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quinta-feira, 19 de março de 2009

Sismo em Torre de Moncorvo - aconteceu há 151 anos!!

No artigo “Moncorvo, ou Torre de Moncorvo”, do Dicionário abreviado de chorographia, topographia e archeologia das cidades, villas e aldêas de Portugal, obra de José Avelino de Almeida, publicada em 1866, ao falar da nossa grandiosa igreja matriz, diz o autor o seguinte:

«No dia de S. Joseph, 19 de Março de 1858, chegou a deslocar-se e a cair uma pedra de cantaria da abóbada, por causa de um forte tremor de terra, mas foi logo substituída». - Mais informa que a pedra caiu junto do altar das Almas (o primeiro altar, do lado direito, para quem entra pela porta principal).

Não sabemos a amplitude de outros estragos que possam ter ocorrido na vila, impondo-se mais alguma investigação arquivística para apuramento de algo mais sobre este episódio sísmico. Que a falha da Vilariça tem sismicidade activa todos sabemos, embora os geólogos e sismólogos afirmem que é de baixa intensidade e que é difícil que ocorra um grande terramoto como o de Lisboa de 1755.


Em todo o caso, ouvimos dizer há um bom par de anos ao eminente geólogo Doutor António Ribeiro (autor da tese: Contribuition à l’étude tectonique de Trás-os-Montes Oriental, Lx., 1974), que terá ocorrido um importante sismo em Torre de Moncorvo em 1750, antes do de Lisboa. Não temos registo documental deste episódio, mas, a verdade é que a igreja apresenta preocupantes brechas em alguns pontos das suas paredes, sinais de uma existência algo atribulada.
Até há poucos anos existia no alto da serra, na zona das “Antenas”, uma estação sismográfica que enviava os dados (por telecomunicação) para a delegação local dos serviços do Ministério da Agricultura. Constou-nos que já foi desactivada. A ser assim, acho que se deveriam apurar os motivos.
Mais informamos que a secção de Geologia do PARM (Projecto Arqueológico da Região de Moncorvo), tem prevista para breve uma conferência sobre Sismologia e suas aplicações, a realizar no auditório do Museu, integrada nos ciclos de palestras sobre Geologia e Minas, que desde o ano passado se têm realizado.

Nota1: Agradecemos ao nosso colega “webmaster”, Aníbal Gonçalves, o ter-nos chamado a atenção para esta efeméride.

Nota2: Foto do interior da igreja matriz de Torre de Moncorvo de autoria de Lonel Brito (anos 70?). - A zona do desprendimento da pedra (certamente das nervuras da abóbada da nave lateral) está parcialmente encoberta pela 1ª coluna do lado esquerdo.

12 comentários:

Leonel Brito disse...

1896
Janeiro, 1 —veiu despachado no diário do governo o snr. Antó¬nio Augusto Pires para escrivão da comarca da Carrazeda.
Janeiro, 5 — chegou a nutiçia de ser proso o Rei Preto, na guorra de África pellas nossas tropas e que o trazem para Lisboa a apresen talo ao nosso Rei.
Janeiro, 20 — é que desembarcou o batalhão de caçadores n." 3
•m Lisboa vindo da África.
Janeiro, 22 — tumou poçe de amanuense da Camará o snr. Antó¬nio Augusto Carneiro de Gusmão.
Janeiro, 23 — é que os canteiros começarão a pôr a pedra que caiu da abóbeda.
tumou poçe de ajudante da escola régia desta villa, o snr. Pedro Bello Brito de Castro.
Janeiro, 29 — é que os canteiros acabarão de pôr a pedra que caiu da abóbeda.
Março, 1 —chigou a esta villa com toda a sua família, o snr. Doutor Fran.00 Augusto da Silva Liai e no dia 5 do mesmo tumou posse da vara de Juiz desta comarca.

19 de Março de 1858;23 de janeiro de 1896.Trinta anos se demorou a recolocar a pedra ou ,caro Nelson ,esta é outra história?

In Caderneta de Lembranças de Francisco Justiniano de Castro,
digitalizado de uma cópia extraida do baú de fotócopias do Nelson.

Xo_oX disse...

O alerta para este assunto não foi iniciativa minha. Recebi por email, vindo de F. Garcia, a indicação de que teria ocorrido, há exactamente 151 anos, um grande sismo em Torre de Moncorvo. N.Campos preencheu o feriado com a procura de "evidências". Há algumas, embora não tantas como seria de esperar de um grande sismo. O risco existe e a protecção civil tem que estar preparada.

Mas hoje foi dia de festa...
Vivam todos os PAIS.

Leonel Brito disse...

- A foto é de 21 de Fevereiro de 1974.Era sacristão o Senhor Júlio. Homem bom, que aturou todas as minhas diabruras de raparigo ,quando brincava aos guardas e ladrões com o Migas ,Antoninho Escatcha, Pacibal, Beto (que vivia em frente ao cineteatro e morreu de tuberculose),Loureiro,Edegar,Emidio e tantos outros . Fazíamos-lhe a vida negra.

Júlia Ribeiro disse...

É verdade. Houve mesmo um sismo num dia 19 de Março ! Lembro-me agora de as velhas falarem nisso e também o associavam à ideia de se ter perdido o dia santo.

Dia 19, também Dia do Pai.
Pois, Vivam Todos os Pais !

Júlia

Daniel de Sousa disse...

A igreja matriz é um símbolo identitário de Moncorvo. Para além de ser legitimamente património nacional.De modo que fico preocupado com essas notícias de risco de derrocada.
A abóbada tem um fecho magnificente e todo o ambiente interior , com aquela luz coada, o lajedo granítico do chão ,o eco dos passos e das vozes, as capelas e as sombras , para não falar do adro quase medievo, levam-nos a passados tempos e ver ainda por ali os mestres canteiros.

Anónimo disse...

«Janeiro, 23 — é que os canteiros começarão a pôr a pedra que caiu da abóbeda»
Caro Leonel, isto foi outro episódio: como bem escreveu J.A. de Almeida, aquando do sismo de 1858 a pedra que caíu junto do altar das almas foi logo prontamente reposta (mais rápido do que o fariam o ex-IPPAR ou os organismos do Ministério da Cultura, se fosse agora!); o restauro da "pedra q caíu da abóbeda" a q se reporta F. Justiniano de Castro em 1896 foi outro caso. Com efeito, este senhor, que era um funcionário público reformado, nos últimos anos da sua vida foi registando num caderninho tudo o que de importante se passava na vila de Moncorvo (entre os finais do séc. XIX e o início do séc. XX). E, assim, ao chegar ao ano de 1895, dia 22 de Dezembro, o improvisado cronista registou o seguinte:
"pela manhã, assim que a gente acabou de sair da missa de alva [a primeira missa matinal, manhã cedo] caíu uma pedra da abóbeda no meio da igreja [e] foi um milagre de deos ela não cair quando a gente estava no meio da missa..." (transcrição e publicação do Dr. Àguedo de Oliveira, 1975, p. 14). Supomos que nesta data não se teria dado nenhum sismo em Torre de Moncorvo, pois caso contrário, o "cronista" F. Justiniano de Castro te-lo-ia escrito. Todavia, os pequenos "tremeliques" episódicos far-se-iam repercutir, de tempos a tempos, na saúde da igreja matriz de Torre de Moncorvo. Mais uma vez, a Câmara de Torre de Moncorvo, que tinha a seu cargo a manutenção da igreja matriz (até à lei de separação da Igreja do Estado, logo a seguir à República), de pronto resolveu o problema: entrado que foi o novo ano (1896), entre os dias 23 e 29 de Janeiro, foi reposta a pedra deslocada - ver: Cavalheiro, N. & Rebanda, N., A igreja matriz de Torre de Moncorvo, 1998, p.58

- Quanto ao que diz o Aníbal, do que lhe fizeram chegar, acho que houve um grande exagero. Não sei qual a extensão do sismo de 19.03.1858, mas de maneira nenhuma destruíu grande parte da vila de Torre de Moncorvo, como alguém disse...

- Sobre o que diz a Drª Júlia; "Lembro-me agora de as velhas falarem nisso e também o associavam à ideia de se ter perdido o dia santo" - pois seria uma "mistura" na memória das pessoas mais idosas, pois, nesse tempo, o dia Santo (feriado) ao que sabemos ainda não era celebrado; o feriado municipal só o viria a ser após a República e não temos como certo que antes, na Monarquia, alguma vez se tivesse celebrado (e concomitantemente deixado de celebrar) o dia de S. José...

- Disse Daniel de Sousa: "Para além de ser legitimamente património nacional.De modo que fico preocupado com essas notícias de risco de derrocada" - pois sempre me lembro, nos meus tempos de adolescente, de ouvir dizer ao Dr. Simões que a igreja de Moncorvo tinha más fundações; eu acrescentaria: a parede do lado Norte está assente na vertente de um cabeço que dava nome ao largo do Outeiro (largo Dr. Balbino Rego); com esta actividade sísmica ao longo dos séculos e a influência das águas subterrãneas q vêm da serra, tanto a igreja como o muro do adro estão sujeitos à lei inexorável do Tempo.... Não acredito q a igreja esteja em risco iminente de derrocada, apesar dos problemas que se verificam nas traseiras do adro, com a necessidade de recomposição agora, menos de um ano depois de uma operação de restauro, mas que os problemas existem, lá isso existem... Só receio que um dia o erário público (com todas estas "crises") não tenha meios para a recuperação desta magnífica obra da arquitectura e da engenharia do séc. XVI-XVII... (preparem-se os moncorvenses da Diáspora para auxiliarem à reconstrução, além dos parcos residentes, contanto que cá ainda viva gente...).
Abraço,
N.

Anónimo disse...

"A foto é de 21 de Fevereiro de 1974.Era sacristão o Senhor Júlio".
- Obrigado, Leonel, pela dica quanto à data. Sobre o Sr. Júlio Dias, conhecido por Júlio "Sacristão", foi, agora com 80 e muitos, senão 90 anos (a viver num lar de 3ª idade nos Cerejais) , foi, de facto, o guardião do Templo durante grande parte do século XX... De tal modo era cioso da sua igreja que chegou a conflituar com o pároco local... Eram famosos os presépios que fazia pelo Natal. Tinha brio na "sua" igreja, pois era, simultaneamente, Guarda do monumento, por conta dos "Monumentos Nacionais". Por isso não tolerava futebóis no adro, com miúdos a pontapearem bolas contra as portas e as paredes de granito a desfazer-se, como acontece agora; nem havia gente a fazer necessidades no adro, como também agora acontece; nem lixo e outras porcarias... Foi um funcionário zeloso, escrupuloso, brioso, além de poeta popular, que merece toda a nossa consideração e respeito. Há muito tempo que não o vejo, mas confesso que tenho saudades deste Amigo.
N.

Wanda disse...

Olá!
Muito elucidativos os comentários postados.
Os cartões postais de Torre de Moncorvo, em sua maioria, têm a igreja estampada,portanto não é preciso nem descrever a importância dela para a vila.
Desde que conheci a família de meu marido, trinta e nove anos atrás, já me falavam dessa igreja e da figueira que nasceu em sua torre, incluindo várias lendas sobre a tal árvore.
Quando fui a Moncorvo pela primeira vez ,há uns doze anos atrás,notei que a igreja é a identidade do lugar.
Além da paisagem, do ar,do Roboredo,da gente simpática,das amêndoas confeitadas, do jeito de falar,dos recantos harmoniosos,há principalmente a Igreja Matriz Nossa Senhora da Assunção, onde vi pela primeira vez uma imagem de Nossa Senhora do Coberto.
Para quem visita Moncorvo a igreja é como o Cristo Redentor para o Rio de Janeiro ou a Estátua da Liberdade para Nova York.
Tem que ser preservada!
Abraços.
Wanda
São Paulo,20 de março de 2009

F. Garcia disse...

http://w3.ualg.pt/~jdias/GEOLAMB/GA5_Sismos/57_Portugal/572_SismicidPort.html

Link do exagero . . .

Xo_oX disse...

O link do comentário anterior pode ser acedido AQUI

Bom fim-de-semana

Anónimo disse...

O "site" sobre geologia ambiental é bastante interessante e está bem documentado/ilustrado. No entanto, em termos de rigor histórico, na passagem sobre a "Falha da Vilariça", onde se diz: "Em 19 de Março de 1858 ocorreu um sismo com origem nesta falha que destruiu a vila de Moncorvo", seria melhor dizer-se: "que abalou a vila de Moncorvo".
N.

paulo patoleia disse...

estou neste momento com um livro de cartas escritas entre 1850 e 1870 pela mão de Baltazar Margarido, com estabelecimento e depósito de tabaco em Torre de Moncorvo. Não mencionou nada de relevante no que concerne a cismos nesta vila entre estas datas e ele era minucioso e escrevia tudo em detalhe até a louça que se partia em sua casa...em geito de curiosidade e vem a propósito, conhecedores como somos do guardião do templo Sacristão Julio. foi surpreendido por mim e pelo Prf. Arnaldo a fazer um xixizinho atrás da igreja. chamei-o á atenção (então sr. Julio tanto puxão de orelhas e cinturadas que me deu em pequeno e agora faz o mesmo? )e bem ao seu geito respondeu «não faz mal...é para queimar estas ervas daninhas...»

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