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sábado, 28 de março de 2009

Haverá uma literatura transmontana?

Desculpem insistir, mas como provavelmente vou estar algum tempo sem escrever (preparo-me para uma semana em Moncorvo onde vou mais para conviver e aprender do que escrever) publico este texto, lido e debatido na última feira do livro de Lisboa em que fomos convidados pela direcção da Feira para falar sobre literatura transmontana: o Bento da Cruz, o Amadeu Ferreira, o Vitor Barros, o Ernesto Rodrigues e eu. Foi um debate muito interessante, com a tenda/auditório repleto. Não defendi nenhuma tese. Apenas levantei algumas questões. Aqui vão elas:

"Cultura e literatura transmontanas

É complicado falar ou escrever sobre cultura e literatura transmontanas, como se fossem dois espaços distintos de uma realidade nacional. Além disso, tirando os particularismos, ora revivalistas ora acentuadamente regionalistas, só no campo da subjectividade é que poderemos reflectir sobre a magna questão, para nós, transmontanos: há ou não há uma cultura e literatura transmontanas?
Por muito que gere debate, é minha convicção de que não há uma literatura transmontana. Quanto à cultura lá iremos, em tempo próprio. Quanto muito, há uma temática regionalista (com expressão diferente, por exemplo, entre o Barroso e a Terra Quente), sobretudo em termos linguísticos, mas abrangente às Beiras interiores e às faldas do Minho, contíguo a Trás-os-Montes, a Aquilino e a um Camilo. As literaturas exigem uma língua própria e, mesmo aqui, o conceito é discutível. Começa a haver uma literatura mirandesa, porque tem língua própria, mas a sua temática e o espaço onde mergulha, não é diferente do universo dos escritores transmontanos de língua portuguesa. Mas sobre esta questão o Amadeu Ferreira poderá falar muito melhor do que eu. Regressando à língua: há uma literatura americana escrita em inglês como há uma literatura belga escrita em francês. Este facto poderia contradizer a minha afirmação, não fora que países, geografias e culturas diferentes assumem e funcionam em universos diferentes.
A temática regionalista pode ter uma dimensão nacional e internacional. No caso mais recente vemos A.M.Pires Cabral; no mais paradigmático, Miguel Torga. Mas lá iremos. O que existe são escritores, oriundos de Trás-os-Montes e Alto Douro que, não sendo esta posição porventura pacífica, são os divulgadores e investigadores de literatura assente numa dita cultura transmontana, seja ela passada, seja presente.

Até à década de 70, Trás-os-Montes era um espaço distante, um sítio onde se nasce mas de que nunca se sai, mesmo quando regressamos. Era um universo fechado. Falar a um citadino de Trás-os-Montes era como se falássemos de algo longínquo e inacessível. No princípio da década de 80 havia ainda o hábito de, na véspera do Natal, proporcionar alguns dias extra àqueles que tinham que ir à terra, uma expressão comum que deu o título a um livro do Modesto Navarro, para aqueles que não nasceram em Lisboa. Aproveitando dessa benesse, o meu amigo Vítor Bandarra, hoje na TVI e então no “Portugal Hoje”, pediu ao director do jornal para ir à terra. Concedido o pedido, no dia seguinte o Vítor passou pelo jornal. E o director perguntou-lhe: ‘Então não foste à terra?’ E ele respondeu: ‘Já fui e vim’. É que morava em Sintra.
Isto significa o quê?
O espaço geográfico era determinante, pelo isolamento que provocava e pela identidade cultural que se sedimentava, à falta de outros horizontes e alternativas. Uma identidade cheia de equívocos, por vezes, mas assente numa forte tradição oral e num conservadorismo de valores (vivia-se então, ainda numa economia comunitária, já cheia de brechas pelo fenómeno da emigração), cujo rigor iria marcar as nossas vidas, quando soltos ou presas aparentemente fáceis, no aglomerado urbano, volúvel e com outros conceitos bem mais flexíveis que os nossos.
O nosso sotaque sendo motivo de alguma troça, mas sobretudo de suspeitas e invejas mal contidas, foi-se perdendo com a normalização linguística dos media, uma normalização pela simplificação e poupança vocabular, num português standard e pobre, asséptico, sem sotaque, tendo como padrão não se sabe que normas linguísticas ou fonéticas.
Por outro lado, deixamos de ser um sítio longínquo, povoado de agressividade e violência (uma metáfora fácil para o forasteiro), mas também de pundonor, para nos transformarmos numa espécie de reserva de índios ou laboratório antropológico, com a explosão das auto-estradas e outras vias de comunicação. O que nos pareceu um recomeço de chegada, transformou-se no reinício de partida.
Não estou de modo algum a contestar os benefícios; estou apenas a constatar factos que diminuíram e continuam a adulterar os alicerces de uma eventual cultura transmontana, se é que ela existe, a não ser na perturbação e afirmação oral e nos restos, ruínas e destroços de civilizações que por aqui passaram e nos marcaram.

Quando me convidaram para este debate, não me impuseram nem sequer sugeriram que fosse idólatra.
Falemos então de literatura de escritores transmontanos. Em primeiro lugar, ainda que seja escassa a geografia transmontana da sua obra (muito embora nos reconheçamos no seu linguajar, mas também nos podemos reconhecer em Aquilino) temos Camilo, tão imitado e tão mal imitado, por escritores transmontanos. “O Santo e a Montanha” é um seu romance que acaba e começa em Moncorvo (na Serra do Roboredo), passando por Vila Flor, Braga e a Madeira. “A Queda de um Anjo”, relata a história de um morgado de Caçarelhos (Miranda do Douro) que é eleito para deputado e, depois de considerar Lisboa como Sodoma e Gomorra, se deixa levar pelos seus encantos e se apaixona por uma brasileira a quem monta casa. O romance, publicado em 1865, continua de uma actualidade extrema, seja para deputados transmontanos, seja para outros deputados.

Não temos, em quantidade, grandes escritores transmontanos, como, aliás, não temos grandes escritores portugueses, em qualidade. Escritores que ultrapassem a região, as bibliotecas municipais, os patrocínios regionais e uma glória efémera e muito localizada.
Sabendo que, porventura, vou pecar por injustiça (mas não de acinte) ou por omissão (mas não propositada), gostaria de sublinhar a existência e a permanência de Miguel Torga, Pires Cabral e Bento da Cruz entre os reconhecidos; Miguel Torga na sua universalidade, Pires Cabral porque conseguiu reconhecimento nacional, Bento da Cruz porque tem feito uma obra injustificadamente esquecida, um filho do Barroso alérgico ao marketing e que, exceptuando o “Hiram e Belkiss” (um espaço simbólico na construção do Templo de Salomão ou na construção do nosso próprio templo interior), tem erigido as terras do Barroso, a um espaço universal da luta do homem com as fronteiras, sejam as suas, sejam as da geografia imposta. Entre os esquecidos, vale salientar e recordar esse grande prosador, o homem que escreveu com tolerância e bonomia sobre a vulnerabilidade e corrupção dos corpos dos sofridos durienses, o médico João semana, João Araújo Correia.
Nesta onda memorialista não podemos deixar de lembra um escritor transmontano como Campos Monteiro, prolífero, autor de revistas e dramalhões, com sucesso garantido na época (lembrando alguns sucessos de hoje), urbano, com temática de classe média ou burguesia portuense, mas que escreveu, já no fim da vida, duas novelas, com acção e trágica acção na sua terra, Torre de Moncorvo. Dono de uma prosa camiliana, nascido em Trás-os-Montes, a sua temática (à excepção do livro citado), é perfeitamente urbana.
Temos também outros autores que, de origem transmontana, ultrapassam os limites da região.
Estou a lembrar-me de Eduardo Guerra Carneiro, de Chaves, um dos grandes poetas portugueses, mas sem proximidade temática, à sua terra (ao contrário do seu pai que escreveu os “Poemas Transmontanos”), embora se assumisse transmontano por inteiro.
Ainda a velhice não chegara, quando, por vontade própria, se despediu da vida.
Estou a lembrar-me do Vasco, o cartoonista que, ainda hoje, refugiado em Fontanelas, ausente há mais de 40 anos de Vila Real, mantém intacto o sotaque da “bila”. Os seus cartoons, de consagração internacional, não retratam nem lembram Trás-os-Montes. E, no entanto, continua transmontano.
Estou a lembrar-me do meu amigo Afonso Praça, também amigo de muito boa gente que aqui está. Escreveu dois livros (tirando as gastronomias com Maria de Lurdes Modesto e as receitas afrodisíacas, ilustradas por Francisco Simões), em que Trás-os-Montes é a presença e a saudade da ausência: “O Coronel morreu de Sentido” (novela cuja acção decorre, em pleno PREC, na sua aldeia, Felgar, concelho de Moncorvo) e “Um pouco de Ternura e Nada Mais” ( crónicas sobre Trás-os-Montes visto do Campo Pequeno).
Prolífero, mas com uma visão mais redutora da realidade transmontana, confinada a enredos assentes em lutas de classe e um certo neo-realismo já ultrapassado, temos a obra de Modesto Navarro, obra que se estende também ao Alentejo e mergulha mesmo no policial, sob o pseudónimo de Artur Cortez.
Por último, alguma literatura de Francisco José Viegas, natural do Pocinho, em que o Douro está presente. Mas a sua geografia narrativa é mais diversificada, ultrapassando os limites de Trás-os-Montes e as suas particularidades linguísticas.
Não falo de Ernesto Rodrigues. Ele está aqui presente e, melhor do que eu, falará sobre este tema e vários subtemas que lhe vêm agarrados.
Por último não quero deixar de sublinhar a utilidade ( não sei se a importância) de obras como a de Vitor Barros, sobre os transmontanismos ou de Barroso da Fonte sobre os transmontanos que ele considera (ou se consideram) ilustres.
Não podemos esquecer nestas andanças da memória, traiçoeira, por vezes, selectiva noutras, a existência de Trindade Coelho, Rentes de Carvalho e António Cabral. De Trindade Coelho, de quem se recorda este ano o centenário do seu suicídio, ficou-nos a marca do cidadão, mas também do homem bom e do animal bom, patente em “Os Meus Amores” e que um melhor conhecimento da criatura viria a dar ao escritor do Mogadouro o desencanto que o levou ao trágico passamento na Rua da Misericórdia. Rentes de Carvalho é outro caso curioso, nascido em Gaia, a sua memória mergulha em Trás-os-Montes ( Estebais do Mogadouro) com tal intensidade que ninguém acreditará que vive há mais de 40 anos na Holanda. Registem-se como sinais das férias da sua infância e da sua aprendizagem transmontana, “Montedor” (o primeiro romance), “O Rebate” e, por último “Ernestina” e “Coca” com pertinência autobiográfica.
Por fim, António Cabral, recentemente falecido, um poeta do Douro (Castedo de Alijó), com algumas peças de teatro e, sobretudo, um rigoroso prospector da cultura popular transmontana.

Uma palavra final sobre três vultos incontornáveis da cultura ( expressão em moda, mas que me saiu, pelo que peço desculpa por este pecado jornalístico-urbanófilo), nados e criados em Trás-os-Montes: Raul Rego, Paulo Quintela e Abade Baçal.
Um, na recolha de memórias etnográficas do Nordeste transmontano, num trabalho de sísifo de meio século; outro, na tradução, ainda hoje inexcedível, de Holderlin, Rilke, Brecht, entre outros poetas alemães, e na criação de um verdadeiro teatro de autores clássicos portugueses, em Coimbra; outro, pela sua intervenção política, pela sua importância no jornalismo de oposição e na investigação da Inquisição em Portugal e na divulgação do processo de Damião de Góis.
Estas três figuras honram a cultura portuguesa, como transmontanos.
E acabo esta charla que já vai longa, com a pergunta a que não respondi e que reconheço tenho dificuldade em responder: haverá uma cultura transmontana?
Haverá uma cultura transmontana com a televisão a uniformizar os gostos, os valores, os hábitos e os gestos?
Haverá uma cultura transmontana com aculturação dos emigrantes naifs e com expressões kich na imitação ( seja na arquitectura, seja nos comportamentos) dos países em que trabalham?
Haverá uma cultura transmontana quando os seus últimos transmissores morrem ou vão morrendo em lares?
Haverá uma cultura transmontana, quando somos cada vez menos, para a assimilar, perpetuar e transmitir?
Falando em cultura transmontana: Não é sábio o que muito sabe, mas o que continua a aprender.
E quem nos ensina?
Disse.

Rogério Rodrigues

3 comentários:

Anónimo disse...

Começando pelo fim deste magnífico texto ponho-me na posição de aprendiz ( que sempre fui e sou na minha irrequietude intelectual) e manifesto o muito que com ele aprendi. Não sou de modo nenhum um especialista de literatura - sou quando muito um consumidor egoísta pelo prazer que me dá a leitura - e como tal colhi diversas reflexões das quais algumas guardarei para mim.
Todavia algumas outras gostava de compartilhar convosco.
E começando de novo pelo fim do texto , no qual as perguntas valem por conclusões, é manifesto que existe hoje uma enorme mudança social e que a realidade de um interior isolado e esquecido tem contornos diferentes. Não significa que o isolamento tenha deixado de existir - ele existe no abandono da propriedade, na velhice, na aculturação , na indiferença, no esquecimento pelo poder quantas vezes por demais centralizador. É talvez uma forma nova e talvez mais perversa de isolamento - o isolamento da extinção. Comum a outros espaços de Norte ao Sul onde os regionalismos ressurgem travestidos de folclores e festas sazonais para uso do chamado turista acidental.
Sendo a literatura , a meu ver, uma emanação da sociedade , não admira que ela se torne tendencialmente cada vez menos regionalista. Os próprios regionalismos literários são muitas vezes pouco legíveis, quase iniciáticos .
Acresce ainda o percurso pessoal do escritor o qual introduz muitas vezes na sua obra a experiência que a vida lhe permitiu colher e não radica nas suas origens.
Eu penso em suma que uma obra não precisa de ser referencial ou regionalista para ser universalista, mas também se o for pode muito bem ter dimensão universal.Ou, dito de outro modo, o que lhe confere universalismo é a qualidade.Qualidade, dimensão humanista, inovação, proselitismo.
Daniel de Sousa

Wanda disse...

Olá ,
Entendo que cultura é o conjunto de manifestações artísticas, sociais, lingüísticas e comportamentais de um povo ou civilização. Portanto, fazem parte da cultura de um povo as seguintes atividades e manifestações: música, teatro, rituais religiosos, língua falada e escrita, mitos, hábitos alimentares, danças, arquitetura, invenções, pensamentos, formas de organização social, etc.
Portanto concluo:há uma cultura transmontana sim, por tudo que eu tenho visto divulgado neste blog.
É lógico que sempre se inovará, todo folclore é assim e foi assim através dos tempos, porque vão se adequando a época.
Não se poderia acender uma fogueira na área de serviço de um apartamento como se fazia antes nos quintais!
Quanto à literatura,acredito que mesmo com mudanças elas continuarão nas histórias e comentários passados de pai para filho.
Não posso opinar muito sobre literatura transmontana , pois além de Campos Monteiro, mais nada conheço sobre ela ,mas sei que estará acessível perpetuamente, tornando-se história.
Foi sempre assim:quem reconhece nos Lusíadas os mesmos mares de agora?A poesia lírica de Shakespeare ,apresenta o mesmo cenário que apresentaria hoje?Como são os moinhos de vento que Don Quixote enfrentava?Ainda existem?
Muitas coisas se perderam no tempo desde o inicio das civilizações.Todos queremos ser imortais e viver no mesmo cenário, mas ,tudo muda.
Como dizia " o poetinha " Vinicius de Moraes ...."Que seja infinito enquanto dure"
E então? Falem mais, divulguem mais, escrevam mais!
O que se passou não se muda, mas o futuro está em branco, escrevam-se as páginas!
Abraço
Wanda
São Paulo,29 de março de 2009

Xo_oX disse...

A minha cultura literária é muito limitada para opinar sobre esta questão, acrescento apenas o seguinte: houve uma certa altura, no desenvolvimento do Blogue "À Descoberta de Vila Flor" que comecei a ler alguns escritos de autores "da terra". Quis a sorte que me calhasse um que me prendeu de imediato. Procurei livros de outros autores e fiquei fascinado. Lembro que estou a falar de autores com raízes em Vila Flor, mas como o tema é literatura tansmontana, aqui ficam alguns nomes que tenho "Descoberto": Cabral Adão, Cristiano de Morais, João de Sá, Manuel M. Escovar Triggo e Modesto Navarro (que é citado no texto). Em todos eles há traços comuns que atraíram a minha atenção e a mantiveram. Será a literatura transmontana? É possível. É pelo menos uma forma de sentir, de amar as pessoas e as coisas em que me revejo.

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