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sábado, 7 de março de 2009

Ainda “O Roboredo” de Campos Monteiro…

Completam-se hoje 133 anos sobre o nascimento de Campos Monteiro.


O nosso escritor nasceu em 7.03.1876 e faleceu em 4.12.1933. Como forma de assinalar o seu 133º. aniversário, aqui deixamos os restantes versos do capítulo “O Roborêdo” das Cartas da Minha Terra (in “Versos Fora de Moda”). Aqui faz uma evocação do trabalho dos jornaleiros que trabalhavam nas encostas da serra, dos pastores (“pegureiros”) com os seus gados, da paisagem serrana de onde emerge a Fraga do Facho e de cujas vertentes escorriam as águas que iam dar de beber à vila...
Torre de Moncorvo, o trabalho e os dias, nos inícios do século XX:

(…)
“E vejo agora na cortinha em frente
uma brigada de trabalhadores.
Cavam a terra estéril… lançam-lhe a semente…
Crispam-se o húmus, dolorosamente…
Ninguém pode ser mãe sem sofrer as dores!

Nos pedregosos, húmidos carreiros,
passam rebanhos chocalhando. Atrás,
precedidos dos cães, os pobres pegureiros
chamam por eles, para que os rafeiros
deixem as aves e os reptis [sic] em paz.

Pende-lhe’a negra taleiguita ao lado,
por uma fita de bezerro presa:
um pão centeio petrificado,
um pedaço de porco mal curado,
quatro medronhos para a sobremesa…

Se a fome aperta, ou sentem o perigo
dos escorpiões e víboras subtis,
o mesmo naco de toucinho antigo
lhes serve de alimento e de presigo
e sara as mordeduras dos reptis.

Horas de almoço… O chefe da brigada,
fazendo um gesto à gente que moureja,
- “Louvado seja Jesus Cristo!” – brada.
E num momento, abandonando a enxada,
todos respondem – que bendito seja!

Levanto os olhos mais. Vejo a Fraga do Facho,
talhada a pique, como uma parede,
com o seu manto de musgo e heras e escalracho.
Dela dimana e corre serra abaixo
a àgua pura que nos mata a sede.

Emergindo da rocha, a todo o custo e receiosa,
deita a fugir da vila em direcção.
E na carreira louca e temerosa
traz sobre o dorso pétalas de rosa,
raminhos de alecrim e de serpão.

Pelas caleiras de granito é vê-la
cantarolar, correr, cheia de pressa!
E os castanheiros curvam-se sobre ela,
fazem-lhe sombra com a sua umbela
para que o sol do estio a não aqueça.

E as ovelhinhas bebem à vontade…
Voando, as pombas vêm matar a frágoa…

- Minha terra natal! Como há-de
ser cheia de pureza e bondade
a gente que depois bebe esta água!...”~

(continua)

6 comentários:

Wanda disse...

Olá Nélson!

Desta vez tive que recorrer ao dicionário! Palavras como: taleiguita, medronhos, escalracho, pegureiros, rafeiros, por não serem usadas por estas bandas , eu não lhes conhecia o significado.Depois de devidamente informada, percebi o quanto de regional há nos versos.Seria mais do que normal cultuá-los, pois somente descrevendo o Roboredo e esses rincões, poder-se-ia usar essas palavras como descrição.Campos Monteiro conseguiu fazer um "filme descritivo" do Roboredo em sua época,fazendo-nos sentir até aromas , brisas, suores, sentimentos,cansaço, energia,esperança, assim como sentia o seu povo.

Abraços

Wanda

São Paulo, 7 de março de 2009

Wanda disse...

Nélson, isto já é tortura!Saber que está a acontecer todos estes festejos na vila, e eu tão longe!
Aproveitem por mim! Se eu estivesse ai, iria aproveitar as danças do "La Salsa"., a velhinha aqui ia ficar com dor nos pés por uma semana! (risos)

Abraços
Wanda
São Paulo,7 de março de 2009

Anónimo disse...

Com este meu comentário associo-me à comemoração da efeméride do nascimento do nosso Campos Monteiro.Sabemos certamente que esta ( e outras) obras deste nosso conterrâneo são marcadas por uma construção estética e até ideológica reconhecidamente pouco inteligíveis nos tempos actuais. Já o eram talvez no tempo em que foram escritas , em que outros autores fervilhavam de crítica social e inovação da escrita.Mas temos de compreender que , por um lado, a obra poética de C.M. não se esgota nos Versos fora de moda - há pelo menos mais quatro obras ( das quais só possuo o Raio verde) .Ele próprio os designou de fora de moda . Mas é indismentível neste trecho de hoje, mais do que um datado lirismo bucólico e quase panteísta, um magnífico perfume da terra que perpassa por todo ele e que a mim me seduz muito. As pessoas estão lá , no seu trabalho - não está talvez a crispação da sua dureza, a fome crua, a violência da jorna, mas está o respeito pela sua dignidade e sobretudo o seu amor pela sua terra. Aqui curvo-me à memória do moncorvense ilustre e, já agora, do Colega.
Abraços
Daniel
P.S. Já agora , para o Nelson que tem um conhecimento enciclopédico de Moncorvo ( e não só) em que ponto da serra é a Fraga do Facho ?

Anónimo disse...

Excelentes análises, caros amigos Daniel e Wanda. Na verdade os regionalismos surgem-nos aqui e ali (até mais nos Ares da Minha Serra); para a Wanda informo que há um Dicionário de Regionalismos Trasmontanos, saído há 2 ou 3 anos, que pode ser útil para entrar na alma da Transmontânya. É de autoria de Victor Barros, que foi meu colega na Escola Secundária de Torre de Moncorvo, e agora é professor de Português.
Quanto à análise literária do Daniel, pois volto a retomar a famosa frase de Ortega y Gasset: a da "circunstância". Como é óbvio, Campos Monteiro provém, socialmente, de um meio pequeno-burguês, conservador, nortenho, saído da província de Trás-os-Montes para a província do Minho (Ponte de Lima), com contactos com a burguesa cidade do Porto, mas, mesmo assim, a viver numa periferia (S. Mamede de Infesta, onde existe, inclusive, uma rua com o se nome), pelo que não era de esperar que fosse um neo-realista ou um revolucionário. Contudo, a sua preocupação social com a (pouca ou nenhuma) "sorte" dos camponeses da Vilariça, esmagados pelas rendas que tinham de pagar, está bem patente no conto dramático intitulado "A Rebofa". Há nele, aí, uma grande solidariedade social, como também a há ao descrever a saga do João Caramês. Quer o ricaço Tomazinho Montenegro, quer o "unhas de fome" do Armógenes (um agiota tipo "judeu" no pior sentido) são aí representados como tipos sociais pouco (ou nada) simpáticos, em contraste com o povo simples da vila em q o Caramês se insere. Não sendo neo-realismo (até porque esta corrente só desponta quando C.M. morre), é, no mínimo, "realista" (para além de ele ser tb "realista" no outro sentido: de defesa da realeza). Depois da aventura da "monarquia do norte", foi destituído até do chamado partido médico (serviço oficioso de saúde, à época), tendo de ganhar a vida como profissional liberal; dizia ele, que vivia e sustentava a família, à conta da sua pena, escrevendo livros e artigos, por um lado, e passando receitas por outro. Pagou o facto de nunca ter sido um vira-casacas, como outros do seu tempo, e isso é merecedor da maior admiração num país de "maneirinhos", camaleões e afins. Também nisso foi um trasmontano de antes quebrar que torcer.
Quanto à Fraga do Facho, respondendo à pergunta do Daniel, pois se estiver na varanda do "Castelo", defronte dos Paços do Concelho, olhe para o lado esquerdo da serra, no sentido das "Antenas" (antenas de bombeiros, GNR, Rádio local, etc); pouco abaixo há-de notar,um pouco abaixo do cume, uns afloramentos rochosos (xisto): é essa a Fraga do Facho. Na foto postada no passado dia 2, sobre o Roborêdo, mal se nota, mas está lá. É traçar uma linha recta com cerca de 45º de inclinação a partir da casa dos serviços florestais, casita que fica antes da adega do Vinho Fraga do Facho (passo a publicidade), e talvez a consiga divisar entre a vegetação. Sempre se chamou assim, devendo o topónimo ter origem medieval, pois eram em certos pontos estratégicos colocados vigias, em períodos de guerra, para detectar qualquer aproximação do inimigo. Quando se topasse qualquer aproximação, no horizonte, os vigias colocados nesses pontos altos, deviam acender uns "fachos" de palha e fazer sinais de fumo, naturalmente com giestas verdes, para avisar a guarnição postada no castelo, ou mesmo alguém da população, sempre em linha de vista com o local do "facho". Era dado então o alerta geral para toda a gente se refugiar intra-muros e preparar a defesa. Fica esclarecido que esse topónimo nada tem a ver com aqueles a quem se chamava "fachos" no pós-25 de Abril, ok? - para melhor, até está lá (ou estava) um medalhão de bronze, de um ilustre moncorvense da 1ª República, o Dr. Constâncio de Carvalho, que foi um dos grandes impulsionadores da plantação da mata nacional do Roboredo. - Quando vier por cá, tal como outros amigos que estejam longe, poderemos fazer-lhes uma visita guiada à dita Fraga do Facho. Abraço e contin. de bom fim de semana!
n.

Júlia Ribeiro disse...

Realmente, eu tenho de passar pelo blog todos os dias: é que estou sempre a aprender coisas novas e interessantíssimas com o Nelson. Este homem é uma verdadeiraa enciclopédia viva! Obrigada .

Vou deixar aqui uma perguntinha ao H.E.J. - Será que vai finalmente aparecer no Lagar pelas 13 horas de dia 14? Iremos finalmente descobrir o grande mistério ?

Abraços
Júlia

Anónimo disse...

Viva, de novo, Drª. Júlia, ou simplesmente, amiga Júlia Ribeiro,
Muito agradeço as suas palavras de incentivo e estímulo, mas, deixe-me, quanto a isso, citar um autor q seguramente não é do seu agrado (o controverso Alfredo Pimenta)- esquecendo a personagem q o diz, quanto a mim ele é certeiro no que diz (ou disse) quando um dia o mimaram com uma calorosa recepção (foi em Meixomil, Paços de Ferreira), escrevendo esta reflexão, tipo nota de viagem: "Afinal eu valho, não aquilo que os meus amigos na sua generosidade proclamam, mas sim, aquilo que os meus inimigos, no seu ódio rancoroso, procuram contestar-me!"... Parafraseando H. de Campos, "é-se odiado na razão directa em que se dá nas vistas". Por isso, sábio é o que sabe o que sabe (mesmo q saiba q não sabe nada), sabendo-o calar e não o expondo (em demasia) na praça pública. É que na ágora não estão só os amigos.... Por isso, tendo em atenção "os outros", é melhor q a caravana passe... silenciosamente.
abração,
n.

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