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domingo, 22 de março de 2009

TRANSMONTANYA

DIA DA POESIA

Ontem, dia 21 de Março, foi também dia da POESIA. Parabéns a todos os nossos poetas blogueiros (Nelson, Angel, Júlia, Rogério, Daniel, Wanda, …) e não só (Maria da Assunção Carqueja, …).
De parabéns estamos igualmente todos pelo que estes nos oferecem e ofereceram outros no passado, nossos conterrâneos (Campos Monteiro, Afonso Praça, …).



TRASMONTANYA
Cumpro um ritual, uma litania.
Embrenho-me por montes, matagais,
Atravesso os vales e os ribeiros,
Percorro velhos caminhos e carreiros,
Por eles vou carpindo estes meus ais,
Trasmontânia, Pátria minha, Trasmontânia...


Terra de fadas, demónios, duendes,
Bosques de carvalhos imersos em brumas,
Musgos e líquenes donde pende o sinceno,
Como me acolhes quando o sol ameno
Transforma a neve em suaves espumas
E devolve a vida aos corações doentes...


Aquém dos últimos montes da Lusitânia
Estendem-se as serras do meu país.
Terras que a garra alheia não alcança,
São os cabeços onde espeto a minha lança,
Reino da corça, do javali, da perdiz,
Oh Transmontânia minha, Transmontânia...



H.C.
Torre de Monc., 6.03.2003






11 comentários:

Anónimo disse...

Regressado de um fim-de-semana dedicado aos "raparigos" pequenos -bolas de sabão , escorregas, procurar tocas de coelho , esgrima com canas, etc.- abro agora aqui neste belo poema de Henrique de Campos , de escrita cuidada e sedutor ambiente quase arcádico, que nos introduz uma questão já aqui aflorada e que é a da transmontaneidade , por extensão da transmontânea .
A identidade ou pertença a um lugar, ou a um grupo, ou a uma ideia é um dos primeiros princípios do Ser e , numa perspectiva estruturalista , complexa relação funcional com o circundante e o mundo.
Paradoxalmente ou talvez não( isto numa brevíssima análise) foi numa paisagem física , social e cultural de isolamento ( os montes e as suas barreiras , o rio Douro ...) que se construiu uma individualidade contida, introspectiva, sofredora, mas por tal firme sem ser rude , generosa sem ser volúvel e determinada sem ser arrogante. Este é na minha ideia o rosto do homo transmontanus .
A sua ligação à terra , ao lugar real da pertença é no transmontano quase visceral . Quando parte debate-se no dilema do retorno ao sitio que abandonou porventura para procurar uma outra vida , talvez melhor. Revive , ainda que exilado noutra parte, as suas raízes como os velhos carvalhos da serra mãe.
Num mundo em que o imediatismo é a regra e a necessidade, o transmontano volta-se para os seus montes como o refúgio salvífico, o seu recinto sagardo, o " reino da corça , da perdiz e do javali" que H.C. tão bem metaforiza .
Parabéns ao Autor e ... está aberta a discussão.
Abraços
Daniel

Anónimo disse...

Sou suspeito para falar de H. de Campos, visto que o conheço (e às vezes desconheço) de quase toda a vida. O Leonel fez-lhe a partida de lhe pespegar aqui com esse poema, um dos que integra a colectânea (inédita, como quase tudo desse autor), intitulada "Povo Antigo". Espero que ele não lhe leve a mal a partida, avesso como é a aparecimentos públicos.
Subscrevo a análise do Daniel, sendo certo que o Homo Transmontanicus se debate entre duas tensões ou pulsões: a da evasão para fora do seu rincão (como já aqui foi dito a propósito de A.M. Janeira) e de ficar agarrado ao chão genesíaco (isto varia em diferente dose, consoante os sujeitos, a pressão do meio e a idade). Mesmo que tenha em grau muito superior essa pulsão de evasão/partida/saída, quando parte é quando mais descobre o seu apego ao "locus" longínquo. Às vezes, é preciso sair para se valorizar mais o rincão.
Esse escrito de H. de Campos encontro ressonâncias de Yeats (onde há laivos de um autonomismo nacionalista: "as serras do meu país", país esse que não tem a ver com Portugal, pois que está "aquém" - note-se q é escrito no rincão - dos "últimos montes da Lusitânia", sendo certo que esta terminava na margem Sul do Douro). É a ideia da Irlanda céltica e das Highlands da Escócia, que percorrem o poema, que encontra ainda aluns ecos de Torga (daquele extraordinário poema que começa assim: "Regresso às terras de onde me roubaram /... como rijos carvalhos me acenaram, quando surgi, cansado, na distância...")
Haverá ainda qualquer coisa de Campos Monteiro, do início do poema "Em viagem" (in Versos Fora de Moda), quando se fala nos corações doentes (C.M.: "Parto para a terra. Sinto-me doente..." > H.C.: "como me acolhes quando o sol ameno /.../ e devolve a vida aos corações doentes").
Penso que não andarei muito longe do que o autor quis dizer, sobretudo conhecendo-lhe as referências e o ideário.
Julgo ainda que o poema suscita um conjunto de questões pertinentes, num tempo em que a Transmontânia, qual Titanic, se está a afundar, com a Globalização, o consumismo, a perda de valores e de referências, tudo em grande medida função do êxodo e da quebra demográfica... (é o problema de fundo das obras de Vítor da Rocha, sobretudo patente no "Postigo cerrado" e de Sá Gué). Daí que neste plano se imponha uma espécie de "obra do Resgate" (como a do capitão Barros Basto), não propriamente para uma recuperação religiosa (criptojudaica, no caso vertente), mas para "recuperação" dos valores e dos afectos relativamente ao seu rincão, por parte dos Transmontanos de uma maneira geral (residentes ou emigrados).
N.

Wanda disse...

Olá

Parabéns aos poetas do blog.
Leonel como se diz aqui "me inclua fora disso".Quem me dera ter esse dom.
Aprecio muito os poemas,e tenho lido muita poesia emocionante neste blog.
Quero deixar um poema de Mário Quintana em homenagem aos poetas.

OS POEMAS


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo como de um alçapão.
Eles não têm pouso nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

Abraço.
Wanda

P.S.
Julia te mandei um e-mail no endereço que me destes.

São Paulo, 22 de março de 2009

Júlia Ribeiro disse...

Eu vi, Wanda. Obrigada. Mas fiquei à espera do teu endereço postal, para te enviar 3 ou 4 dos meus livritos.( Os outros estão esgotados. Mas o Presidente da Câmara prometeu que talvez para o Natal possa haver uma 2ª edição.)

Temos aqui um grupinho de Blogueiros - Nelson, Leonel, Rogério, Daniel, Aníbal, Vasdoal, etc. etc. - que é do melhor que se fabrica. Moncorvo só tem a ganhar e eu também, que todos os dias me espanto e muito aprendo com eles e o seu trabalho. Também gosto imenso dos teus comentários, Wanda.

Abração
Júlia

Anónimo disse...

Hago mías las palabras de Doña Júlia sobre todas las personas que dinamizan el blog.
El trabajo de Nelson,(y se que no le gusta que lo diga), para sacarle punta a cualquier entrada,y con ello incitar a que colabore la demas gente,creo es un acierto.Ya se que le da trabajo,pero desde aquí mi agradecimiento.
Aquí se ha hablado algo sobre la salmantinidad,mas creo fue una idea no de sentimiento, si no de concepción política.
De todos modos creo que la saudade,como dicen nuestros hermanos gallegos,se acrecenta mas,cuando se vive en una gran ciudad,pues con el bullicio, no te dejan soñar.
Si nos atenemos al dicho"No se es de donde se nace,si no de donde se sueña", tenerme entre uno de los vuestros.
Un abrazo. Angel

Anónimo disse...

"Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês" [ou no écran/pantalha de um computador/ordenador, a partir de um blog qualquer...] - Obrigado Wanda, por mais este, do Mário Quintana!...
Pássaros, Poemas, Árvores e Flores são seres que vão bem com esta estação do ano (Primavera), aqui no hemisfério setentrional.
Quanto aos elogios, como bem sabe o Ángel, excluam-me desse rol, que eu poeta não sou (limito-me a "postar" por aqui algumas coisitas do H. de Campos) e de resto é uma colaboração avulsa. Mas subscrevo o que diz a Drª Júlia sobre os restantes, ela incluída (e os demais que nos animam com comentários pertinentes).
Y Gracias a Ángel, por su aportación, ciertos que su transmontaneidad es superior a su salamantinidad (que no a lo que siente por su querida tierra Charra, más cerca de nosotros, que la prolongamos, sin que el Duero nos separe).
"No se es de donde se nace,si no de donde se sueña" - con muy acierto subscribo este dicho y puedes creer que es uno de nosotros, hasta siempre!
Abrazo Amigo,
N.

Anónimo disse...

Donde se pace, que no donde se nace.
Verdad?

Anónimo disse...

El dicho es:No se es de donde se nace,si no de donde se pace.(Pero todo tiene varias interpretaciones).
Sin embrago pacer,según el D.R.A.L.E.Lo define como comer hierba los animales en el campo.Muy ecológico,pero nada poético.
Un abrazo.Angel

Anónimo disse...

Preferible de donde se sueña, que no adonde se pace - o sea, más Quijote, menos Panza!
Por eso quiero estar siempre adonde sueño y no onde más poderia pacer, por que pacer sin placer no es viver, ja que todola Vida es Sueño - lo decía Calderón - aún que sea como bollas de jabón...
Abrazo Ángel!
n.

Anónimo disse...

Esto Nelson se refiere(en casi todos los fueros castellanos fué así),a cuando un animal,vaca,caballo,etc.saltaba a la cortina de otra persona,esta tenía el derecho de retener al animal,hasta que fueran pagados todos los gastos,comida incluida que hubiera realizado.Si no fuese así el animal quedaría en poder del dueño de la cortina donde estuviera comiendo.
Un abrazo. Angel

Anónimo disse...

viva Ángel,
aqui havía un sistema semejante, pero normalmente se detenía el ganado en un espacio cerrado del pueblo, o de la villa (llamado "barrera") y el proprietário de la cabra, oveja, burro o otro, si lo queria recuperar, tenía que pagar (creo que deducindo el prejuício del quejoso. En el Arquivo Histórico de T. de Moncorvo hay libros antiguos (siglo XVII) de registro de casos de ese tipo y se llamavan "libros de Achadas" - Achado = hallazgo, por que se hallavam los animales en el monte o en otro qualquier lado.
N.

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