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segunda-feira, 2 de março de 2009

O Roboredo e a paisagem circundante, pelos olhos de Campos Monteiro

Deixámos, há dias, o escritor Campos Monteiro, sem apetite, à hora do jantar, depois da sua chegada a casa, na Rua da Misericórdia, segundo nos relata na primeira das suas cartas em verso (ver post de 25.02.2009). Estes poemas em forma de carta foram escritos em Torre de Moncorvo, pelos inícios do século XX (não se sabe a data com rigor, pois o próprio autor, na edição original, escreveu em rodapé: “Moncorvo, primavera de 19…”).



Vista da serra do Roborêdo, a partir do "Castelo".


As referidas poesias, sob o título “Cartas da Minha Terra” (dedicadas a Heitor de Figueiredo), estão incluídas na colectânea Versos Fora de Moda, obra datada de 1915. Portanto, dado o esquecimento da data precisa por parte do autor, é natural que se tivesse passado um bom par de anos entre a sua escrita e a compilação no dito livro.
A primeira carta-poema aqui transcrita, tinha por título, como vimos, “Em viagem”, relatando o trajecto entre a estação do Pocinho e a sua morada, no bairro do Castelo.
A segunda, parece relatar o dia seguinte à sua chegada, e intitula-se: “II – O Roboredo”. É uma saudação à serra que o viu nascer e à paisagem envolvente. Dada a sua extensão, tal como fizemos anteriormente, vamos apresentar apenas partes do poema, para não maçar os nossos visitantes.

Aqui fica:

II – O Roboredo.

Levantei-me da cama muito cedo
E, sentindo a alegria de viver,
Fui abrir as janelas em segredo,
Para cumprimentar o Roboredo,
Um velho amigo, que me viu nascer.

Da varanda que dá para a montanha,
Com um gesto amigável, saudei-o.
Que linda serra, de beleza estranha!
Que pena que ela seja assim tamanha
E t’a não possa eu mandar pelo correio!...

Não sei de mais formoso anfiteatro
Nem de mais calmo, doce e cândido vergel.
É o panorama que eu mais idolatro.
Lembra o pano de fundo d’um teatro
No terceiro acto do “Guilherme Tell”.

Calcula: Ao fundo, as vinhas verdejantes,
Vetustos olivais e amendoeiras esguias.
Depois, florestas de árvores gigantes,
E, de onde em onde, as manchas rutilantes
De estevas, urzes, arreçãs, peonias…

Tudo isto tão polícromo e tão vivo,
N’uma tão justa orquestração de côr,
Que a mim mesmo pergunto, Heitor(1), porque motivo
Na linda vila de onde sou nativo
Nunca nasceu um único pintor!

(continua)

Nota 1 – o destinatário desta carta é o seu amigo Heitor de Figueiredo, também poeta, a quem dedica este capítulo das cartas.

11 comentários:

Anónimo disse...

Excelente esta ideia de nos trazer aqui mais um pouco do "nosso" Campos Monteiro.
A serra do Roboredo aliás está presente noutros momentos da sua obra literária e recordo nos Ares da
Minha Serra o momento em que o Caramês é levado preso pela Guarda através da praça e Rua do Cano acima até à estação " no seu deslumbrante traje verde que a Primavera lhe emprestara (...) um verde muito claro diluído em aguarela sem refulgências metálicas , como uma enorme peça de pelúcia estendida a todo o comprimento da montanha" e depois toda a descrição da mata de Sta. Teresa e da " chapada fragosa" até ao mar sem fim das cores dos pampilhos, das papoilas, pas peónias e das arreçãs, , evocação que muito curiosamente aqui aparece também neste poema.
De facto a merecer um pintor.
A serra é uma presença emocionalmente profunda para muitos de nós, com o seu recorte enigmático e um cromatismo arrebatador, para não falar da magia dos sonhos e das histórias que nos foi possível conservar .
E ainda dos seus insondáveis segredos .
Daniel

Anónimo disse...

Em tempo:
a propósito de pintores e do património pictórico da região de Moncorvo aqui deixo um repto que é o de o inventariar e divulgar junto do público . Nunca será de mais. Estou aliás a lembrar-me do notável trabalho já feito p. ex. pelo Cte. Eugénio Cavalheiro e outros como o Dr. Nelson sobre os frescos da Quinta da Sra. da Teixeira e que nem eu imaginava e vim a descobrir num trabalho monográfico do Prof. Vítor Serrão sobre o maneirismo no Nordeste transmontano.
Às vezes pecamos por excesso de modéstia, mas isso deve ser defeito dos transmontanos!
Abraços
Daniel

Anónimo disse...

Há outro roteiro no post de segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009,
"Moncorvo, Zona Quente em Terra Fria "

Anónimo disse...

Graças à dica deste sagaz Anónimo ( a quem agradeço muito) voltei atrás - no blog e no tempo . E mais não digo porque não tenho voz que se me embargou.
Descobri que há realmente um roteiro magnífico feito de gente, gente que perdura por esses lugares onde viveram as suas vidas que agora se cruzam com a minha memória . De muitos não me lembro bem, mas para todos eles, quer estejam ainda connosco ou não, e também àqueles que aqui os evocaram, aqui vai o meu grande abraço.
Daniel

Júlia Ribeiro disse...

Há, sim. Já fui ver. É um óptimo roteiro da Rua do Cano (Rua Visconde de Vila Maior).
O relojoeiro do rés-do-chão da casa em que vivia o meu pai, era o Sr. Manuel Relojoeiro. Nunca lhe soube outro nome.

Venham mais roteiros de ruas e suas gentes.

Foi uma excelente ideia do Nelson começar a postar (é mesmo uma palavra feiosa) poemas de Campos Monteiro sobre Moncorvo e paisagens à sua volta.

Abraços blogueiros
Júlia

N. disse...

Mais uma vez, agradeço a generosidade das apreciações do Daniel e Júlia (perdoem-me a omissão dos títulos, e da m/ parte tb não é preciso, pq senão caímos naquilo que já aqui se criticou, sobre o tempo dos "dótores" - "só sábios éramos sete", parafraseando um certo personagem que, intencionalmente ou não, estava a usar uma tirada que remontava aos tempos de Roma).
Sobre o Roboredo, pois vejo que o Daniel tem aí os "Ares" sempre à mão (uma forma de ter por perto a aragem da sua serra, quiçá uma suave brisa de frescos aromas, para contrariar os ares da urbe ou antídoto para as nostalgias suscitadas cá pelo blogue?) - Gostei da caracterização que faz desta nossa serra, pois ela é um verdadeiro magneto!... quando também andei "exilado" por outras urbes, volta e meia dava comigo com o nariz apontado cá para cima, como se fosse uma agulha de bússola e eu acho que talvez fosse do magnetismo da serra (o ferro é muito magnético, como se sabe...). Naturalmente por isso, ela, a serra, captou a atenção dos seus poetas, tanto de um Campos Monteiro como do embaixador Janeira, que a levava no bolso sob a forma de três pedras; a ela trepava também o poeta Rogério Rodrigues, na sua juventude, para desafiar "o fóssil", nome (pouco) carinhoso que dava à vila postada cá nas faldas; "monstro adormecido" lhe chamou um outro nosso amigo poeta, também peredano, o Gil T.; e, até mesmo o grande Torga, na sequência de uma das suas deambulações venatórias pela região, se lhe referiu: "Pus-me a procurar no dicionário da memória uma palavra onde pudesse caber a serra do Roboredo, onde calcorreei o dia inteiro..." (Miguel Torga, Diário X). E conclui, depois de muito cogitar que essa palavra "era Roboredo mesmo!!" (idem, ibidem).
Já agora, aproveito para deixar bem claro que a ortografia correcta (e não me venham com mais "Acordos"!!!) é Roboredo e não "Reboredo", como às vezes aparece escrito. É assim, com "o", que aparece nos antigos livros da Câmara (so século XVII, manuscritos) alusivos à "mata do Roboredo"; e a razão é simples: o nome da Serra vem do latim: "Robor" = carvalho, tal como em castelhano se chama ainda hoje "roble" a esta árvore; ora, temos aqui uma das maiores manchas do chamado "carvalho branco", o "quercus pyrenaica" (autóctone), o que, antes da introdução dos pinheiros, copressos e afins, seria o revestimento natural da serra, juntamente com os famosos medronheiros de que também fala Campos Monteiro, e mata atlântica (acima de certa altitude) com matos mediterrânicos pela base. Como se explicam topónimos como Carvalhosa (zona das minas), ou Carvalhalhosinha, ou Carvalhal? - Para os romanos, muitos "Robor" (ou "roborea"?, não sei latim) seria um "Roboredo", como noutros locais há Robledos. - E como diria o H.E.Jr: "entenderam?"

- Quanto à ausência de pintor, especificamente da serra e das nossas paisagens, é uma omissão realmente lamentável. Temos um único pintor, reconhecido no mundo das artes, Dario Alves, natural de Maçores, mas que não sendo um pintor naturalista obviamente terá passao ao lado das nossas paisagens. É possível que alguns trabalhos, mesmo "fora de época" ou de "menor valia artística" no conceito dos críticos, possam existir por aí (em Moncorvo, ou fora daqui) pelas paredes de muitas casas particulares, obras feitas com amor e carinho; seria interessante, de facto, descobri-las! Como há pessoas que actualmente estão a dedicar-se a este tipo de paisagismo local, mesmo aqui no concelho (têm-se promovido exposições dos seus trabalhos no Museu do Ferro). Destaco, por exemplo, algumas paisagens urbanas bastante bem conseguidas, de autoria da Arqtª Ana Rodrigues, ou as paisagens impressivas do Douro, de Rosalina Cardoso (trabalhos que reputo de excelente qualidade). Falta, um grande quadro da serra, de facto, mas com dedicação e inspiração, creio que ele há-de surgir!

- Para os apreciadores de Campos Monteiro (de que continuarei a transcrever, mal possa, estes "poemas moncorvenses"), recomendo um pequeno livro do meu prezado amigo António M. Pimenta de Castro, professor na Escola Secundária de Torre de Moncorvo, intitulado: "A face limiana de Campos Monteiro", sobre a juventude do poeta em Ponte de Lima, para onde foi estudar, a cargo de um tio paterno, que, como ele diria, foi o seu segundo pai (acresce dizer que o autor deste estudo é de Ponte de Lima, pelo qe sabe do que fala);
- informo também que o mais recente (e quiçá mais completo) estudo sobre Campos Monteiro resultou numa tese de Mestrado defendida recentemente (Dezº. de 2008) pelo mocorvense José Eduardo Firmino Ricardo, professor licenciado em Linguas e Literaturas Modernas, intitulada: "Domus mea est orbis meus: Campos Monteiro (1876-1933), apresentada à UTAD - tivemos informação de que o autor já ofereceu um exemplar da sua tese à bilbioteca municipal de Torre de Moncorvo, onde poderá ser consultada. Desde já aqui ficam os meus parabéns ao nosso conterrâneo pelo seu trabalho, pelo grau académico conquistado e pela disponibilização da sua tese ao público, mesmo antes da respectiva publicação.
N.

Wanda disse...

Olá!
"Da varanda que dá para a montanha,
Com um gesto amigável, saudei-o.
Que linda serra, de beleza estranha!
Que pena que ela seja assim tamanha
E t’a não possa eu mandar pelo correio!..."
Impossível mesmo que se a enviasse pelo correio, mas as fotos são possíveis nesta época.
E tenho visto fotos maravilhosas dessa região.Agradeço por todas as fotos postadas.
Talvez a força e a bravura dessa gente venha exatamente da serra, quiçá por isso Janeira carregasse um pedaço dela consigo.
A todos ,um abraço brasileiro!
Wanda
São Paulo, 4 de março de 2009

Anónimo disse...

Os comentários do Nelson trazem sempre alguma e útil luz sobre coisas cujo significado nos escapa, como essa questão da etimologia de Roboredo. E não só. Muitas vezes a leitura emocional dos lugares e das situações, incluindo as da nossa terra, passa por uma aproximação cultural que as coloque num plano inteligível.Pequenos sinais , ou indícios ,ou até ideias que as recaracterizem . E que as retirem muitas vezes do esquecimento.
A memória regional, quer dos sítios, quer da paisagem humana, quer da própria orografia , é a base da identidade colectiva .
O descobrir um sinal de canteiro na pedra do castelo, ou uma calçada medieval, ou um poço, ou um instrumento de ferro, ou um pedaço de muralha é tão importante como ressurgir uma rua inteira onde morou e mora gente, ou como fazer reviver um texto que nos fale de algo de real que ainda podemos alcançar e ver com os próprios olhos.
O património não é um conceito estéril - é uma questão de sobrevivência .
Daniel

Anónimo disse...

A emoção que me causou o saber pelo Nelson que as tecedeiras de Urros já não existem mais motivou-me este pequeno poema que , se me desculparem , aqui vos envio, como homenagem especial e respeitosa à Mãe de Afonso Praça que sei ter sido tecedeira no Felgar e a todas as magníficas tecedeiras da nossa região.

tece o tear a trama do tecido
da manta do manto do teu pranto
tecido e véu de bruma
névoa e encanto bate e lança
a lançadeira e tece e retece
a dor que arrefece
lento e vazio por fim
acontece
nos teus dedos tece a dor que não esquece
vai e vem numa noite sem fim
fuso e pente do teu tear
farrapo e dança
vai e vem
aquece o meu sonho
durmo no teu peito
tecedeira
mãe

Daniel

Júlia Ribeiro disse...

Tem razão, Daniel. Os comentários do Nelson trazem sempre um valor acrescentado.
Sobre a grafia 'Roboredo' e 'Reboredo' , sem dúvida que a primeira tem toda a razão de ser. Mas na pronúncia popular local soa 'Reboredo' . Daí que haja quem pense que é mesmo assim que deve dizer-se e escrever-se.
O meu pai referia ainda um outro factor para que seja ´Roboredo' : os Romanos teriam achado que a cor daqueles montes era avermelhada , em latim "rubore" . ( Não posso afirmar que tal esteja cientificamente provado. Mas é uma conjectura razoável e linguisticamente não repugna ).
Seria mais uma razão para a grafia ROBOREDO.
Júlia

Anónimo disse...

Clap! clap! clap!... bravo Daniel!! - eu já tinha proposto que tivesse "canal aberto" aqui no blog, porque acho que essa poesia merecia estar na "montra". É um poema soberbo que evoca bem o ritmo do tear! E é de que conhece bem o engenho e a arte da tecelagem, nomeando as componentes técnicas (como a lançadeira, fuso e pente), a que, permita-me a sugestão, só faltou acrescentar os liços, jogando com o andar na liça... É comovente a evocação final da tecedeira-mãe, que tanto poderia ser a de um filho de Urros, como a de um do Felgar, como Afonso Praça. Julgo que ele iria adorar esse poema, bem digno da referida fotografia.
Quanto à arte da tecelagem, deixo-lhe uma boa informação: apesar de os teares se terem silenciado em Urros, antes disso acontecer, há anos, houve uns cursos de formação que decorreram na Quinta Branca (Larinho), de forma a aproveitar-se também a lã das ovelhas churras; algumas senhoras que aprenderam a arte estão ainda a trabalhar na referida quinta, onde (assumo a publicidade, pois temos que divulgar o que de bom temos) há um posto de venda de artigos aí tecidos, além dos excelentes queijos "terrinhchos", compotas e outros "produtos da terra". Além destes teares, construídos segundo o modelo dos de Urros e utilizando as mesmas técnicas e padrões, há um outro na vila, na rua Dr. Margarido (atrás do Jardim Muncicipal), onde se pode ver trabalhar ao vivo, em certos dias. Assim, embora esta arte tenha praticamente terminado em Urros (urge conservar os teares que ainda aí restam, talvez criando um núcleo museológico no centro cultural de Urros/sede da associação local, onde se poderiam reunir vários exemplares dessa actividade, como as célebres mantas e tapetes de Urros), pode ser visitada ao vivo nos locais indicados, com possibilidade de aquição de produtos - para estimular as artesãs e evitar que isto acabe!
- Quanto à Drª Júlia, descontando o "valor acrescentado", sempre lhe direi que essa outra asserção de que lhe falava seu pai também já havia sido sugerida por corógrafos talvez do séc. XIX; no Catálogo do Museu do Ferro são consideradas as duas hipóteses (eu vou mais pela anterior, embora o Dr. Jorge Custódio vá mais por essa do "Rubor" do minério); creio que é uma leitura algo forçada, pois de outro modo dir-se-ia Ruboredo... Além disso, não acredito que a serra estivesse "pelada" de qualquer tipo de vegetação, nesses tempos longínquos da Romanização, a pontos de se lhe poder notar o tom avermelhado da terra, apenas notório na sua metade mais oriental. Mas não quero "ateimar". Ficam as duas hipóteses a pairar, sendo certo que "Reboredo" há-se ser, seguramente, corruptela popular. - A propósito, há por aí quem ainda se lembre da velha pensão Roboredo, na rua Constantino Rei dos Floristas? (estava lá escrito na parede, ainda há poucos anos, numa inscrição talvez da 1ª metade do séc. XX - e bem escrito, com O). Ora cá está mais uma rua a pedir Roteiro!
N.

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