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terça-feira, 24 de março de 2009

Olhares (Peredo dos Castelhanos)

Num momento em todos parecem tão inspirados (será da Primavera?) apeteceu-me tentar "trocadilhos" com esta fotografia tirada em Peredo dos Castelhanos. É que também há poesia no olhar, de quem fotografa, e de quem vê.

Trata-se do Alberto Mandelo, ex-emigrante, com casa logo ao cimo da aldeia, com pequena piscina e grandes horizontes vistos do seu quintal, de regresso a casa em hora crepuscular, a hora do Peredo, um inexorável entardecer da gente.
Tudo é difuso, até as duas presenças ao longe, como que desfocadas na névoa do tempo em que vai mergulhando o Peredo.
Conheci-o de novo, ao Alberto Mandelo, um mouro de trabalho numa servidão quotidiana de que se libertou, como tantos outros, rumando em direcção à França.
Mas nesta serenidade de tempo morto em que só a camisola é cor e os alforjes claridade, observe-se a coexistência da besta com o tractor, o xisto com o poste de electricidade, a janela de persianas brancas, o automóvel e a beleza crua da árvore despida à espera da Primavera (a única que se renova naquela geografia temporal).
É todo o universo da aldeia numa fotografia a que só falta o cão. O rosto olha mais para dentro do que para a parede escura. Como se não tivesse outro horizonte além dele mesmo.
Só o humano tem vida e cor nesta usura do tempo. Um tempo parado. Um tempo à espera que o tempo acabe.
É um olhar melancólico sobre a minha aldeia. Um olhar de que comungo.
Rogério Rodrigues

17 comentários:

Anónimo disse...

Boa malha!
Mais fotos + aldeias + campos.

Anónimo disse...

Tem a palavra, Pedro Castelhano.

Wanda disse...

Olá
Gostaria mesmo de ler o que Pedro Castelhano escreveria á respeito desses "olhares".
Acho que ele também descreveria sob a ótica da poesia.
No livro que tenho aqui , que adquiri em Moncorvo (Conheça Nossa Terra -Virgilio Tavares, de 1990-) vou descrever o seguinte comentário do autor sobre Peredo dos Castelhanos:
"Durante o século XIV os seus habitantes são obrigados a trabalhar na construção do muro do castelo de Moncorvo.
À 7 de maio de 1370,D.Fernando dá aos Julgados de Urros e de Peredo(entre outras terras) aos da Vila de Moncorvo, por estes se lhe queixarem de estarem diminuídos e despovoados com a criação do concelho de Vila Flor.
Porém , ao que consta , os habitantes terão abandonado o local , mas não se sabe bem os motivos.
Por volta de 1530 é de novo habitada por<< 8 famílias espanholas de Freixeneda que aforaram a Gomes Borges de Castro durante três vidas os terrenos >>.O foro(imposto de renda), inicialmente de 16.000 reis, passou a ser perpétuo por nova escritura com o senhorio, e avaliado em 1000 alqueires de trigo, 500 de cevada e 40 galinhas.
Em 2 de abril de 1640 nasce lá o P.Pascoal Ferreira, que se tornou um ilustre homem de letras com alguns livros de sua autoria
Em decreto de 30 de julho de 1861 é ali criada uma escola primária.E, por volta de 1865, teria 121 fogos "
Transcrevi o que está no livro pois pessoalmente não sei nada á respeito dessa aldeia.
Aliás o livro trás uma foto muito bonita ,com habitações bastante modernas,já em 1990 quando foi escrito.
Abraço
Wanda
São Paulo, 24 de março de 2009

Anónimo disse...

O meu antigo professor Rogério Rodrigues é do Peredo e tem muitos textos espanhados pelo blog.Ver a etiqueta ,do lado direito ,Peredo dos Castelhanos.

rogerio rodrigues disse...

Trata-se do Alberto Mandelo, ex-emigrante, com casa logo ao cimo da aldeia, com pequena piscina e grandes horizontes vistos do seu quintal, de regresso a casa em hora crepuscular, a hora do Peredo, um inexorável entardecer da gente.
Tudo é difuso, até as duas presenças ao longe, como que desfocadas na névoa do tempo em que vai mergulhando o Peredo.
Conheci-o de novo, ao Alberto Mandelo, um mouro de trabalho numa servidão quotidiana de que se libertou, como tantos outros, rumando em direcção à França.
Mas nesta serenidade de tempo morto em que só a camisola é cor e os alforjes claridade, observe-se a coexistência da besta com o tractor, o xisto com o poste de electricidade, a janela de persianas brancas, o automóvel e a beleza crua da árvore despida à espera da Primavera (a única que se renova naquela geografia temporal).
É todo o universo da aldeia numa fotografia a que só falta o cão. O rosto olha mais para dentro do que para a parede escura. Como se não tivesse outro horizonte além dele mesmo.
Só o humano tem vida e cor nesta usura do tempo. Um tempo parado. Um tempo à espera que o tempo acabe.
É um olhar melancólico sobre a minha aldeia. Um olhar de que comungo.

Anónimo disse...

CAPITULO XVI. Do Lugar do Peredo.
Tem 104 fogos e 332 pessoas de Communhão. He bem situado , dista duas leguas da Villa para a parte do Sul . O termo não he muito bom, e tem de comprimento huma legua, e de largura meia: nelle muito pouco se agriculta, e vão fazer lavouras aos termos de fora, como a Urros e Açoreira. Tem duas fontes,mas com pouca agua , principalmente no tempo de Verão.Os fructos que colhem são pão, vinho , azeite, linho, amendoas. Renda do Lugar 2:400$000.
In MEMORIAS ECONOMICAS DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS , PARA O ADIANTAMENTO DA AGRICULTURA, DAS ARTES, E DA INDUSTRIA EM PORTUGAL E SUAS CONQUISTAS. Tomo III , pág. 276-277 , Lisboa, MDCCXCI.
A nostalgia de Rogério, e também a de Pedro Castelhano lá mais atrás, que também escondem uma mal contida revolta, tem pois raízes ancestrais . Que a poesia do olhar transforma em bruma.
Daniel

Anónimo disse...

A foto estava mesmo a pedir o texto do Rogério Rodrigues.Louvável o gesto de Xo-oX de "arrancar o texto e o colocar na primeira página.

Anónimo disse...

No seguimento do pungente texto do Rogério, acrescento ainda estes excertos de escritores da nossa região, de que se recomenda leitura completa e atenta:

"Aquela gente do meu sangue nascera ali e antes deles os avós dos nossos avós, num encadeamento que estonteava por se perder em longes que eu não podia imaginar"
- RENTES DE CARVALHO, "Ernestina", Ed. Escritor, 2ª. ed. port., 2001, p.259

"Ti Ramiro, madrugou hoje! repetia sempre o Ti Bento da Eira, um dos resistentes às ordens cuspidas dos motores, montado em cima de uma besta e a outra atrás, com os tarecos da lavoura, ao que o velho Ramiro retorquia como o refrão da cantilena que o Ti Bento começara, mais um dia de jorna, Ti Bento, olhe que os campos já não merecem tanta canseira, pròs lucros que dão, mais vale deitarmo-nos a dormir. // Ó Ti Ramiro, que havemos de fazer?, outro ofício não aprendemos e antes este que andar para aí de bandoleiro, a salteador de caminhos, (...) e para a reforma ainda me faltam uns anos, que outro jeito não há senão esbugalhar os torrões a ser se cai a bagalhoça, e estas últimas palavras já tardaram a cruzar os ares até ao ouvido do velhote sentado, que não voltou a devolver o troco (...) // Ti Ramiro sachava então na vida de cada passante (...) tem umas leirinhas, uns chãozitos que dão uns saqueados de batatas, as couves prò caldo, feijões para casar com arroz ou solteiros, na rambóia com a cebola e o azeite, mas são mais as estafas, de espinha curvada, que o dinheiro que de lá tira, que se quiser mercar um quilo de carne tem de esperar pela pensão de invalidez sua e da mulher".
- VÍTOR DA ROCHA, "Na andadura do tempo", ed. ArtEscrita, 2ª. ed., 2007, p.. 149-150

Vidas que são actos de Resistência, registos literários que são, ao mesmo tempo, preito de homenagem, retrato da crueza da vida do homem da terra, do "ficante" (ou, como no caso do homem da fotografia, do "regressado"), reflexão sobre o Eu do sujeito evadido, discurso em que está implícita alguma nostalgia (mesmo quando a nega), a dualidade entre a pulsão da evasão e o ficar apegado ao chão (por não se ter aprendido outro ofício, ou por não se ter tido a coragem suficiente de se deixar o chão ancestral). E a questão do emigrante regressado, bem historiada no excelente romance "A Amante Holandesa" de Rentes de Carvalho, através da personagem o "Gato", dos Estevais.

Já que se fala em antologias, acho que se impõe o estudo do discurso literário (e dos sentimentos que encerra, e que o determina) acerca deste momento de extinção. Quando o narrador provém deste velho mundo em agonia (pois que são estes normalmente que escrevem sobre ele, já que isto é uma realidd que nada diz ao escritor "urbanóide"), mesmo quando o exconjura, talvez haja no fundo um sentimento de auto-culpabilização pelo abandono da "tribo" perdida, pela partida de todos, que levou ao desmembramento da comunidade, mais venerando asim estes últimos abencerragens que, com denodo, prosseguem vivendo o seu dia-a-dia, sem o sentimento de gesta que, a nossos olhos, na verdade realizam.
Quanto a mim, trata-se de um registo que, um dia, historiadores sociais e exegetas literários, necessariamente analisarão. Por isso, ainda bem que há esta "Literatura da Extinção" (ou escrita "in limine"), porque nos dá como que um retrato fotográfico (ainda que, quiçá, desfocado) do tempo do estertor, mas tabém porque nos dá, ao mesmo tempo, auto-retratos psicológicos notáveis dos que se conseguiram evadir da "reserva" (para mim, "reserva" de valores, entenda-se!)
n.

Anónimo disse...

Perdendo-me no arrazoado sobre a prosa (poética, diga-se!), faltou um comentário à fotografia, que o tratamento, neste caso, muito valorizou! Acho que dava um grande "poster" que qualquer transmontano gostaria de ter; com um caixilho a preceito ficaria bem em qualquer Casa de Trás-os-Montes (as embaixadas da nação transmontana), na Junta de Freguesia do Peredo, ou no salão recreativo local.
Parabéns ao Aníbal por mais esta (com convite para nova exposição, neste género!),
N.

Anónimo disse...

Não há um romance histórico passado no Peredo ?
E a 11 de Abril anda um rei Imaginário a vaguear pela terra da Amêndoa. Américo Monteiro, Manuela Costa e Beto Mesquita, apresentam-no à aldeia. O Raul Brandão não sabe ,mas pode dormir sossegado .A malta é fixe , tem Alma de Ferro e coração de xisto.
Há uma tertúlia, projecção multimédia e exposição fotográfica.
No Peredo ,sem meninos para a escola se manter aberta, há toda esta pujança!
Fica ,desde já nomeado o jornalista Rogério Rodrigues para a cobertura do evento.
Sentado numa fraga, olhando o douro, fico “on line”no nosso blog à espera de um texto do Professor Américo com mais pistas...
Saúdo-vos com um Peredo wine.
Moncorvo,sempre!

Júlia Ribeiro disse...

Nunca fui ao Peredo. Mas hei-de ir.
Depois de ver a fotografia, (perguntei a mim mesma : trata-se de uma montagem a preto e branco com a figura do homem e do burro a cores? Ou é uma única fotografia? De uma forma ou de outra, é um quadro que só um fofógrafo autêntico poderia ter feito); depois de ter lido o texto dorido do Rogério, que nos faz sentir a "Alma da Terra", decidi que tenho de ir ao Peredo dos Castelhanos. Desta aldeia só conheço - vou dizer algo tão prosaico que , de certo, destoará de tudo quanto aqui tem sido escrito sobre o Peredo - só conheço mesmo o queijo. Nunca comi outro igual. Qual da Serra, qual da Quinta daqui ou dacolá? Aquele queijo do Peredo, de cabecinha atada ... Que delícia !! Vou calar-me que já tenho água na boca.

Abraços
Júlia

Anónimo disse...

Júlia, tem que ir.
Eu, falo(louvo) do vinho, a Júlia do queijo.Que mais é preciso?
Pelas fotos do Aníbal, devia ir ao Peredo cumprir a promessa e não tocar no queijo nem no vinho.
Só à segunda volta.Entendeu!

rogerio rodrigues disse...

Li,com atenção o texto do N.. Leva-me a alguns esclarecimentos. É evidente que eu vejo o Peredo à imagem que do Peredo tenho e, sobretudo, faço. Pode não ser a real. A fotografia é "um" Peredo, não é "o" Peredo. Mas que me lembra um quadro, talvez das brumas do Norte,lá isso lembra. E quando falo do cão é porque quando vou ao Peredo ( e vou com frequência) chego a pensar que na aldeia há mais cães do que gente. As minhas raízes mais afectivas, mais profundas são com o Peredo ainda que tenha vivido muito mais tempo em Moncorvo.
Quanto aos que fogem da "tribo", eu como "menino e moço me levaram da casa dos meus pais". Fui até à China,nuna tinha visto uma cidade antes de ver Lisboa, nunca tinha visto o mar e muito menos um navio, um cargeuiro holandês que me levou até Singapura, onde conheci o velho padre Manuel Teixeira de Freixo e me meteram num barco japonês até Hong-Kong, donde me despacharam numa sampana ( sam três e pan tábuas, em chinês/cantonês). Tive dois meses de mar e alguns anos de reclusão e saudades da aldeia e da vila.
Já jovem, parti por terras de Miranda, em rigoroso Inverno até Paris e no Maio de 68 fui um soldado básico da utopia, atirando pedras ainda hoje não sei a quem ou aonde.
Este pequeno desnudar ao meu amigo N. é só para tentar que perceba, de uma vez para sempre, que eu nunca fui urbanóide nem urbano, apena um exilado permanente a quem de quando em quando dão uma precária para ir à terra. Se alguém gosta do Peredo sou eu. Todo o meu universo de referências, culturais e cívicas começou a ser construído no Peredo. E tenho dito. E peço desculpa por este desabafo. Mas do Peredo sou mesmo quando a melancolia da fotografia me afecta e os deuses áridos já me não alimentam o espírito.

Anónimo disse...

Provavelmente nem me deveria meter neste diálogo, não só pelo respeito pelas pessoas envolvidas mas também pelo pudor de comentar sentimentos que se adivinham profundos e reveladores.
Sucede porém que também eu próprio me identifico com muito do que aqui ficou dito, aliás de forma muito clara e despojada, sobretudo no que respeita aos conceitos de pertença, de partida, de resistência e de exílio do lugar.
Nem me atreveria a falar disto se não tivesse a noção de que tudo tem uma importância definitiva na explicação do nosso modo de racionalizar a relação com um universo de emoções e de memórias que talvez já não existam senão na nossa afectividade.
Fala o Nelson de um conceito de resistência num velho mundo em agonia, prosseguindo um dia-a-dia de consciente dignidade sem gesta épica de grandes arroubos - pois eu contraponho-lhe a resistência à selva urbana do individualismo feroz, da hipocrisia das atitudes, da vacuidade dos valores, do roubo descarado de identidade moral , de submissões miseráveis a que todos os dias nos submetemos nesta prisão da urbe capital. Eu contraponho-lhe todos os exílios da mediocridade, da fome, da servidão, do anonimato que o quotidiano da cidade "civilizada" nos dá.
Eu contraponho-lhe o exílio interior da solidão e da angústia, o exílio moral da mentira , da traição e da vaidade. O exílio dos sonhos acorrentados .
Entendo perfeitamente o Rogério quando se afirma sentir um exilado que procura no seu mundo interior , cristalizado em torno das suas memórias afectivas mais profundas, no seu Peredo brumoso mas de algum modo mágico e seminal , a efectiva liberdade - que é seguramente a liberdade que lhe trazem a ternura, a verdade, a por vezes bruta mas genuína verdade das suas origens .
Digo-o porque também eu o sinto .
Abraços
Daniel

n. disse...

Caro Rogério,
Antes de mais, devo dizer que apreciei bastante o apontamento auto-biográfico, à guisa de Fernão Mendes Pinto. Também isso é “Centro de Memória”, pois a grande História faz-se do somatório das histórias de vida de cada um. Quanto ao meu comentário, devo confessar que hesitei em publicá-lo não porque aí houvesse qualquer intenção acintosa em relação a quem quer que seja (leiam-no bem), mas porque já suspeitava que poderia suscitar leituras enviezadas. Assim, esclareço:

1º - O comentário refere-se a um tipo de literatura que tem surgido (volto a repetir, e ainda bem!, porque faz falta), de autores da região que, embora vivendo fora (por diversas circunstâncias da vida, normalmente a isso obrigados), e, talvez por isso, a sentem ainda mais profundamente; ou seja, é uma abordagem, na generalidade, a esta literatura a que se chamou “da extinção”, e não visa ninguém em concreto, sendo prova disso os excertos que fiz, de Rentes de Carvalho (embora este autor procure fugir ao registo saudosista e faça até um exconjuro do Passado, pela crueza com que desmonta a ideia da “aldeia mítica”, reino de Paz e Harmonia) e Vítor da Rocha (que também não mitifica “a aldeia”, embora o preocupe sobremaneira o “cerramento dos postigos”), mas a que se poderia acrescentar também A. Sá Gué, ou, até, algumas passagens (sobretudo o epílogo do recentíssimo livro de Isabel Fidalgo Mateus (da nossa Felgueiras, professora da Universidade de Liverpool), intitulado “Outros contos da montanha”; outros se poderiam acrescentar, como, de certa maneira, A. Martins Janeira, em “Esta dor de Ser Homem” (embora nesse tempo o problema da “extinção” não se colocasse) e muitos mais, à escala de Trás-os-Montes, de que saliento apenas o extraordinário livro de poesia de Jacinto de Magalhães, intitulado “Trás-os-Montes” (edições Nova Renascença, 1985), com alguns belíssimos poemas dedicados a povoações do concelho de Torre de Moncorvo, vila incluída);

2º - Não há, no dito comentário, qualquer juízo de valor sobre as opções “ficantes” ou “partintes”, independentemente das motivações de cada um, ciente que estou que a opção “partinte” é, na maioria dos casos, ditada por ausência de outras opções, a nível local/regional; o que se procura analisar é o olhar do literato (sem que esta palavra também tenha qualquer conotação negativa, certo??) sobre o seu local de origem (que, como toda a gente sabe, está em extinção, “com mais cães do que gente”, nas suas próprias palavras. Assim, em momento algum se falou “nos que fogem da tribo”. Desejo de “evasão” é uma coisa (que tem implícita a dimensão do sonho, do querer conhecer o que está para lá das montanhas, de melhorar a vida), “expatriação” e “exílio” (aqui um pouco o seu caso, como diz, no que toca à ida quase-forçada para Macau e, posteriomente, França), serão outras; “fuga”, ainda, é outra (igualmente legítima, com motivações diversas, com ou sem desejos de regressos), isto tudo, sem comentários desabonatórios relativamente a quem quer que seja, ou às opções tomadas;

3º - Quando se falou em “urbanóide”, este neologismo que costumo utilizar não é aplicado às pessoas que daqui saíram e estão na urbe, antes estes são distinguidos dos tais escritores sem referências rurais (e que, como tal, se viram para outras temáticas e outros exotismos, nomeadamente “Equatoriais”); senão releia: “Quando o narrador provém deste velho mundo em agonia (pois que são estes normalmente que escrevem sobre ele [estes quem? - Os atrás citados: V. da Rocha, Sá Gué, Isabel Fidalgo, etc., e, no “post” em apreço, Rogério Rodrigues] já que isto é uma realidade que nada diz ao escritor "urbanóide" [quem? os Miguéis Sousas Tavares, Margaridas Rebelos Pintos, Claras Pintos Correias, etc., etc., etc….] ) > vai entre parêntsis o que se subentendia no comentário em referência – portanto, não tinha que enfiar carapuças que não lhe eram destinadas;

4º - Poderia causar mais polémica a frase: “talvez haja no fundo um sentimento de auto-culpabilização pelo abandono da ‘tribo’ perdida”, isto, mais uma vez, com referência à tal literatura do fim do mundo rural (seja ela mais, menos, ou nada nostálgica, mas sempre com alguma carga dramática e o caso não é para menos!) e sem objectivar em ninguém em especial. Referia-me às motivações dessa literatura, e até acabei a congratular-me pelo facto dela existir! Porque, só com o olhar distanciado (a partir de fora) mas com as raízes e o coração aqui, seria possível escrevê-la/senti-la. Escrever/descrever esta situação de “postigos cerrados”, casas abandonadas surge, assim, como uma espécie de catarse, de obrigação moral. Refiro, a propósito, que a minha família também tem uma, numa aldeia do concelho de Mogadouro, e, quando lá vou, não deixo de ter esse vago sentimento de culpa em respeito à memória dos meus avós, que tanto trabalharam e que talvez nunca imaginassem esse ponto final na vida da casa e do “casal”… Pelo que isto não é nenhum libelo acusatório, descanse, pois se o tivéssemos de fazer, se calhar seria, quando muito, aos poderes da Lísbia que concorreram sobremaneira para a “litoralização” deste país, sendo que essa plantação à beira-mar, parece que já vem mais de trás, talvez do tempo do medo das invasões dos vizinhos castelhanos, dos sonhos dos Descobrimentos, ou de uma tendência mais geral ainda, com exemplos no resto da Europa ocidental, nos E.U.A, etc., ou seja, não pode haver libelos acusatórios contra as determinantes geográficas e as tendências da História;

5º - Reconheço que talvez não devesse ter postado o referido comentário, quiçá algo polémico, no seguimento do texto do Rogério (colocado por XooX no “post” sobre o Peredo), pois que poderia dar azo (como infelizmente parece que deu!) a qualquer tipo de pessoalização de algo que se pretendia genérico. Não foi, decididamente essa a intenção.
n.

n. disse...

Caro Daniel,
Como já referiu numa passagem anterior, a “mesa dos comentários” parece reproduzir um canto do café em ambiente de tertúlia; se assim é, é normal que surjam opiniões desencontradas (que não foi o caso!, pois na essência estamos de acordo, acho eu); o que há, por vezes, é um certo ruído de fundo (no dito café), que pode suscitar alguma confusão entre os presentes. E, tal como em tertúlia, por vezes até surgem ideias que podem ser (ou parecer) mais polémicas (e o que está aqui em discussão serão as motivações de uma literatura – aliás de excelente qualidade e que ainda bem que se impõe! – representada por uma série de autores nossos conterrâneos, em que o Rogério obviamente também se inclui). Nesse conjunto de motivações, parece-me estar, obviamente, essa dimensão do exílio em relação a um território rural de referência, que está em extinção. Mas, diz-me a experiência que não é possível dissertar sobre certas coisas na forma escrita. Por isso é melhor esperar mesmo pela mesa do café, cortinha da Guarda ou “ambiente” mais descontraído.
Sobre os exílios que refere, acho que também todos estamos de acordo (aliás é isso que nos faz até mitificar o mundo das nossas origens – e ainda bem, e este espaço serve exactamente para suprir essa função). Aliás o primeiro que começou a sentir isso mesmo, há muitos anos, quando Lisboa ainda era uma quase-aldeia, foi um urbano (que não “urbanóide”), chamado Fernando Pessoa; muito se falou do seu exílio urbano (sem que isso significasse qualquer perda em relação a qualquer mundo rural, ele que só acidentalmente foi a Sintra e se arrependeu no regresso); creio que já muitos evidenciaram esse exílio interior pessoano, pelo que, mais do que “o desconhecido de si mesmo” (Octávio Paz), ele terá sido antes um exilado de si próprio. Embora também nele se encontre esse registo nostálgico de uma aldeia que não tinha: “Oh sino da minha aldeia / dolente na tarde calma / cada tua badalada /soa dentro da minha alma…” – Talvez esse sino fosse o da sé de Lisboa e a sua aldeia fosse o bairro de Alfama… ou a baixa pombalina…
n.

Anónimo disse...

Parabéns ao Dr Aníbal pelas magníficas fotos que tirou na minha terra (Peredo dos Castelhanos). É uma aldeia pequenina mas digna de ser visitada.

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