitar esta vila.
Nesse jornal, criado primeiramente para atacar o dr. Constancio e, depois editado no Felgar, para defender a republica no tempo da Traulitania, o A.P. escreve textualmente que por cá havia uma duzia de republicanos genuinos e de alma e coração, não mais.
Graças ao L.B. ficaremos a conhecer mais uns poucos, de qualquer modo, seria muito bom que sobre esta epoca fosse publicado algo uma vez que os documentos até existem no arquivo da Camara.

13 de Março de 2009 17:07


N.Campos disse...
Acusado de um crime que não cometera, João Caramês é preso.
“- Ó rapaz! Sempre te acontece cada uma! Mais de metade do ano co’as correias às costas, e agora em ferros da República!
(………………) Entrara o inverno, agreste e chuvoso. Soprava do sul um vento forte, que fazia revolutear as folhas do arvoredo, pouco a pouco despido da sua capa e verdura. Eram muito mais curtos os dias; e mal o disco solar, ensanguentado e gigantesco, se escondia para além do Sabor, a noite descia rápida, quási sem crepúsculo, estendendo sobre a terra, enregelada e nua, um manto de intensa melancolia. João ficava ainda à janela [gradeada], olhando a treva, procurando entreter-se com o decifrar das luzes que à distância iam surgindo. Aquela em baixo, por detrás da capela de S. Sebastião, devia ser do Manuel Tenreiro. A outra, mais para a direita, do Miguel Mesquita, etc……..”
- leia o resto em “Tragédia de um coração simples”, in Ares da minha Serra, de Campos Monteiro (1ª. edição: 1932, reed. da Câmara Municipal de T. de Moncorvo, 1995).
A casa do Sr. Miguel Mesquita ficava a seguir ao terreno do lado Poente da actual Pizzaria do Sr. Eurico, sendo lamentavelmente demolida e substituída por uma casa nova, construída nos anos 90 do séc. XX.

Sobre Miguel Mesquita, ouvi contar, há muitos anos, um episódio desses do hastear da bandeira republicana (de que nos fala a sua neta) em sua casa, na Corredoura. Presumo que tenha sido durante a “Monarquia do Norte” (1919, no “tempo da traulitada”), pois que o velho informador da Corredoura me dizia que até lhe levaram a banda de Moncorvo a tocar à porta de casa o hino dos monárquicos (seria o da Carta Constitucional, tomado como hino nacional monárquico), e a pedir-lhe para arriar a bandeira republicana, o que ele recusava terminantemente, aos gritos de “Viva a República!”.

Mais sabemos que Miguel Mesquita fez parte, como vereador do primeiro executivo municipal, do novo regime. Precisamente no dia 5 de Outubro de 1910 e ainda a 12 de Outubro, continuaram a realizar-se normalmente as reuniões ordinárias da câmara, presidida por Augusto César Lopes Antunes, apesar da nomeação, verificada em 7 de Outubro de José Manuel de Campos como Administrador do Concelho, pelo governo civil do distrito, para dar posse ao novo executivo, em nome do Governo Provisório da República, o que viria a acontecer em 14 de Outubro. Eram os seguintes os membros efectivos da nova câmara (republicana) de Moncorvo: José Manuel de Campos, Álvaro José Areosa, Guilherme Augusto Vaz, Miguel Frederico Mesquita, António Alberto de Carvalho e Castro, Afonso Henriques de Campos e José João Alves Hipólito; Substitutos: Carlos Alexandre Teixeira, António José Macedo, Francisco António d’Almeida, José Feliciano Leandro, Abílio de Campos Grazina, António Augusto Miranda e António José Ferreira d’Andrade. – Se aqui se nota uma prevalência de pessoas oriundas do comércio local (pequena burguesia comercial), é de destacar a presença de um representante da velha fidalguia da vila, da antiga casa de Santo António, A. A. De Carvalho e Castro, e um lavrador, embora lavrador abastado e instruído, como era o caso de Miguel Mesquita.

Quanto à colecção dos jornais “República”, religiosamente guardados por Miguel Mesquita num forro da sala da dita casa, arderam, ao que parece, nos finais dos anos 70, devido a um princípio de incêndio que começou no chupão da cozinha. É provável que tenha ardido mais papelada que seria interessante para perceber as suas ligações aos meios republicanos regionais, e mesmo nacionais.
É muito importante o contributo do comentário de sua neta (nomeadamente sobre a relação de Miguel Mesquita e Campos Monteiro) e também do anónimo que tão bem enquadrou a situação política nessa época. Por acaso desconhecíamos que o Dr. Constâncio de Carvalho fora um desses “adesivos”, ou “vira-casacas” como também foram chamados (e chamariam hoje). - Pelas referências bem documentadas ao Felgar, só pode ser um “pucareiro”! – Esperamos mais contributos deste visitante, que é a pessoa que melhor conhece as personalidades felgarenses (e não só!) deste e de outros períodos.
n.

13 de Março de 2009 18:46

Anónimo disse...

Olá Amiga!
Que lindo texto sobre o teu avô! Tenho-te ouvido falar da tua mãe, do teu pai e até de outras pessoas da famíia, mas do avô Miguel, praticamente, não recordo nada. Devia ser uma pessoa bem interessante.
Good genes, indeed! No wonder... A rainha era a tua mãe, não?
Bem, também não me canso de admirar a personalidade do Nelson. O blog foi iniciativa dele, não foi? Para além da capacidade de resposta, demonstra um fôlego cultural, profissional, social, humano... caramba! Tiro-lhe o chapéu, e a todos os colaboradores habituais, igualmente atraentes. O país - outras localidades - merecia mais disto: um excelente blog e tudo o que de positivo se gera em seu redor. Não sou da terra, mas tenho amigos de lá e de lá perto. Isso é mais do que suficiente para ficar fã. Já está nos meus favoritos.
Um abraço.
Contchi.

rogerio rodrigues disse...

Acho muito interessante que Afonso Ferreira tenha sido um dos impulsionadores da República em Moncorvo e que tenha a "alcunha" de Hospitaleiro. Vale a pena recordar que Hospitaleiro -cuidadar dos irmãos ou das viuvvas e filhos dos irmãos em dificuldades-- é um cargo na Maçonaria e na altura houve em Moncorvo um triângulo ( ou seja, pelo três irmãos ornamentados com o grau de Mestre, já que para uma loja ser "justa e perfeita" são necessários sete mestres, que o diga Trindade Coelho). Quanto a esta pretensa união ibérico-maçónica tenho algumas dúvidas ou um conhecimento menor. Sei que durante tempos quer lojas de Espanha, quer mesmo da Roménia estavam sob a tutela da obediência portuguesa Grande Oriente Lusitano Unido (GOLU). Mas posso estar enganado. Vou tentar informar-me melhor. Tanto quanto me é dado saber este Afonso Ferreira terá sido o avô de Jesualdo Ferreira, o actual treinador do Futebol Clube do Porto. Consta que o abade Tavares de Carviçais bem como o Abel Gomes de Moncorvo terão tido, directa ou indirectamente, algumas ligações à Maçonaria. Aqui fica o registo

Anónimo disse...

O senhor AfonsoFerreira era meu vizinho e amigo da minha família.Tratava-me como sua neta ( a primeira caneta de tinta permanente foi-me oferecida por ele, quando fiz o exame da terceira classe).
Tinha dois filhos -Alfredo e Adriano. Alfredo viveu em Mirandela e era pai do Pompílio e da Branca. Adriano foi para Moçambique,vinha com frequência à metrópole,de licença graciosa,e tinha três filhos - um deles era o Toni Horta Ferreira ,da minha geração.Desconheço se Jesualdo Ferreira era neto do Senhor Afonso, mas sabia-se que tivera filhos fora do casamento.

paulo patoleia disse...

Sou um monarquico convicto, mas respeito aquele que pelos vistos foi um entusiasta republicano assumido em Torre de Moncorvo. um tio meu adquiriu por compra a casa da corredoura do Sr. Miguel Mesquita, coube-me dar um parecer e na minha primeira visita deparei-me com alguma papelada espalhada pelo chão uma mala de mão de tamanho pequeno, com fotos de família, de boa qualidade, sendo trabalho salvo erro de fotografo do Porto e Figueira da Foz, tenho isso guardado assim como uma cantarinha de barro pequenina. Prometo que vou procurar e disponibilizar tudo para algum familiar que assim o pretenda.

Anónimo disse...

O Senhor Afonso, como era conhecido, foi durante muitos anos o único solicitador encartado em Moncorvo. Tinha o seu "estaminé" na praça , do lado oposto ao tribunal, antes da Beatriz do soto.
Numa comarca extensa, com más vias de comunicação ,índices de analfabetismo de terceiro mundo, ter em quem confiar era um conforto para essa gente. Daí o nome de hospitaleiro, ou como diz Rogério Rodrigues, o nome vinha da sua ligação à Maçonaria. Se assim é,nunca um nome atribuído por um cargo, reflectiu o sentir de todos que recorriam ao Senhor Afonso. Bem haja a Maçonaria!
Tantas coisas nos revela este blogue. Mexe na nossa memória, acorda-a, voltamos a ser raparigos. Parece que estou a ver o Senhor Afonso , a sair do soto do Senhor Victor (seguia-se o Júlio chapeleiro e a ourivesaria) com folhas de papel selado, a caminho do tribunal. Os irmãos Sangra , Adriano e Tó , um no registo Predial ,outro no Notário( Chefiado pelo dr. Amável um dos comandantes da Legião Portuguesa, fascista convicto)esperavam –no ,sempre com um sorriso de amizade e respeito.
Engraxava os sapatos no Cágado das Moscas, na praça e tomava o café no Basílio( o café Moreira era para os Amáveis e outros drs, incluindo o Pardal sem Rabo ,que apenas tinha a frequência dos liceus mas era dono de casa com capela e vivia dos rendimentos).Paro aqui, fecho o álbum e vou à Livraria Bulhosa, no Colombo, comprar “Saúde e Fraternidade”.Terá?

Anónimo disse...

Esta é a grande função do blogue ;aproximar as pessoas. Que gesto tão bonito do Paulo Patuleia. Julgo que é fácil localizar a neta mais velha do Senhor Miguel Mesquita ou outros familiares .O texto é do Rogério Rodrigues e postado (a palavra é mesmo feiota, como diz a Júlia Biló)por Leonel Brito.

Anónimo disse...

Paro aqui, fecho o álbum e vou à Livraria Bulhosa, no Colombo, comprar “Saúde e Fraternidade”.Terá?
Não tinham!
" Temos Saúde e Felicidade para a Mente-Corpo...
Com os ares da serra e o sabor das alheiras estava borracho de fragas e...!?Quase confundi
Mente-corpo com Men-corvo e ia comprando o livro!

Anónimo disse...

O Sr. Miguel Mesquita era um homem de poucas falas. A quem os camponeses da Corredoura tiravam o chapéu. Anos a fio fui , com a minha mãe, para a partição da amêndoa, em casa do Sr. Mesquita. Nunca ele apareceu na partição. Vinha a Sra. Rosalina ou uma das filhas trazer o cestinho dos figos secos que comíamos com um ou dois grãos partidos e algumas das mulheres bebiam o seu copinho de água-pé.
Contudo, lembro-me muito bem do Sr. Mesquita, sentado numa cadeira no seu pátio, de chapéu na cabeça, a ler o jornal. Na Corredoura, tirando o Sr. Todu, era o único homem que lia o jornal.
E eu ficava especada com a cara encostada ao gradeamento do muro fascinada pelo jornal. Um dia, levantou a ponta do chapéu, olhou para mim e perguntou: "Sabes ler?" Acenei que sim. "Mas não sabes falar?" Acenei que sim outra vez. Deu uma gargalhada e disse: "Então tens medo de mim?" E eu fugi a sete pés. No dia seguinte, lá estava ele a ler o jornal e eu a passar de largo. Acenou-me e, devagarinho, aproximei-me. Meteu entre as grades algo que me pareceu um pequeno jornal. Peguei-lhe e era O MOSQUITO. Daí para a frente durante mais de um ano, penso que à 4ª (ou à 5ª) e ao Sábado, passei a levar O MOSQUITO que ele me dava ou que deixava para mim, entre duas grades do muro. Nunca teve mais conversas comigo. Apenas sei que era republicano, pois era voz corrente que ele não queria que os filhos fossem baptizados. Daí, haver quem, muito à boca pequena, o ligasse à maçonaria. Verdadeiro ? Falso? Só a família o saberá. Para mim foi sempre um homem bondoso, que detestava que lhe dissessem "obrigado" , e extremamente reservado. ( Posso dizer hoje "obrigada" à neta?).

Já não sou do tempo de ele, no dia 5 de Outº, dar vivas à República da varanda de sua casa, mas continuava a pôr lá a bandeira.


O mesmo fazia o Sr. Afonso Hospitaleiro na janela de sua casa na Rua da Misericórdia. O Manuel Picorês, que morava em frente, hasteava a bandeira azul e branca, pois era monárquico ferrenho.

Não sei qual a razão da alcunha "Hospitaleiro", para o Sr. Afonso Ferreira, dado que ele nunca esteve ligado ao hospital. Que eu saiba, para além de solicitador, era o Mestre da Banda de Moncorvo.
Peço desculpa se o meu arrazoado não trouxe mais luz nenhuma ao assunto.

Abraços
Júlia

Anónimo disse...

Julinha,
Que lindo, que comovente a "historinha" que conta, passada entre si e o meu Avô! Imaginar que o meu Avô possa ter contribuído para a sua formação como pessoa (pela sua bondade e discreção, "... a quem os camponeses da Corredoura tiravam o chapéu", como refere) e como escritora (ajudando-a a desenvolver o seu talento natural para a escrita, ao incitar-lhe o gosto pela leitura, a si, já então "fascinada" pelo jornal que ele lia), imaginar tudo isso, dizia eu, enche-me de orgulho e grande alegria.
A influência cultural do seu Pai, a experiência como mulher d' armas da sua Mãe, o contributo de pessoas como o meu Avô fizeram de si a escritora que é hoje, de quem me orgulho como conterrânea.
Tal como o meu Avõ, incomoda-me que me digam "obrigado", mas eu gosto de agradecer. Por isso, bem haja pelo que diz dele. E não resisto a transcrever as linhas com que inicia o conto As Gémeas, dos seus Contos ao Luar de Agosto, em que a contadora é a minha Avó: "Hoje era a Senhora Rosalina Mesquita quem contava uma história. Ela só tinha histórias bonitas para contar. Os ouvidores, ou por respeito ou por interesse pelo conto, não a interrompiam".
Também ela era pessoa de poucas falas, mas, porque respeitadora, toda a gente a respeitava. Grata, também, a si, pelo que dela sugere.

Que saudade daqueles serões de partidela da amêndoa! Também muitas vezes participei com o meu ferrinho...

A neta mais velha de Miguel Mesquita.

Anónimo disse...

Nota: Onde se lê 'discreção', deve ler-se discrição, naturalmente.
Ao reler o texto, saltou-me de imediato à vista o erro. Às vezes acontece...
Peço desculpa pelo lapso.

A neta mais velha de Miguel Mesquita

Anónimo disse...

"Peguei-lhe e era O MOSQUITO. Daí para a frente durante mais de um ano, penso que à 4ª (ou à 5ª) e ao Sábado, passei a levar O MOSQUITO..." > convém esclarecer que o "Mosquito" de que fala a Drª Júlia era um célebre jornalito em banda-desenhada, onde se estrearam grandes nomes da B.D. portuguesa.

O Sr. Miguel Mesquita já não é do meu tempo, mas lembro-me muito bem da Srª. Rosalina, em dado momento uma das pessoas mais velhas da Coredoura, juntamente com a sua contemporânea Srª. Beatriz Vilela, a "tia Vilela". Era uma maravilha ouvi-las falar da animação que era a Corredoura, com os bailaricos junto da capela, na sua juventude( o que devia atirar lá para os anos 20)! Ah, e o célebre episódio em que os da Vila quiseram levar o Santo da Cordoira (o S. Sebastião) para o Asilo, provocando uma grande revolta dos "índios" da Cordoira, que entraram a repicar a rebate a sineta da capela, armando-se todo o povo do bairro com varapaus e com o que podiam, em defesa do seu Santo. "- E atão queriam-nos levar daqui o nosso vizinho mais velho? que arranjassem outro, que este daqui não sai nunca!" - diziam.

Anónimo disse...

faltou assinar o comentário anterior: N. (morei na rua de Baixo, da Corredoura, entre 1976 e 1985), de onde transitei para o Canafichal (quem sabe adonde é?).

Ainda sobre uma referência que está no comentário a Drª Júlia, ao Sr. Afonso Ferreira: "Não sei qual a razão da alcunha "Hospitaleiro", para o Sr. Afonso Ferreira, dado que ele nunca esteve ligado ao hospital" , chamo a atenção de um comentário do Rogério R., creio que referente ao post sobre o "Saúde e Fraternidade" (confirmar), em que sugere a possibilidade de ele ter estado ligado à Maçonaria, onde existe o cargo de "Hospitaleiro". Seja como for, é interessante a coexistência (pacífica ou não, não se sabe) entre republicanos e monárquicos, em Torre de Moncorvo, cada qual ostentando as suas bandeiras! (cá está a disputa S.José/Srª da Assunção...)

Júlia Ribeiro disse...

Olá, Nelson:
É um comentário do Rogério precisamente a este post. Mas o Internet Explorer, aqui no meu computador, voltou a bloquear "este web site de apresentar ..." etc, etc. e , de vez em quando, há páginas ou partes delas que não aparecem .
São as tais coisas "informágicas" ...
Agora está quase bem. Daqui a pouco não sei.

Até amanhã.
Júlia

Anónimo disse...

“N. (morei na rua de Baixo, da Corredora, entre 1976 e 1985), de onde transitei para o Canavial (quem sabe aonde é?).”
Caro Nelson, o retrato do Senhor Mesquita é elucidativo; está sentado em pleno canafichal.Pequenas pistas: o canafichal era terra de ninguém, localizado atrás das escolas primárias ,prolongando-se até aos limites da capela...era onde acampavam os ciganos e se realizavam as feiras de gado. Terminava em ravina para uma linha de água que ainda hoje existe.
A ravina era a retrete dos raparigos da escola e utilizada pelos homens da corredoura. Havia uma divisão, não demarcada ,mas aceite por todos ; a dos raparigos ,terminava na linha da escola.
Nota:
O que levou o Senhor Mesquita a tirar o retrato naquele lugar?
Que o lugar e as circunstancias não fazem o homem ?
Há na foto, um orgulho de ser da Corredoura ,terra de lavradores e trabalhadores rurais( os índios ,como diziam os empertigados da vila).
Para ele , Miguel Mesquita, o outro canafichal era na vila, com a sua podridão, bajulação e vaidades. Centro de frades, padres, vira-casacas, advogados, proprietários absentistas, de esposas na missa e de criadas/ amantes no Cabo e Misericórdia. Uns na praça ,outros no adro ,passeavam o seu pequeno poder, serviçais do regime , imposto pelo Estado Novo ...pavoneavam-se ,alguns,fardados da Legião. Abafaram todas as tentativas de desenvolvimento. Foi no consulado do Doutor Horácio de Sousa, que se construiu o Jardim na praça nova, as estradas para a Cardanha e Lousa. Os paliteiros da praça e do adro, diziam que o homem estava louco.
Isto é o que eu penso ao ler a foto .

Júlia ,mais estórias da corridora. É verdade, o mapa?
Nelson, mais descrições de pessoas da sua coirredora pós Júlia.
Rogério , mais primeira Republica.
Leonel, mais revolução liberal e fotos a preto e brito.
a.basaloco (sr) ,vasdoal ,Felgar, Lopes,por onde andam?
Pucareiro, mais participação.
Aníbal e Jorge ,fotos da corredoura.
Historiador anónimo, mais textos.
Daniel de Sousa mais “do frontispício ao transepto”.
Bem vindo, F.Garcia.
Neta mais velha, mais textos.
Paulo Patoleia, mais segredos revelados (sem ira).
Angel ,mais Quijote,Masueco e tudo que te der na gana.
A. Manuel, Carlos Sambade, apareçam mais.
Wanda,mais relatos dos nossos brasileiros e das suas memórias das fragas.

Quando abriu a Escola Secundária na Corredoura ,os da vila, chamavam-lhe por despeito e raiva, cidade universitária.

Lelia Rebordina

Daniel de Sousa disse...

Uma das coisas para mim realmente interessantes do "Descoberta" é que, sem se perceber muito bem porquê ( ou talvez não) se formam uns - como é que lhes hei-de chamar- recantos de conversa, ou recatadas tertúlias lá num cantinho do post , como se de uma mesa de café , ou cadeiras de varanda pelo entardecer se tratasse. É este original perfume que não me atrevo a chamar saudosista que me seduz - só o sente bem quem do exílio guarda a memória.
No mais é notável ver como as pequenas emoções constroem quando revividas a história dos lugares - por vezes mais que os grandes factos.
Até sempre
Daniel
PS- Lélia Roborino - curiosamente os meus primeiros poemas,em tempos do Juvenil do Diário de Lisboa e ainda durante um tempo levavam o pseudónimo Pedro Saborino .

Anónimo disse...

Começando pelo fim: ele há coisas do caraças!!! - Disse Daniel de Sousa que utilizou o pseudónimo de Pedro Saborino! Pois, eu conheci um amigo que assinou alguns poemas no Mensageiro de Bragança, ainda por volta de 2000, com o nome de Elmano Saborino... Poemas esses que integram um pequeno livro de versos intitulado: "Saboríades", em honra das ninfas de um certo rio. Foi um tentame de poesia arqueológico-ecológica, dedicada a um rio condenado. Aqui fica um desses poemas, precisamente às ninfas do rio:
"E vós, Saboríades minhas
que nadando em meu redor
pelo remanso das águas
dos poços deste rio
me declarastes vosso amor
e me dissestes vossas mágoas
pelo futuro tão sombrio
destas tão belas terrinhas...
Eu sei que é estupidez,
eu estou com a vossa dor,
mas quantos nos ouvem, quantos?
- Quando já não há amor
para que servem os prantos
de líricos e poetas?
Dizem-nos que isto são tretas,
no reino da cupidez!
Oh queridas Saboríades,
dizem-nos que tem de ser.
Maravilhas e miríades
de leite e mel a correr
e os carneiros a balir
vão seguindo seu pastor.
E ele há tanto p'ra mugir
- que se lixe o... andor!..."

Há mais, como o que se dedica à ninfa Dete: "Lembro-me de ti, Oh Dete, / de branco vestida / entre as ruínas de Siliadis /caminhando fermosa / e quase etérea / como uma forma vaporosa. / Era Agosto em festa / no pequeno santuário / do povoado abandonado / junto ao rio antigo, / etc...."

Realmente isto são mesmo uns "cantinhos de conversa", ao fundo desta taberna da "Descoberta"...
Sobre o meu desafio, a propósito do Canafichal, a Lelia Roborina já me interceptou!... Todavia, para ser mais rigoroso acho que o sr.
M.Mesquita está um pouco mais para lá do Canafichal, no sentido de quem desce pelo carreiro de pé-posto por detrás do actual Ginásio; ou seja, está ao fundo do actual terreno das piscinas municipais cobertas, onde estão agora os colectores solares das ditas piscinas, junto ao caminho que vai para o S. Paulo. O meu ponto de referência, além da distância à Cadeia, são as figueiras da Qtª da Nória...
Na verdade, o Canafichal era, de facto, uma "terra de ninguém", "cagadoiro" e lixeira, e a sua linha-limite era uma canelha (ainda existente) que descia a partir de uns pardieiros em xisto, já desaparecidos (demolidos há poucos anos), onde morou o Sr. Álvaro "sapateiro" e família, além da tia Palmira. Assim foi que, no período inicial dos anos 70, com a escassez de terrenos disponíveis para a construção, aí surgiria uma casa de emigrante (ver foto in jornal "República", estampado no post de Leonel Brito, 7.12.2008), construída aos bochechos, sucessivamente vendida, e que acabaria por ser comprada por meu pai, tornando-se no meu tonel de Diógenes... (also, "ich bin ein Corredoirense auch!".... ou, pior/melhor: "ein canafichalense"... - e, como tal, sempre vi também a vila a partir do fundo, o "fundo do mar da vila", esse bairro da Subura por analogia com o da cidade de Roma imperial, mas, ao mesmo tempo, o reduto das suas memórias campesinas ligadas umbilicalmente ao vale da Vilariça, a consciência crítica da vila, esta altiva na sua "acrópole", lá na alta vilóide, com a Praça como expoente máximo das maledicências...)
n.

Anónimo disse...

REBORDINA!,Senhor Doutor.
Sua,Lelia

Anónimo disse...

Pedro Saborino ,
hasta siempre ,comandante.

Anónimo disse...

Então, acedendo ao pedido de Leria Rebordina, e correndo o risco de me tornar “chata”, aqui vai mais um episódio ocorrido com o meu Avô. Aquando da inauguração da barragem do Picote (anos 50), e sabendo o meu Pai quanto ele desejava visitar a obra, levou-o de passeio até lá. Encantado com o que via, exclamou para o meu Pai: “Filho, apetece-me dar um viva! à engenharia portuguesa “.Não deixando esfriar o entusiasmo , escolheu o sitio apropriado e, como se falasse para uma multidão ,lançou o grito :”Viva a engenharia portuguesa!”
Tiques de louco ?Talvez. Mas que loucura saudável! Opositor ao regime, não deixava de elogiar o que de bom por cá se fazia.
Sempre pronta para estas “andanças “, também fui de passeio e eu própria presenciei a cena.

Anónimo disse...

Nota: o texto anterior foi escrito pela neta mais velha de Miguel Mesquita.

Anónimo disse...

A Corredoura era o meu poiso favorito , em miúdo. E o campo da bola , se assim podemos chamar a um pelado cheio de covas.
Ir à Corredoura era " ir lá para baixo" para brincar às guerras o dia quase todo. Com vários amigos -que será feito do meu amigo Carocha?
Daniel

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