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terça-feira, 17 de março de 2009

Mons-Curvus


Na província de Traz os Montes, entre os rios Douro e Sabor, ergue-se em successivos e irregulares degraus a notavel serra do Roboredo. Querem alguns escriptores que os romanos, no tempo da sua dominação, a designassem pelo nome de Mons-curvus, por ser apparente a curvatura do seu dorso. Foi sobre este que elles fizeram passar a via militar que de Merida conduzia a Astorga, e cujos restos ainda se encontram na parte mais elevada d’aquelle monte. Outros porém affirmam que elles a appellidaram Roboretum, por causa da prodigiosa espessura da floresta de carvalhos que n’aquellas eras revestia as encostas da serra. Parece dar-nos ainda hoje testemunho d'esse facto a nativa pertinácia que tão robusta essência florestal oppõe á ferocidade destruidora com que a atormentam os incorregiveis e brutaes lenhadores, e a indesculpável incuria da administração municipal. Entre alguns vestígios de construcções romanas, que se encontram não muito longe d´aquella serra, vê-se n'uma das pedras de granito, com que foi construída uma antiga capella, próximo das ruinas da Villa Rica de Santa Cruz entre o rio Sabor e a ribeira da Villariça uma inscripção sepulchral com o nome de Lelia Roborina. Derivaria o nome d'esta dama romana d'aquelle com que era designada a serra? Seja como for, o nome da serra do Roboredo deve ser contemporâneo da dominação romana.
Das margens do Douro e do Sabor sobe-se por Íngremes e elevadas encostas até attingir a base do Roboredo, onde está assente em um outeiro de amplo desenvolvimento e olhando para o noroeste a antiga villa da Torre de Moncorvo. Villa notavel entre outras da mesma provincia pelas suas condições topographicas, pelas suas riquezas naturaes e pela sua patriotica historia. Cercam-a por toda a parte pomares, hortas, vinhas e principalmente olivedos, os quaes se abrigam de preferencia nos estreitos valles, formados pelas pregas da montanha entre os outeiros que gradualmente vão descendo, de uma parte para o Douro, da outra para o Sabor e para a extensa e fertil veiga da Villariça. Esta veiga, a pertença territorial mais valiosa de Moncorvo, estende-se dilatada para o norte, desde a foz do Sabor até ás abas da serra de S. Bade, que de Moncorvo se vê esbatida de azul pela distancia a que se acha. Fecham a planicie pelo noroeste e oeste as alturas de Villa Flor e as asperrimas serranias graniticas de Cabeço de Mouro, de Cabeça Boa e da Louza, que, fragosas, áridas e severas, nos limitam por aquelles lados o horisonte.
Entre a agglomeração pouco regular das casas que formam a villa de Moncorvo, quando de qualquer lado se divisa, o que sobresáe e captiva a attenção é a escura massa de granito, de que é formada a sua notavel igreja matriz. A extraordinária corpulencia d’este edificio domina e amesquinha todas as casas que a cercam. É quasi uma monstruosidade de pedra; mas o seu aspecto severo infunde respeito. A sua architectura só póde ser classificada como pertencendo ao estylo hybrido que precedeu a renascença. Segundo alguns escriptores a construcção d'esta igreja data do meiado do XIV seculo. Ha menos de cincoenta annos existiam ainda no centro da villa as ruínas de um castello, cuja edificação se aittribuia a D. Diniz, mas que fôra acrescentado ou restaurado no reinado de D. Manuel. Esse castello, cujas espessas e grossas muralhas com suas torres de granito viamos ainda na nossa juventude, já não existe: foi arrazado, e sobre os seus fundamentos encontram-se hoje os modestos edifícios que abrigam as repartições municipaes e administrativas e uma escola primaria, tendo na frente um acanhado passeio arborisado e sobranceiro á praça publica. Gosa-se d'este passeio a vistosa perspectiva da serra do Robordo em toda a sua extensão. Lá na encosta vemos o antigo convento de S. Francisco e o seu templo convertido em fabrica de sabão; mais acima as capellas de S. Bento e de S. Lourenco, alvejando no cume dos outeiros destacados da montanha; ali a ermida de Santa Thereza, entre arvores frondosas, e algumas casas brancas entre a verdura de soutos e pinhaes.
N’essas poucas matas e devezas se está vendo o vigor da vegetação com que, se houvera mais acerto e previdencia na administração municipal, se podia ter creado e mantido uma frondosa floresta para deleitar a vista, enriquecer a terra e melhorar o clima.
Foi n'outros tempos grande a importância que a villa de Moncorvo teve na organisação judicial e administrativa do paiz, sendo a cabeça da mais extensa comarca do reino. Nas antigas cortes tinha assento no decimo terceiro banco. Era rica e aristocratica; eram numerosas as famílias nobres que a habitavam; gloriosas e patrioticas as tradições com que se honrava e a que lhe davam direito os feitos e proezas dos seus moradores desde os mais remotos tempos da monarchia, e principalmente na acclamação de D. Joio I e na restauração do reino em 1640, e que mais tarde se haviam de renovar no principio d'este seculo, para cooperar heroicamente na libertação da patria contra o dominio francez.

Texto de: Júlio Máximo O. Pimentel
Foto de: Lelo Brito
Transcrição do texto: Contchi

16 comentários:

Anónimo disse...

“Querem alguns escriptores que os romanos, no tempo da sua dominação, a designassem pelo nome de Mons-curvus, por ser apparente a curvatura do seu dorso… “ > este disparatada interpretação toponímica deve ter começado no séc. XVII ou XVIII, com alguns intelectuais de salão, desconhecedores dos documentos medievais, mas prenhes de sabença latinória, a botar-se a adivinhar; é facto averiguado (basta ler as Inquirições de 1258) que o topónimo originário era “Torre de Mendo Corvo”, que evoluiu para Torre de Mem Corvo e depois para Torre de Mencorvo; à força de pensarem que seria Mos Curvos, deram em corrigir o topónimo de Mencorvo para Moncorvo, como hoje se escreve – na nossa opinião, dever-se-ia até criar um movimento restauracionista do topónimo antigo, restituindo-o em Torre de Mencorvo, pelo menos na sua penúltima versão anterior à actual (dir-me-ão: ah, e depois as enciclopédias e dicionários & etc. ficam desactualizados! – pois, e então, com o novo acordo ortográfico não vai também tudo para o lixo?? – era aproveitar agora que se vai fazer tudo de novo…) – fica a sugestão. // Quanto ao visconde de Vila Maior, não sendo ele um historiador (era um cientista), obviamente limitou-se aqui a plasmar o que vinha nos dicionários corográficos da época e mais antigos;

“vê-se n'uma das pedras de granito, com que foi construída uma antiga capella, próximo das ruinas da Villa Rica de Santa Cruz entre o rio Sabor e a ribeira da Villariça” > capela da Senhora do Roncal, hoje pertencente à Qtª. da Portela; esta capela está ameaçada de ficar no meio dos escombros do nó viário do novo traçado do IP-2, o que motivou um alerta do PARM, por esta e outras razões, aquando da consulta pública do EIA, cujo prazo terminou nos inícios do ano passado. O EIA foi chumbado, mas nada nos garante que, voltando para cima da mesa, não mantenha esta (e outras) ameaças ao nosso património;

“inscripção sepulchral com o nome de Lelia Roborina. Derivaria o nome d'esta dama romana d'aquelle com que era designada a serra?” > esta inscrição funerária está embutida na capela do Roncal; talvez seja “Reburrina” e não “Roborina” (não temos à mão a publicação mas…); porque o antroponímico “Reburros” e “Reburrinus” e, por consequência, “Reburrina”, era frequente na Península, no tempo da Romanização e, aparentemente, tal como já vimos escrito, denominava uma importante família da zona do Douro; é preciso não esquecer que “burro” não era, à época, o simpático animal orelhudo que conhecemos, mas sim uma cor: o vermelho; pelo que uma pessoa que fosse ruiva (de cabelo avermelhado), poderia ser “burra” (atenção: eu disse ruiva, não disse loira!!!), ou “reburra”; bem, os carvalhos, no Outono, também ficam de folha avermelhada… está tudo associado…. E há um outro “Reburrus” mencionado numa lápide encontrada na zona das minas de ferro e recolhida numa capela do Felgar. O que nos leva a duvidar da identificação de “Reburrus” ou “Reburrino/a” com “Roboredo” é, exactamente a diferença do prefixo: “Re” e “Ro”, sendo este claramente do substantivo “Robor”, impossível de confundir, ou transformar, na própria época da romanização, em “Re…”;

“É quasi uma monstruosidade de pedra” (visconde de V.M.) > “monstro de pedra desafiando os séculos” escreveu Campos Monteiro, certamente inspirado na expressão do Visconde;

“Segundo alguns escriptores a construcção d'esta igreja data do meiado do XIV século” > dos meiados do séc. XIV não é a actual, mas sim uma outra que terá existido no mesmo local – ver sobre este assunto: Cavalheiro, E. e Rebanda, N., A igreja matriz de Torre de Moncorvo, Ed. João Azevedo, 1998

“Esse castello, cujas espessas e grossas muralhas com suas torres de granito viamos ainda na nossa juventude, já não existe: foi arrazado,… “ > curioso notar que o visconde ainda conheceu o antigo castelo, antes do processo de demolição, que decorreu entre os ano 40 e 60 do séc. XIX; não critica a sua demolição, pois embora tivesse formação suficiente para perceber o disparate, seguramente o seu ideário liberal iria de encontro aos conceitos burgueses do que era o então deus “Progresso”, um deus que se agigantou às proporções com que hoje o conhecemos, e, como tal acontece a todos os deuses, é inquestionável…

“Lá na encosta vemos o antigo convento de S. Francisco e o seu templo convertido em fabrica de sabão” > esta fábrica de sabão pertenceu ao distinto arqueólogo nascido em Torre de Moncorvo, José Henriques Pinheiro (… -…) autor do grande estudo sobre a estrada militar romana de Braga a Astorga; note-se que a tradição do fabrico de sabão em Moncorvo vinha já dos tempos de D. Pedro II (fins do séc. XVII)

“N’essas poucas matas e devezas se está vendo o vigor da vegetação com que, se houvera mais acerto e previdencia na administração municipal, se podia ter creado e mantido uma frondosa floresta… “ > veio a ser plantada já nos inícios do séc. XX, com desenvolvimento na 1ª República, com o impulso do Dr. Constâncio de Carvalho (personagem já mencionado neste blog, por um anónimo do Felgar);

“e que mais tarde se haviam de renovar no principio d'este seculo, para cooperar heroicamente na libertação da patria contra o dominio francez” > nestes episódios da luta contra os franceses, a que se reporta o visconde, participou seu avô, João Carlos de Oliveira Pimentel, que, como capitão-mor da Vila de T. de Moncorvo, proferiu um notável discurso de apelo às massas, numa assembleia dos três estados que se realizou na praça desta vila, em 1808 e que culminou no levantamento de linhas de defesa junto da Quinta do Campo , defronte ao Pocinho (margem direita do Douro, lado de Moncorvo), com as milícias das ordenanças, organizadas pelo então capitão Claudino de Oliveira Pimentel, seu tio (mais tarde, General Claudino); o mesmo visconde descreve estes factos na biografia deste se tio, obra que deveria ser reeditada, como temos vindo a falar, nas nossas últimas conversas com o Leonel e Rogério. – Melhor contexto de oportunidade não há: completaram-se, no ano passado, 200 anos, e ainda estamos no contexto do duplo centenário da “ocupação francesa” até 2012. Nem de propósito, um jornal diário anunciava hoje a edição de 4 volumes de uma história do Porto no contexto das invasões francesas…

- Presumo que o texto do visconde de Vila Maior referente a Torre de Moncorvo, aqui postado pelo Leonel Brito (com transcrição da Conchi), esteja publicado no Douro Illustrado (1876); agradece-se confirmação. Obrigado! – E obrigado também por retirar do baú das memórias desta nobre villa, esta soberba descrição! > até porque o visconde (para os amigos, “o Júlio”), faz este ano 200 anos!!! (precisamente na véspera do 5 de Outubro!).
Abraço e, mais uma vez, desculpem a extensão do comentário…
N.

Post Scriptum: a foto é soberba!!! embora não seja do tempo do visconde (presumo que talvez já dos inícios dos anos 70 do séc. XX, não é?), é extraordinária!!! parece uma vista aérea; e o efeito de luz, no cume dos montes por detrás da vila, é de uma sensualidade notável! Uma grande fotografia, para um grande texto! A velha Torre de Mem Corvo (e não Mons Curvos), bem o merece!

Anónimo disse...

ACRESCENTO AO COMENTÁRIO ANTERIOR:
Faltou, no início do comentário anterior, este parágrafo introdutório:

Sobre o texto do Visconde de Vila Maior, de seu nome Júlio Máximo de Oliveira Pimentel (nascido em Torre de Moncorvo, no solar dos Pimentéis, junto à igreja matriz de Torre de Moncorvo, em 4.10.1809, falecido em Coimbra em 20.10.1884), cumpre-me fazer os seguintes comentários aos trechos citados entre aspas:

"Querem alguns escriptores.... etc" - ler agora o que ficou atrás.

Com as devidas desculpas pelo lapso. N.Campos

rogerio rodrigues disse...

Com efeito, sobretudo no baixo latim ( medieval/monástico) é que começou a ser utilizada a expressão burra. E aprendia-se assim a frase: "Mater tua mala burra este". Traduzindo: a tua mã come maçãs vermelhas. Est de edere e não de esse. O Nélson tem razão, tudo leva a crer.

Anónimo disse...

Viva Rogério! (mesmo em cima do acontecimento! - é de jornalista)
Pois, o meu latim não chega a tanto; tive uns rudimentos muito básicos, com o saudoso Padre Rebelo, em duas ou três aulas de Português e o resto são conhecimentos auto-didácticos.
Curioso que "edere" seja comer; também tinham o verbo "manducare" (quem não "trabuca não manduca", dizia o povo); e o "esse" que significa? "Comer" também?? Será que os germânicos o importaram (pouco provável), ou será um vocábulo similar, dada a raiz indo-europeia mais remota que terá influenciado latinos e germânicos, nos primórdios das Idades dos Metais? - É que "Essen", em alemão, é "comer" (como bem sabe a Drª Júlia Biló, pois é da sua área), com remota parecença com o "To eat" (pelo menos tb começado por "e")... de onde virá o nosso "comer" ibérico, quando em França temos o "manger", vagamente derivado do "manducare"?
- Bem, estamos a desviar-nos do Visconde... Se calhar terá de se criar um "chat" paralelo ao "blogue", cá para a "rede social" dos blogueiros. - Será tecnicamente possível? (tem a palavra o Aníbal).
Abraço,
N.

Anónimo disse...

Hola amigos.Lo primero,felicidades a Doña Julia por el éxito de la presentación del libro.
En cuanto a la designación de los lugares,pueblos etc. es verdad que los estudiosos le van siempre buscando "tres pies al gato",como decimos por aquí.
Nelson,esto va por ti,con lo cual nunca le dejan espacio a la magia.¿Donde quedan entonces los cuervos?.
Es bonito que desde el comienzo de los tiempos,haya lugar para dos historias paralelas,sin que por ello tengan que llegar a enfrentarse.
¿Por que tiene que ser,o,el Génesis o, Darwin?.¿Donde queda la magia?
Un abrazo a todos, que aunque os comente menos, sabeis que siempre estoy con vosotros.Angel

Anónimo disse...

Fui ao google para saber quem era este Júlio Maximo Oliveira Pimentel.Era visconde,reitor da Universidade de Coimbra,presidente da Cãmara de Lisboa e....
há uma escola com o nome de Visconde de Vila Maior aí na vila.
Professores/alunos digam alguma coisa do vosso/nosso visconde.

Anónimo disse...

Interessantíssimo este texto do Sr. Júlio Máximo Pimentel, Visconde de Vila Maior , que o Leonel Brito nos trouxe e mais interessantes ainda as achegas dos comentários.
Por mim ( que modestamente não me quero meter em querelas, mas que tenho alguma dificuldade em ver mercê maior do que ser em vez de povo, fidalgo )tenho apenas dois reparos a fazer às lucubrações do sr. Visconde: primeiro tem Vossa Senhoria inteira razão quando descreve a majestosa igreja matriz no esplendor do seu domínio sobre a paisagem circundante e atrevo-me a pensar que , de outra forma , a própria serra a engoliria não fora a sua pujante estatura. De resto a mão de Deus ,que fez tal serra , não permitiria que se celebrasse o Divino em espaço menos condigno. Saiba porém Vossa Senhoria que muitos desses brutos calhaus que do frontispício ao transepto conformam a massa quase monstruosa de que fala foram pagos do bolso de marranos, sem disso haver falta ou dolo.
E segundo, no que toca ao levantar de armas contra o invasor no tempo de Junot, recordo a Vossa Senhoria que foram rapaces e brutais lenhadores de que fala e bem assim muitos outros iracundos transmontanos , gente ignota da terra , que pegaram em ancinhos e nas escopetas ao brado do general de Bragança e fizeram do além Douro o seu bastião , guardando a fazenda e os brasões .
De Vossa Senhoria atentamente
Daniel de Sousa

Anónimo disse...

Para Angel:
viva, Àngel, siempre despierto sobre las novedades de este lado! bueno, sobre eso de los cuervos, hay una leyenda de que sería un pobre campesino que huviera descobierto un tesoro en la sierra de Roboredo y no lo quiso decir a su mujer, por suspechar que lo contaría a todo el mundo; y así ha inventado una historieta de una cuerva (o cuervo hembra) que ello havía visto a parir una niñada de cuervitos, lo que seria un gran milagro, pero nadie lo acreditaría, por esso ella, la mujer, no lo poderia decir a nadie; ella lo juró, si, que no! bueno, se dice que en el día seguinte lo contó a todola gente, mientras pedindo segredo!... Lo marido silenció lo del tesoro, y ha hecho una torre, pero sin nunca decir a nadie de onde le venia el dinero; eso encuanto la gente le seguia llamando Mendo (su nombre) lo del Cuervo. - Estay buen de veer que es una leyenda, un poco machista, claro, sobre la inconfidéncia de las mujeres. - Otra historia dice que sería un señor (hidalgo por supuesto) que haveria domesticado un cuervo, y, por eso, tenia ese cognomen. En ambos casos lo personagen sería el fundador mítico de la villa de Torre de Moncorvo. > Bueno, la interpretación histórica, la mía, es que Mendo Corvo es un antroponímico ("Mendo" o su abreviatura medieval en "Mem") y Corvo (=Cuervo) es un cognomen, un apodo, o una "alcunha" (como aqui se dice y como lo que hablavamos hace tiempo aqui en el blogue); y ese sería, de hecho, un señor, probablemente de la gente dos "Bragançãos", hidalgos guerreros del tiempo de la Reconquista (siglo XI y XII), que terian su base (o castillo) cerca de Braganza, y, además, tendrian otros familiares de la misma linage, en otros pazos con su torre, símbolo de señorio. Hay otros toponímicos "Torre" en tanto en Portugal como en Castilla, León, o Galícia y otras partes de la Península, según creo. Este fenomeno de señorialización tiene sido estudiado y no cabe dudas. Pero no tenemos un documento exacto con el nombre de este prócer que hay legado su nombre a nuestra terra. Lo que se sabe es que en as Inquiriciones mandadas hacer por el rey D. Afonso III de Portugal, en 1258, en el lugar de la actual Torre de Moncorvo ja existia un pueblo con el nombre de Torre de Mendo Corvo (=Cuervo) pero en dependéncia de una villa (hoy desierta y así desde los comienzos del siglo XIV) situada entre el rio Sabor y la Ribera de la Vilariça. Quando vengas por aqui te mostraré, vale?

Para o Ilmº. Sr. Dr. Daniel:
Visto que o senhor visconde se encontra, por ora, mui ocupado en seus trabalhos scientíficos, e não lhe pode responder em pessoa, sem querer ser seu advogado, nem dele ter procuração para tal, apenas lhe deixo alguns esclarecimentos sobre aquele ilustre moncorvense:
1º - que o dito senhor não nasceu visconde, embora sendo de família progressivamente nobilitada ao longo do século XVIII, não fidalgo; essa família parece ter ascendido nos cargos administrativos da villa de T. de Moncorvo (pelo menos há um escrivão de câmara com esse apelido, julgamos que nos meados do séc. XVIII); não seria de descartar também a hipótese de dinheiros do Brasil, ou de negócios internos, ou até de bons casamentos, o que nos faz suspeitar de ascendência judaica de seu avô, o verdadeiro fundador deste clã familiar: João Carlos de Oliveira Pimentel. O seu dinamismo, como empresário "avant la lettre" (seria fastidioso estar agora aqui a enumerar algumas iniciativas comprovatórias desse espírito empreendedor), levam a suspeitar disso mesmo. De onde se depreende que, talvez os antepassados mais ancestrais do senhor visconde, a serem moncorvenses, terão desembolsado também para a dita cuja igreja;
2º - que o título de visconde lhe foi dado à guisa de compensação por notório desempenho político e autárquico na Câmara Municipal de Lisboa(como alguém aqui já notou), cargo que exerceu entre 1858 e 1860,distinguindo-se na tomada de medidas profilácticas de um qualquer surto pestífero, como o que viria a vitimar o malogrado rei D. Pedro V; claro que se entrou também em linha de consideração com todo o seu passado liberal, com participação no batalhão académico e consequentes guerras liberais, e toda uma carreira académica e científica brilhante. Por isso, perdoe-me V. Senhoria, mas era mais que merecido o título, face a tantos outros, que nem de perto nem de longe tiveram a valia do senhor Doutor Julio Máximo!, nem, tanto como ele contribuíram para o desenvolvimento científico e social do reino. Poderia ter declinado o título, como fez o seu contemporâneo A. Herculano? pois decerto, mas quantos o fizeram? Veja-se, por exemplo, o pavão do Garret!... Bem, em todo o caso, julgamos que o terá tentado, ao comunicar ao rei (ou conselho de nobreza - se é que a havia, nesse tempo em que se dizia: "Foge cão que te faço barão!!"... - "para onde? se me fazem visconde!!", respondia o cão) dizia, terá tentado transferir essa honra para seu pai, Luís Cláudio de Oliveira Pimentel, por considerar que era muito mais merecedor que ele, visto que servira a causa liberal de forma mais denodada, chegando a pôr dinheiro de seu bolso (como o seu avô, na altura das invasões francesas) e chegando a estar preso na Relação do Porto, sob o reinado miguelista; em resultado dessa exposição, o rei (D. Pedro V), aceitou transferir o título para o seu pai, Luís Cláudio, passando este a ser o 1º visconde, mas não abdicou da ideia de homenagear o filho, Doutor Júlio Máximo, como 2º visconde, que, perante a cedência do rei, naturalmente não lhe quis fazer desfeita. Lembro apenas a V. Senhoria que este rei foi o único dos Braganças que o seu e nosso conterrâneo trasmontano, Guerra Junqueiro, poupou na sua cruenta sátira intitulada "Pátria". D. Pedro, o amigo das Letras, que subia a calçada da Ajuda para visitar o seu amigo Herculano; D. Pedro, o jovem que dizia "tenho pressa de ser útil", ansiando por lhe atribuírem responsabilidades e tarefas em prol da grey; D. Pedro, o amigo dos enfermos que visitava os hospitais e neles terá contraído a doença que o vitimou precocemente ("morre jovem o que os deuses amam", como diria Pessoa); não, a este não se poderia dizer que não... espero que absolva, neste particular, o seu/nosso conterrâneo, Júlio Máximo;
3º - sobre os lenhadores que desvastavam o coberto vegetal da serra, pois saiba que esse era um problema antigo, e um amigo da família, o dr. José António de Sá, pouco antes de 1790, quando foi corregedor da comarca, exarou uma das primeiras leis ambientalistas destes reinos, mandando reflorestar o cabeço da Mua, e proibindo aos fabricantes da telha e da louça do Felgar, que cortassem daí pinhos, enquanto estes não adquirissem uma certa altura; mais: tomou medidas para proteger as matas do Roborêdo; a própria câmara tinha um livro de coimas, desde muito tempo antes, relativamente a isso. É claro que o povo precisava de lenha, para o aquecimento e para a cozinha. Com certeza que o senhor doutor Júlio Máximo, compreensivo que era das necessidades do povo, não iria contra isso; mas o que era preciso era um plano de ordenamento da mata, coisa que só aconteceria no primeiro quartel do séc. XX;
4º - Quanto ao combate contra os franceses, pois saiba vossa mercê que o senhor doutor Júlio só nasceu no ano seguinte ao do pronunciamento de Torre de Moncorvo, e que foi o senhor seu avô um dos obreiros desse levantamento, secundando, quase de imediato, o tal general de Bragança, de que fala; e que tanto seu pai e seu tio, capitão Claudino (mais tarde general) estiveram no levantamento das trincheiras que ainda hoje se reconhecem na Quinta do Campo (conhece?), e aí teriam ainda trocado tiros com alguns franceses do temível Loison, cujos batedores, conhecedores das dificuldades que teriam de vencer esse obstáculo (os defensores,em que estavam os ditos senhores, foram buscar duas peças de artilharia ao castelo de Bragança, que com muito custo lhas cederam, e as transportaram por mais de 20 léguas, por caminhos íngremes e tortuosos, até ao dito sítio da quinta do Campo de Almaçae); mais: o avô do senhor doutor Júlio, o capitão-mor João Carlos O. Pimentel, pôs bastos cabedais de seu bolso aquando das guerras com os franceses, e chegou a carregar víveres da Vilariça nos seus barcos rabelos, enviando-os Douro abaixo, para abastecimento do Porto, aí enviando também armas. Tudo isto poderá encontrar na grandiosa obra do senhor Abade de Baçal, as Memórias Archeológico-históricas do districto de Bragança, talvez no tomo referente aos Notáveis, ou aos Fidalgos. Que, em rigor da verdade, estes senhores não eram, senão de fresca data, já que a sua progénese viria de uma certa burguesia, talvez oriundos, julgamos nós, de "gente da nação".
SE dúvidas ainda couberem a vossa senhoria, sobre o valimento do nosso cidadão Júlio Máximo, pois pergunte ao nosso illustre amigo e realizador de películas de animatographo, Leonel Brito, que agora se está especializando na obra do doutor Júlio e até já o trata por "tu".
De V. Exª. atentamente, com os protestos de elevada consideração e estima, um seu creado,
N.

Anónimo disse...

ADENDA:
No meu escripto anterior, em resposta ao distincto Dr. Daniel de Sousa, na passagem que diz:
"...teriam ainda trocado tiros com alguns franceses do temível Loison, cujos batedores, conhecedores das dificuldades que teriam de vencer esse obstáculo",

deveria ler-se o seguinte:
" ...cujos batedores, conhecedores das dificuldades que teriam de vencer esse obstáculo, terão comunicado a situação a Loison (o Maneta), o que o terá levado a dirigir a marcha para Lamego e Régua, onde atravessou o Douro, para logo recuar, perante o ataque que sofreu ao tentar atravessar os contrafortes do Marão"

Acrescentaremos apenas que foi nessa retirada estratégica para o quartel-general estacionado em Almeida, que Loison perpretou as maiores atrocidades, de onde resultou a famosa expressão: "ir para o maneta" - utilizada num título de um interessante ensaio de autoria de Vasco Pulido Valente, editado há cerca de 1 ano.
N.

Anónimo disse...

Doutor Sousa amigo, o povo está consigo!
A luta continua, o Visconde para a rua!
rapaces e brutais lenhadores iracundos transmontanos , gente ignota da terra
UNI-VOS !
A vilariça a quem a trabalha!
pegaram em ancinhos e nas escopetas e... foices(fouces)chuços
e martelos...pegaram em
mão, o que tinham mais ao pé...

Anónimo disse...

(...) fixemos hum pouco os olhos sobre a Torre de Moncorvo.
Na extremidade mais oriental desta província, hum pouco a baixo de Zamora, o Douro, descendo pe¬io reino de Leão, vem tocar o ter¬reno de Portugal, e banhando os muros da cidade de Miranda, toma a direcção de nordeste a sudoeste até o confluente do Agueda , defronte do castello d'Alva, formando sem¬pre a divisão dos dois reinos. Aqui se entranha em terras de Portugal, tomando o caminho do noroeste, e forma huma curva, que se aproxi¬ma a hum angulo recto, recebendo successivamente da parte do norte as aguas do Sabor, do Tua, e de ou¬tros rios, que offerecem por toda a parte, principalmente o Douro , margens escarpadas de difficilissimo accesso, e correntes precipitadas, que só dão passagem em algumas barcas. He dentro desta curva, e por entre estes rios, que se estende a comarca da Torre de Moncorvo, paiz muito fertil, e agradavel no interior, e valado no exterior com estas fortes trincheiras, que a natureza lhe concedeo: a cabeça da comarca está situa¬da muito perto da fós do Sabor.
Na verdade os seus habitantes não forão dos primeiros em soltar os vi¬vas da acclamação; mas o que per¬derão em tempo, elles o ganhárão, na combinação, e acerto das suas providencias, no estabelecimento da sua junta, que principiou por acau-telar abusos, que as outras nunca pudérão evitar. Preparou-se a revolu¬ção nos dias 17, e 18 de junho, apprehendendo-se as barcas do Douro desde a fós do Agueda até ao do Sabor, para se evitar a passagem dos Francezes d'Almeida, se tentassem algum repentino ingresso no paiz- Na barca de Alva houve huna pequena
opposição, que facilmente venceo hum Capitão de ordenanças á frente de 6o caçadores, mandando passar o rio a dois resolutos nadadores, que na margem opposta a forão aprehender, e metter no fundo. A 19 ficou çonsummada a revolução, pela sancçáo de hum numeroso congresso da câmara, clero, nobreza, e povo. Seguírão-se immediatamente as de¬monstrações públicas do prazer geral, e disposições para o armamento do povo; taes quaes permittiâo as circumstancias de huma terra, onde os meios eráo muito limitados.
A 24 se congregárão, as ordenanças, para hum alarde geral; e nesta occasião o Capitão mór aggregado, João Carlos de Olivein Pimentel, recitou, por ordem da camara, huma proclamação patriotica, que in¬citava os póvos a tomarem as armas em defeza do Soberano, e da pa¬tria, lembrando-lhes, além dos motivos geraes, outros particulares áquel]a villa, deduzidos de antigos feitos, praticados pelos seus habitantes, especialmente nas épocas d'El-Rei D. João I., e d'El-Rei D. João IV.

in História Geral das Invasões Francesas, Tomo III, de José Acúrsio das Neves.

Recolha de Leonel Brito.

Daniel de Sousa disse...

Glória e louvor ao Sr.João Carlos de Oliveira Pimentel , capitão-mor agregado , que por ordem da câmara fez tal exortação patriótica .
Por ordem da câmara.

Anónimo disse...

Moncorvo vila pequena
Terra de muita saudade
A câmara é quem mais ordena
Dentro de ti ó cidade

by, Lelia Roborina.
inspirada no comentário de Daniel de Sousa

Leonel Brito disse...

d'este systema político todos os que haviam concorrido para a revolução de 1820, e que se haviam conservado fieis aos seus principios, e ainda mais os que se haviam distinguido na manutençãoe defeza do governo constitucional. Era então natural que contra elles se arvorasse uma campanha de perseguições e vinganças. A prudência dos homens, de que el-rei então se cercou para constituir o governo, e a sua natural benignidade, evitaram, até. um certo ponto, as exagerações que tanto se receiavam. Os homens mais notáveis da revolução, pela exaltação das suas ideai, liberaes ou pelos serviços prestados em defeza do governo constitucional, foram demittidos dos empregos que occupavam; expatriados alguns, outros deportados ou removidos para terras afastadas. Claudino Pimentel, havendo-se tornado tão notável pela sua adhesão aos principios liberaes e pelos serviços prestados na campanha de Traz os Montes, não podia ficar esque¬cido na applicação d'essas punições. Foi logo exonerado do governo d',aquella província, e, chamado á capital, foi deportado para a ilha do Faial; executando-se esta medida com tanta precipitação, que foi obrigado a em¬barcar, deixando em terra a sua bagagem.
Deu esta circumstancia logar a um incidente curioso que não quero deixar no esquecimento. A bagagem que ficára em Lisboa confiada a um amigo, para a fazer seguir para a ilha do Faial, foi por este embarcada em um navio que teve a infelicidade de cair presa de um dos muitos corsários americanos do Rio da Prata que ainda infestavam os nossos mares. O capitão d'esse corsario tinha em Montevideo recebido, por qualquer motivo, favor de Claudino, aquém se julgava obrigado, e vêndo o nome d'este nas malas capturadas, e infor-informando-se do destino com que iam. mandou-as, ao passar em frente da Horta, entregar ao destinatário com um bilhete, contendo esta simples phrase «É bom ter amigos até no inferno».

In Memorial Biographico de um Militar Ilustre
O GENERAL CLAUCINO PIMENTEL, por Julio Maximo de Oliveira Pimentel, Visconde de Villa Maior

(Digitalizado de uma cópia do baú de fotocópias do Nelson)

Júlia Ribeiro disse...

Ih, o que por aqui vai! Tanta sabedoria! E eu que não sabia nada disto. É uma vergonha tal ignorância sobre a minha terra. Vá, queridíssimos blogueiros Nelson, Daniel e Leonel, digam mais coisas para eu abrir os olhos de espanto , ficar de boca aberta e...(se não entrar mosca) aprender. Para mais, que é
aprender sem custo e sem ter de investigar, porque estes rapazes fizeram o trabalho todo. Todinho!

Obrigada,
Júlia

Anónimo disse...

"d'este systema político todos os que haviam concorrido para a revolução de 1820 (...) Era então natural que contra elles se arvorasse uma campanha de perseguições e vinganças" > é preciso não esquecer que Claudino de Oliveira Pimentel, nesse período revolucionário de pós-1820, antes de D. Miguel ter vindo a ocupar o trono, liderou uma série de perseguições aos chamados "realistas" ou absolutistas, mesmo em Trás-os-Montes, salteando e queimando casas de alguns fidalgos e homens do Ancien Régime, na comarca de Moncorvo, bem perto, por exemplo de Lagoaça para cima. Pelo que não é de espantar que, após a tomada de poder pelos miguelistas o tivessem aprisionado na Relação do Porto, em cujo cárcere viria a morrer, segundo se disse, vítima de maus tratos.
Independentemente desses epsódios politicos, dizem alguns contemporâneos (encontrámos, inclusive, esse informação em sites brasileiros insuspeitos) que o general Claudino tinha um certo mau feitio e uma grande avidez de "panache", o que o teria a cometer certos erros na campanha de La Plata e Montevideu (onde terá conhecido o tal corsário). Por isso, haverá que ter algum cuidado no panegírico que dele possa traçar o seu sobrinho, visconde de Vila Maior, na biografia que o Leonel citou.
Em todo o caso, é mais uma figura de prestígio da História de Moncorvo (com nome na praça de igreja matriz) que, como conterrâneos, devemos saudar e respeitar.

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